     NOTA:

     Este livro foi digitalizado por Vera Lcia Figueiredo, para uso exclusivo de deficientes visuais, de acordo com as leis de direitos autorais.

     Novembro de 2004

     ****

A SAGA DOS FOXWORTH

O JARDIM DOS ESQUECIDOS

V. C. ANDREWS

Francisco Alves

        No sto esto escondidos quatro segredos - segredinhos louros, bonitos, inocentes e que lutam para sobreviver.
        Os quatro filhos da famlia Dollanganger levavam vidas perfeitas - uma bela me, um pai amoroso e dedicado, uma linda casa. De repente, o pai morre num desastre
automobilstico e a me fica endividada e no possui qualificaes para ganhar a vida e sustentar a famlia. Assim, decide escrever aos parentes - seus parentes
milionrios, dos quais as crianas nunca tinham ouvido falar.
        A me lhes fala dos avs ricos, de como Chris, Cathy e os gmeos levaro vidas de prncipes e princesas na luxuosa manso dos avs. As crianas deleitam-se 
com as perspectivas da nova vida, at descobrirem que existem algumas coisas que a me nunca lhes contou.
        Nunca lhes contou que eram consideradas pelos avs como "produtos do demnio" e que jamais deviam ter nascido. Nunca lhes contou que era obrigada a ocult-las 
do av porque desejava herdar a fortuna dele. Nunca lhes contou que deveriam permanecer trancadas numa isolada ala da casa, tendo apenas o sto escuro e abafado 
onde brincar.
        Prometeu-lhes, porm, que seriam s poucos dias...
        Contudo, os dias se transformaram em
meses, os meses em anos.
        Desesperadamente isolados, aterrorizados de medo da av, Chris e Cathy tornam-se tudo um para o outro e para os gmeos. Agarram-se ao amor mtuo como ltima 
esperana, nica fora slida - uma fora quase mais poderosa que a morte.
        O Jardim dos Esquecidos  um romance
de terror, traio e salvao atravs do amor. De grande fora narrativa e maravilhosa imaginao, V.C. Andrews oferece ao leitor uma viso da vontade e adaptabilidade 
de crianas envolvidas numa situao bastante bizarra.
        O Jardim dos Esquecidos ficou mais de
14 meses na lista de best sellers nos Estados Unidos e j vendeu mais de 2.000.000 de exemplares. Ele faz parte da trilogia - A Saga dos
Foxworth.
        V.C. Andrews era pintora profissional at comear a escrever O Jardim dos Esquecidos, seu primeiro
romance. Reside em companhia da me, na Virgnia.

V. C. Andrews

O Jardim dos Esquecidos

Traduo de Luis Horcio da Matta

LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S. A.

Copyright (c) 1979 by Virginia Andrews
Ttulo Original: Flowers in the Attic
Capa: Jader Marques Filho
Reviso: Luiz Augusto Pires Mesquita

Impresso no Brasil
Printed in Brazil

1980

Desenho da 4 capa: Cathy Carucci.

Ballerina, poema lrico de Bob Russell, msica de Carl Sigman. Editores,
TRO - The Cromwell Music, Inc. & Harrison Music. (ASCAP).
Reimpresso com permisso.

ESTE LIVRO
 DEDICADO  MINHA ME.

Todos os direitos desta traduo reservados  LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S. A.
Rua Sete de Setembro, 177 - Centro
20.050 - Rio de Janeiro, RJ

PRIMEIRA PARTE

     "Porventura dir o barro ao oleiro: O que fazes?"
Isaas, 45:9

#2
Prlogo

         muito adequado colorir a esperana de amarelo, como o sol que to pouco vemos. Quando comeo a copiar as anotaes dos dirios que guardei por to longo
tempo, um ttulo me vem  mente, como uma inspirao:
"Abra a Janela e Fique ao Sol". No obstante, hesito em d-lo  nossa histria, pois costumo pensar em ns como se fssemos flores no sto. Flores de papel, nascidas
com um colorido to brilhante e desbotando com o decorrer de todos aqueles longos dias sombrios, sinistros, de pesadelo, em que fomos prisioneiros da esperana,
mantidos em cativeiro pela cobia. Todavia, jamais
colorimos de amarelo uma de nossas flores de papel.
        Charles Dickens freqentemente iniciava seus romances com o nascimento do protagonista e, como era um de meus autores prediletos, assim como tambm de Chris,
gostaria de imit-lo - se pudesse. Todavia, Dickens era um gnio; nasceu para escrever com facilidade, enquanto para mim  penoso
escrever cada palavra, porquanto as escrevo com lgrimas, sangue amargo, bile azeda, misturados com vergonha e remorso. Julguei que jamais me sentiria envergonhada
ou culpada, que tais cargas s pesassem sobre ombros alheios. Passaram-se anos e hoje estou mais velha, mais sbia e resignada. A tempestade de raiva que outrora
me rugia no ntimo amainou, de modo que posso escrever - ao menos assim espero - com mais verdade e menos dio e preconceito do que seria o caso alguns anos atrs.
     Portanto,  semelhana de Dickens, ocultar-me-ei nessa obra de "fico" sob um pseudnimo, viverei em lugares fictcios e pedirei a Deus que as pessoas que
merecem sofram ao lerem o que tenho a dizer. Certamente Deus, em sua infinita misericrdia, far com que algum editor compreensivo transforme minhas palavras num
livro e me auxiliar a manipular o punhal que espero empunhar.

#3
Adeus, Papai

        Em verdade, na dcada de 50, quando ainda era muito jovem, eu acreditava que minha vida inteira seria um longo e perfeito dia ensolarado de vero. Afinal, 
foi assim que comeou. No existe muito que eu possa dizer a respeito de nossa infncia, seno que foi muito boa e, por isso, deveria sentir-me eternamente grata. 
No ramos ricos nem pobres. Se nos faltava algo necessrio, jamais percebi; se tnhamos luxo, tambm no me dava conta disso sem comparar o que tnhamos com o
que tinham os outros; e, no bairro residencial de classe mdia onde morvamos, ningum tinha mais nem menos do que ns. Em outras palavras, simples e concisas, ramos 
apenas
crianas comuns, como quaisquer outras.
        Nosso pai era o homem de relaes pblicas de uma grande fbrica de computadores localizada em Gladstone, na Pensilvnia, uma cidade com 12.602 habitantes. 
Era um homem muito bem-sucedido, pois seu patro freqentemente vinha jantar conosco e elogiava o trabalho que papai parecia desempenhar to bem.
        - O que dobra todo mundo  essa cara to tipicamente americana, sincera, bonita, somada s suas maneiras encantadoras. Por Deus, Chris, que pessoa sensata 
conseguiria resistir a um sujeito como voc?
        Eu concordava entusiasticamente. Nosso pai era perfeito. Tinha um metro e oitenta e cinco de altura, pesava quase noventa quilos, com bastos cabelos louros
e ondulados; seus olhos, de um azul cerleo, cintilavam de riso, do seu grande entusiasmo pela vida e por divertir-se. Tinha um nariz reto, perfeito, nem comprido,
nem estreito ou largo demais. Jogava tnis e golfe como 
um profissional; nadava tanto que se mantinha bronzeado o ano inteiro. Estava sempre viajando de avio, a negcios, para a Califrnia, Flrida, Arizona, Hava ou 
mesmo para o exterior, enquanto permanecamos em casa aos cuidados de nossa me.
        Quando ele entrava pela porta da frente no final das tardes de sexta-feira - todas as sextas-feiras (declarava-se incapaz de ficar longe de ns por mais 
de cinco dias seguidos) - o sol brilhava quando sorria largamente para ns, cheio de felicidade, mesmo que estivesse chovendo ou nevando.
        Sua sonora saudao ecoava to logo ele largava no cho a mala e a pasta:
        - Se vocs me amam, venham receber-me com beijos!
        Meu irmo e eu nos escondamos em algum lugar perto da porta e, depois que papai pronunciava a saudao ritual, saamos correndo detrs da poltrona ou do 
sof, e nos atirvamos naqueles braos abertos que nos envolviam de imediato, apertando-nos, enquanto nos aquecia os lbios com seus beijos. Sextas-feiras - eram 
os melhores dias da semana, pois traziam papai de volta
para ns. Ele carregava nos bolsos pequenos presentes para ns; na mala, vinham os maiores, a serem distribudos depois que ele saudasse nossa me, que
#4
se mantinha um pouco afastada e esperava pacientemente at que ele terminasse de nos abraar.
        Depois de tirarmos os pequenos presentes dos bolsos de papai, Christopher e eu recuvamos, a fim de observarmos mame avanar lentamente, com os lbios abertos
num sorriso de boas-vindas que provocava fascas nos olhos de nosso pai. Este a
tomava nos braos, fitando-lhe o rosto como se no a visse h pelo menos um ano.
        s sextas-feiras, mame passava metade do dia no salo de beleza, lavando e penteando o cabelo, fazendo as unhas e, ao voltar para casa, tomava um demorado 
banho de imerso com sais perfumados. Eu me aninhava em seu 
quarto de vestir e aguardava que ela sasse do banheiro envolta num neglig transparente. Sentava-se  penteadeira e aplicava cuidadosamente a maquilagem. E eu, 
to ansiosa por aprender, bebia avidamente com o olhar tudo o que ela fazia para transformar-se de uma mulher simplesmente bonita numa criatura de to estonteante 
beleza que chegava a parecer irreal. O mais espantoso naquilo tudo era papai pensar que ela no usava maquilagem! Acreditava
que a devastadora beleza de mame fosse natural.
        Amor era uma palavra usada e abusada em nossa casa:
        - Voc me ama?... Porque eu amo voc de verdade... Sentiu falta de mim?... Teve saudades?... Est feliz por ter-me de volta?... Pensou em mim enquanto estive 
fora? Todas as noites? Ficou rolando na cama, querendo que eu estivesse a seu lado para abra-la? Se no fosse assim, Corrine, eu preferiria morrer...
        Mame sabia exatamente como responder a tais perguntas: com os olhos, com suaves murmrios, com beijos.
        Um dia, Christopher e eu chegamos da escola correndo, com o vento de inverno praticamente nos empurrando para dentro de casa.
        - Tirem as botas no vestbulo - disse mame da sala de visitas, onde estava sentada diante da lareira, tricotando uma pequena suter que caberia numa boneca. 
Eu pensava que a suter fosse presente de Natal para mim, a fim de vestir uma de minhas bonecas.
        - E tirem tambm os sapatos antes de entrarem aqui - acrescentou.
        Tiramos as botas e os pesados casacos com capuz no vestbulo. Depois, calando apenas meias, corremos para a sala forrada com um espesso tapete branco. Na 
maior parte do tempo, ramos proibidos de entrar naquela sala decorada em tons pastis para realar a beleza loura de nossa me. Era a nossa
sala de cerimnia, a sala de mame, e nunca nos sentamos realmente  vontade no sof de brocado damasco ou nas poltronas de veludo cotel. Preferamos a sala de 
papai, com as paredes forradas de lambris escuros e o robusto sof em grosso tecido escocs, onde podamos brincar e lutar sem preocupao de estragar alguma coisa.
        - L fora est um gelo, mame! - exclamei sem flego, estirando-me aos ps dela e estendendo as pernas na direo do fogo. - Mas a volta para casa de bicicleta 
foi linda. Todas as rvores esto cobertas de cristais de gelo em 
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forma de diamantes, e os arbustos, de prismas de gelo. L fora parece um pas de fadas, mame. Por nada desse mundo eu moraria no sul, onde nunca neva!
        - Christopher no falou no tempo nem na beleza do panorama gelado. Era dois anos e meio mais velho que eu e muito mais sbio; hoje, eu sei. Aqueceu os ps 
gelados, como eu, mas fitou o rosto de mame e juntou as sobrancelhas escuras, a testa franzida de preocupao.
        Tambm olhei para ela, imaginando o que ele vira para ficar to preocupado. Mame tricotava com rapidez e habilidade, lanando olhares ocasionais s instrues 
do modelo.
        - Mame, voc est passando bem? - indagou Chris.
        - Sim,  claro - respondeu ela com um sorriso suave e carinhoso.
        - Parece cansada.
        Ela deixou de lado o minsculo suter.
        - Hoje, fui ao mdico - declarou, debruando-se para acariciar o rosto
rosado e frio de Christopher.
        - Mame! - exclamou ele, alarmado. - Est doente?
        Ela riu baixinho, passando os dedos compridos e esguios pelos cabelos louros e encaracolados de meu irmo.
        - Ora, no me venha com essa, Christopher Dollanganger. Tenho percebido voc olhar para mim com a cabea cheia de idias desconfiadas.
        Em seguida, pegou a mo de meu irmo e a minha, colocando-as sobre seu ventre avolumado.
        - Sentem alguma coisa? - perguntou, com aquela expresso misteriosa e feliz voltando-lhe ao rosto.
        Christopher retirou bruscamente a mo, com o rosto muito vermelho, mas eu deixei a minha onde estava, esperando, tentando adivinhar.
        - O que voc sente, Cathy?
        Sob minha mo, por debaixo das roupas de mame, algo estranho acontecia. Leves movimentos faziam-lhe estremecer a carne. Ergui a cabea e olhei para o rosto 
dela; at hoje me lembro de como parecia to bela, como uma madona de Rafael.
        - Mame, seu almoo est andando a dentro, ou voc est com gases.
        O riso provocou fascas em seus olhos azuis e ela me pediu que tentasse
outro palpite.
        Depois, num tom suave e cheio de preocupao, revelou-nos a novidade:
        - Meus queridos, vou ter um beb no incio de maio. Na verdade, quando fui ao mdico hoje, ele declarou ter escutado dois coraes baterem. Portanto, isso
significa que terei gmeos... ou, Deus me livre, trigmeos. Nem mesmo seu pai sabe disso, de modo que no lhe digam nada at eu ter uma oportunidade de contar a
ele.
        Perplexa, lancei um olhar a Christopher para ver como ele estava reagindo. Parecia divertido e ainda embaraado. Fitei novamente o belo rosto de mame, iluminado 
pelo fogo da lareira. Ento, levantei-me de um salto e corri para o meu quarto!
#6
        Atirei-me de bruos na cama e chorei, de verdade! Bebs - mais dois! Eu era o beb! No queria ver bebs chores chegarem para roubar-me o lugar! Solucei 
e esmurrei o travesseiro, desejando machucar algo, seno algum. Ento, sentei-me na cama e pensei em fugir de casa. 
        Algum bateu de leve na porta fechada e trancada.
        - Cathy - disse minha me. - Posso entrar para conversar com voc sobre o assunto?
        - V embora! - berrei. - J odeio seus bebs!
        Sim, eu sabia o que me estava reservado: a filha do meio, para quem os pais no ligam. Eu seria esquecida. No haveria mais presentes s sextas-feiras. Papai 
s pensaria em mame, em Christopher, e naqueles detestveis bebs que me roubariam o lugar.

        Meu pai veio procurar-me naquela noite, logo aps voltar para casa. Eu destrancara a porta, para a eventualidade de ele querer falar comigo. Lancei-lhe um 
olhar de esguelha, porquanto o amava muito, Papai parecia triste e trazia uma grande caixa embrulhada em papel de presente, com um enorme lao de fita de cetim cor-de-rosa.
        - Como vai a minha Cathy? - perguntou suavemente quando o espiei por debaixo do brao. - No correu para me receber quando cheguei em casa. No disse al; 
nem mesmo olhou para mim. Cathy, eu sofro quando voc no corre para me abraar e me beijar.
        No respondi, mas girei o corpo na cama e encarei ferozmente meu pai. No sabia ele que eu deveria continuar sendo a filha predileta a vida inteira? Por 
que ele e mame tinham mandado buscar mais filhos? Dois j no eram suficientes?
        Ele suspirou, sentando-se na beirada da cama.
        - Sabe de uma coisa?  a primeira vez na vida que voc me olhou assim, com tanta raiva.  a primeira sexta-feira em que no correu para me receber com abraos 
e beijos. Talvez voc no acredite, mas s comeo a viver quando volto para casa nos fins de semana.
        Petulante, recusei-me a ser conquistada. Ele j no precisava mais de mim. J tinha o filho e, agora, um monte de bebs chores por chegar a qualquer momento. 
Eu ficaria esquecida entre a multido.
        - Sabe outra coisa - prosseguiu ele, observando-me com ateno. - Eu talvez fosse bastante tolo para imaginar que, se eu chegasse em casa
s sextas-feiras
e no trouxesse um presentinho para voc e seu irmo... ainda assim vocs correriam como loucos para dar-me boas-vindas. Eu acreditava que vocs amavam a mim e no
aos presentes. Julguei, erradamente, ser um bom pai que, de algum modo, conquistara o amor dos filhos e que vocs sabiam que sempre existir no meu corao uma enorme 
fatia reservada para vocs, mesmo que eu e sua me tenhamos uma dzia de filhos.
        Fez uma pausa, suspirou, e seus olhos azuis ficaram sombrios.
        - Pensei que a minha Cathy soubesse que continua sendo sempre a minha garota especial, porque foi a primeira.
#7
        Lancei-lhe um olhar raivoso e magoado. Ento, exclamei com um n na garganta:
        - Mas se mame tiver outra menina voc dir o mesmo a ela!
        - Direi?
        - Sim - solucei, com um cime dilacerante que me fazia capaz de gritar. - Poder at gostar mais dela do que gosta de mim, porque ser pequeninha e engraadinha!
        - Posso am-la tanto quanto amo voc, mas no mais do que a amo - replicou ele, estendendo os braos fortes. No consegui resistir por mais tempo. Joguei-me 
naqueles braos como se me agarrasse  prpria vida. - Sshhh - acalmou-me ele enquanto eu chorava. - No chore. No sinta cimes. Alm
disso, Cathy, bebs de verdade so mais divertidos que bonecas. Sua me ter mais trabalho do que pode fazer sozinha, de modo que depender de voc para ajud-la. 
Quando eu estiver longe de casa, ficarei mais tranqilo se souber que sua me pode contar com uma filha amorosa, que far todo o possvel para ajudar a melhorar 
a vida da famlia inteira.
        Com os lbios clidos colados ao meu rosto molhado de lgrimas, concluiu:
        - Agora, vamos abrir sua caixa. Diga-me se gosta do que est l dentro.
        Antes, eu tive que cobrir o rosto dele com dzias de beijos e abra-lo com fora, para compensar a ansiedade que lhe provocara: no olhar. Na enorme caixa 
havia uma linda caixinha prateada de msica, fabricada na Inglaterra. Enquanto a msica tocava, uma bailarina vestida de cor-de-rosa fazia lentas piruetas em volta 
de um espelho.
        - Serve tambm como caixa de jias - explicou papai, enfiando-me no dedo um minsculo anel de ouro com uma pequena pedra vermelha que ele chamou de granada. 
- No instante em que avistei essa caixa,  adivinhei para quem ela fora feita. E, com este anel, fao o juramento de amar eternamente a minha Cathy, um pouquinho 
mais do que amarei outra filha, desde que ela
me prometa jamais falar com algum sobre o assunto.

        Chegou uma ensolarada tera-feira de maio em que papai ficou em casa. Havia duas semanas que ele no se afastava muito de casa, esperando que os bebs aparecessem. 
Mame parecia irritada e nervosa. A Sra. Bertha Simpson estava na cozinha, preparando nossas refeies e olhando Christopher e eu
com uma expresso zombeteira. Era a nossa baby-sitter mais confivel. Morava na casa ao lado e estava sempre comentando que mame e papai pareciam mais irmos que 
marido e mulher. Era uma pessoa carrancuda e mal-humorada, que raramente tinha um comentrio agradvel sobre qualquer pessoa.
Alm disso, estava cozinhando nabos. E eu detestava nabos.
        Por volta da hora do jantar, papai entrou correndo na sala de jantar a fim de dizer a meu irmo e a mim que iria levar mame para o hospital.
        - Agora, no se preocupem. Tudo correr bem. Obedeam  Sra. Simpson, faam seus deveres de casa e talvez dentro de algumas horas fiquem sabendo se ganharam 
irmos, irms, ou um de cada.
#8
  Papai s voltou na manh seguinte. Tinha a barba por fazer, um ar cansado, as roupas amarrotadas, mas exibiu-nos um sorriso feliz.
        - Adivinhem! Meninos ou meninas?
        - Meninos! - gritou Christopher, que desejava dois irmos aos quais pudesse ensinar a jogar bola. Eu tambm queria meninos... nada de meninas para roubarem 
o afeto de papai pela filha mais velha.
        - Um menino e uma menina - anunciou papai, orgulhoso. - As coisinhas mais lindas que vocs j viram. Vamos. Vistam-se e eu os levarei para verificarem pessoalmente.
        Fui, rabujenta, ainda relutando em olhar quando papai me ergueu de modo que eu pudesse enxergar atravs do vidro do berrio os dois bebs que a enfermeira 
exibia para ns. Eram to pequeninos! As cabeas no eram maiores que pequenas mas, e os pequenos punhos avermelhados esmurravam o ar. Um deles chorava como se 
picado por alfinetes.
        - Ah! - suspirou papai, beijando-me o rosto e abraando-me com fora. - Deus foi bom para mim, enviando-me outro filho e outra filha to perfeitos quanto 
os primeiros.
        Imaginei que detestaria ambos, em especial a chorona Carrie, que choramingava e berrava dez vezes mais alto que o mais tranqilo, chamado Cory. Passou a 
ser quase impossvel ter uma noite inteira de repouso com os dois no outro lado do corredor, no quarto em frente ao meu. No obstante, quando comearam a crescer 
e sorrir, os olhos brilhando quando eu me aproximava para peg-los no colo, algo clido e maternal substitua a frieza de meus olhos verdes. Quando dei por mim, 
corria para casa a fim de v-los; de brincar com eles; de trocar fraldas, segurar mamadeiras e deix-los arrotar no meu ombro. Eram mais divertidos que bonecas.
        Logo aprendi que os pais tm lugar no corao para mais que dois filhos, e que eu tambm tinha lugar no corao para am-los - at mesmo Carrie, que era 
to bonita quanto eu, ou ainda mais. Cresceram depressa - como mato, dizia papai -, embora mame costumasse olh-los com ansiedade, pois dizia que eles no se desenvolviam 
to depressa quanto Christopher e eu. Apresentou o problema ao mdico, que se apressou em afirmar que  normal gmeos serem menores que crianas que nascem sozinhas.
        - Est vendo? - comentou Christopher. - Os mdicos sabem tudo.
        Papai ergueu os olhos do jornal e sorriu:
        - Eis meu filho mdico falando... Mas ningum sabe tudo, Chris.
        Papai era o nico da famlia que chamava meu irmo mais velho de Chris.
        Possuamos um sobrenome engraado, muito difcil de aprender a soletrar. S porque ramos todos louros, com cabelos lisos e pele branca -  exceo de papai, 
sempre bronzeado de sol -, Jim Johnston, o melhor amigo de papai, dera-nos um apelido: "As Bonecas de Dresden". Afirmava que parecamos as exticas criaturas de 
porcelana, to usadas para enfeitar prateleiras e aparadores de lareiras. Em breve, toda a vizinhana passara a chamar-nos "bonecas
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de Dresden", pois, certamente, era mais fcil que pronunciar Dollanganger.
        Quando os gmeos tinham quatro anos -Christopher completara quatorze e eu terminara de fazer doze - houve uma sexta-feira muito especial. Foi o trigsimo 
sexto aniversrio de papai, e preparamos uma festa-surpresa para ele. Mame parecia uma princesa de contos de fadas, com os cabelos recm-lavados e penteados, as 
unhas brilhando de verniz, o longo vestido do mais tnue tom azul, o comprido colar de prolas balanando de um lado para outro quando ela se movimentava para arrumar 
a mesa da sala de jantar, de modo a que tudo ficasse perfeito para a festa de aniversrio de papai. Os inmeros presentes estavam empilhados sobre o aparador do 
buf. Seria uma festa pequena, ntima, apenas para a famlia e os amigos mais chegados.
        - Cathy - disse mame, lanando-me um rpido olhar. - Importa-se de dar banho nos gmeos para mim? Eu lhes dei banho antes de dormirem  tarde, mas foram 
brincar no jardim e esto precisando lavar-se outra vez.
        Eu no me importava. Nossa me estava elegante demais para lavar duas crianas sujas e travessas com quatro anos de idade, que adoravam espadanar gua por 
todos os lados e estragariam o penteado, as unhas e o lindo vestido de nossa me.
        - Quando terminar com eles, voc e Christopher pulem tambm na banheira. Cathy, ondule os cabelos e coloque o vestido cor-de-rosa novo. Christopher, por 
favor, nada de blue jeans. Quero que vista uma  camisa social branca, com gravata, usando o palet esporte azul-claro e as calas cor-de-creme.
        - Bolas, mame! Detesto me arrumar todo - reclamou ele, arrastando os ps calados de tnis e franzindo a testa.
        - Faa o que estou mandando, Christopher, por seu pai. Sabe que ele faz muito por voc. O mnimo que voc poderia fazer por ele  dar-lhe orgulho da famlia.
        Meu irmo se afastou com relutncia, deixando a meu cargo correr ao quintal para pegar os gmeos, que comearam a chorar no mesmo instante.
        - J chega um banho por dia! - berrou Carrie. - J estamos limpos! Pare com isso! No gostamos de sabo! Detesto lavar a cabea! No faa isso conosco outra 
vez, Cathy, seno contamos  mame!
        - Hah! - repliquei. - Quem vocs acham que me mandou aqui para lavar esses monstrinhos imundos? Ora, ora! Como conseguem sujar-se to depressa?
        To logo os corpinhos despidos mergulharam na gua morna, os brinquedos de borracha comearam a flutuar e eles puderam jogar-me gua, os gmeos aquietaram-se 
o bastante para serem lavados, ensaboados, vestidos e penteados. Pois, afinal, iam a uma festa. E, sobretudo, era sexta-feira e papai voltaria para casa.
        Primeiro, vesti Cory num bonito terninho com calas curtas. Por estranho que parea, ele sempre se mantinha mais limpo que  irm gmea. Por mais que tentasse, 
eu nunca arranjava uma maneira para dominar a teimosa
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ondulao do cabelo que lhe caa sobre a testa. E, inacreditavelmente, Carrie desejava que seu cabelo ficasse igual ao dele!
        Depois de vesti-los e arrum-los como bonecas que ganhassem vida prpria, entreguei os gmeos aos cuidados de Christopher, com severas recomendaes para 
vigi-los com a mais constante e total ateno. Ento, foi minha vez de embonecar-me.
        Os gmeos reclamaram e choramingaram enquanto tomei um banho apressado, lavei os cabelos e os prendi com grossos rolinhos. Olhei para a porta do banheiro 
e avistei Christopher fazendo o possvel para distra-los, lendo para eles em voz alta a histria da Vov Gansa.
        - Oi - disse Christopher quando sa do banheiro usando meu vestido, cor-de-rosa e os rolinhos na cabea. - No est nada mal.         - Nada mal?  o melhor 
que voc pode dizer?
        -  mesmo, irm - disse ele. - O melhor para uma irm.
        Lanou um olhar ao relgio, fechou o livro, pegou os gmeos pelos pulsos gorduchos e exclamou:
        - Papai chegar a qualquer momento. Ande depressa, Cathy!
        
        As cinco horas chegaram e passaram. Embora no parssemos de esperar, no vimos o Cadillac verde de papai entrar na alameda curva de acesso  casa. Os convidados 
sentaram-se pela sala, procurando conversar animadamente, enquanto mame levantou-se e comeou a andar nervosamente de um lado para outro. Em geral, papai abria 
a porta s quatro horas - s vezes at mesmo antes disso.
        O maravilhoso jantar que mame levara tanto tempo preparando j secava por permanecer demais no fogo. Os gmeos costumavam ir para a cama s sete e comeavam 
a sentir fome, sono, perguntando a cada minuto:
        - Quando papai vai chegar?
        Suas roupas brancas j no pareciam to limpas. Os cabelos meticulosamente ondulados de Carrie comeavam a encaracolar-se e parecer desfeitos pelo vento. 
O nariz de Cory comeou a escorrer e ele o limpava com as costas da mo, at que corri para pegar um leno de papel e enxugar-lhe o lbio 
superior.
        - Bem, Corrine - pilheriou Jim Johnston. - Acho que Chris conseguiu encontrar outra supermulher.
        A esposa lanou-lhe um olhar irritado pela brincadeira de to mau gosto.
        Meu estmago roncava e comecei a preocupar-me quando mame ergueu a cabea. Ela estivera percorrendo ambos os sentidos da sala, at que parou junto ao amplo 
janelo olhando l para fora.
        - Oh! - exclamou, avistando um carro que entrava em nossa alameda orlada de rvores.         - Talvez papai esteja chegando agora!
        Todavia, o carro que parou diante de nossa porta principal era branco e no verde. Tinha na capota uma lmpada giratria vermelha e trazia na porta um emblema 
com as palavras POLCIA ESTADUAL.
#11
        Mame abafou um grito quando dois policiais uniformizados de azul se
aproximaram de nossa porta e tocaram a campainha.
        - Mame parecia congelada, com a mo pairando sobre a garganta; o que lhe a no corao toldou-lhe o olhar. Algo selvagem e atemorizador martelava-me o corao 
s de observar as reaes de mame.
        - Jim Johnston foi abrir a porta e permitiu que os dois patrulheiros estaduais entrassem. Olharam em volta, percebendo - estou certa - que a reunio se tratava 
de uma festa de aniversrio. Bastava-lhes olhar para a sala de jantar e ver a mesa festiva, os bales pendurados no lustre, os presentes empilhados no buf.
        - Sra. Christopher Garland Dollanganger? - inquiriu o mais idoso dos policiais, correndo os olhos pelas senhoras presentes.
        Mame assentiu rigidamente. Aproximei-me, acompanhada - por Christopher. Os gmeos estavam no cho, brincando com minsculos carrinhos, e demonstrando pouco 
interesse pela chegada dos policiais.
        O policial com aparncia bondosa e rosto muito vermelho aproximou-se de mame.
        - Sra. Dollanganger - comeou, num com neutro que me causou imediato pnico no corao. - Sentimos muito, mas ocorreu um acidente na Rodovia Greenfield.
        - Oh... - disse mame, estendendo os braos para puxar Christopher e eu para junto de si. Pude senti-la estremecer da cabea aos ps, como eu. Meus olhos 
pareciam magnetizados pelos botes metlicos do uniforme do policial; conseguiam ver mais nada.
        - Seu marido estava envolvido, Sra. Dollanganger.
        Um longo suspiro escapou  garganta estrangulada de mame. Ela vacilou e teria cado se eu e Christopher no estivssemos ali apara sustent-la.
        - J interrogamos os motoristas que testemunharam o acidente e no foi culpa de seu marido, Sra. Dollanganger - prosseguiu a voz despida de emoo. - Segundo 
os depoimentos, que tivemos o cuidado de registrar, um motorista ao volante de um Ford azul consturava pela faixa da esquerda, aparentemente alcoolizado, e chocou-se 
de frente com o carro de seu marido. Tudo indica que seu marido percebeu a iminncia do acidente, pois desviou-se a fim de evitar uma coliso frontal, mas uma pea 
de mquina caiu de outro carro, ou caminho, impedindo-o de completar a manobra evasiva correta que, lhe teria salvo a vida. Na verdade, porm, o carro de seu marido, 
sendo muito mais pesado que o outro: capotou vrias vezes. Talvez ele tivesse conseguido sobreviver, mas um caminho que passava no pde parar e bateu no carro; 
mais uma vez, o Cadillac capotou... e ento... pegou fogo.
        Jamais uma sala cheia de pessoas silenciou to depressa. At mesmo os pequenos gmeos ergueram os olhos de sua inocente brincadeira e fitaram os dois policiais.
        - Meu marido? - murmurou mame com voz tio fraca que mal se fazia ouvir. - Ele... no esta... morto...?
#12
        - Madame - disse, muito solene, o patrulheiro de rosto vermelho. -  
muito doloroso para mim trazer-lhe a notcia em meio ao que parece uma ocasio especial. 
        Interrompeu-se e olhou em volta, embaraado. 
        - Sinto muitssimo, madame... Todos fizeram o possvel para retir-lo... mas, madame, bem... ele, bem, morreu instantaneamente, pelo que afirmou o mdico. 
        Algum sentado no sof gritou.
        Mame no gritou. Seus olhos ficaram vazios, escuros, assombrados. A despeito da cor radiante de seu belo rosto, dava a impresso de uma mscara morturia. 
Fitei-a, tentando dizer-lhe com os olhos que nada daquilo era verdade. No papai! No o meu papai! No podia estar morto... no podia! A morte era para pessoas velhas 
e doentes... no para um homem to amado, to querido, to jovem!
        No obstante, ali estava minha me, o rosto cinzento, os olhos esbugalhados, as mos torcendo invisveis roupas molhadas. A cada segundo que eu a encarava, 
seus olhos afundavam-se ainda mais nas rbitas.
        Comecei a chorar. 
        - Madame, temos alguns pertences dele que foram atirados longe pelo impacto. Salvamos o que foi possvel.
        - V embora! - gritei para o guarda. - Saia daqui! No  meu papai! No  ele, eu sei! Papai parou numa loja para compra sorvetes. Chegar a qualquer momento. 
Saia daqui!
        Avancei correndo para esmurrar o peito do patrulheiro. Ele tentou esquivar-se e Christopher se aproximou, puxando-me para um lado.
        - Por favor - disse o policial. - Algum quer fazer o favor de ajudar essa menina?
        Os braos de minha me envolveram-me os ombros, puxando-me de encontro a ela. Pessoas conversavam em murmrios, num tom chocado. A comida no forno comeava 
a cheirar a queimado.
        Esperei que algum viesse tomar-me a mo e dizer que Deus jamais tirava a vida de um homem como meu pai; todavia, ningum se aproximou de mim. S Christopher 
veio abraar-me pela cintura e ali ficamos os trs, num grupo isolado: mame, Christopher e eu.
        Foi Christopher quem, afinal, conseguiu recobrar a voz e falar num estranho tom rouco:
        - Tem certeza de que foi nosso pai? Se o Cadillac verde pegou fogo, o motorista l dentro deve ter ficado muito queimado. Portanto, poderia ser outra pessoa 
e no papai.
        Soluos profundos e speros saam da garganta de mame, embora nem uma s lgrima lhe casse dos olhos. Ela acreditava! Achava que os dois policiais diziam 
a verdade!
        Os convidados, que tinham colocado roupas to elegantes para a festa de aniversrio, reuniram-se  nossa volta, pronunciando as frases de consolo que as 
pessoas costumam usar quando no encontram palavras adequadas.
#13
        - Sentimos tanto, Corrine... Foi um choque...  terrvel...
        - Que tristeza, acontecer isso a Chris...
        - Nossos dias esto contados...  sempre assim, desde que nascemos: temos os dias contados.
        Aquilo prosseguiu, interminvel; pouco a pouco, como gua infiltrando-se em concreto, o fato impregnou-se no meu consciente. Papai estava realmente morto. 
Nunca mais voltaramos a v-lo vivo. S voltaramos a v-lo num caixo; estendido num caixo que acabaria enterrado no cho, sob uma lpide com seu nome, a data 
de seu nascimento e a de sua morte. O mesmo dia e ms; apenas os anos seriam diferentes.
        Olhei em torno, a fim de verificar o que ocorria aos gmeos, que no deviam estar sentindo o mesmo que eu. Uma pessoa bondosa os levara  cozinha, onde lhes 
preparava uma leve refeio antes de lev-los para a cama. Meu olhar se cruzou com o de Christopher, que parecia mergulhado no mesmo pesadelo que eu, a fisionomia 
jovem plida e chocada. Uma vaga expresso de sofrimento ensombrecia-lhe os olhos, tornando-os mais escuros.
        Um dos patrulheiros estaduais fora ao carro da polcia e, agora, voltava com uma trouxa de objetos que ele espalhou cuidadosamente sobre a mesinha de centro. 
Fiquei petrificada, observando a exibio de tudo o que papai tinha nos bolsos: uma carteira de couro de crocodilo que mame lhe dera como presente de Natal; a caderneta 
de anotaes e a agenda encapadas com couro; o relgio de pulso; a aliana de casamento. Tudo enegrecido e chamuscado de fumaa e fogo.
        Finalmente, os bichinhos destinados a Cory e Carrie, encontrados - segundo explicou o patrulheiro - espalhados pela estrada. Um gordo elefantinho com orelhas 
de veludo cor-de-rosa, um cavalinho escarlate, com sela vermelha e rdeas douradas... oh, aquilo tinha que ser para Carrie. Ento, o
mais triste de todos os objetos: as roupas de papai, que tinham sado das malas quando os fechos estouraram.
        - Eu conhecia aqueles ternos, camisas, gravatas, meias. Ali estavam a mesma gravata que eu lhe dera como presente de aniversrio.
        - Algum ter que identificar o corpo - anunciou o patrulheiro.
        Agora, eu sabia com certeza. Era verdade: nosso pai nunca mais voltaria para casa com presentes para todos ns - nem mesmo no dia de seu aniversrio.
        Sa correndo daquela sala! Fugindo daqueles objetos espalhados, que me dilaceravam o corao e provocavam-me uma dor to forte como eu jamais sentira. Corri 
da casa para o jardim, onde fiquei esmurrando um velho bordo. Bati at que os punhos comearam a doer e o sangue brotou de inmeros cortes pequenos; ento, joguei-me 
de bruos na grama e chorei - chorei dez oceanos de lgrimas por papai, que deveria estar vivo. Chorei por ns, que precisaramos continuar vivendo sem ele. E pelos 
gmeos, que nem mesmo tiveram oportunidade de saber o quanto ele era ou fora - maravilhoso. E quando as lgrimas terminaram, deixando-me os olhos inflamados e vermelhos 
de tanto esfreg-los, escutei passos macios que se aproximavam: minha
me.
#14
        Ela se sentou na grama ao meu lado e tomou-me a mo nas suas. A lua minguante surgira no cu e milhes de estrelas cintilavam; a brisa era gostosa, trazendo 
consigo os novos perfumes da primavera.
        - Cathy - disse mame eventualmente, quando o silncio entre ns prolongou-se de forma a parecer interminvel. - Seu pai est no cu, olhando para voc. 
E voc sabe que ele desejaria que voc fosse valente. 
        - Ele no est morto, mame! - neguei com veemncia.
        - Faz muito tempo que voc est aqui fora; talvez no tenha percebido, mas j so dez horas. Algum precisava identificar o corpo de seu pai e, embora Jim 
Johnston tenha se oferecido para faz-lo, tive que ir sozinha. Porque, assim como voc, tambm achava difcil acreditar. Seu pai est morto, Cathy. Christopher est 
na cama, chorando; os gmeos j dormiram; ainda no entendem direito o que significa a palavra "morto".
        Envolveu-me com os braos, descansando-me a cabea em seu ombro.
        - Vamos - disse ela, pondo-se de p e puxando-me para cima, ao mesmo tempo que mantinha o brao em torno de minha cintura. - Passou tempo demais aqui fora. 
Pensei que estivesse dentro de casa, como os outros. E eles pensavam que voc estivesse em seu quarto, ou comigo. No  bom ficarmos sozinhas quando nos sentimos 
desorientadas.  melhor procurar a companhia de outras pessoas e desabafarmos nossas angstias, em vez de mant-las trancadas dentro de ns.
        Disse todas essas palavras com os olhos secos, sem derramar uma s lgrima, mas, em algum lugar de seu ntimo, ela chorava e gritava. Percebi o fato por 
seu tom de voz, pela absoluta falta de expresso que lhe velava os olhos fundos.

        Com a morte de nosso pai, nossos dias foram tornados sombrios por um pesadelo. Eu fitava mame com reprovao, pensando que ela nos devia ter preparado previamente 
para uma situao assim, porquanto jamais tivemos 
permisso para possuir mascotes que morressem de repente e nos ensinassem um pouco da perda causada pela morte. Algum, algum adulto, devia prevenir-nos de que os 
jovens, os bonitos e os necessrios tambm podem morrer.
        Como dizer tais coisas a uma me que dava a impresso de ser puxada pelo destino atravs de uma abertura estreita, esticando-se, ficando fina e chata? Como 
falar francamente com algum que no deseja escutar, nem comer, nem escovar os cabelos, nem vestir as lindas roupas que lhe abarrotavam o armrio? Ela nem. mesmo 
queria cuidar de nossas necessidades. Foi bom que as caridosas senhoras da vizinhana viessem tomar conta de ns, trazendo-nos comida preparada em suas prprias 
cozinhas. Nossa casa transbordava de flores, de comida caseira, presuntos, pezinhos quentes, bolos e tortas.
        Vinham aos bandos, aquelas pessoas que amavam, admiravam e respeitavam nosso pai; admirei-me ao perceber que ele era to querido. No obstante, detestava 
cada vez que algum indagava como ele morrera e comentava ser uma pena que algum to jovem morresse, quando tanta gente intil, desajustada, que s constitua um 
peso para a sociedade, continuava viva.
#15
        Por tudo o que escutei e ouvi dizer, o destino era um ceifador implacvel, desprovido de bondade, que no respeitava quem fosse amado ou necessrio.
     Os dias de primavera se tornaram vero. E a tristeza, por mais que se procure cultivar-lhe o lamento, possui o dom de diminuir at que a pessoa to real e to 
querida se transforme num vago vulto ligeiramente fora de foco.
     - Certo dia, mame sentou-se com o rosto to triste que parecia incapaz de lembrar-se como sorrir.
     - Mame - disse eu alegremente, esforando-me por anim-la. - Vou fingir que papai est vivo, numa de suas viagens de negcios, e logo voltar para casa, entrar 
pela porta e gritar como costumava: "Se vocs me amam, venham receber-me com abraos e beijos!" E... voc no entende?... todos
nos sentiremos melhor, como se ele estivesse vivo em algum lugar, onde no podemos v-lo, mas podemos esper-lo de volta a qualquer momento.
     - No, Cathy - replicou mame, inflamando-se. - Voc deve aceitar a verdade. No deve procurar refgio numa iluso. Est ouvindo bem? Seu pai est morto e sua 
alma foi para o cu. Na sua idade, voc deve compreender que ningum jamais retorna do cu. Quanto a ns, faremos o melhor possvel sem ele: e isso no significa 
fugir  realidade, recusando-nos a encar-la.
     Observei-a levantar-se da cadeira e comear a tirar coisas de geladeira para preparar o caf da manh.
     - Mame... recomecei, tateando cautelosamente o caminho, a fim de evitar que ela se zangasse outra vez. - Conseguiremos prosseguir, sem ele?
     - Farei o possvel para providenciar nossa sobrevivncia - replicou ela com indiferena, desanimada.
     - Agora, ter que trabalhar, como a Sra. Johnston?
     - Talvez sim, talvez no. A vida nos reserva todas as espcies de surpresas, Cathy, e algumas delas so desagradveis, como voc est aprendendo a perceber. 
Contudo, lembre-se sempre que recebeu a bno de possuir, durante doze anos, um pai que a considerava algo multo especial.
     - Porque me pareo com voc - interpus, ainda sentindo aquela pontinha de inveja que sempre me fustigava por estar em segundo lugar em relao a ela.
        Mame lanou-me um olhar de esguelha ao mexer o contedo da geladeira.
        - Agora, Cathy, vou contar-lhe uma coisa que nunca lhe contei antes. Voc se parece muito comigo quando eu tinha a sua idade, mas tem uma personalidade bem 
diferente.  muito mais agressiva e muito mais decidida. Seu pai costumava dizer que voc era como a me dele, e ele adorava a me.
        - Todo mundo no adora a me?
        - No - replicou ela, com uma expresso esquisita. - Existem mes que simplesmente no podemos amar, pois no desejam o amor dos filhos.
        Tirou o toucinho e os ovos da geladeira. Depois, Virou-se para tomar-me nos braos.
#16
        - Querida Cathy, seu pai e eu tnhamos um relacionamento ntimo muito especial e acredito que voc deva sentir mais falta dele por causa disso. Mais que 
Christopher sente, ou os gmeos.
        Solucei em seu ombro.
        - Detesto Deus por ter levado meu pai! Ele devia continuar vivo at envelhecer! No estar presente quando eu danar a valsa ou Christopher formar-se em 
medicina. Agora, que ele se foi, nada mais parece ter importncia.
        - s vezes, a morte no  to horrvel como voc imagina - respondeu ela com voz tensa. - Seu pai jamais ficar velho ou enfermo. Permanecer sempre jovem; 
 assim que voc sempre se recordar dele: jovem, forte, bonito. No chore mais, Cathy, pois, como seu pai costumava dizer, existe um
motivo para tudo e uma soluo para cada problema. E eu estou tentando, desesperadamente, fazer o que julgo ser melhor.
        ramos quatro crianas andando a esmo, tropeando nos cacos de nosso sofrimento e perda. Brincvamos no quintal, tentando encontrar consolo no sol, totalmente 
despercebidos de que nossas vidas em breve sofreriam alterao to drstica, to dramtica, que palavras como "quintal" e "jardim" adquiririam para ns o significado 
de "paraso" - e estariam to remotas quanto este.
        Uma tarde, pouco aps os funerais de papai, Christopher e eu estvamos sentados, com os gmeos, no quintal. Os gmeos estavam na caixa de areia, brincando 
com minsculas ps e baldes. Numa repetio infindvel, transferiam a areia de um balde para outro, tagarelando naquele estranho idioma que
s eles eram capazes de entender. Cory e Carrie, embora no fossem gmeos
idnticos, formavam uma unidade, mutuamente satisfeitos um com o outro. Erguiam em torno de si uma muralha, transformando-se em casteles bem protegidos, que guardavam 
ciosamente seus segredos ocultos. Cada um tinha o outro e isso lhes bastava.
        A hora do jantar chegou e passou. Agora, tnhamos medo de que at mesmo nossas refeies fossem canceladas, de modo que, mesmo sem a voz de nossa me a chamar-nos 
para dentro de casa, pegamos as mos gorduchas e cheias de covinhas dos gmeos, puxando-os na direo da casa. Encontramos 
nossa me sentada  grande mesa de trabalho de papai; redigia o que parecia ser uma carta muito difcil, se a evidncia de vrios rascunhos iniciados, interrompidos, 
amarrotados e deixados de lado servia de indicao. Franzia a testa ao escrever, parando freqentemente para erguer a cabea e fitar o espao.
        - Mame - chamei. - Quase seis horas. Os gmeos esto ficando com fome.
        - Um minuto, um minuto - respondeu ela, entre afobada e indiferente. - Estou escrevendo para seus avs, que moram na Virgnia. Os vizinhos trouxeram-nos 
comida bastante para uma semana. Voc poderia colocar uma das caarolas no forno; Cathy.
        Foi a primeira refeio que preparei praticamente sozinha. Arrumei a mesa, esquentei a caarola, servi o leite e ento mame chegou para ajudar.
#17
        Parecia-me que todos os dias aps a morte de papai nossa me tinha carta a escrever, lugares aonde ir, deixando-nos aos cuidados da vizinha mais prxima. 
 noite, mame sentava-se  mesa de trabalho de papai, com um grande livro de registros de capa verde aberto diante de si, conferindo pilhas de
notas fiscais. Nada mais era bom; nada. Agora, muitas vezes meu irmo e eu
dvamos banho nos gmeos, vestindo seus pijamas, e os colocvamos na cama. Ento, Christopher retirava-se apressadamente para seu quarto, a fim de estudar, enquanto 
eu voltava rapidamente para perto de mame, a fim de buscar um modo de devolver-lhe a felicidade aos olhos azuis.
        Algumas semanas depois, chegou uma carta em resposta s muitas que nossa me enviara a seus pais. Imediatamente, mame comeou a chorar - antes mesmo de 
abrir o grosso envelope cor-de-creme. Manipulou desajeitadamente uma esptula de abrir cartas e, com dedos trmulos, segurou as trs folhas de papel manuscrito, 
relendo-as vrias vezes. Durante todo o tempo, lgrimas escorriam-lhe lentamente pelo rosto, manchando a maquilagem com longas e midas marcas plidas.
        Chamara-nos do quintal to logo pegara a correspondncia na caixa postal prxima  porta de entrada e agora estvamos, os quatro, sentados no sof da sala 
de visitas. Observei o rosto suave e claro de boneca de Dresden transformar-se numa fisionomia fria, dura e resoluta. Um arrepio de frio percorreu-me a espinha. 
Talvez fosse por ela nos encarar demoradamente demais. Em seguida, baixou os olhos para as folhas de papel seguras por seus dedos trmulos e logo os desviou para 
as janelas, como se l conseguisse encontrar alguma soluo para o problema da carta.
        Mame agia de modo muito estranho, que nos causava temor e nos deixava desusadamente quietos, pois j nos sentamos bastante intimidados num lar sem pai, 
e no precisvamos que uma carta de trs pginas em papel cor-de-creme viesse selar os lbios de nossa me e fazer surgir em seus olhos uma expresso to dura. Por 
que olhava para ns de maneira to esquisita?
        Afinal, ela limpou a garganta com um pigarro e comeou a falar, mas numa voz fria, totalmente diversa de sua costumeira cadncia suave e amorosa:
        - Afinal, sua av respondeu minhas cartas - declarou naquele tom gelado. - Depois de todas as cartas que lhe escrevi... bem... ela concordou. Mostra-se disposta 
a permitir que moremos com ela.
        Boas novas! Exatamente o que aguardvamos escutar - e devamos estar felizes. Todavia, mame tornou a mergulhar naquele silncio pensativo, limitando-se 
a permanecer imvel, olhando para ns. O que haveria com ela?
No saberia que ns lhe pertencamos? Que no ramos filhos de uma estranha, enfileirados como passarinhos empoleirados na corda do varal?
        - Christopher e Cathy, com quatorze e doze anos vocs dois j devem ter idade suficiente para compreender e colaborar, ajudando sua me a escapar de uma 
situao desesperadora - disse ela, fazendo uma pausa para passar nervosamente os dedos no colar de prolas e suspirar. Parecia  beira das lgrimas. E senti-me 
to penalizada da pobre mame, sem um marido...
#18
        - Est passando bem, mame? - perguntei. 
        - Sim,  claro, minha querida - disse ela, tentando sorrir. - Seu pai, que Deus o tenha, esperava viver at uma idade avanada e, nesse nterim, adquirir 
uma volumosa fortuna. Vinha de uma famlia de pessoas que sabiam ganhar dinheiro, de modo que no me resta a menor dvida de que teria alcanado seu objetivo, se 
dispusesse de tempo bastante para isso. Todavia, trinta e seis anos  muito pouca idade para morrer. As pessoas costumam acreditar que nada de horrvel lhes acontecer, 
mas apenas aos outros. No prevemos acidentes nem esperamos morrer cedo. Ora, seu pai e eu pensvamos em envelhecer juntos e espervamos conhecer nossos netos antes 
de morrermos juntos, no mesmo dia. Assim, nenhum de ns ficaria para lamentar sozinho o que partisse primeiro.
        Suspirou outra vez. 
        -  foroso confessar que levamos uma vida muito alm de nosso padro atual. Gastamos dinheiro antes mesmo de receb-lo. No o culpem; a culpa foi minha. 
Ele conhecia tudo a respeito da pobreza; eu no conhecia nada. Vocs se lembram de como ele costumava ralhar comigo? Ora, quando compramos essa casa, ele disse que 
precisvamos de apenas trs quartos, mas fiz
questo de quatro. At mesmo quatro no me pareciam suficientes. Olhem em volta; sobre essa casa pesa uma hipoteca de trinta anos. Nada aqui  realmente nosso: nem 
os mveis, nem os carros, nem os aparelhos eletrodomsticos na cozinha e na lavanderia. Nem um nico objeto est totalmente pago.
        Parecemos amedrontados? Assustados? Mame interrompeu-se, com o rosto muito vermelho, e seus olhos percorreram a linda sala que to bem lhe realava a beleza. 
Suas delicadas sobrancelhas se contraram numa expresso de ansiedade.
        - Embora seu pai me reprovasse um pouco, ele tambm queria viver assim. Fazia-me a vontade porque me amava e creio que, afinal, consegui convenc-lo de que 
o luxo era absolutamente necessrio. E ele cedeu, pois tnhamos ambos uma propenso para satisfazer demais nossos desejos. Era outra dentre as muitas coisas que 
possuamos em comum.
        Sua fisionomia espelhou tristonhas reminiscncias antes que ela prosseguisse naquele tom estranho:
        - Agora, todas as nossas lindas coisas sero levadas. O termo legal  reintegrao de posse.  o que fazem quando as pessoas no possuem dinheiro suficiente 
para pagar o que compraram a prazo. Tomem esse sof como exemplo. H trs anos, custava oitocentos dlares. J pagamos quase tudo; faltam apenas cem dlares. Mesmo 
assim, eles o tomaro de volta. Perderemos tudo o que j pagamos por cada objeto; no obstante,  legal. No perderemos apenas a casa e os mveis, como tambm os 
automveis; na verdade, perderemos tudo, exceto as roupas e os brinquedos de vocs. Permitiro que eu guarde minha aliana de casamento e escondi o anel de brilhante 
que seu pai me deu de noivado. Portanto, faam o favor de no mencionar um anel de noivado a qualquer pessoa que venha realizar uma inspeo.
#19
        Nenhum de ns indagou quem eram "eles". No me ocorreu indagar, naquele momento. E mais tarde, no me pareceu fazer qualquer diferena.
        Os olhos de Christopher encontraram os meus. Senti-me afundar no desejo de compreender e lutei para no me afogar na compreenso. J estava afundando, afogando-me 
no mundo adulto de mortes e dvidas. Meu irmo estendeu o brao e pegou-me a mo, apertando-me os dedos num raro gesto
de conforto fraternal.
        Seria eu uma vidraa, to transparente que at mesmo Christopher, o meu algoz de todas as horas, tentava confortar-me? Tentei sorrir, a fim de lhe provar 
o quanto eu era adulta e, dessa forma, zombar daquele ente trmulo e frgil no qual me tornava porque "eles" iam levar tudo. No queria que outra menina morasse 
em meu lindo quarto cor-de-rosa, dormisse em minha cama, brincasse com os brinquedos que eu adorava - minhas bonequinhas com biombos, minha caixa de msica feita 
de prata de lei, com a
bailarina cor-de-rosa... "Eles" as levariam, tambm?
        Mame observou com grande ateno a troca de gestos e expresses entre meu irmo e eu. Retomou a palavra, deixando transparecer um pouco de sua antiga personalidade:
        - No fiquem to acabrunhados. Na verdade, o quadro no  to feio quanto o descrevi. Devem desculpar-me se no raciocinei direito e me esqueci do quanto 
vocs ainda so jovens. Dei as ms notcias em primeiro lugar, guardando as melhores para o final. Agora, prendam a respirao! No acreditara-o no que vou lhes 
dizer... pois meus pais so ricos! No ricos da classe mdia, ou ricos da classe alta, mas muito, muito ricos! Podres de ricos!
Incrivelmente, pecadoramente ricos! Moram numa bela e enorme manso na Virgnia - uma casa como vocs jamais viram antes. Eu sei, pois nasci e fui criada l. Quando 
avistarem aquela casa, esta aqui parecer um barraco, em comparao. E eu no disse que vamos morar com eles, minha me e meu pai?
        Ofereceu-nos aquela palha de nimo com um sorriso nervoso e hesitante que no foi o bastante para dissipar-me as dvidas causadas por sua fisionomia e pelas 
informaes que acabava de fornecer. No me agradava a maneira pela qual seus olhos desviavam-se com ar de culpa sempre que eu procurava encar-la. Julguei que ela 
ocultasse algo.
        Mas era minha me.
        E papai se fora.
        Peguei Carrie e a sentei no colo, comprimindo-lhe o corpo mido e quente contra o meu. Alisei para trs os midos cachos dourados que lhe caam na testa 
arredondada. Os olhos de Carrie se fecharam e seus lbios carnudos se uniram para formar um boto de rosa. Olhei para Cory, recostado em Christopher.
        - Os gmeos esto cansados, mame. Precisam jantar.
        - Haver tempo bastante para isso, mais tarde - replicou ela, irritada e impaciente. - Temos planos a fazer, roupas a arrumar, pois precisamos pegar o trem 
esta noite. Os gmeos podem comer enquanto arrumamos a bagagem.
#20
Tudo que vocs quatro usam deve ser enfiado em apenas duas malas. Quero que levem apenas suas roupas prediletas e os brinquedos pequenos que no desejam deixar para 
trs. Levem apenas um jogo. Comprarei uma poro 
de jogos quando vocs chegarem l. Cathy, escolha as roupas e brinquedos que julga agradarem mais aos gmeos... mas apenas alguns. No poderemos levar mais que quatro 
malas e preciso de duas para as minhas coisas. 
        Oh, meu Deus! Era verdade! Tnhamos que partir, abandonando tudo! Eu precisava enfiar tudo em apenas duas malas, que seriam compartilhadas tambm por meus 
irmos. S a minha boneca Ann ocuparia metade de uma mala! No obstante, como poderia abandon-la - minha boneca mais querida, que papai me dera de presente aos 
trs anos? Solucei.
        Assim, permanecemos chocados, fitando mame. Ela se mostrou terrivelmente nervosa, pois ergueu-se de um pulo e comeou a andar de um lado para outro.
        - Como eu disse antes, meus pais so extremamente ricos - declarou, lanando para mim e para Chris um olhar de esguelha, antes de virar-se depressa para 
ocultar novamente o rosto.
        - H algo errado, mame? - quis saber Christopher.
        Espantei-me de que ele pudesse fazer tal pergunta, quando era por demais bvio que tudo estava errado.
        Mame continuou a andar de um lado para outro, as pernas bem torneadas aparecendo pela abertura na frente do neglig transparente. Mesmo em seu sofrimento, 
trajando luto, era linda - com rosto abatido, olhos fundos e tudo mais. Era to bela e eu a amava - oh, como eu a amava!
        Como todos ns a amvamos!
        Bem em frente ao sof, nossa me girou nos calcanhares e a gaze negra do neglig rodopiou como a saia de uma bailarina, revelando-lhe as belas pernas desde 
os tornozelos aos quadris.
        - Queridos - disse ela. - O que poderia haver de errado em morarmos numa tima casa como a de meus pai? Nasci l; l cresci e fui criada, exceto durante 
os anos que passei interna na escola.  uma casa grande, bonita,  qual esto sempre acrescentando novos quartos, embora s Deus saiba quantos ela j possui.
        Sorriu, mas havia algo falso em sua expresso.
        - Contudo, preciso dizer-lhes uma coisinha antes de apresent-los ao meu pai, que  seu av.
        Mais uma vez, vacilou e exibiu aquele sorriso estranho e sombrio.
        - H alguns anos, quando eu tinha dezoito anos de idade, fiz algo muito grave, que seu av reprovou; minha me tambm no aprovou, mas como se recusou a 
ficar contra mim, de qualquer maneira, isso no conta. Todavia,
por causa do que fiz, seu av mandou retirar meu nome de sua herana e, portanto, estou deserdada. Seu pai, em termos galantes, dizia que eu "cara em desgraa". 
Seu pai sempre viu as coisas pelo lado bom e disse que no fazia diferena.
#21
        Cara em desgraa? O que significaria isso? No consegui imaginar minha me cometendo um erro to grave a ponto de fazer seu pai voltar-se contra ela e tomar-lhe 
o que lhe pertencia por direito.
        - Sim, mame, compreendo o que quer dizer - interps Christopher. - Voc fez algo que seu pai desaprovou e, portanto, embora seu nome constasse do testamento, 
meu av, em vez de pensar melhor, mandou que o advogado a eliminasse do documento. Agora, voc no herdar nenhum de seus bens materiais quando ele passar desse 
mundo para o alm.
        Sorriu, satisfeito por saber mais do que eu. Sempre tinha resposta para tudo. Em casa, andava sempre com o nariz enfiado num livro. L fora, a cu aberto, 
era to levado quanto qualquer outro menino da vizinhana. Dentro de casa, porm, afastado da televiso, meu irmo mais velho era um rato de livros!
        Naturalmente, tinha razo.
        - Sim, Christopher. Nenhuma parte da fortuna de seu av vir para mim quando ele morrer; ou para vocs, atravs de mim. Foi por isso que precisei escrever 
tantas cartas para casa, enquanto minha me no respondia - tornou a sorrir, desta feita com ironia. -Mas, como sou a nica herdeira de ambos, tenho esperana de 
reconquistar a aprovao de meu pai. Entendam: outrora tive dois irmos, mas ambos morreram em acidentes e agora sou a nica que restou para herdar.
        Cessou de caminhar nervosamente. Ergueu a mo para cobrir os lbios; sacudiu a cabea e, em seguida, continuou naquele novo tom, semelhante a um papagaio:
        - Acho melhor contar-lhes uma outra coisa. Seu verdadeiro sobrenome no  Dollanganger;  Foxworth. E Foxworth  uma famlia muito importante na Virgnia.
        - Mame! - exclamei, chocada. -  legal falsificar o prprio nome e colocar o nome falso num certificado?
        A voz de minha me se tornou impaciente:
        - Pelo amor de Deus, Cathy,  possvel mudar-se legalmente de nome. E o nome Dollanganger foi mais ou menos escolhido por ns. Seu pai o tomou emprestado 
de algum ponto de sua rvore genealgica. considerava-o divertido, uma espcie de
pilhria, que atingiu plenamente o objetivo.
        - Que objetivo? - indaguei. - Por que motivo papai mudaria um nome fcil de soletrar, como Foxworth, por outro comprido e difcil como Dollanganger?
        - Estou fatigada, Cathy - replicou mame, deixando-se cair na poltrona mais prxima. - Tenho tantas coisas a fazer, tantos detalhes legais a tratar. Em breve 
vocs sabero tudo. Explicarei. Juro ser totalmente franca. Agora, por favor, permitam-me recobrar o flego.
        Oh, que dia foi aquele! Primeiro, ouvimos dizer que os misteriosos "eles" viriam tomar-nos tudo, at a casa. Depois, descobrimos que nosso sobrenome no 
era realmente nosso.
#22
        Os gmeos, encolhidos em nossos colos, j estavam meio adormecidos e, de todo modo, ainda eram pequenos demais para entenderem. At mesmo eu, agora com doze 
anos e j quase uma mulher, no compreendia por que motivo mame no parecia realmente feliz por voltar  casa dos pais, os quais ela no via h quinze anos. Pais 
secretos, que julgvamos mortos - at depois dos funerais de papai. S naquele dia ouvramos falar de dois tios que haviam morrido em acidentes. Ento, percebi nitidamente 
que nossos pais tiveram vidas cheias antes mesmo de terem filhos e que, afinal, no ramos to importantes.
        - Mame - disse Christopher devagar. - Sua linda e enorme manso na Virgnia parece tima, mas gostamos daqui. Nossos amigos moram aqui; todos nos conhecem, 
todos gostam de ns e eu no quero me mudar daqui. No pode procurar o advogado de papai e lhe pedir para encontrar uma maneira de continuarmos morando aqui, com 
a nossa casa e os nossos mveis?
        - Sim, por favor, mame, deixe-nos ficar - acrescentei.
        Mame levantou-se rapidamente da poltrona e recomeou a andar atravs da sala. Ajoelhou-se diante de ns, com os olhos no mesmo nvel que os nossos.
        - Agora, ouam-me bem - ordenou, tomando a mo de meu irmo e a minha, comprimindo-as contra o prprio peito. - Eu tenho pensado muito a fim de encontrar 
uma maneira de conseguirmos permanecer aqui, mas no existe meio. No existe absolutamente nenhum meio, porque no temos dinheiro para pagar as contas mensais e 
no possuo qualificaes para ganhar um salrio adequado a sustentar quatro filhos e eu. Olhem bem para mim - disse, abrindo os braos, parecendo vulnervel, linda, 
indefesa. - Sabem o que sou? Um enfeite intil e bonito, que sempre acreditou que teria a seu lado um homem para cuid-lo. No sei fazer nada. Nem mesmo escrever 
 mquina. No sou boa em matemtica. Sei bordar muito bem, mas isso no serve para ganhar dinheiro. E  impossvel viver sem dinheiro. No  o amor que faz o mundo 
girar;  o dinheiro. E meu pai nem sabe o que fazer com todo o dinheiro que possui. Tem apenas um herdeiro vivo, eu! Houve um tempo em que dava mais importncia 
a mim que aos dois filhos homens, de modo que no seria difcil recuperar-lhe o afeto. Ento, ele mandar o advogado incluir-me outra vez no testamento e eu herdarei 
tudo! Ele tem sessenta e seis anos de idade e est morrendo de uma molstia cardaca. Pelo que minha me escreveu numa folha separada, que no foi lida por meu pai, 
seu av no poder sobreviver mais que dois ou trs meses. Isso me proporcionar bastante tempo para agrad-lo e faz-lo amar-me como outrora. E, quando ele morrer, 
toda a sua fortuna ser minha! Minha! Nossa! Ficaremos livres para sempre de todas as preocupaes financeiras. Livres para irmos aonde quisermos. Livres para viajarmos, 
para comprarmos o que quisermos, qualquer coisa que desejarmos! No estou falando apenas de um milho ou dois, mas de muitos, muitos milhes, talvez at mesmo bilhes! 
Gente que possui tanto dinheiro nem chega a saber o quanto realmente possui, pois est investido aqui e acol, neste ou naquele negcio, incluindo bancos, companhias 
areas, hotis,
#23
grandes lojas de departamento, linhas de navegao. Ora, vocs nem podem imaginar o tipo de imprio que seu av controla, at mesmo agora, quando j tem um p na 
cova! Ele  um gnio para ganhar dinheiro. Tudo o que toca se transforma em ouro.
        Os olhos azuis brilhavam. O sol penetrava pelas janelas da frente, lanando faixas de luz cor de diamante em seus cabelos. J parecia incalculavelmente rica. 
Mame, mame, por que tudo isso veio  tona depois da morte de papai?
        - Christopher, Cathy, esto imaginando bem? Escutaram com ateno? O mundo, com tudo que nele existe,  de vocs! Entendem o que uma tremenda quantidade 
de dinheiro  capaz de fazer? D poder, influncia, respeito. Confiem em mim. Em breve, recuperarei o amor de meu pai. Bastar um
simples olhar para que ele compreenda de imediato que aqueles quinze anos de afastamento foram um desperdcio. Est velho e doente; permanece num pequeno quarto 
ao lado da biblioteca, com enfermeiras para cuid-lo dia e noite, empregados que lhe satisfazem todas as vontades. Todavia, s o prprio sangue e carne possuem algum 
significado. E sou a ltima que resta: s eu. At mesmo as enfermeiras no precisam subir para tomar banho, porque possuem um banheiro particular. Uma noite, eu 
o prepararei para conhecer pessoalmente os quatro netos; descerei a escadaria com vocs, entraremos no quarto e ele ficar enfeitiado, encantado com o que vir: 
quatro lindas crianas, perfeitas sob todos os aspectos. Ele ter que am-los, cada um de vocs. Acreditem: dar certo, exatamente como estou dizendo. Prometo-lhes 
que farei qualquer coisa que meu pai exigir de mim. Pela minha vida, por tudo que considero sagrado e querido, e isso so os filhos que meu amor por seu pai gerou, 
prometo-lhes que em breve serei dona de uma fortuna inacreditvel e que, por meu intermdio, todos os seus sonhos sero realizados.
        Fiquei boquiaberta, perplexa ante a paixo de nossa me. Olhei para Christopher e percebi que fitava mame com incredulidade. Ambos os gmeos j se encontravam 
nos suaves estgios iniciais do sono e no escutaram coisa alguma do que ali fora dito.

  amos morar numa casa enorme e rica como um palcio.
        Naquele palcio to grandioso, onde os criados serviam como escravos, seramos apresentados ao Rei Midas, que morreria logo em seguida e, em breve, ns teramos 
todo o dinheiro para colocar o mundo a nossos ps. Alcanaramos uma riqueza incrvel! Eu seria como uma princesa!
        Ainda assim, por que no me sentia feliz?
        - Cathy - disse-me Christopher com um amplo sorriso. - Voc ainda poder ser bailarina. No acredito que o dinheiro possa comprar talento, nem transformar 
um playboy em mdico. Mesmo assim, at chegar o momento de agirmos com seriedade, vamos farrear bastante, no  mesmo?
#24
        No pude levar a caixinha de msica de prata com a bailarina cor-de-rosa. A caixinha de msica era dispendiosa e fora relacionada como objeto de valor a 
ser levado por "eles".
        No pude retirar as molduras das paredes nem esconder as bonecas em miniatura. Na verdade, pouco pude levar do que papai me dera de presente,  exceo do 
anelzinho em meu dedo, com uma pedra semipreciosa lapidada em forma de corao.
        E, como dissera Christopher, depois que ficssemos podres de ricos, nossa vida resumir-se-ia num suntuoso baile, numa festa interminvel. Era assim que viviam 
os ricos: felizes para sempre, contando dinheiro e fazendo planos para divertimentos.

        Divertimentos, festas, jogos, fortuna incalculvel, uma casa enorme como um palcio, com criados que moravam em cima de uma imensa garagem com lugar para 
ao menos nove ou dez automveis de luxo. Quem imaginaria que minha me vinha de uma famlia assim? Por que papai discutia com ela para casa e pedisse, humildemente, 
algum dinheiro aos pais?
        Caminhei devagar pelo corredor at a porta de meu quarto, onde parei diante da caixinha de msica prateada na qual a bailarina cor-de-rosa em posio de 
arabesque fitava-se no espelho da tampa. Escutei a melodia: "Gire, bailarina, gire..."
        Poderia roub-la, se tivesse um lugar para escond-la.
        Adeus outra vez para voc, papai, pois, quando eu me for, no mais poderei imagin-lo sentado ao lado da cama, segurando-me a mo, nem o verei chegar do 
banheiro trazendo um copo com gua. Na verdade, no sinto muita vontade de ir, papai. Prefiro ficar e manter sua lembrana junto de mim.
        - Cathy! - Mame estava  porta. - No fique a, chorando. Um quarto  apenas um quarto como qualquer outro. Voc morar em muitos quartos antes de morrer. 
Portanto, trate de andar depressa. Arrume suas coisas e a bagagem dos gmeos, enquanto eu arrumo as minhas.
        Antes de morrer, eu ainda moraria em mil quartos - ou talvez mais. Uma pequena voz me sussurrou isso ao ouvido... e acreditei.

A Estrada da Riqueza

        Enquanto mame arrumava suas coisas, Christopher e eu enfiamos nossas roupas em duas malas, junto com um jogo e alguns brinquedos. No incio 
#25
do crepsculo vespertino, um txi levou-nos  estao ferroviria. Havamos sado furtivamente de casa, sem nos despedinnos de um s amigo - o que nos magoava. Eu 
no sabia por que razo devamos agir assim, mas me insistiu. Nossas bicicletas foram deixadas na garagem, com tudo o mais de tamanho exagerado para ser trazido 
conosco.         O trem avanava por uma noite escura e estrelada, dirigindo-se a uma distante propriedade rural na Virgnia. Passamos por vilas e lugarejos adormecidos, 
bem como por fazendas isoladas nas quais retngulos dourados de luz eram o nico indcio de sua existncia naquelas plagas. Meu irmo e eu no queramos pegar no 
sono, a fim de no perdemos detalhe algum da viagem - e tnhamos muito o que conversar! Na maior parte do tempo, tecemos especulaes sobre a enorme e luxuosa manso 
onde viveramos em esplendor, comendo em pratos de ouro servidos por um mordomo de libr. E eu julgava que teria uma empregada s para cuidar de minhas roupas, preparar 
meu
banho, e pular quando eu ordenasse. Mas no pretendia trat-la com severidade. Seria o tipo delicado e compreensivo de boa patroa que todos os criados desejam - 
a menos que ela estragasse algo de que eu realmente gostasse! Ento, seria um inferno - eu teria um ataque de nervos e, ao menos, atiraria longe algumas coisas que 
no me agradassem.
     Relembrando aquela viagem noturna de trem, dou-me conta de que foi exatamente naquela noite que comecei a crescer e filosofar. Com tudo o que se ganha, deve-se 
perder alguma coisa - de modo que era melhor eu me acostumar e tratar de aproveitar ao mximo.
     Enquanto meu irmo e eu especulvamos sobre a maneira de gastarmos o dinheiro quando o recebssemos, o portentoso condutor calvo entrou em nosso minsculo compartimento, 
olhou apreciativamente da cabea aos ps de mame e disse num tom suave:
     - Sra. Patterson, dentro de quinze minutos chegaremos  sua parada.
     Ora, por que a chamava de "Sra. Patterson"? Fiquei intrigada. Lancei
um rpido olhar a Christopher, que tambm parecia perplexo. 
        Despertada repentinamente, parecendo assustada e desorientada, mame arregalou os olhos. Olhou do condutor, que permanecia perto dela, para, Christopher 
e eu; depois, com ar de desespero, fitou os gmeos adormecidos. Logo comeou a chorar, remexeu na bolsa e pegou lenos de papel, enxugando delicadamente os olhos. 
Depois, soltou um suspiro? to fundo, to cheio de sofrimento, que meu corao comeou a bater num ritmo nervoso.
     - Sim, muito obrigada - disse ela ao condutor, que ainda a observava com grande aprovao e admirao. - No tema. Estaremos prontos para desembarcar.
     - Madame - disse ele, muito preocupado, consultando o relgio de bolso. - So trs horas da manh. Algum vir busc-los na estao?
     Seu olhar de preocupao voltou-se para Christopher, para mim e, finalmente, para os gmeos adormecidos.
     - Tudo bem - assegurou mame.
     - Est muito escuro l fora, madame.
#26
        - Sou capaz de encontrar o caminho de casa com os olhos fechados.
        O avuncular condutor no se satisfez com a resposta.
        - Oua, senhora - insistiu ele. -  uma hora de viagem at Charlottesville. Aqui, estaremos deixando a senhora e seus filhos num fim de mundo. No existe 
uma s casa  vista.
        A fim de evitar outras perguntas, mame replicou em seu tom mais arrogante:
        - Algum vir buscar-nos. 
        Engraado como ela parecia capaz de tirar aquelas maneiras petulantes de uma cartola, descartando-se delas logo em seguida. 
        Chegamos  parada no fim do mundo e desembarcamos do trem. Ningum  nossa espera. 
        Estava totalmente escuro quando descemos do trem e, como prevenira o condutor, no existia uma s casa  vista. Sozinhos na noite, longe de quaisquer vestgios 
de civilizao, fizemos acenos de despedida para o condutor, que permanecia nos degraus do vago, segurando-se com uma das mos e acenando com a outra. Sua expresso 
revelava no sentir-se muito feliz por abandonar a "Sra. Patterson" e sua prole de quatro crianas sonolentas  espera de algum que traria um carro. Olhei em torno 
e nada vi,  exceo de um enferrujado telheiro de zinco sustentado por quatro colunas de madeira, e um desengonado banco pintado de verde. Eis nossa estao ferroviria. 
No nos sentamos no banco, preferindo ficar em p, observando at o trem desaparecer na escurido, escutando um nico apito lamentoso que parecia desejar-nos boa-sorte.
        Estvamos rodeados por campos lavrados e pastos. Das profundezas do denso bosque existente nos fundos da "estao", algo produziu um rudo. Sobressaltei-me, 
girando para ver o que era. Christopher riu.
        - Uma coruja! Pensou que fosse um fantasma?
        - Agora, vamos parar com essas conversas! - mame interps rispidamente - E no  preciso falarem aos sussurros. Ningum por perto. Estamos numa fazenda, 
principalmente de gado leiteiro. Olhem ao redor. Vejam as 
plantaes de trigo, aveia e, tambm, um pouco de cevada. Os fazendeiros mais prximos fornecem legumes frescos s pessoas ricas que moram no morro.
        Existiam morros em profuso, parecendo colchas de retalhos cobertas de calombos, com filas de rvores subindo e descendo as encostas, separando a terra em 
lotes distintos. Sentinelas da noite, passamos a cham-las. Mame explicou que muitas rvores em linhas retas agiam como quebra-ventos, escorando as nevascas. Era 
o tipo exato de panorama capaz de deixar Christopher muito excitado. Ele adorava todos os tipos de esportes de inverno e nunca imaginara que um estado do Sul, como 
a Virgnia, tivesse nevascas.
        - Oh, sim, neva por aqui - confirmou mame. - Podem apostar que neva. Estamos no sop das Montanhas Blue Ridge e faz muito, muito frio por aqui; o mesmo 
frio que fazia em Gladstone. No vero, porm, faz mais calor durante o dia. O frio da noite sempre exige, no mnimo, um cobertor. Agora,
#27
se o dia amanhecer ensolarado, vocs regalaro os olhos com um panorama muito lindo; to lindo quanto qualquer outra parte do mundo. Contudo, precisamos apressar-nos. 
 um longo caminho a p at minha casa antes do amanhecer, que  a hora dos criados acordarem.
     Que estranho...
     - Por qu? - indaguei. - E por que o condutor a chamou de Sra. Patterson?
     - Cathy, no tenho tempo para lhe explicar tudo agora. Temos que andar depressa.
     Abaixou-se para pegar as duas malas mais pesadas e ordenou com voz firme que a acompanhssemos aonde ela nos guiasse. Christopher e eu fomos obrigados a carregar 
os gmeos, que estavam sonolentos demais para andarem ou mesmo tentarem faz-lo.
     - Mame! - gritei aps darmos poucos passos. - O condutor esqueceu de entregar-nos as suas malas!
        - Tudo bem, Cathy - respondeu ela, arquejante, como se as duas malas que carregava fossem suficientes para tirar-lhe as foras. - Pedi ao condutor que levasse 
minhas duas malas para Charlottesville e as guardasse no depsito de bagagens, onde irei busc-las amanh.
        - Por que fez isso? - quis saber Christopher, tenso.
        - Ora, em primeiro lugar, eu certamente no poderia carregar quatro malas, no acham? E, em segundo lugar, quero uma oportunidade para falar primeiro com 
meu pai, antes que ele tenha conhecimento dos meus filhos. E no ficaria bem se eu chegasse em casa de madrugada, aps passar quinze anos longe de l, no  mesmo?
        Creio que parecia razovel, pois j cuidvamos de tudo que nos era possvel desde que os gmeos se recusavam a andar. Seguimos caminho, andando  retaguarda 
de mame, percorrendo um terreno irregular, acompanhando leves trilhas entre rochas, rvores e arbustos que nos agarravam as roupas. Andamos um longo, longo caminho. 
Christopher e eu ficamos cansados, irritados,  medida que os gmeos se
tornavam cada vez mais pesados e nossos braos comeavam a doer. A aventura j estava perdendo
a graa. Reclamvamos, atrasvamos o passo, arrastvamos os ps, desejando sentar e descansar. Queramos estar de volta a Gladstone, em nossas camas, com nossas 
coisas; seria melhor que ali - melhor que a grande manso cheia de criados e avs que nem conhecamos.
        - Acordem os gmeos! - bradou mame, impaciente com nossas reclamaes. - Coloquem-nos de p, obriguem-nos a caminhar, queiram ou no!
        Ento murmurou de encontro  lapela do casaco uma frase que mal me chegou aos ouvidos:
        - S Deus sabe que  melhor eles andarem aqui fora enquanto podem.
        Um arrepio de apreenso percorreu-me a espinha. Olhei para meu irmo, a fim de verificar se tambm tinha escutado. Naquele instante, Christopher virou a 
cabea para me olhar. Sorriu. Sorri em resposta.
#28
        Amanh, quando mame chegasse numa hora apropriada, de txi, procuraria nosso av doente e sorriria para ele, falaria - e ele ficaria encantado, dominado 
por ela. Um olhar quele rosto lindo, apenas uma palavra daquela voz suave e maviosa, e o velho abriria os braos, perdoando-a pelo que fizera para "cair em desgraa".
        Pelo que ela j nos dissera, seu pai era um velho rabujento, pois sessenta e seis anos parecia-me, ento, uma idade incrivelmente avanada. E um homem  
beira da morte no se podia dar o luxo de alimentar ressentimentos contra sua nica
filha, uma moa a quem ele outrora muito amara. Seria obrigado a perdo-la, a 
fim de conseguir morrer feliz e tranqilo, sabendo ter agido corretamente. Ento, uma vez tendo vencido o velho com seus encantos, nossa me iria buscar-nos no quarto 
- cada um de ns vestido com suas melhores roupas e portando-nos. da melhor maneira possvel - e o velho logo perceberia que no ramos feios ou malvados. Alm disso, 
ningum - absolutamente ningum - que tivesse um pouco de corao seria capaz de resistir aos gmeos. Ora, nos centros comerciais e supermercados as pessoas paravam 
para acariciar os gmeos e cumprimentavam nossa me por ter filhos to lindos. E quando vov descobrisse a inteligncia de Christopher! Um aluno Nota Dez! E o que 
era ainda mais notvel: Christopher nem precisava estudar
tanto quanto eu. Aprendia tudo com facilidade. Bastava-lhe correr os olhos
uma ou duas vezes pela pgina e a informao permanecia indelevelmente gravada em seu crebro, para nunca mais ser esquecida. Oh, como eu invejava aquele dom de 
meu irmo!
     Eu tambm possua um dom; no era uma moeda brilhante e polida como Christopher. Era o meu modo de revirar tudo o que brilhava e procurar as manchas de azinhavre. 
Tnhamos coligido apenas algumas informaes sobre nosso desconhecido av, mas juntando as peas do quebra-cabeas, eu j fazia
idia de que ele no perdoava facilmente - partindo do fato de negar durante quinze anos uma filha que outrora amara tanto. No obstante, seria to duro a ponto 
de conseguir resistir aos insinuantes encantos de mame, que eram considerveis? Eu duvidava. Vira e ouvira nossa me jogando tais encantos sobre papai quando discutiam 
a respeito de dinheiro, e era sempre papai quem cedia, deixando-se convencer pelos encantos de mame. Bastava um beijo, um
abrao, uma leve carcia e papai se animava, sorridente, concordando que, de algum modo, conseguiriam pagar todas as coisas caras que ela comprara.
     - Cathy, tire da cara essa expresso preocupada - disse Christopher. Se Deus no pretendesse que as pessoas envelhecessem, adoecessem e, eventualmente, morressem, 
evitaria que continuassem a ter filhos.
     Senti o olhar de Christopher em mim, como se lesse meus pensamentos, e ruborizei-me. Ele sorriu alegremente. Era um otimista perptuo e incorrigvel, jamais 
sombrio, duvidoso ou pensativo como eu.
     Seguimos os conselhos da mame e acordamos os gmeos. Colocamos ambos em p, dizendo-lhes que teriam que fazer um esforo para andar, estivessem ou no cansados. 
Puxamos os dois conosco, enquanto choramingavam, reclamavam e, afinal, comeavam a soluar de revolta.
#29
        - No quero ir aonde estamos indo - soluou a chorosa Carrie.
        Cory limitava-se a chorar.
        - No gosto de andar no mato quando est escuro! - berrou Carrie, tentando livrar a minscula mo da minha. - Vou para casa! Solte-me, Cathy! Largue-me!
        - Cory chorou mais alto.
        Tive vontade de tornar a pegar Carrie no colo e carreg-la, mas meus braos doam demais para um novo esforo. Ento, Christopher largou a mo de Cory e 
foi ajudar mame a carregar as duas malas pesadas. Assim, fui deixada a ss com dois gmeos recalcitrantes, relutantes, sendo obrigada a pux-los comigo na escurido.
        - O ar era frio, spero e pungente. Embora mame a denominasse regio de colinas, as silhuetas escuras que se elevavam a distncia pareciam-me montanhas. 
Olhei para o cu, que me deu a impresso de uma profunda cpula de veludo azul-marinho, salpicado de flocos de neve cristalizados que faziam as vezes de estrelas 
- ou seriam lgrimas de gelo que eu derramaria no futuro? Por que pareciam fitar-me com piedade, fazendo-me sentir uma formiguinha
assustada, completamente insignificante? Aquele cu, to perto de mim, era imenso demais, lindo demais, enchendo-me com uma estranha sensao de pressgio. No obstante, 
compreendi que em outras circunstncias eu teria adorado um panorama como aquele.
        Chegamos, afinal, a um grupo de casas grandes e muito bonitas, aninhadas numa encosta ngreme. Furtivamente, aproximando-nos da maior e - evidentemente - 
mais grandiosa dentre as adormecidas manses da montanha. Mame, num sussurro, explicou que o nome da propriedade era Foxworth Hall e a manso devia ter mais de 
dois sculos.
        - H um lago por perto, para nadarmos e patinarmos no gelo? - quis saber Christopher, observando com ateno a encosta. - A regio no serve para esquiar: 
rvores e pedras demais.
        Sim - respondeu mame. - Existe um pequeno lago, a cerca de quatrocentos metros.
        E apontou na direo onde se situava o lago.
        Quase nas pontas dos ps, circundamos a enorme casa. Quando chegamos  porta dos fundos, uma senhora idosa deixou-nos entrar. Devia estar  nossa espera, 
ou vira-nos chegar, pois abriu a porta to prontamente que nem tivemos necessidade de bater. Como ladres em plena noite, entramos furtivamente, sem fazer rudo. 
A velha no emitiu uma s palavra de boas-vindas. Seria uma das criadas? Fiquei imaginando.
        To logo chegamos ao interior da casa, a mulher guiou-nos apressadamente para uma estreita e ngreme escada dos fundos, no nos permitindo parar para espiar 
os grandiosos aposentos que avistvamos apenas de relance ao passarmos rpida e silenciosamente por eles. A velha nos guiou por muitos corredores, passando por inmeras 
portas fechadas, at que, afinal, chegamos
a um quarto na extremidade de um corredor, onde ela abriu uma porta e gesticulou para que entrssemos. Foi um alvio perceber que nossa longa viagem noturna terminara; 
#30
estvamos num vasto quarto de dormir, onde havia apenas um lampio aceso. Pesadas cortinas de tapearia vedavam duas altas janelas. A velha vestida de cinzento virou-se 
para ns ao fechar a porta do corredor e encostar-se a ela.
        Quando falou, sofri um abalo:
        - Exatamente como voc disse, Corrine. Seus filhos so lindos.
     Ali estava ela, fazendo-nos um elogio que deveria aquecer-nos o corao - mas congelava o meu. Sua voz era fria e indiferente, como se no existissem ouvidos 
para escut-la ou mentes para compreender-lhe o desagrado, a despeito da lisonja que pronunciava. E acertei ao julg-la assim. Suas palavras seguintes o provaram:
     - Mas tem certeza de que so inteligentes? Sofrem de molstias invisveis, no aparentes ao olhar?
     - No! - bradou mame, to ofendida quanto eu. - Como voc bem pode ver, meus filhos so perfeitos, fsica e mentalmente! 
     Mame encarou raivosamente a velha antes de agachar-se e comear a despir Carrie, que estava cochilando em p. Ajoelhei-me diante de Cory, desabotoando-lhe 
o casaquinho azul, enquanto Christopher pegava uma das malas e a colocava em cima de uma das enormes camas. Abriu a mala e dela retirou dois pares de pequenos pijamas 
amarelos, tipo macaco.
        Furtivamente, enquanto ajudava Cory a despir-se e vestir os pijamas amarelos, observei aquela mulher alta e grandalhona que, segundo presumi, era nossa av. 
Estudando-a  procura de rugas e pelancas, verifiquei que no era to velha quanto eu julgara a princpio. Tinha cabelos fortes, cor de ao azulado, penteados para 
trs num estilo severo que lhe tornava os olhos um tanto alongados e felinos. Ora, pude at mesmo ver como cada mecha de cabelos repuxava-lhe o couro cabeludo - 
e, enquanto eu observava, um dos fios esticados soltou-se pela raiz!
        O nariz era como um bico de guia, os ombros largos, a boca parecia a cicatriz fina e irregular de um corte de faca. O vestido de tafet cinzento trazia 
um broche de brilhante na garganta, fechando a frente severa e sem vestgio de decote. Nada na mulher parecia macio ou flexvel; at mesmo o peito parecia ser constitudo 
de dois montes gmeos de concreto. Com ela, no haveria as brincadeiras que costumvamos fazer com papai e mame.
        No gostei dela. Tive vontade de voltar para casa. Meus lbios tremiam. Queria papai vivo outra vez. Como poderia uma mulher como aquela produzir algo to 
doce e lindo como nossa me? De quem mame herdara a beleza, a alegria? Estremeci, procurando reprimir as lgrimas que me saltavam aos olhos. Mame nos preparara 
com antecedncia para um av desprovido de carinho, afeio ou condescendncia - mas a av que providenciara nossa recepo... constitua uma surpresa brutal, assustadora. 
Pisquei para afastar as lgrimas, temendo que Christopher as percebesse e viesse zombar de mim posteriormente. Todavia, para reconfortar-me, l estava nossa me, 
sorrindo carinhosamente ao colocar Cory, j de pijamas, sobre uma das camas e repetir o gesto para deitar Carrie ao lado dele. Oh, como eram lindos, ali deitadinhos 
como
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duas bonecas de rostos rosados. Mame debruou-se sobre os gmeos, beijando-lhes os rostinhos corados, ajeitando ternamente os cachos que lhes caam nas testas e, 
afinal, aconhegando-os nas cobertas.
        - Boa-noite, meus queridos - murmurou com a voz carinhosa que to bem conhecamos.
        Os gmeos nem escutaram, j profundamente adormecidos.
        A av, porm, mantendo-se ali plantada como uma rvore solidamente enraizada, mostrava-se obviamente contrariada ao olhar para os gmeos numa das camas e, 
depois, para onde Christopher e eu nos encolhamos, muito juntos. Estvamos cansados e nos apoivamos mutuamente. Total desaprovao
faiscou nos olhos cinzentos. Seu rosto mantinha uma expresso franzida e penetrante que mame pareceu entender, embora eu no conseguisse interpretar. O rosto de 
mame enrubesceu quando a av declarou:
        - Suas duas crianas mais velhas no podem dormir na mesma cama!
        - So apenas crianas! - replicou mame com desusada veemncia. - Voc no mudou nem um pouco, no , mame? Ainda tem a mente suja e desconfiada! Christopher 
e Cathy so inocentes!
        - Inocentes? - retrucou a velha, com uma expresso maldosa to afiada que parecia capaz de ferir algum. - Era exatamente isso que seu pai e eu presumamos 
a respeito de voc e de seu meio-tio!
        Com os olhos esbugalhados, olhei de uma para a outra. Lancei um olhar de esguelha a meu irmo, cuja idade parecera derreter-se em segundos; estava to vulnervel 
e indefeso quanto eu, sem entender coisa alguma.
        Uma tempestade de raiva violenta roubou a cor do rosto de mame.
        - Se pensa assim, ento d-lhes quartos separados, com camas separadas! Deus sabe que isso existe de sobra nessa casa!
        - Impossvel! - replicou a me dela, naquele tom que queimava como gelo. - Este  o nico quarto que possui um banheiro privativo e onde meu marido no os 
escutar andando sobre as tbuas do teto ou acionando a vlvula da privada. Se os separarmos, espalhando-os pelo andar superior, ele ouvir as vozes e os barulhos. 
Ou os criados escutaro. Ora, pensei muito nesse arranjo. Este  o nico quarto seguro.
        - Quarto seguro? Dormiramos, ns todos, num nico quarto? Numa grandiosa e rica manso, com vinte, trinta ou quarenta quartos, ficaramos todos num mesmo 
quarto? Mesmo assim - agora que pude pensar bem no assunto - eu no desejaria ficar sozinha num quarto daquela casa imensa.
        - Ponha as duas meninas numa cama e os dois meninos na outra - ordenou nossa av.
        Mame pegou Cory no colo e o depositou na outra cama de casal, estabelecendo assim, com naturalidade, a rotina que seguiramos dali em diante. Os meninos 
na cama mais prxima  porta do banheiro, Carrie e eu na cama perto das janelas.
        A velha olhou duramente para mim e, depois, para Christopher.
        - Agora, ouam o seguinte - comeou, como um sargento-instrutor perante um bando de recrutas. - Caber a vocs dois, os mais velhos, manter os
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menores quietos; os dois sero responsveis se eles violarem qualquer uma das regras que estou estabelecendo agora e virei a estabelecer mais tarde. Mantenham sempre 
isso em mente: se o seu av descobrir, antes do tempo, que vocs esto aqui em cima, expulsar todos sem um nico tosto furado, aps castig-los severamente por 
estarem vivos! Vocs mantero esse quarto sempre limpo, varrido e bem arrumado, e o banheiro tambm, como se ningum morasse aqui. E ficaro quietos; no gritaro 
ou choraro, nem correro pelo quarto, para evitar barulho nas tbuas do teto do andar inferior. Quando sua me e eu sairmos esta noite, fecharei a porta e trancarei 
 chave por fora, pois no admitirei que fiquem vagando pela casa ou cheguem s outras alas. Permanecero aqui at o dia da morte de seu av, mas, para todos os 
efeitos, vocs no existem.
        Oh, Deus! Olhei para mame. No podia ser verdade! Ela estava mentindo, no estava? Dizendo coisas malvadas apenas para assustar-nos. Aproximei-me de Christopher, 
comprimindo-me de encontro a ele, sentindo-me fria e trmula. A av ficou mais carrancuda e eu me afastei. Tentei olhar para mame, mas ela nos dera as costas e 
mantinha a cabea baixa, os ombros cados estremecendo, como se estivesse chorando.
        Dominada pelo pnico, estive prestes a berrar alguma coisa, mas mame virou-se no momento exato, sentando-se na beirada de uma cama e estendendo os braos 
para Christopher e eu. Corremos para ela, gratos pelos braos 
que nos envolveram, as mos que nos acariciavam os cabelos e as costas, que alisavam-nos os cabelos em desalinho.
        - Tudo bem - sussurrou mame. - Confiem em mim. S passaro uma noite aqui. Ento, meu pai os receber em seu lar e vocs podero us-lo como se lhes pertencesse, 
tudo, todos os quartos, os jardins tambm.         Ento, olhou raivosamente para a me to alta, severa, implacvel.
        - Mame, tenha alguma piedade e compaixo por meus filhos. Eles tambm so a sua carne e o seu sangue, no se esquea. So timas crianas, mas tambm so 
crianas normais e necessitam de espao para brincar, correr e fazer barulho. Espera que falem em murmrios? No precisa trancar a porta desse quarto; pode trancar 
a porta na extremidade do corredor. Ora, por que eles no podem usar todos os quartos dessa ala norte? Sei que vocs nunca se importaram muito com essa parte mais 
antiga da casa.
        A velha sacudiu vigorosamente a cabea.
        - Corrine, quem toma as decises aqui sou eu, no voc! Acha que pode apenas trancar a porta de acesso a essa ala da casa e os criados no percebero? Tudo 
deve permanecer exatamente como estava antes. Os criados entendem por que motivo mantenho esse quarto trancado, pois a escada para o sto  aqui e no gosto que 
eles metam o nariz onde no devem. Todas as manhs, bem cedo, trarei comida e leite para as crianas, antes que a cozinheira e a copeira cheguem  cozinha. Ningum 
entra nessa ala norte, exceto na ltima sexta-feira de cada ms, quando  totalmente limpa e arrumada. Nesses dias, as crianas tero que ficar escondidas no sto 
at as empregadas
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terminarem o servio. E antes que as empregadas cheguem eu verificarei pessoalmente que no sejam deixados vestgios de ocupao do quarto.
        Mame apresentou outras objees:
        - Impossvel!  natural que eles se traiam, que deixem algum indcio. Mame, tranque a porta na extremidade do corredor!
        A velha rilhou os dentes.
        - D-me tempo, Corrine; com o tempo, poderei inventar algum motivo pelo qual os criados fiquem impedidos de entrar nessa ala, at mesmo para limp-la. Todavia, 
preciso agir com cautela e no levantar suspeitas. Eles no gostam de mim; correriam a seu pai, inventando histrias, esperando que ele os recompensasse. No compreende?
O fechamento dessa ala no pode coincidir com o seu retorno, Corrine.
        Nossa me meneou a cabea, cedendo. Ela e a av continuaram a fazer planos, enquanto Christopher e eu ficvamos cada vez mais sonolentos. O dia parecia interminvel. 
Eu desejava desesperadamente deitar-me ao lado de Carrie, aninhar-me na cama e mergulhar no doce esquecimento do sono, onde no existem problemas.
        Eventualmente, quando eu julgava que ela jamais notaria, mame percebeu o quanto Christopher e eu estvamos fatigados. Tivemos permisso para trocarmos as 
roupas no banheiro e - afinal - deitarmo-nos nas camas.
        Mame, parecendo muito plida e preocupada, com fundas olheiras, aproximou-se de mim e colou os lbios na minha testa. Vi lgrimas brilharem nos cantos de 
seus olhos, e a maquilagem estava manchada e mida. Estaria chorando novamente?
        - Durma - disse em voz rouca. - No se preocupe. No d ateno ao que acaba de escutar. To logo meu pai me perdoar e esquecer o que fiz para desagrad-lo, 
receber os netos com os braos abertos, os nicos netos que ele poder ver ainda vivo.
        - Mame - franzi a testa, cheia de angstia -, por que voc chora tanto?
        Com movimentos espasmdicos, ela enxugou as lgrimas e tentou sorrir.
        - Cathy, temo que seja necessrio mais que um dia para recuperar a aprovao e afeto de meu pai. Pode levar dois dias, ou at mais.
        - Mais?
        - Talvez. Pode levar at uma semana, porm no mais que isso. Talvez leve menos tempo. No sei exatamente... mas no demorar. Conte com isso - respondeu 
ela, alisando-me os cabelos. - Minha doce e querida Cathy, seu pai a amava muito e eu tambm amo.
        Foi at Christophr, beijou-lhe a testa e acariciou-lhe os cabelos, mas no consegui escutar o que sussurrou para ele.
        Perto da porta, virou-se para dizer:
        - Descansem bem essa noite e, amanha: virei v-los o mais cedo possvel. Conhecem meus planos: terei que andar at a parada do trem e pegar outra composio 
at Charlottesville, onde minhas malas estaro  espera. Amanh de manh, bem cedo, tomarei um txi at aqui e virei visit-los assim que puder.
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        A av empurrou impiedosamente mame pela porta aberta. Todavia, mame conseguiu torcer o corpo para olhar-nos por cima do ombro, seus olhos tristes implorando 
antes mesmo que ela comeasse a falar: 
        - Sejam bonzinhos, por favor. Comportem-se bem. No faam barulho. Obedeam as regras impostas por sua av e nunca lhe ofeream um motivo para castig-los. 
Por favor, faam isso; por favor. Obriguem os gmeos a obedecer e no os deixem chorar nem sentir muitas saudades de mim. Procurem transformar tudo num jogo; ser 
bastante divertido. Faam o possvel para distra-los at que eu volte com mais brinquedos para todos. Voltarei amanh e passarei cada minuto pensando em vocs, 
rezando por vocs, amando-os.
        Prometemos ser meninos de ouro, silenciosos como ratos, obedientes como anjos, seguindo  risca todas as regras que nos fossem impostas. Cuidaramos dos 
gmeos e eu faria qualquer coisa - literalmente qualquer coisa - para afastar a ansiedade dos olhos deles. 
        - Boa-noite, mame - dissemos Christopher e eu, enquanto ela vacilava no corredor, com as mos grandes e cruis da av segurando-lhe os ombros. - No se 
preocupe conosco. Estaremos bem. Sabemos cuidar dos gmeos e entreter-nos. J no somos criancinhas pequenas.
        Essas palavras partiram de meu irmo.
        - Vocs me vero amanh de manh - declarou a av antes de empurrar mame para o corredor e fechar a porta, trancando-a por fora.
        Crianas sozinhas, com medo de ficarem trancadas. E se comeasse um incndio? Fogo. Eu sempre pensaria em fogo e num modo de escaparmos. Se amos ficar trancados 
ali, ningum escutaria se gritssemos por socorro. Quem poderia escutar-nos, trancados naquele quarto remoto e proibido do segundo
andar, onde s entravam nas ltimas sextas-feiras dos meses?
        Graas a Deus, era uma providncia apenas temporria - por uma noite. Ento, no dia seguinte, mame convenceria o av moribundo.
        E ficamos sozinhos. Trancados. Todas as luzes apagadas. Ao nosso redor e embaixo de ns, aquela casa imensa parecia um monstro que nos mantinha presos em 
seus dentes pontiagudos e afiados. Se nos movssemos, murmurssemos, respirssemos fundo, seramos engolidos e digeridos por ele.
        O que eu desejava, ali deitada, era dormir - e no o profundo silncio que se prolongava interminavelmente. Pela primeira vez em minha vida, no mergulhei 
em sonhos no mesmo instante em que minha cabea encostou no travesseiro. Christopher quebrou o silncio e comeamos, aos sussurros, a discutir nossa situao.
        - No pode ser to ruim - disse ele baixinho, os olhos brilhando no escuro. - Aquela av... ela no pode ser to m como parece.
        - Quer dizer que voc no a julgou uma velhinha bondosa e simptica?
        Ele soltou uma risadinha.
        - Sim, pode apostar que  bondosa... como uma sucuri.
        - Como ela  grande! Que altura acha que ela tem?
        - Bem,  difcil adivinhar. Talvez um metro e oitenta. E cem quilos.
        - Dois metros! E duzentos e cinqenta quilos!
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  - Cathy, voc precisa aprender uma coisa: pare de exagerar! Pare de aumentar tanto as pequenas coisas! Ora, examine nossa situao com cuidado e entenda que isso 
 apenas um quarto de uma casa grande: no h motivo para temores. Temos que passar uma noite aqui antes que mame venha buscar-nos.
  - Christopher, voc escutou o que a av disse a respeito de um meio-tio? Entendeu o que ela quis dizer?
        - No. Mas suponho que mame explicar tudo. Agora, reze e trate de dormir. No  tudo que podemos fazer?
        Saltei da cama, ajoelhei-me e cruzei as mos sob o queixo. Fechei os olhos com fora e rezei, pedindo a Deus que ajudasse mame a ser encantadora e convincente 
como nunca.
        - E, Deus, no permita, por facor, que nosso av seja to malvado e detestvel quanto sua esposa.
        Ento, fatigada e afogada por tantas emoes, subi para a cama, abracei Carrie de encontro ao peito e, como desejava, mergulhei nos sonhos.

A Casa de Vov

        O dia raiou por detrs das grossas cortinas fechadas, que framos proibidos de abrir. Christopher foi o primeiro a sentar-se na cama, espreguiando-se e 
sorrindo para mim.
        - Ol, descabelada - cumprimentou.
        - Seu cabelo estava to despenteado como o meu - muito mais. No sei por que motivo Deus deu a Christopher e Cory cabelos to encaracolados, enquanto os 
meus e os de Carrie so apenas ondulados. E quando ele, como menino que era, esforava-se para estic-los com a escova, eu rezava para que os cachos lhe saltassem 
da cabea e viessem cair na minha.
  Sentei-me na cama e com o olhar pelo quarto, que devia ter cerca de cinco metros por cinco. Grande, mas com duas camas de casal, uma cmoda macia, uma grande 
penteadeira entre as duas janelas da frente, ladeada por duas poltronas estofadas, um guarda-roupas e mais uma mesa de mogno com quatro cadeiras parecia um aposento 
acanhado. Abarrotado de mveis. Entre as duas grandes camas de casal, havia outra mesinha com um abajur. No total, existiam quatro abajures no quarto. Por baixo 
da portentosa moblia escura, um desbotado tapete oriental com franja dourada. Outrora devia ter sido uma linda pea, agora velha e desbotada. As paredes eram forradas 
com papel creme e flocos brancos. As colchas eram douradas e feitas de um tecido pesado, como cetim forrado. Havia trs quadros nas paredes. Oh, meu Deus, eram de 
tirar o flego! Demnios grotescos perseguiam pessoas despidas em cavernas subterrneas cujo tom predominante era o vermelho. Monstros sobrenaturais
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devoravam criaturas indefesas, cujas pernas ainda se debatiam pendentes de enormes bocas que babavam, deixando  mostra dentes longos, brilhantes e afilados.
        - Voc est olhando para o inferno, do modo como alguns o imaginam - informou meu irmo sabe-tudo. - Aposto dez contra um como nossa angelical av pendurou 
pessoalmente essas gravuras nas paredes, s para ficarmos
sabendo o que nos espera caso desobedeamos suas regras. Parece-me trabalho de Goya - concluiu.
        Meu irmo sabia tudo. Alm de ser mdico, desejava tambm ser pintor. Desenhava excepcionalmente bem, usando aquarelas, tintas a leo e tudo o mais. Sabia 
fazer quase tudo com perfeio, exceto azucrinar-se ou prestar pequenos favores a si prprio.
        Quando fiz meno de levantar-me e ir ao banheiro, Christopher pulou da cama e foi mais rpido que eu. Por que Carrie e eu ficvamos to longe do banheiro? 
Sentei-me, impaciente, na beira da cama, balanando as pernas  espera de que ele sasse.
        Com muitos movimentos inquietos, Carrie e Cory acordaram simultaneamente. Sentaram-se, bocejando, como duas imagens refletidas, esfregando os olhos e olhando 
sonolentamente em volta. Ento, Carrie declarou em tom
bem decidido:
        - No gosto daqui!
        No era de espantar, pois Carrie j nascera obstinada. Antes mesmo de aprender a falar - e falara com apenas nove meses - sabia do que gostava e o que detestava. 
Para Carrie, nunca havia um meio termo: era depresso ou euforia. Tinha uma voz engraadinha quando estava satisfeita, muito semelhante ao gorjear feliz de um pssaro 
matinal. O problema era que gorjeava o dia inteiro, a menos que estivesse dormindo. Carrie conversava com bonecas, xcaras, ursinhos e outros animais de brinquedo. 
Tudo que ficasse sentado sem responder servia de alvo para suas conversas. Depois de algum tempo, eu nem mais escutava sua tagarelice incessante; limitava-me a desligar 
os ouvidos e deix-la falar interminavelmente.
        Cory era totalmente diferente. Enquanto Carrie no parava de falar, ele permanecia sentado, escutando com ateno. Lembro-me da Sra. Simpson dizer que Cory 
era um "rio de guas calmas e profundas". Ainda no entendo o que ela quis dizer com isso?, exceto que as pessoas tranqilas e caladas emanam certa iluso de mistrio 
que nos mantm a imaginar como elas so realmente sob a superfcie.
        - Cathy - gorjeou minha irmzinha com cara de beb. - Voc no me ouviu dizer que no gosto daqui?
        Ao escutar essas palavras, Cory pulou da outra cama e correu para a nossa, abraando-se  irm gmea com os olhos muito abertos e assustados.
        No seu jeito solene, indagou:
        - Como viemos para c?
        - De trem, ontem  noite. No se lembram?
        - No. No me lembro.
#37
        - E caminhamos atravs do mato sob o luar. Foi lindo.
        - Onde est o sol? Ainda  noite?
        O sol se escondia por detrs das cortinas, mas se eu ousasse dizer isso a
Cory ele certamente desejaria abrir as cortinas e olhar pela janela. E aps ver o que havia l fora, desejaria sair do quarto. Fiquei sem saber o que dizer.
        Algum no corredor mexeu na fechadura da porta, poupando-me a obrigao de responder. Nossa av carregou para o interior do quarto uma enorme bandeja cheia 
de comida, coberta com uma ampla toalha branca. Num tom muito rspido e severo, explicou que no podia passar o dia inteiro subindo e descendo escadas para carregar 
bandejas pesadas. S uma vez por dia, Se ela viesse muitas vezes, os criados desconfiariam.
  - Creio que, de agora em diante, usarei uma cesta de piquenique - declarou ao colocar a bandeja em cima da mesinha. Virou-se para encarar-me como se eu fosse a 
encarregada das refeies. - Tem que fazer esta comida durar o dia inteiro. Divida-a em trs refeies. O toucinho, ovos, torradas e o mingau de cereais so para 
o caf da manh. Os sanduches e a sopa quente na pequena garrafa trmica so para o seu almoo. A galinha frita, salada de batatas e ervilhas so para o jantar. 
E podem comer as frutas como sobremesa. No final do dia, se ficarem quietos e obedientes o tempo todo, talvez eu traga sorvete com doces, ou um bolo. Balas, nunca. 
No podemos permitir que peguem cries nos dentes. No podero ir ao dentista antes de seu av morrer.
        Christopher sara do banheiro, inteiramente vestido, e tambm ficou
imvel, escutando e fitando aquela av que falava com tanta facilidade sobre a morte do marido, sem qualquer demonstrao de tristeza. Era como se falasse de algum 
peixe chins dourado que em breve morreria num aqurio.
        - Escovem os dentes aps cada refeio - prosseguiu ela. - Mantenham sempre os cabelos bem escovados, os corpos bem lavados e inteiramente vestidos. Detesto 
crianas sujas e com nariz escorrendo.
        No momento em que ela disse isso, o nariz de Cory comeou a escorrer. Disfaradamente, usei um leno de papel para limp-lo. Pobre Cory, sofria de coriza 
alrgica a maior parte do tempo - e ela detestava crianas com o nariz correndo!
        - Tenham pudor no banheiro - disse a av, olhando com ar particularmente feroz para mim e, depois, para Christopher, que agora se recostara com ar insolente 
na esquadria da porta do banheiro. - Meninos e meninas nunca podem usar o banheiro juntos.
        Senti o rosto queimar de raiva! Que tipo de crianas ela achava que ramos?
        A seguir, ouvimos pela primeira vez algo que nos seria repetido como uma frase num disco quebrado:
        - No se esqueam, crianas: Deus v tudo! Deus ver o mal que cometerem s minhas costas! E Deus lhes aplicar o castigo, quando eu no souber!
        Tirou uma folha de papel do bolso do vestido, prosseguindo:
        - Aqui, nesse papel, fiz uma lista das normas que vocs devem seguir enquanto estiverem em minha casa.
#38
        Colocou O papel em cima da mesa e disse-nos que devamos ler e decorar as regras. Ento, virou-se para sair... mas, no! Encaminhou-se ao armrio embutido, 
que ainda no tnhamos examinado.

        - Crianas, alm dessa porta, nos fundos do armrio, existe uma porta ocultando a escada que leva ao sto. L em cima, no sto, h amplo espao para vocs 
brincarem, correrem e fazerem uma quantidade razovel de barulho. Todavia, nunca devem subir a escada antes das dez horas. Antes das dez, as arrumadeiras estaro 
cumprindo suas tarefas no segundo andar e podero escutar vocs correndo. Portanto, tenham sempre em mente que podero ser ouvidos no andar de baixo se fizerem barulho 
demais. Depois das dez, as empregadas esto proibidas de usar o segundo andar da casa. Uma delas comeou a roubar. At que eu pegue a ladra em flagrante, fico sempre 
presente quando elas arrumam os quartos. Nessa casa, estabelecemos nossas prprias normas e executamos os castigos merecidos. Como eu disse ontem  noite, na ltima; 
sexta-feira de cada ms vocs iro bem cedo para o sto e ficaro muito quietos, sem falar ou arrastar os ps, esto entendendo?
        Olhou fixamente para um de ns de cada vez, sublinhando as palavras com os olhos duros e maus. Christopher e eu meneamos afirmativamente a cabea. Os gmeos 
limitaram-se a olh-la numa estranha espcie de fascnio que raiava o pavor. Explicaes subseqentes nos informaram de que ela examinaria pessoalmente o quarto 
e o banheiro, a fim de verificar se no deixramos vestgios de nossa presena naquela sexta-feira.
        Terminando de falar, retirou-se. E tornou a trancar a porta por fora.
        Ento, pudemos respirar.
        Imbuda de sinistra determinao, dispus-me a transformar aquilo num jogo.
        - Christopher Doll, nomeio-o pai.
        Ele riu e depois replicou com sarcasmo:
        - O que mais? Como o homem e chefe dessa famlia, fao saber que de agora em diante serei um rei que dever ser servido de todas as maneiras e modos, como 
um rei. Mulher, como minha subordinada e escrava, arrume a mesa, sirva a comida, apronte-se para seu amo e senhor. 
        - Repita o que disse, irmo.
        - De agora em diante, no sou mais seu irmo, mas seu amo e senhor; voc dever cumprir minhas ordens, quaisquer que elas sejam.
        - E se eu no as cumprir, o que far o meu amo e senhor?
        - O tom de sua voz no me agrada. Fale respeitosamente quando se dirigir a mim.
        - -la-l! No dia em que me dirigir respeitosamente a voc, Christopher, ser por voc merecer meu respeito, e, para merec-lo, precisar ter trs metros 
e meio de altura, a lua cheia ter que surgir no cu ao meio-dia e uma tempestade de granizo ter que trazer um galante prncipe com polida armadura branca, montado 
num unicrnio e trazendo na ponta da lana a cabea verde de um drago!
#39
        Acabando de falar e emitindo um grunhido de satisfao ante tal expresso de desalento, peguei a mozinha de Carrie e puxei-a majestosamente para o banheiro, 
onde poderamos levar o tempo que quisssemos lavando o rosto, vestindo-nos e escovando os cabelos - ignorando o pobre Cory, que no parava de reclamar o uso das 
instalaes sanitrias.
        - Por favor, Cathy! Deixe-me entrar! Prometo no olhar vocs!
        Eventualmente, o banheiro tornou-se enfadonho e samos. Acredite quem quiser: Christopher vestira Cory dos ps  cabea! E, ainda mais chocante: agora Cory 
nem tinha necessidade de ir ao banheiro!
        - Por qu? - perguntei. - No ouse dizer que voltou para a cama e fez nela!
        Sem dizer uma palavra, Cory apontou para uma grande jarra azul sem flores dentro.
        Christopher, indolentemente recostado na cmoda, cruzou os braos sobre o peito, muito satisfeito consigo mesmo.
        - Isso lhe ensinar a no ignorar uma pessoa do sexo masculino em necessidades. Ns, homens, no somos como vocs, mulheres, que precisam sentar-se. Qualquer 
coisa nos serve, numa emergncia.
        Antes de permitir que algum iniciasse a refeio matinal, tive que esvaziar a jarra azul e lav-la meticulosamente. Na verdade, no seria m idia deix-la 
ao lado da cama de Cory, para um caso de emergncia.
        Sentamo-nos perto das janelas,  mesinha fabricada para servir como mesa de jogos. Os gmeos sentaram-se em travesseiros dobrados, a fim de poderem enxergar 
a comida. Todos os quatro abajures estavam acesos. No obstante, era deprimente termos que fazer a refeio matinal num ambiente que parecia mergulhado na obscuridade 
do crepsculo vespertino.
        - Anime-se, cara amarrada - disse meu imprevisvel irmo mais velho. - Eu estava apenas brincando. No precisar ser minha escrava. Eu apenas adoro as preciosidades 
que voc pronuncia quando provocada. Sou forado a admitir que, em questo de verbosidade, vocs mulheres so excepcionalmente dotadas, da mesma forma que ns homens 
temos o dom especial de um instrumento perfeito para fazer nossas necessidades ao ar livre.
        E para provar que no pretendia comportar-se como um brutamontes dominador, ajudou-me a servir o leite - verificando, como eu, que levantar a pesada garrafa 
trmica de quatro litros e servir o lquido sem derram-lo por todo lado no era um feito desprezvel.
        Carrie lanou um simples olhar ao toucinho com ovos e comeou a berrar:
        - Ns no gostamos de toucinho com ovos! Mingau frio! Gostamos de MINGAU frio! No queremos comida quente, encaroada, cheia de gordura! GOSTAMOS DE MINGAU 
FRIO! - chorava. - MINGAU COM PASSAS!
        - Agora, escutem-me bem - disse o novo pai em tamanho menor. - Vo comer o que for colocado Do prato  sua frente, sem reclamar, sem gritar, sem chorar, 
sem berrar! Esto ouvindo? E no  comida quente;  comida fria. Podem raspar e separar a gordura.  alimento slido, de todo modo.
#40
        Christopher engoliu num piscar de olhos a comida fria e gordurosa, alm da torrada fria e sem manteiga. Os gmeos, por estranhos motivos que jamais entenderei, 
fizeram a refeio sem um murmrio de protesto. Senti a inquietadora e desagradvel premonio de que nossa sorte com os gmeos no poderia durar muito. Talvez estivessem 
agora impressionados com a firmeza do irmo mais velho. Mais tarde, porm...
        Terminada a refeio, empilhei cuidadosamente a loua na bandeja. S ento me lembrei de que havamos esquecido de dar graas a Deus pela comida. Reagrupamo-nos 
depressa em volta da mesa, sentando-nos e baixando a cabea, com as mos cruzadas ao peito.
        - Senhor, perdoa-nos por termos comido sem pedir tua permisso. Por favor, no permitas que a av tome conhecimento disso. Prometermos agir corretamente 
na prxima vez. Amm.
        Terminando a orao, entreguei a Christopher a lista de obrigaes e proibies, cuidadosamente datilografada em letras maisculas, como se fssemos estpidos 
a ponto de no sabermos ler caligrafia manuscrita.
        E s assim os gmeos, que na noite anterior estavam por demais sonolentos para entenderem nossa situao, tomaram pleno conhecimento do que nos esperava. 
Meu irmo comeou pelo topo da lista de regras que no podiam ser violadas, ou...
        Primeiro, Christopher franziu os lbios numa boa imitao da detestvel boca da velha av. Era impossvel acreditar que lbios to bonitos como os dele pudessem 
parecer to sinistros - mas, de algum modo, Christopher conseguia imitar a austeridade da velha.
        - Um - leu em voz fria e desprovida de expresso. - Vocs sempre estaro completamente vestidos.
        Rapaz! Ele conseguia dar ao termo "sempre" a conotao de impossvel!
        - Dois: vocs jamais tomaro o nome do Senhor em vo e sempre daro graas antes de cada refeio. Se eu no estiver presente para verificar, podem ter certeza 
de que Ele os estar observando e escutando. 
        - Trs: vocs jamais abriro as cortinas, nem para espiar pelas janelas.
        - Quatro: vocs jamais me dirigiro a palavra, a menos que eu fale antes com vocs.
        - Cinco: vocs mantero este quarto arrumado e em ordem, sempre com as camas feitas.
        - Seis: vocs jamais ficaro -toa. Devotaro cinco horas por dia ao estudo e empregaro o restante do tempo em desenvolver suas habilidades de uma forma 
proveitosa. Se possurem capacidades, habilidades ou talentos, procuraro aperfeio-los e, caso no os possuam, lero a Bblia; se no souberem ler, ficaro sentados, 
olhando para a Bblia e procurando absorver, por intermdio da pureza de seus pensamentos, o significado do Senhor e Seus caminhos.
        - Sete: todos os dias, vocs escovaro os dentes aps o caf da manh e antes de se deitarem  noite.
#41
        - Oito: se alguma vez eu pegar meninos e meninas usando o banheiro ao mesmo tempo, arrancarei - de forma impiedosa e total - a pele de suas costas.
        - Meu corao virou uma cambalhota. Oh, Deus! Que tipo de av tnhamos ns?
        - Nove: vocs - todos os quatro - sero sempre recatados e discretos em qualquer ocasio, em termos de atitude, palavras e pensamentos.
        - Dez: vocs jamais manusearo ou brincaro com as partes ntimas de seus corpos; nem olharo para elas atravs de espelhos; nem pensaro nelas, mesmo quando 
as estiverem lavando.
        Imperturbvel, com um leve brilho engraado no olhar, Christopher prosseguiu a leitura, imitando a av com certa  habilidade:
        - Onze: vocs jamais permitiro que pensamentos maus, pecaminosos ou obscenos lhes ocupem a mente. Mantero sempre seus pensamentos limpos, puros e afastados 
de assuntos capazes de corromp-los moralmente.
        - Doze: vocs evitaro sempre olhar para membros do sexo oposto, a menos que seja absolutamente necessrio.
        - Treze: os que saibam ler - espero que ao menos dois de vocs sejam capazes disso - alternar-se-o em ler a Bblia em voz alta, pelo menos uma pgina por 
dia, a fim de que as duas crianas menores se beneficiem com os ensinamentos do Senhor.
        - Quatorze: vocs tomaro banho diariamente, limpando sempre a banheira e mantendo o banheiro to impecvel como estava quando o encontraram.
        - Quinze: cada um de vocs, inclusive os gmeos, aprender ao menos uma citao da Bblia por dia. Quando eu assim exigir, vocs repetiro em voz alta tais 
citaes, enquanto eu estiver acompanhando as passagens que vocs leram.
        - Dezesseis: vocs comero sempre toda a comida que eu lhes levar, sem desperdiar, jogar fora ou esconder uma nica migalha.  um pecado desperdiar boa 
comida quando tantas pessoas nesse mundo esto morrendo de
fome.
        Dezessete: vocs jamais andaro pelo quarto usando apenas roupas de dormir, mesmo que seja apenas para ir da cama para o banheiro ou deste para a cama. Usaro 
sempre algum tipo de roupo sobre as roupas de dormir ou sobre as roupas de baixo, caso surja necessidade de sarem do banheiro sem estarem totalmente vestidos, 
a fim de que outra criana possa entrar numa situao de emergncia. Exijo que todas as pessoas que vivem sob este teto sejam recatadas e discretas - em tudo e por 
todas as formas.
        - Dezoito: vocs assumiro posio de "sentido" sempre que eu entrar no quarto, com os braos colados ao longo do corpo; no cerraro os punhos em silenciosa 
demonstrao de desafio; no cruzaro seus olhares com o meu; no procuraro demonstrar sinais de afeio para comigo; nem esperaro angariar minha amizade, piedade, 
amor ou compaixo. Tudo isso  impossvel.
#42
Nem seu av nem eu podemos permitir-nos sentir qualquer coisa por aquilo que no seja puro.
        Ohhhh! Aquelas ltimas palavras feriam de verdade! At mesmo Christopher fez uma pausa na leitura e uma expresso de desespero lhe passou pelo rosto, logo 
substituda por um sorriso quando seu olhar encontrou o meu. Estendeu a mo para fazer ccegas em Carrie, provocando-lhe uma risadinha, e torceu o nariz de Cory, 
que tambm riu.
        - Christopher! - exclamei, alarmada. - Pelo que a velha escreve, nossa me no tem esperanas de reconquistar o pai! Ele muito menos desejar olhar para 
ns! Por qu? O que fizemos? No estvamos aqui no dia em que nossa me caiu em desgraa por ter feito algo to horrvel que levou o pai a
deserd-la! Nem mesmo tnhamos nascido! Por que nos detestam?
        - Fique calma - respondeu Chris,  percorrendo com os olhos a longa lista. - No leve nada disso a srio. Ela  biruta, piradinha. Ningum esperto como nosso 
av pode admitir as idias da sua esposa. Do contrrio, como conseguiria ganhar milhes de dlares?
        - Talvez ele no tenha ganho dinheiro. Pode t-lo herdado.
        - Sim, mame nos disse que ele herdou algum dinheiro, mas multiplicou-o por mais de cem. Portanto, deve ter um pouquinho de miolo na cabea. No entendo 
como foi escolher a Rainha das Abelhas Loucas numa rvore maluca e casar-se com ela.
        Sorriu para mim e depois retomou a leitura das normas:
        - Dezenove: vocs jamais olharo para mim quando eu entrar no quarto para levar leite; nunca pensaro desrespeitosamente de mim ou de seu av, pois Deus 
est presente e ler seus pensamentos. Meu marido  um homem
muito decidido e raras vezes algum conseguiu venc-lo. Dispe de um exrcito de mdicos, enfermeiras e tcnicos para atenderem a todas as suas necessidades, bem 
como de mquinas que funcionam como rgos humanos caso estes venham a falhar. Portanto, no julguem que um motivo to reles quanto o corao seja capaz de derrotar 
um homem feito de ao.
        Puxa! Um homem de ao para completar o par de aparadores de livros com a esposa biruta! Os olhos dele tambm devem ser cinzentos. Duros, implacveis, cor 
de ao - pois, como provaram papai e mame, coisas semelhantes se atraem.
        Christopher continuou a ler:
        - Vinte: vocs jamais pularo, gritaro ou falaro em voz alta, para evitar que os empregados no andar de baixo os ouam. E sempre usaro sapatos com solas 
de borracha; nunca solas de couro.
        - Vinte e um: vocs jamais desperdiaro papel higinico e sabonete. Limparo a sujeira se entupirem O vaso sanitrio e este transbordar. Se enguiarem o 
vaso sanitrio, ele assim ficar at vocs irem embora dessa casa; passaro a utilizar os urinis que encontraro no sto e sua me poder limp-
los para vocs.
        - Vinte e dois: os meninos lavaro as roupas na banheira, assim como as meninas. Sua me cuidar das roupas de cama, mesa e banho que vocs
#43
utilizarem. As colchas sero trocadas uma vez por semana, e se uma criana sujar a colcha, mandarei que sua me providencie lenis de borracha para vocs. A criana 
que no aprender a utilizar as instalaes sanitrias ser severamente espancada.
        Suspirei e passei o brao pelos ombros de Cory, que choramingou e agarrou-se a mim quando ouviu aquilo.
        - Shhhh! No tenha medo. Ela nunca saber o que voc fizer. Ns lhe daremos cobertura. Ns o protegeremos. Daremos um jeito de encobrir seus erros, se voc 
cometer algum.
        Chris leu:
        - Concluso: no se trata de permisses ou proibies;  apenas uma advertncia. Ela escreve: "Podem presumir, com razo, que eu adicionarei novos itens 
 presente lista, de acordo com as necessidades que venham a surgir, pois sou muito observadora e nada me escapa. No julguem que conseguiro
iludir-me, zombar de mim ou fazer piadas s minhas custas, pois se assim pensarem o castigo que recebero ser to severo que suas peles e seus egos carregaro cicatrizes 
pelo resto de suas vidas, e seu orgulho tombar por terra, definitiva e permanentemente derrotado. E fiquem desde j cientes de que jamais pronunciaro na minha 
presena o nome de seu pai ou faro a menor referncia a ele. Pessoalmente, recusar-me-ei a olhar para a criana que mais se parece
com ele.
        Terminara.
        Lancei a Christopher um olhar interrogativo. Se ele estava interpretando como eu aquele ltimo pargrafo, nosso pai fora - por algum motivo - o culpado de 
nossa me ter sido deserdada e, agora, abominada por nossos avs.
        O mesmo raciocnio levava  concluso de que passaramos um longo, longo tempo trancafiados ali.
        - Oh, Deus, oh, Deus, oh, Deus! Eu no suportaria uma semana!
        No ramos demnios, mas, certamente, tambm no ramos anjos! E necessitvamos uns dos outros, para ver-nos, tocar-nos mutuamente.
        - Cathy - disse meu irmo com muita calma, um sorriso irnico retorcendo-lhe os lbios, enquanto os gmeos nos observavam atentamente, prontos a imitar-nos 
no pnico, na alegria ou no desespero. - Somos to feios e desprovidos de encantos que uma velha, que obviamente detesta nossa me e
tambm nosso pai, por motivos que ignoro, seja capaz de resistir-nos para sempre? Ela  uma falsa, uma fingida. Nada disso deve ser levado a srio - concluiu, apontando 
para a lista que dobrara e jogara sobre a mesa, onde ela cara como um aeroplano mal-construdo.
        - Devemos acreditar numa velha assim, que deve ser demente e merece ser trancada num manicmio, ou devemos acreditar na mulher que nos ama, na mulher que 
conhecemos e em quem confiamos? Nossa me cuidar de ns.
Ela sabe o que est fazendo; podem ter certeza disso.
        Sim, naturalmente Christopher tinha razo. Devamos confiar e acreditar em mame, no naquela velha louca e rspida com suas idias idiotas, seus olhos de 
tiros de espingarda, sua boca retorcida de carne cortada a faca.
#44
        Em pouco tempo o av sucumbiria  beleza e encanto de nossa me; ento, ns desceramos:, a escada, trajando nossas melhores roupas e exibindo nossos melhores 
sorrisos. Ele nos avistaria, perceberia que no ramos feios nem estpidos, mas bastante normais para que algum gostasse um pouco - seno muito - de ns. E talvez, 
quem sabe?, talvez algum dia ele ainda encontrasse um pouquinho de amor para dar aos netos.

O Sto

        As dez horas da manh chegaram e se foram.
        Guardamos o que restou de nossa rao diria de comida no local mais fresco que conseguimos encontrar no quarto: embaixo da cmoda. Os criados que faziam 
as camas e arrumavam os quartos do andar superior das outras alas j deviam ter descido para o trreo e no voltariam quele andar durante mais vinte e quatro horas.
        Naturalmente, j estvamos cansados de nosso quarto e ansiosos por explorar os limites exteriores de nossos acanhados domnios. Christopher e eu pegamos, 
cada um, a mo de um dos gmeos e nos encaminhamos silenciosamente para o armrio embutido onde estavam nossas duas malas, com todas as nossas roupas ainda dentro 
delas. Esperaramos para desfazer as bagagens.
Quando tivssemos alojamentos mais espaosos e agradveis, os criados desfariam as malas - como sempre acontece nos filmes - enquanto ns iramos brincar ao ar livre. 
Na verdade, nem mesmo estaramos naquele quarto quando os criados viessem limp-lo e arrum-lo na ltima sexta-feira do ms. A essa altura, j estaramos livres.
        Com meu irmo mais velho  frente, segurando a mo de nosso irmo mais moo, a fim de evitar que tropeasse ou casse, segui nos calcanhares de Cory, com 
Carrie agarrada  minha mo, subindo os degraus escuros, estreitos e ngremes. As paredes da passagem eram to estreitas que nossos ombros quase roavam nelas.
        E l estava!
        Eu j vira stos anteriormente. Quem no os vira? Mas nunca um sto como aquele!
        Permanecemos pregados ao cho, olhando em volta, incrdulos. Enorme, obscuro, sujo, empoeirado, aquele sto se estendia por quilmetros! As paredes opostas 
estavam to distantes que pareciam difusas, fora de foco. O ar no era limpo, mas denso; tinha um cheiro prprio, um desagradvel odor de podrido, de velhos objetos 
carcomidos, de coisas mortas e desenterradas; uma vez que estava enevoado de poeira, tudo dava a impresso de se mexer e tremer - em especial, nos cantos mais escuros.
#45
        Quatro conjuntos de janelas de gua-furtada davam para a fachada principal e quatro para os fundos. As partes laterais, ou o que conseguamos avistar delas, 
no tinham janelas - mas existiam alas que no poderamos enxergar a menos que ousssemos avanar e tivssemos coragem de enfrentar o calor abafado que ali reinava.
        Como uma s pessoa, avanamos passo a passo, afastando-nos da escada.
        O assoalho era de largas pranchas de madeira, macias e apodrecidas.  medida que avanvamos cautelosamente, temerosos, pequenas criaturas corriam pelo cho, 
fugindo em todas as direes. No sto estavam armazenados mveis suficientes para mobiliar vrias casas. Moblia macia e escura, urinis, jarras em grandes bacias 
- cerca de vinte ou trinta conjuntos desse tipo. E havia tambm uma coisa redonda que parecia uma banheira com reforos de ao. Imaginem - guardar uma banheira como 
aquela!
        Tudo que parecia ter valor estava protegido por capas sobre as quais a
poeira se acumulara, dando-lhes uma colorao suja, acinzentada. E os objetos protegidos por capas causavam-me arrepios na espinha, pois eu via neles esquisitos 
e sobrenaturais fantasmas de mveis, sussurando incessantemente. E no queira escutar o que diziam.
        Dzias de velhos bas reforados com pesadas cantoneiras e trincos de bronze enfileiravam-se ao longo de toda uma parede, cada um deles coberto de variadas 
etiquetas de viagem. Deveriam ter dado volta ao mundo mais de uma vez. Bas enormes, que poderiam servir de caixes funerrios.
        Armrios gigantescos guarneciam, numa fila silenciosa, a parede oposta. Quando fomos verificar, vimos que cada um deles estava cheio de roupas antigas. Encontramos 
uniformes do tempo da Guerra Civil, tanto da Unio como da Confederao, dando a Christopher e eu muito sobre o que especular, enquanto os gmeos se encolhiam a 
ns e observavam tudo com os olhos muito abertos e amedrontados.
        - Christopher, acha que nossos ancestrais foram to indecisos durante a Guerra Civil que nem sabiam de que lado estavam?
        - A Guerra Entre os Estados soa melhor - replicou ele.
        - Acha que eram espies?
        - Como posso saber?
        Segredos, segredos - por toda parte! Imaginei irmo lutando contra irmo - oh, como seria divertido descobrir! Se ao menos encontrssemos dirios!
        - Olhe aqui - disse Christopher, puxando um temo masculino de l cor de creme, com lapelas de veludo marrom e elegantes divisas de cetim marrom mais escuro.
        Sacudiu a roupa. Repugnantes criaturas aladas esvoaaram em todas as direes, a despeito do fedor de naftalina.
        - Soltei um grito, imitado por Carrie.
        - No sejam to bobas - advertiu Christopher, sem se deixar perturbar pelos insetos. - O que vocs viram so cupins, cupins inofensivos. Os buracos so feitos 
pelo roer das larvas.
#46
        Para mim, no fazia diferena! Insetos eram insetos - larvas ou adultos. De todo modo, eu no sabia por que motivo aquela maldita roupa o interessara tanto. 
Por que precisvamos examinar a braguilha, a fim de sabermos se os homens daquela poca usavam zpers ou botes?
- Puxa! - exclamou Christopher, finalmente perturbado. - Que dificuldade abrir esses botes todas as vezes!
        Foi essa a opinio de meu irmo.

        Na minha opinio, as pessoas de antigamente sabiam realmente como vestir-se! Como eu adoraria rodopiar numa blusa de babados, com uma saia rodada sobre pantalonas 
e dzias de anguas com armao de arame, toda enfeitada com pregas, rendas, bordados, esvoaantes fitas de veludo ou cetim; sapatos de cetim; e, completando o fino 
traje, uma sombrinha de renda para
proteger-me os cachos louros e a pele lisa, clara e sem mculas. Traria tambm
um leque, para refrescar-me com gestos elegantes, e bateria as plpebras com
olhares sedutores. Oh, que beleza eu seria!
        Carrie, at ento impressionada com o imenso sto, soltou um berro que me arrancou das doces especulaes, trazendo-me de volta ao presente - que eu tanto 
detestava.
        - Est quente aqui, Cathy!
        - Est, sim.
        - Detesto isso aqui, Cathy!

        Lancei um olhar a Cory, cujo rosto mido denotava perplexidade ao observar o ambiente, agarrando-se a mim. Peguei uma das mos de cada um deles e deixei 
para trs a fascinao das velhas roupas, partindo em busca das outras curiosidades que o sto tinha a oferecer-nos. E no eram poucas. Milhares de livros arrumados 
em pilhas, velhos cadernos de registros contbeis, escrivaninhas, dois pianos tipo armrio, rdios, fongrafos, caixas de papelo cheias
com os atavios indesejveis de geraes desaparecidas. Moldes e manequins de
todos os tamanhos e formatos, gaiolas de pssaros e seus respectivos suportes,
ps e enxadas, retratos emoldurados de pessoas com peculiar aparncia plida
e doentia, que presumi serem nossos parentes j falecidos. Alguns tinham cabelos claros, outros escuros; todos possuam olhos penetrantes, cruis, duros, amargos, 
tristes, sonhadores, ansiosos, desesperanados, vazios - mas no encontrei um s olhar feliz. Alguns sorriam. Outros no. A maior parte no sorria. Senti-me particularmente 
atrada por uma bela jovem com cerca de dezoito anos; exibia um leve sorriso enigmtico que me lembrava Mona Lisa, s que era mais bonita. O colo se projetava de 
um corpete pregueado, de forma deveras impressionante, fazendo Christopher apontar para um dos manequins e declarar enfaticamente:
        - Dela!
        Olhei. Chris prosseguiu com evidente admirao:
        - Ora, aquilo  o que se chama de "formas de ampulheta". Est vendo a cintura fina, os quadris cheios e arredondados, o busto volumoso? Herde um corpo como 
aquele, Cathy, e ficar milionria!
#47
        - Francamente! - repliquei, - repugnada. - Voc no entende dessas coisas. Aquelas no so as formas naturais da mulher. Est usando um espartilho, apertado 
na cintura de modo a empurrar a maior parte da carne para cima, no busto, e para baixo, nos quadris. E  exatamente o motivo pelo qual as mulheres desmaiavam com 
tanta freqncia e precisava cheirar sais.
        - Como  possvel desmaiar e, ao mesmo tempo, pedir sais para cheirar? - indagou ele, sarcstico. - Alm disso,  impossvel apertar para cima o que no 
existe.

        Lanou um olhar  voluptuosa jovem e comentou:
        - Sabe, ela se parece um pouco com mame... Se usasse o cabelo diferente e roupas mais modernas... seria mame.
        Hah! Nossa me era por demais sensata para enfiar-se numa gaiola enfeitada com fitinhas e sofrer.
        - Contudo, essa moa  apenas bonita - concluiu Christopher. - Nossa me  linda!
O silncio naquele espao imenso era to profundo que eu podia ouvir as batidas do meu corao. No obstante, seria divertido explorar cada ba; examinar o contedo 
de cada caixa; experimentar todas aquelas roupas apodrecidas, fedorentas, mas elegantes - e fingir, fingir, fingir! Mas estava to quente! To abafado! To irrespirvel! 
Meus pulmes j pareciam entupidos de poeira, sujeira e ar contaminado. No apenas isso: teias de aranha bloqueavam os cantos e pendiam das vigas; criaturas rastejantes 
ou furtivas percorriam o cho ou subiam pelas paredes. Muito embora no os visse, pensei em ratos e
camundongos. Certa vez, assistramos a um filme na TV em que um homem enlouqueceu e enforcou-se numa viga do sto. E, noutro filme, um homem enfiou a esposa num 
ba reforado com cantoneiras e trinco de bronze, fechou a tampa e deixou-a morrer l dentro. Olhei mais uma vez para os bas,
tentando adivinhar que segredos guardariam eles que os criados ignoravam.
        - Desconcertante, o modo como meu irmo observava minhas reaes. Virei-me, a fim de ocultar meus sentimentos - mas ele percebeu. Aproximou-se, tomou-me 
a mo e disse de maneira muito semelhante  de papai:
        - Tudo vai dar certo, Cathy. Deve haver explicaes muito simples para tudo que nos parece to complexo e misterioso.
        Voltei-me vagarosamente para encar-lo, surpresa por ele ter vindo reconfortar-me e no me provocar.
        - Por que supe que a av tambm nos deteste? Por que o av nos detesta? O que ns fizemos?
        Ele sacudiu os ombros, to intrigado quanto eu, e ainda segurando minha mo, girou comigo para olhar mais uma vez o sto. Mesmo nossos olhos destreinados 
podiam perceber onde novas sees tinham sido adicionadas  velha casa. Grossas colunas verticais de madeira de seo quadrada dividiam o sto em setores distintos. 
Tive a impresso de que, se procurssemos metodicamente, chegaramos a um local confortvel, onde nos seria
possvel respirar ar fresco.
#48
        Os gmeos comeavam a tossir e espirrar. Fixavam em ns olhares magoados por obrig-los a permanecer num lugar que detestavam.
        - Agora, escutem - disse Christopher, quando eles comearam realmente a reclamar. - Podemos abrir as janelas uns poucos centmetros, o bastante para deixar 
entrar um pouco de ar fresco sem que ningum repare
nas aberturas.
        Ento, soltou minha mo e correu  nossa frente, pulando por sobre caixas, bas e mveis, exibindo-se, enquanto eu permanecia pregada ao cho,         segurando 
as mos dos dois menores, que continuavam apavorados por se
encontrarem naquele lugar.
        - Venham ver o que encontrei! - chamou Christopher, de algum ponto onde no conseguamos v-lo, com a voz vibrante de excitao. - Esperem at ver minha 
descoberta!
        Corremos, ansiosos por vermos algo excitante, maravilhoso, divertido - mas tudo que Christopher tinha para mostrar-nos era uma sala: uma sala de verdade, 
com paredes de alvenaria. Nunca fora pintada, mas tinha forro no teto, ao invs de apenas vigas. Parecia uma sala de aulas, com cinco carteiras de alunos de frente 
para uma grande mesa. Trs das paredes eram forradas
com quadros-negros acima de baixas estantes cheias de livros desbotados e empoeirados. O perptuo caador de qualquer tipo de conhecimento que era meu irmo mais 
velho teve que inspecion-los imediatamente, engatinhando pelo cho e lendo em voz alta os ttulos. Livros eram o suficiente para A
lan-lo numa tangente, sabendo que encontrara um meio de fugir s palavras.
        Fui atrada pelas pequenas carteiras dos alunos, onde estavam gravados nomes e datas como "Jonathan, 11 anos, 1864"! E "Adelaide, 9 anos, 1879"! Oh, como
era antiga aquela casa! A essa altura, j existiria poeira em seus tmulos, mas os nomes haviam  permanecido para fazer-nos saber que, outrora, eles tambm tinham 
sido mandados para o sto. Contudo, por que os pais obrigariam seus filhos a estudarem num sto? Tratava-se, certamente, de filhos queridos - ao contrrio de ns, 
que ramos detestados pelos avs. Talvez, para eles as janelas fossem escancaradas. E para eles os 
criados trouxessem ao sto carvo ou lenha para queimar nos dois foges que vamos nos cantos.
        Um velho cavalo de balano, sem um dos olhos cor-de-mbar, mal se agentava em equilbrio e a cauda amarela embaraada era digna de pena. Mas o velho e desmantelado 
cavalinho branco de pintas negras foi o bastante para arrancar de Cory um brado de deleite. Subiu de imediato para a descascada sela vermelha, gritando:
        - Galopa, cavalinho!
        E o cavalinho, que no era montado h tantos anos, comeou a galopar, rangendo, estalando, protestando com cada junta enferrujada.
        - Tambm quero andar a cavalo! - berrou Carrie. - Cad meu cavalo?
        Corri para colocar Carrie na garupa de Cory, de modo que ela pudesse agarrar-se ! cintura do irmo, rir e bater com os calcanhares a fim de obrigar o 
#49
dilapidado animal a galopar mais depressa. Foi um milagre o pobre cavalo no se desmontar em questo de segundos.
        Agora, tive oportunidade de examinar os livros que haviam encantado Christopher. Estiquei a mo a esmo e peguei um deles, sem ler o ttulo. Virei rapidamente 
as pginas e legies de insetos achatados, com pernas de centopia, fugiram em todas as direes! Larguei o livro - e depois fitei as pginas soltas que se tinham 
espalhado. Eu detestava insetos: aranhas sobretudo, depois vermes. E os que brotaram daquelas pginas pareciam consistir de uma mescla de ambos.
        Tal comportamento infantil e feminino foi o bastante para deixar Christopher histrico de riso. Quando se acalmou, classificou-me de melindrosa exagerada. 
Os gmeos sofre aram seu fogoso corcel e fitaram-me perplexos. Fui obrigada a recobrar depressa a pose e at mesmo fingir que as mes no
soltam gritinhos ao depararem com alguns insetos.
        - Cathy, voc tem doze anos; j  tempo de crescer. Ningum grita s por ver algumas traas nos livros. Os insetos so parte integrante da vida. Ns, seres 
humanos, somos os senhores que reinam, supremos, sobre o resto da natureza. Essa sala at que no  m: bastante espao, boa quantidade de
janelas grandes, muitos livros e at mesmo alguns brinquedos para os gmeos.
        Sim. Uma velha carroa enferrujada, com um varal quebrado e sem uma o roda - timo! Uma velha motocicleta verde, quebrada tambm - sensacional! No obstante, 
l estava Christopher, olhando ao redor e expressando sua satisfao por haver encontrado uma sala onde as pessoas ocultavam os filhos de modo a no v-los, no 
ouvi-los e talvez mesmo nem pensar neles. E meu irmo a considerava uma sala cheia de possibilidades...
        Naturalmente, algum poderia limpar todos os cantos escuros onde se abrigavam os horripilantes insetos, e espargir tudo com repelente de modo que nenhum 
deles sobrasse para ser esmagado com os ps. Mas como esmagar a av, ou o av? Como transformar uma sala de sto num paraso onde as plantas desabrochassem em flor 
- e no apenas uma priso como o quarto no segundo andar?
        Corri para as janelas de gua-furtada e trepei numa caixa para alcanar o elevado parapeito. Desejava desesperadamente ver o solo, medir a altura em que 
nos encontrvamos acima dele, calcular quantos ossos quebraramos se saltssemos dali. Ansiava por avistar as rvores, o capim onde. cresciam as flores, onde o sol 
brilhava, onde os pssaros voavam, onde havia vida. Todavia, s consegui ver o inclinado telhado de ardsia escura, que se estendia at bem longe da janela, bloqueando 
a vista do solo. Alm do telhado, estavam os topos das rvores; alm das rvores, as montanhas nos cercavam, parecendo pairar acima da nvoa azulada.
        Christopher subiu para o parapeito, ficando a meu lado. Seu ombro, roando no meu, tremia como sua voz ao dizer baixinho:
        - Ainda podemos ver o cu, o sol e,  noite, veremos a lua e as estrelas, E as aves e avies que passem voando. Podemos observ-los, como diverso, at o 
dia em que no tornarmos a subir aqui.
#50
        Parou, aparentemente recordando a noite em que havamos chegado - seria mesmo a noite anterior?
        - Aposto que se deixarmos uma janela aberta por algum tempo, uma coruja ser capaz de entrar. Sempre desejei ter uma coruja como mascote.
        - Pelo amor de Deus! Por que haveria de querer um animal como aquele?
        - As corujas conseguem dar uma volta inteira com a cabea. Voc consegue?
        - Nem quero conseguir.
        - Mesmo que quisesse, no conseguiria.
        - Ora, nem voc! - explodi, querendo obrig-lo a encarar a realidade, como ele insistia em fazer comigo. Nenhuma ave esperta como a coruja haveria de querer 
ficar trancada conosco por um minuto que fosse.
        - Quero uma pipa - declarou Carrie, esticando os braos a fim de ser iada a um local de onde tambm pudesse enxergar l fora.
        - Quero um cachorrinho - disse Cory, antes de olhar pela janela. Ento, esqueceu imediatamente as mascotes, pois comeou a cantarolar: - L fora, l fora, 
Cory quer ir l fora! Cory quer brincar no jardim! Cory quer um balano!
        Carrie no se demorou a imit-lo. Tambm queria ir l fora, para o jardim, brincar nos balanos. E, com sua voz forte, era muito mais persistente em seus 
desejos que o pobre Cory.
        Agora, ambos estavam quase empurrando Christopher e eu pela parede acima, exigindo ir l fora, l fora, l fora!
        - Por que no podemos ir l fora? - berrou Carrie, cerrando os punhos e esmurrando-me o peito. - Ns no gostamos daqui! Cad mame? Cad o sol? Para onde 
foram as flores? Por que faz tanto calor?
        - Ouam! - interrompeu Christopher, agarrando-lhe os pulsos e salvando-me de ficar coberta de equimoses. - Pensem nesse lugar como se fosse l fora. No 
h motivo para no balanarem aqui, como num jardim. Cathy, vamos procurar por a e ver se achamos alguma corda.
        Procuramos. E encontramos corda num velho ba que continha todos os tipos de quinquilharias. Era bastante bvio que os Foxworth no jogavam coisa alguma 
fora: armazenavam o lixo no sto. Talvez temessem ficar pobres algum dia e necessitar de uma hora para outra do que guardavam com tanta avareza.
        Meu irmo mais velho trabalhou com muita diligncia na fabricao de balanos para Cory e Carrie, pois quando temos gmeos, nunca devemos lhes dar apenas 
um exemplar de coisa alguma, mas sempre um par. Com? assentos para os balanos, utilizamos tbuas arrancadas da tampa de um ba. Christopher encontrou uma lixa e 
aparou as farpas das arestas. Enquanto ele fazia tal servio, dei busca no sto at encontrar uma velha escada com alguns degraus faltando, fato que no impediu 
Christopher de alcanar rapidamente as elevadas vigas que sustentavam o telhado. Observei-o trepar com agilidade e movimentar-se l em cima, rastejando com a maior 
naturalidade sobre as vigas
#51
quando cada gesto que fazia colocava-lhe a vida em perigo! Ficou em p sobre uma viga para exibir seus dons de equilibrista. Balanou repentinamente, perdendo o 
equilbrio! Reequilibrou-se. depressa, abrindo os braos, mas meu corao deu um salto. Fiquei apavorada de v-lo correr tanto perigo, arriscando a vida s para 
exibir-se! Nem mesmo um adulto conseguiria obrig-lo a descer de l. Ordenei-lhe que voltasse para o cho, mas ele riu e passou a fazer manobras ainda mais arriscadas. 
Portanto, calei-me e fechei os olhos, procurando apagar as vises em que ele tombava no espao, chocando-se no cho para quebrar os braos, as pernas e - ainda pior 
- a espinha e o pescoo! E ele no precisava fazer aquilo. Eu sabia que era corajoso. J dera ns firmes nas cordas dos balanos; portanto, por que no descia logo 
e dava-me ao corao uma oportunidade de voltar a bater em ritmo normal?
        Christopher levara horas para fabricar os balanos e, agora, arriscava o pescoo para pendur-los. Ento, ele desceu e os gmeos foram sentados nos balanos, 
movimentando-se para frente e para trs, revolvendo o ar empoeirado. Deram-se por satisfeitos durante... talvez... trs minutos.
        Ento, tudo recomeou.
        Carne berrou:
        - Tirem-me daqui! No gosto desses balanos! No gosto daqui! Esse lugar  ruim!
        Mal seus berros cessaram, foi a vez de Cory:
        - L fora, l fora, queremos ir l fora! Vamos para fora! L fora!
        E Carne passou a imit-lo. Pacincia... Eu precisava ter pacincia, grande autocontrole, agir como adulta, no berrar s porque desejava tanto quanto eles 
ir l para fora.
        - Agora, parem com esse barulho! - ralhou Christopher com os gmeos. - Estamos jogando e todos os jogos tm suas regras. A regra principal desse jogo  permanecermos 
aqui dentro e ficarmos o mais quietos possvel.
Berrar e gritar  proibido.
     Suavizou um pouco o tom de voz ao olhar para os rostinhos lacrimosos e sujos que o fitavam.
     - Faam de conta que isso  o jardim sob um lindo cu azul, com as folhagens das rvores l em cima e o sol brilhando no alto. E quando descermos para o andar 
abaixo, aquele quarto ser nossa grande casa, com muitos quartos.
     Lanou-nos a todos um sorriso espirituoso, que nos desarmou.
        - Quando formos ricos como Rockefeller, nunca mais precisaremos voltar a esse sto ou quele quarto no andar de baixo. Viveremos como prncipes e princesas.
        - Acha que OS Foxworth tm tanto dinheiro quanto os Rockefeller? - indaguei incrdula.
        Puxa vida! Poderamos ter de tudo! Ainda assim... ainda assim, sentia-me terrivelmente perturbada... aquela av, algo a respeito dela, o modo como nos tratava 
- como se no tivssemos o direito de estar vivos.
#52
E as coisas horrveis que ela nos dissera: "Esto aqui, mas, na verdade, no existem".
        Vagamos pelo sto, explorando indiferentemente isso e aquilo, at que o estmago de algum roncou. Olhei meu relgio de pulso. Duas horas. Meu irmo mais 
velho lanou-me um olhar quando fitei os gmeos. Devia ter sido o estmago de um deles, pois embora comessem to pouco, seus aparelhos digestivos estavam automaticamente 
regulados para o caf da manh s sete horas, o almoo ao meio-dia, o jantar s cinco e um lanche s sete, antes de irem para a cama.
        - Hora do almoo - anunciei alegremente. 
        Descemos a escada em fila indiana, voltando ao detestvel quarto mal iluminado. Se ao menos pudssemos abrir as cortinas para deixar entrar um pouco de luz 
e animao. Se ao menos...
        Eu poderia ter pensado em voz alta, pois Christopher teve percepo suficiente para dizer que mesmo que as cortinas fossem escancaradas o quarto era voltado 
para o norte e a luz do sol jamais penetraria nele.
        Oh, Deus! E aqueles limpadores de chamins refletidos nos espelhos! Pareciam sados das pginas de Mary Poppins - uma comparao que, feita em voz alta, 
trouxe sorrisos aos rostos sujos dos gmeos. Adoravam ser comparados aos personagens encantados que viviam no seu tipo de livros
ilustrados.
        Uma vez que, desde os primeiros dias de vida, tnhamos sido ensinados a jamais nos sentarmos  mesa para comer se no estivssemos escrupulosa e imaculadamente 
limpos, e j que Deus mantinha pregado em ns Seu olhar penetrante, obedeceramos todas as regras e procuraramos agrad-lo. Ora, Deus no se sentiria realmente 
ofendido se pusssemos Carrie e Cory juntos na mesma banheira - pois ,tinham crescido juntos no mesmo tero, no  mesmo? Christopher encarregou-se de Cory e eu 
ensaboei e enxaguei Carrie. Em seguida, vesti-a, escovei-lhe os cabelos sedosos at brilharem e enrolei-os com os dedos at ficarem espiralados em belos cachos. 
Dando o toque final, atei-os com um lao de cetim verde.         Por outro lado, tambm no faria mal a ningum se Christopher conversasse comigo enquanto eu tomava
banho. No ramos adultos - ainda. Portanto, no era o mesmo que "usarmos" juntos o banheiro. Papai e mame nada viam de errado na pele nua. Todavia, ao lavar o 
rosto, a lembrana da expresso severa e intransigente da av surgiu-me aos olhos. Ela acharia errado.
        - No podemos fazer isso novamente - disse eu a Cristopher. - Aquela av... ela poderia pegar-nos e, depois, pensar que foi maldade nossa.
        Ele meneou a cabea, como se no fizesse muita diferena. Deve ter visto algo em minha expresso que o levou a avanar para a banheira, de modo a poder abraar-me. 
Como adivinhou que eu estava necessitada de ombro no qual chorar? Foi o que fiz.
     - Cathy - sussurrou, enquanto eu soluava com o rosto enterrado em seu ombro. - Pense sempre no futuro e em tudo que teremos quando 
#53
ficarmos ricos. Sempre desejei ser podre de rico para viver como playboy durante algum tempo - pouco tempo -, pois papai dizia que todos devem contribuir com algo 
til e significativo para a humanidade, e eu gostaria de faz-lo. Todavia, antes de ir pata a universidade e cursar a Faculdade de Medicina, eu podia divertir-me 
um pouco, at comear a levar as coisas realmente a srio.
        - Oh, percebo que voc quer fazer tudo que um sujeito pobre no conseguiria. Bem, se  isso que deseja, v em frente. Eu, porm, s quero um cavalo. Toda 
a minha vida sempre quis ter um pnei e nunca moramos numa casa com lugar suficiente para ter um cavalinho. Agora, estou crescida demais
para um pnei, de modo que ter de ser um cavalo. E, naturalmente, durante todo o tempo eu estarei dando duro para ganhar fama e fortuna como a melhor bailarina, 
a grande prima bailarina do mundo inteiro. E voc bem sabe que as bailarinas precisam comer muito, para no se transformarem num monte de pele e ossos, de modo que 
comerei cinco litros de sorvete por dia. E um dia comerei apenas queijo, todas as espcies existentes de queijo, espalhadas em bolachas. Depois, vou querer muitas, 
muitas roupas novas: um traje para cada dia do ano. Usarei cada um deles apenas uma vez e o darei de presente. Ento, ficarei sentada, comendo queijo com bolachas, 
acompanhado de sorvete. E gastarei as banhas danando.
        Ele me acariciava as costas molhadas. Quando virei o rosto para ver seu perfil, parecia sonhador, pensativo.
        - Oua, Cathy: o curto perodo que seremos obrigados a passar trancados aqui no ser to ruim. Nem teremos tempo para nos sentirmos deprimidos, pois estaremos 
ocupados em imaginar maneiras de gastarmos todo o nosso dinheiro. Vamos pedir a mame que nos traga um jogo de xadrez. Sempre desejei aprender a jogar xadrez. E 
poderemos ler; ler  quase to bom como fazer. Mame no permitir que nos entediemos; trar novos jogos e inventar coisas para fazermos. Essa semana passar num 
piscar de
olhos.
        Presenteou-me com um sorriso brilhante:
        - E, por favor, pare de me chamar de Christopher! J no posso mais ser confundido com papai, de modo que daqui por diante serei apenas Chris. Est bem?
        - Est bem, Chris - respondi. - Mas a av... o que voc imagina que ela far se nos pegar juntos no banheiro?
        - Um escndalo dos infernos... e s Deus sabe o que mais.
        No obstante, quando sa da banheira e passei a enxugar-me, comecei a dizer a Chris que no espiasse. Contudo, ele no estava olhando para mim. Vendo-nos 
mutuamente despidos desde que nos lembrvamos, conhecamos bem nossos corpos. E, na minha opinio, o meu era mais bonito: mais
harmonioso.
        Todos usando roupas limpas e cheirando bem, sentamo-nos  mesa para comer nossos sanduches de presunto e tomar a sopa de legumes morna
#54
que estava na garrafa trmica menor. E tnhamos mais leite para beber. Almoar sem doces foi horrvel.
        Chris no parava de consultar furtivamente o relgio. Poderia passar-se muito, muito tempo antes que nossa me aparecesse. Os gmeos andavam inquietos de 
um lado para outro aps terminarmos o almoo. Irritados, expressavam o descontentamento com as coisas desferindo-lhes pontaps e, a intervalos, lanando olhares 
carrancudos a Chris e eu. Chris encaminhou-se ao armrio, tencionando subir para o sto e ir  sala de aulas buscar livros. Fiz meno de acompanh-lo.
        - No! - gritou Carrie. - No subam para o sto! No gosto de l! No gosto daqui! No gosto de nada! No gosto que voc seja minha mame, Cathy! Cad minha 
mame de verdade? Aonde ela foi? Diga a ela para voltar e nos deixar brincar na caixa de areia!
        Correu para a porta do corredor, girou a maaneta e comeou a guinchar como um animal aterrorizado quando a porta no se abriu. Bateu desvairadamente com 
os minsculos punhos nas slidas tbuas de carvalho, enquanto gritava por mame, pedindo-lhe que viesse busc-la e lev-la para fora daquele quarto escuro!
        Corri para tom-la nos braos, enquanto ela esperneava e continuava a gritar. Era como segurar uma gata do mato. Chris agarrou Cory, que correra em socorro 
da irm gmea. Tudo que pudemos fazer foi coloc-los numa das grandes camas, tirar da mala seus livros de estrias ilustradas e sugerir que cochilassem um pouco. 
Lacrimosos e revoltados, ambos nos fitavam raivosamente.
        - J  de noite? - choramingou Carrie, rouca de tanto gritar inutilmente por liberdade e chamar uma me que no atendia. - Quero tanto a minha mame! Por 
que ela no vem??
        - Pedro Coelho - repliquei, pegando o livro de estrias preferido de Cory, com ilustraes coloridas em todas as pginas, fato que, por si, era suficiente 
para torn-lo um grande livro. Livros ruins no tinham ilustraes. Carrie gostava de Os Trs Porquinhos, mas Chris era obrigado a l-lo como papai, fazendo uma 
sonoplastia completa e imitando a voz grossa do lobo. E eu no sabia se ele conseguiria.
        - Por favor, deixem Chris ir ao sto apanhar um livro para ele. Enquanto isso, eu lerei Pedro Coelho para vocs. Veremos se Pedro conseguir entrar na horta 
da fazenda essa noite e comer uma poro de cenouras. Se vocs adormecerem enquanto eu estiver lendo, a estria terminar nos seus sonhos. 
        Passaram-se talvez cinco minutos antes que os gmeos adormecessem. Cory segurava o livro de encontro ao peito, a fim de facilitar o mais possvel a passagem 
de Pedro Coelho para os seus sonhos. Uma sensao suave e clida me dominou, fazendo-me o corao sangrar pelos pequeninos que realmente necessitavam de uma me 
adulta e no com apenas doze anos de idade. Eu no me sentia muito diferente do que quando tinha dez anos. Se a condio de mulher adulta estava logo alm da esquina, 
ainda no aparecera para me fazer sentir madura e 
#55
capaz. Graas a Deus, nossa permanncia ali seria curta, do contrrio o que haveria eu de fazer se os gmeos adoecessem? O que aconteceria se ocorresse um acidente, 
uma queda, um osso fraturado? Se eu batesse com fora na porta trancada, a desprezvel av acorreria ao chamado? No havia telefone no quarto. Se eu clamasse por 
socorro, quem ouviria minha voz daquela ala remota e proibida da casa?
        Enquanto eu tremia, ansiosa, Chris estava na sala de aulas do sto, escolhendo uma pilha de livros empoeirados e cheios de traas para trazer ao quarto, 
a fim de termos o que ler. Trouxramos um tabuleiro de damas e era isso que eu queria jogar - em vez de enfiar o nariz num livro velho.
     - Tome - disse ele, colocando-me nas mos um velho livro e explicando que o limpara cuidadosamente de todas as traas que poderiam lanar-me novamente num estado 
de histeria. - Vamos deixar as damas para mais tarde, quando os gmeos estiverem acordados. Voc bem sabe como reclama quando perde.
        Sentou-se numa confortvel poltrona, passando a perna por cima do brao estofado, e abriu Tom Sawyer. Deitei-me na nica cama desocupada e comecei a ler 
a respeito do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Tvola Redonda. E, por incrvel que parea, naquele dia abriu-se para mim uma porta de cuja existncia eu nem suspeitava; 
um mundo maravilhoso, onde florescia a cavalaria,
existia amor romntico, e lindas donzelas eram colocadas em pedestais e adoradas a distncia. Naquele dia, iniciou-se para mim um caso de amor com a Era Medieval 
- um amor que nunca mais teve fim. Afinal, no eram quase todos os bals baseados nos contos de fadas? E todos os contos de fadas no
eram extrados do folclore medieval?
        Eu era o tipo de criana que procurava fadas danando nos gramados, que desejava acreditar em feiticeiras, magos, duendes, ogres, gigantes e encantamentos. 
No queria ver toda a magia do mundo eliminada pela explicao cientfica. Naquela poca, ainda no sabia que a manso para onde nossa me
nos trouxera era virtualmente uma fortaleza sombria, na qual imperavam uma bruxa e um ogre. Nem imaginava que os magos modernos eram capazes de tecer teias de dinheiro 
para criar feitios...

        A medida que a luz do dia esmaecia por detrs das pesadas cortinas cerradas, sentamo-nos  nossa mesinha para fazer uma refeio de galinha frita (fria) 
e salada de batatas (morna) com ervilhas (frias e engorduradas). Pelo menos, Chris e eu comemos a maior parte de nossa comida, por fria e pouco apetitosa que fosse. 
Os gmeos, porm, limitaram-se a beliscar, reclamando o
tempo todo que a comida estava ruim. Tive a impresso de que se Carrie reclamasse menos Cory teria comido mais.
        Chris entregou-me uma laranja para descascar, dizendo:
#56
        - Laranjas no so esquisitas, nem servidas quentes. Na verdade, as laranjas so sol liquefeito.
        Rapaz! Como ele sabia dizer as coisas certas na hora adequada! Agora,
os gmeos tinham algo que poderiam comer com prazer: sol liquefeito.
        Embora j fosse noite, no havia muita diferena em relao ao dia que passara. Acendemos os quatro abajures e mais uma pequenina lmpada cor-de-rosa, de 
cabeceira, que mame trouxera porque os gmeos no gostavam de dormir no escuro.
     Depois que os gmeos tiraram o cochilo de costume, tornamos a vestilos com as roupas limpa, escovamos-lhes os cabelos e lavamos-lhes os rostos, de modo que 
estavam lindos ao se sentarem no cho e comearem a montar as peas de um quebra-cabeas. Eram quebra-cabeas antigos e eles conheciam exatamente as peas que se 
encaixavam entre si; no se tratava propriamente de um jogo, mas de uma corrida para ver quem achava o maior nmero de peas no menor tempo possvel. Logo a corrida 
para encaixar as peas cansou os gmeos, de modo que fomos todos para uma das camas, onde Chris e eu contamos estrias que amos inventando na hora. Isto tambm 
no demorou a cansar os gmeos, embora meu irmo e eu fssemos capazes de prosseguir, competindo para ver quem tinha mais imaginao. Em seguida, tiramos da mala 
os pequenos carros e caminhes, de modo que os gmeos pudessem engatinhar pelo cho, empurrando veculos de Nova York a So Francisco por um itinerrio que passava 
por debaixo das camas e por entre as pernas da mesa. Num piscar de olhos, estavam sujos outra vez. Quando cansamos daquilo, Chris sugeriu que jogssemos damas, enquanto 
os gmeos podiam transportar cascas de laranja em seus caminhes e descarreg-las na Flrida - que era a cesta de lixo no canto da parede.
     - Pode jogar com as vermelhas - disse Chris em tom condescendente. - No acredito, como voc, que as pretas sejam peas perdedoras.
     Franzi a testa, amuando-me. Tinha a impresso de que se passara uma eternidade entre o amanhecer e o anoitecer - o bastante para mudar-me a ponto de jamais 
voltar a ser o que fora antes.
     - No quero jogar damas! - declarei numa voz malcriada.
     Deixei-me cair numa das camas e desisti de lutar para impedir que minhas idias vagassem por tortuosos becos de sombrios temores e suspeitas, de dvidas insidiosas 
e incmodas, sempre a imaginar se mame nos contara toda a verdade. E, enquanto aguardvamos interminavelmente a chegada de mame, no houve calamidade que no me 
passasse pela mente. Principalmente incndio. O sto era povoado de fantasmas, monstros e outros espectros. Naquele quarto trancado, porm, a maior ameaa era o 
fogo.         E o tempo custava a passar. Chris, sentado na poltrona com seu livro, no parava de consultar disfaradamente o relgio. Os gmeos engatinhavam at 
a Flrida, descarregavam as cascas de laranja e, de repente, ficaram sem saber para onde ir. No havia oceanos a cruzar, pois no tnhamos trazido os barquinhos. 
Por que no trouxramos os barcos?
#57
        Lancei um olhar aos quadros que descreviam o inferno e todos os seus
tormentos, admirando-me de quanto a av era cruel e esperta. Por que tinha ela que pensar em tudo? No era justo que Deus mantivesse o olhar vigilante pregado em 
quatro crianas, quando l fora, no mundo, havia tanta gente fazendo pior. No lugar de Deus, com Sua perspectiva de viso total, eu no perderia tempo vigiando quatro 
crianas rfs de pai trancafiadas num quarto;
ocupar-me-ia em observar coisas muito mais interessantes. Alm disso, papai estava no cu - ele faria Deus cuidar de ns e perdoar-nos alguns pequenos erros.
        Ignorando. minha atitude de amuo e minhas objees, Chris deixou o livro de lado e foi buscar a caixa de jogos, que continha apetrechos suficientes para 
quarenta jogos diversos.
        - O que h com voc? - indagou ele, comeando a arrumar as peas redondas, vermelhas e pretas, no tabuleiro de damas. - Por que est to calada e temerosa? 
Tem medo de perder outra vez?
        Jogos! Eu no estava pensando em jogos. Relatei-lhe o que pensara sobre um incndio e minha idia de rasgar os lenis em tiras para fazer uma espcie de 
escada de cordas que alcanasse o solo, como costumvamos ver
nos filmes antigos. Ento, se houvesse um incndio - talvez naquela mesma noite, quem sabe? - teramos um meio de chegar ao solo se quebrssemos uma janela e cada 
um atasse s costas um dos gmeos.
        Eu nunca vira os olhos azuis de Chris demonstrarem tanto respeito e brilharem de admirao.
        - Ora, que idia fantstica, Cathy! Sensacional!  exatamente o que faremos se houver um incndio, o que no acontecer. De qualquer maneira,  bom saber 
que voc no se portar como uma menina chorona, afinal. O fato de pensar no futuro e fazer plano para contingncias inesperadas demonstra
que voc est crescendo e isso me agrada.
        Puxa vida! Aps doze anos de grande esforo, eu afinal conseguira captar seu respeito e aprovao, atingindo um objetivo que eu chegara a julgar impossvel. 
Era gostoso saber que podamos dar-nos bem trancados num local to confinado. Os sorrisos que trocamos foram uma promessa de que, juntos, conseguiramos sobreviver 
at o final da semana. Nossa recm-descoberta camaradagem trazia-nos alguma segurana, um pouco de felicidade  qual nos apegarmos, como se trocssemos um aperto 
de mos.
        - Ento, o que encontramos foi destrudo, arrasado. Nossa me entrou no quarto, andando de modo muito esquisito, com uma estranha expresso no rosto. Esperramos 
tanto seu retorno e, de algum modo, estarmos novamente juntos dela no nos proporcionava a alegria prevista. Talvez fosse simplesmente a av, que entrou logo atrs 
dela, quem matou nosso entusiasmo com seus olhos cinzentos, duros, implacveis e maus...
        Ergui a mo aos lbios. Algo terrvel acontecera. Eu sabia! Tinha certeza!
        Chris e eu estvamos sentados numa cama, jogando damas e, a intervalos, encarando-nos enquanto amarrotvamos distraidamente a colcha.
#58
        Uma regra violada... No, duas... Olharmo-nos era proibido, assim como amarrotarmos a colcha.
        E os gmeos tinham peas de quebra-cabeas aqui e acol, carrinhos e bolas de gude espalhados por toda parte. Portanto, o quarto no estava exatamente arrumado 
e em ordem.
        Trs regras violadas.
        E meninos e meninas tinham usado juntos o banheiro.
        E talvez at mesmo tivssemos violado outra regra, pois sempre pressentimos - no importa o que fizssemos - que Deus e a av mantinham entre si alguma comunicao 
secreta.

A Ira Divina

        Naquela primeira noite, mame entrou no nosso quarto com os lbios comprimidos e as juntas rgidas, como se o menor movimento lhe provocasse dores. O rosto 
bonito apresentava-se plido e inchado; os olhos inflamados e vermelhos. Aos trinta e trs anos de idade, fora humilhada por algum a ponto de no poder encarar 
outras pessoas. Parecendo derrotada, desolada, humilhada, ficou em p no centro do quarto, como uma criana brutalmente castigada. Impensadamente, os gmeos correram 
para receb-la, abraando-lhe entusiasticamente as pernas, rindo e gritando, cheios de felicidade:
        - Mame! Mame! Onde voc estava?
        Chris e eu nos aproximamos, abraando-a com certa hesitao. Mame parecia ter permanecido ausente por mais de uma dcada e no apenas por um dia, mas representava 
nossa esperana, nossa realidade, nosso elo de ligao com o mundo l fora.
        Ser que a beijamos demais? Teriam nossos abraos ansiosos, vidos, demorados, feito que ela franzisse a testa de dor, ou do peso das obrigaes? Enquanto 
grossas lgrimas lhe escorriam vagarosamente pelo rosto plido, julguei que ela chorasse apenas de piedade que sentia por ns. Quando nos sentamos, todos querendo 
ficar o mais perto dela possvel, escolhemos uma das grandes
camas de casal. Mame pegou os gmeos no colo, de modo que Chris e eu pudssemos ficar bem perto dela, um de cada lado. Examinou-nos, elogiou nossa higiene e sorriu 
ao ver a fita de cetim verde que eu colocara nos cabelos de Carrie, para combinar com as listras verdes de seu vestido. Quando falou, tinha a voz rouca, como se 
estivesse gripada ou tivesse engolido o famoso sapo da fbula:
        - Agora, falem com franqueza: como passaram o dia?
        Cheio de ressentimento, Cory franziu os lbios, demonstrando mudamente que seu dia no fora bom. Carrie traduziu em palavras o ressentimento que vinha reprimindo 
at ento.
#59
        - Cathy e Chris so malvados - berrou num tom que nada tinha de gorjeio. - Obrigaram-nos a ficar aqui dentro o dia inteiro. .No gostamos daquele lugar grande 
e sujo que eles acham maravilhoso! No  maravilhoso, mame!
        Perturbada, com aparncia dolorida, mame tentou acalmar Carrie, dizendo aos gmeos que as circunstncias haviam mudado e agora eles teriam que obedecer 
os irmos mais velhos, considerando-os como pais.
        - No! No! - protestou a menina ainda mais furiosa, com o rosto muito vermelho. - Detestamos isso aqui! Queremos o jardim; aqui  escuro! Mame, no queremos 
Chris e Cathy, queremos voc! Leve-nos para casa!
Tire-nos daqui!
        Carrie bateu em mame, em mim, em Chris, gritando que queria voltar para casa. Mame permaneceu imvel, sem tentar defender-se, aparentemente surda e sem 
saber como controlar uma situao dominada por uma menina de cinco anos. Quanto mais mame ficava calada, mais Carrie berrava. Tapei os
ouvidos com as mos.
        - Corrine! - ordenou a av. - Obrigue essa criana a calar-se imediatamente!
        Bastou-me olhar para o rosto da av e compreendi, pela expresso fria como pedra, que ela sabia muito bem como obrigar Carrie a calar-se - e imediatamente. 
Todavia, sentado no outro joelho de mame estava um menino cujos olhos se arregalaram ao fitar a alta av - algum que lhe ameaava a irm gmea. Esta pulara do 
colo de mame e se postara diante da av, com os pequenos ps bem afastados e firmemente plantados no cho. Ento, atirando a cabea para trs, Carrie abriu a boquinha 
carnuda e deixou cair pra valer! Como uma estrela de pera que reserva o melhor para o gran finale da ria, abriu o peito e seus berros anteriores pareceram simples 
miados de uma gatinha. Agora, Carrie era uma tigresa - enfurecida!
        Oh, rapaz! Fiquei impressionada, estarrecida, apavorada com o que aconteceria em seguida.
        A av agarrou Carrie pelos cabelos, levantando-a o suficiente para fazer
Cory pular do colo de mame. Com a agilidade e rapidez de um gato, ele deu um bote contra a av! Mais depressa que consegui piscar, mordeu-lhe a perna! Encolhi-me 
instintivamente, sabendo que agora estvamos numa enrascada. A av lanou um rpido olhar a Cory e sacudiu-o longe como se fosse um cozinho recm-nascido. Contudo, 
a dentada obrigou-a a largar os cabelos de Carrie. A menina caiu ao cho, levantou-se depressa e desferiu um pontap, errando por pouco a perna da av.
        No querendo perder para a irm gmea, Cory levantou seu pequeno sapato branco, apontou com cuidado e chutou a canela da av com toda a sua fora.
        Nesse nterim, Carrie correra para o canto, onde se encolheu e comeou a gritar como um fantico com as roupas em chamas!
        Oh, foi mesmo uma cena digna de ser gravada e relembrada.
#60
        At o momento, Cory no dissera uma palavra nem produzira um som, agindo ao seu modo silencioso e decidido. Mas ningum ia machucar ou ameaar sua irm gmea 
- mesmo que esse "ningum" tivesse quase um metro e oitenta de altura e pesasse aproximadamente cem quilos! E Cory era bem pequeno para a idade que tinha.
        Se, por um lado, Cory no gostava do que acontecia a Carrie nem da potencial ameaa contra ele prprio, por outro a av tambm no gostava do que estava 
acontecendo a ela! Fitou enraivecida o rostinho desafiador e irado que a encarava. Esperou que Cory se encolhesse, mudasse a expresso do rosto, eliminasse o desafio 
dos olhos azuis; mas Cory permaneceu diante dela na mesma atitude decidida, ousada, provocando-a a fazer o pior. Os lbios finos e descoloridos da av comprimiram-se 
numa tortuosa risca de lpis.   
  A mo dela se ergueu - uma mo enorme, pesada, faiscando de anis de brilhante. Cory no se acovardou; sua nica reao ante aquela ameaa to bvia foi tornar-se 
ainda mais carrancudo e cerrar os pequenos punhos, levantando-os na postura de um boxeador profissional pondo-se em guarda.
        Oh, meu Deus! Julgar-se-ia ele capaz de enfrent-la - e venc-la?
        Ouvi mame chamar o nome de Cory .Tinha a voz to estrangulada que no passava de um sussurro. 
        J decidida quanto  sua linha de ao, a av desferiu contra o rostinho redondo, desafiador e infantil de Cory uma violenta bofetada, que o fez rodopiar! 
Cambaleando para trs, Cory caiu ao cho mas levantou-se num timo, girando  procura de um novo mtodo de ataque contra aquela detestvel e 
enorme montanha de carne. Sua indeciso foi digna de piedade. Ele vacilou, reconsiderou e, afinal, o bom senso prevaleceu sobre a raiva. Meio correndo, meio engatinhando, 
correu para o canto onde Carrie se encolhera e abraou-a. Ficaram abraados, de joelhos, os rostos unidos. Ento, Cory somou seus gritos aos da irm gmea!
        A meu lado, Chris resmungou algo que parecia uma prece.
        - Corrine, so seus filhos, faa-os calar a boca! J!
        Todavia, era praticamente impossvel conter os gmeos depois que eles comeavam. Argumentos jamais lhes chegavam aos ouvidos. Escutavam apenas o prprio 
terror e, como brinquedos mecnicos, berravam at a corda terminar, por pura exausto fsica.
        Quando papai era vivo e sabia como lidar com tais situaes, pegava-os como sacos de milho, um sob cada brao, e carregava-os para o quarto, repreendendo-os 
severamente e prometendo que, se no - calassem a boca, ficariam trancados no quarto, sem televiso, sem brinquedos, sem coisa alguma. Sem uma platia para presenciar-lhes 
o desafio e os berros impressionantes, os gritos raramente perduravam por mais que poucos minutos aps a porta do quarto se fechar sobre os gmeos. Ento, eles saam 
cabisbaixos, calados e obedientes, subiam ao colo de papai e murmuravam com grande humildade:
        - Desculpe.
        Mas papai estava morto. No existia um quarto afastado onde eles pudessem gastar a corda. Aquele nico quarto era nossa manso e ali os gmeos
#61
se encontravam cativos, diante de uma platia dolorosamente eletrizada. Berraram at que os rostos mudaram do rosa para o vermelho, do vermelho para o magenta e, 
finalmente, para o prpura. Em conseqncia de seus esforos conjuntos, os olhos azuis se vidraram, perdendo o foco. Oh, foi mesmo um grande espetculo - e uma grande 
tolice!
        Aparentemente, at o momento nossa av ficara mesmerizada por tal demonstrao. Ento, o que a mantivera imvel desfez o feitio. Reviveu repentinamente. 
Com ar decidido, encaminhou-se ao canto onde estavam encolhidos os gmeos. Curvou-se para levantar impiedosamente pelas golas as duas crianas que berravam. Mantendo-as 
afastadas de si com os braos esticados, enquanto elas esperneavam, gritavam, golpeavam com os braos e tentavam inutilmente atingir a velha que as atormentava, 
levou-as  nossa mame. Ento, os gmeos foram largados no cho como lixo indesejvel. Numa voz firme
e sonora, que dominava os berros das crianas, a av declarou implacavelmente:
        - Se no pararem de gritar imediatamente, vou aoit-los at arrancar-lhes sangue da carne!
        O tom desumano, somado ao frio poder daquela terrvel ameaa, convenceu os gmeos - e a mim, tambm - de que ela faria exatamente o que prometia. Perplexos 
e horrorizados, os gmeos fitaram-na e - boquiabertos - engoliram os berros. Sabiam o que era sangue e conheciam a dor de um ferimento. Magoava-me v-los tratados 
de forma to brutal, como se a av pouco
se importasse de quebrar ossos frgeis ou ferir carnes tenras. De p, ela nos
dominava como uma torre. Ento, girou e disse com aspereza  nossa me:
        - Corrine, no admitirei a repetio de uma cena to revoltante!  bvio que seus filhos foram mimados, estragados e necessitam desesperadamente de boas 
lies de disciplina e obedincia. Nenhuma criana que morar nessa casa desobedecer, gritar ou mostrar desafio. Oua bem! Eles s falaro quando lhes dirigirem 
a palavra. Pularo para obedecer minhas ordens. Agora,
filha, tire a blusa e mostre aos que desobedecem como o castigo  aplicado
nessa casa!
        Enquanto ela falava, nossa me se pusera de p. Empalideceu como cera, parecendo diminuir de tamanho em seus sapatos de salto alto.
        - No! - balbuciou.  - Isso no  necessrio, agora... Veja, os gmeos
se calaram... esto obedecendo.
        O rosto da velha assumiu uma expresso muito dura.
        - Corrine, ser bastante insensata para desobedecer? Quando eu lhe disser para fazer alguma coisa, obedea sem discutir! E imediatamente! Veja os filhos 
que criou: crianas fracas, mimadas, desobedientes, todas quatro! Pensam que basta gritarem para conseguir o que desejam. Aqui, os gritos de nada lhes serviro. 
 melhor saberem que no existe piedade para os que violam as regras estabelecidas por mim. Voc devia saber, Corrine. Alguma vez j lhe dei perdo? Mesmo antes 
de voc nos trair, alguma vez permiti que sua carinha bonita e maneiras insinuantes detivessem o peso da minha mo? Oh, lembro-me de quando seu pai lhe queria bem 
e se voltava contra mim para defend-la.
#62
Mas esses dias terminaram. Voc provou a seu pai que  exatamente o que eu sempre declarei que voc era: um monte de lixo, falsa e mentirosa!
        Voltou os olhos impiedosos para Chris e eu.
        - Sim, voc e seu meio-tio fizeram filhos muito bonitos. Sou forada a admitir isso, embora eles jamais devessem ter nascido. Por outro lado, parecem-me 
no passar de molenges inteis e insignificantes!
        Seu olhar malvado examinou desdenhosamente nossa me, como se houvssemos herdado dela todos esses defeitos imperdoveis. Todavia, ela ainda no terminara.
        - Corrine, decididamente seus filhos precisam de uma lio objetiva. Quando observarem o que aconteceu  me deles, no mais tero dvidas quanto ao que 
poder acontecer-lhes.
     Vi minha me empertigar-se, enrijecendo a espinha, encarando bravamente a mulher grande e ossuda que era pelo menos dez centmetros mais alta que ela e muitos, 
muitos quilos mais pesada.
        Em voz trmula, mame declarou:    
        - Se for cruel para meus filhos, eu os levarei dessa casa ainda hoje e voc nunca mais tornar a v-los! Nem a mim!
        Pronunciou as palavras em tom de desafio, erguendo o rosto lindo e encarando com alguma ferocidade a enorme mulher que era sua me!
        O desafio de mame foi recebido com um leve sorriso, tenso e frio, No; no era um sorriso, mas uma
expresso de zombaria.
        - Pois leve-os daqui - agora! E v com eles, Corrine! Pensa que me importo de nunca mais ver seus filhos ou de ouvir falar de voc?
        Os olhos azuis de boneca de porcelana alem de nossa me enfrentaram os olhos cinzentos de ao de nossa av, enquanto ns, crianas, observvamos. Por dentro, 
eu gritava de alegria. Mame nos levaria dali. amos embora! Adeus, quarto trancado! Adeus, sto poeirento! Adeus, milhes de dlares
que eu no quero!
        Todavia, enquanto eu aguardava, observando, que mame girasse nos calcanhares e fosse direto ao armrio apanhar
nossas malas, o que vi foi o desmoronar das 
coisas nobres e boas que existiam em nossa me. Esta baixou os
olhos, derrotada, curvando lentamente a cabea para ocultar a expresso de
seu rosto.
        Abalada e trmula, vi a zombaria da av transformar-se num largo e cruel sorriso vitorioso. Mame! Mame! Mame! Minha alma clamava. No permita que ela
lhe faa isso!
        - Agora, Corrine, tire a blusa!
        Devagar, relutantemente, o rosto branco como a morte, mame virou-se e nos apresentou as costas. Um violento tremor percorreu-me a espinha. Ela ergueu rigidamente 
os braos. Com grande dificuldade, cada boto de sua blusa branca foi aberto. Cuidadosamente, ela baixou a blusa, expondo as costas.
        No estava usando combinao ou suti por baixo da blusa e foi fcil perceber o motivo. Escutei Chris prender repentinamente a respirao. Carrie e Cory 
tambm devem ter visto, pois seus choramingos chegaram-me aos ouvidos. 
#63
Agora, compreendi por que mame, 
normalmente to graciosa, entrara to rgida no quarto, os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar.
        Suas costas estavam riscadas por  compridas marcas vermelhas transversais, que desciam desde o pescoo e continuavam alm do cs da saia azul. Algumas das 
marcas mais inchadas estavam cobertas de sangue coagulado. Praticamente no havia um centmetro quadrado de pele intacta entre as hediondas marcas de chibata.
        A av, insensvel, ignorando nossas sensibilidades e no dando importncia  situao de nossa me, proclamou novas instrues:
        - Olhem bem e demoradamente, crianas. Saibam que essas marcas de chicote descem at os ps de sua me. Trinta e trs chibatadas, uma por cada ano de sua 
vida. E quinze chibatadas extras por cada ano que ela viveu com seu pai, em pecado. Foi seu av quem ordenou essa punio, mas fui eu quem manipulou o chicote. Os 
crimes de sua me so contra Deus e contra os princpios morais que regem a vida da sociedade. O casamento dela foi pecaminoso; um sacrilgio! Um casamento que constituiu 
uma abominao aos olhos do Senhor. E, como se isso no bastasse, eles tiveram que gerar filhos: quatro! Filhos gerados do Demnio! Filhos malditos desde o momento 
da concepo!
        Meus olhos esbugalhavam-se  vista daquelas marcas terrveis na carne tenra e pele sedosa que nosso pai manuseara com tanto amor e ternura. Naufraguei num
rodamoinho de incerteza, sangrando por dentro, sem saber quem ou o que eu era, se tinha o direito de estar vivendo numa terra reservada pelo Senhor para os que nasceram
com suas bnes e permisso. Perdramos nosso pai, nossa casa, nossos amigos, nossas
posses. Naquela noite, eu j no acreditava que Deus fosse o juiz perfeito.
Portanto, sob certo aspecto, naquela noite eu tambm perdi Deus.
        Desejava ter nas mos um chicote para aoitar aquela velha que arrancara impiedosamente tanto de ns. Olhei para os cortes nas costas de mame e jamais senti 
tanto dio ou ira. dio no s pelo que ela fizera  nossa me, mas tambm pelas horrveis palavras que lhe brotavam da boca maldosa.
        Ento, a detestvel velha me encarou, como se adivinhasse o que eu sentia. Devolvi-lhe desafiadoramente o olhar, esperando que ela pudesse ver como eu negava, 
daquele momento em diante, nossa relao de parentesco - no s com ela, mas tambm com aquele velho l embaixo. Nunca mais eu me apiedaria dele.
        Talvez, naquele instante, meus olhos fossem apenas de vidro, revelando as engrenagens de vingana que me funcionavam no ntimo e que eu jurava um dia libertar. 
Talvez ela percebesse algo vingativo neles, pois suas palavras seguintes foram dirigidas exclusivamente a mim, embora ela usasse o termo "crianas".
        - Como esto vendo, crianas, essa casa  capaz de ser inflexvel e impiedosa ao lidar com aqueles que desobedecem e violam nossas normas. Daremos alimento, 
bebida e abrigo, mas nunca bondade, compreenso ou amor. 
impossvel sentir algo alm de repulsa pelo que no  puro. Obedeam minhas regras e no sentiro a mordida do meu chicote, nem sero privados de suas 
#64
necessidades. Atrevam-se a desobedecer-me e logo aprendero tudo o que sou capaz de lhes fazer e tudo de que lhes posso privar.
        Olhou sucessivamente para cada um de ns.
        Sim, ela quis destruir-nos naquela noite, quando ramos jovens, inocentes e confiantes, pois s havamos conhecido o lado bom da vida. Queria secar-nos as 
almas, murchar-nos totalmente, talvez para nunca mais tornarmos a sentir orgulho.
        Mas no nos conhecia.
        Ningum jamais conseguiria fazer-me odiar meu pai ou minha me! Ningum jamais teria poder de vida ou morte sobre mim - no enquanto eu estivesse viva e 
pudesse lutar!
        Lancei um olhar de esguelha a Chris. Ele tambm fitava a velha. Seus olhos percorriam-na de alto a baixo, estudando os danos que ele poderia causar se a 
atacasse. Mas Chris tinha apenas quatorze anos. Precisaria tornar-se um homem adulto para derrotar uma mulher daquele tipo. No obstante, suas mos se cerraram em 
punhos, que ele se esforava por manter colados ao corpo. A fora que fazia para controlar-se comprimia-lhe os lbios numa linha
to fina e dura quanto os lbios
da av. S seus olhos permaneciam frios, duros como gelo azul.
        De todos ns, Chris era o que mais gostava de nossa me. Colocara-a no
topo de um elevado pedestal de perfeio, considerando-a a mulher mais querida, mais carinhosa, mais compreensiva do mundo. J me dissera que quando crescesse casar-se-ia 
com uma mulher como nossa me. No obstante, agora s podia encarar ferozmente a velha, pois era jovem demais para fazer outra coisa.
        Nossa av nos lanou um ltimo olhar prolongado e desdenhoso. Ento, num gesto violento, colocou a chave da porta na mo de mame e saiu do quarto.
        Uma indagao se elevava muito acima de todas as outras:
        Por qu? Por que framos levados quela casa?
        No era um porto seguro, no era um abrigo, no era um refgio. Certamente, mame j deveria saber que seria assim e, no obstante, conduzira-nos at l 
na calada da noite. Por qu?

A Histria de Mame

        Depois que a av saiu do quarto, ficamos sem saber o que fazer, dizer ou sentir, exceto deixar-nos dominar pelo sofrimento e amargura. Meu corao batia
descompassadamente enquanto eu observava mame vestir a blusa, aboto-la e enfi-la pelo cs da saia antes de virar-se para exibir um sorriso trmulo que tentava
reconfortar-nos.
#65
 lastimvel que eu visse naquele sorriso uma palha para agarrar no meio do oceano... Chris fitava o cho; seu tormento interior traduzia-se no movimento do p que
acompanhava diligentemente, com a ponta do sapato, os intrincados arabescos do tapete oriental.
        - Agora, escutem - disse mame com uma animao forada. - Foi s  uma vara de salgueiro e no doeu muito. Meu orgulho sofreu mais que a carne.
 humilhante
ser surrada como uma escrava, ou animal, pelos prprios pais. Mas no se preocupem com uma eventual repetio do fato, porque ela
jamais ocorrer. Foi s essa vez. Eu sofreria mais cem vezes essas marcas de espancamento para reviver os quinze anos de felicidade que tive com seu pai e com vocs. 
Embora me faa sangrar a alma, ela me obrigou a mostrar-lhes o que eles me fizeram...
        Sentou-se na cama e abriu os braos, de modo que pudssemos todos aninharmo-nos ali e sermos reconfortados por ela. Tive o cuidado de no tornar a abra-la, 
a fim de evitar causar-lhe mais dor. Mame colocou os gmeos no colo e bateu com as palmas das mos na cama, para indicar que devamos
ficar bem perto dela. Ento, comeou a falar. Obviamente, o que ela relatou
foi difcil dizer e igualmente difcil para ns escutar.
        - Quero que escutem com a mxima ateno e relembrem pelo resto da vida o que vou contar-lhes esta noite.
        Fez uma pausa, hesitando ao correr os olhos pelo quarto e fitar as paredes como se fossem transparentes e, atravs delas, conseguisse ver todos os cmodos 
da gigantesca casa.
        - Esta  uma casa estranha e as pessoas que nela moram so ainda mais estranhas, no os criados, mas meus pais. Eu deveria ter-lhes prevenido de que seus 
avs so fanticos religiosos. Acreditar em Deus  uma boa coisa,  uma coisa certa. Mas, quando as pessoas reforam essa crena com palavras meticulosamente rebuscadas 
no Velho Testamento e interpretadas do modo que lhes for mais conveniente, isso  hipocrisia. E  exatamente o que fazem meus pais. Meu pai est realmente moribundo, 
mas todos os domingos  levado  igreja; na cadeira de rodas, se estiver melhor, ou numa maca, se estiver pior. E paga o dizimo, um dcimo de sua renda anual, que 
 considervel.
Portanto,  natural que seja muito bem recebido. Ele pagou a construo da igreja, comprou os vitrais de todas as janelas, controla o pastor e os sermes, pois est 
pavimentando com ouro seu caminho para o cu e, caso So Pedro seja subornvel, meu pai certamente j garantiu o direito de entrar. Naquela igreja, ele  tratado 
como um deus, ou como um santo vivo. Depois, volta para casa, sentindo-se completamente justificado em fazer tudo o que deseje, pois j cumpriu seu dever, pagou 
a pavimentao do caminho e, portanto, est livre do inferno. Quando eu estava crescendo, com meus dois irmos mais velhos, ramos literalmente forados a ir  igreja. 
Mesmo se estivssemos doentes a ponto de ficar de cama, tnhamos que ir. A religio era enfiada por nossas goelas abaixo. Seja bom, seja bom, seja bom, eis tudo 
o que ouvamos, sem cessar. Prazeres cotidianos, normais, que eram bons para
outras pessoas transformavam-se em pecados para ns. Meus irmos e eu no 
#66
tnhamos permisso para nadar, pois isso significaria usar roupas de banho e expor grande parte de nossos corpos. ramos proibidos de jogar cartas ou quaisquer outros 
tipos de jogos que se prestassem a apostas. No podamos ir a bailes porque, para danar, teramos de aproximar o corpo de algum pertencente ao sexo oposto. Recebamos 
ordens para controlarmos nossos pensamentos, afastando-os da luxria e assuntos pecaminosos, pois nossos pais
afirmavam que os pensamentos so to maus quanto os atos. Oh, eu poderia continuar durante horas relatando as proibies a que estvamos sujeitos, pois parece que 
tudo o que poderia ser divertido e excitante era pecado para eles. E h algo nos jovens que os leva a revoltar-se quando a vida 
tornada estrita e controlada demais, fazendo-nos desejar acima de tudo as coisas que nos so proibidas. Nossos pais, ao procurarem obrigar seus trs filhos a se 
portarem
como anjos, ou santos, s conseguiram tornar-nos pior do que teramos sido se criados de outra maneira.
        Arregalei os olhos, arrebatada pela narrativa. Todos ns estvamos assim. At os gmeos.
        - Ento - prosseguiu mame -, certo dia, em meio a essa situao, um belo jovem veio morar conosco. O pai dele era meu av e morrera quando o rapaz tinha 
apenas trs anos de idade. A me do rapaz chamava-se Alcia e tinha apenas dezesseis anos ao casar-se com meu av, que, na poca do casamento, tinha cinqenta e 
cinco. Assim, quando deu  luz o menino, ela de veria ter vivido o bastante para v-lo tornar-se um homem. Infelizmente, Alcia morreu muito jovem. O nome de meu 
av era Garland Christopher Foxworth e, quando ele morreu, metade do esplio deveria caber a seu filho mais moo, ento com trs anos de idade. Mas Malcolm, meu 
pai, assumiu o controle do esplio do pai do menino, fazendo-se nomear curador, pois, naturalmente, uma criana de trs anos no poderia ter voz ativa no assunto 
e Alcia no teve direito a voto que indicasse um curador para o filho. Meu pai, uma vez que ficou com a faca e o queijo nas mos, deu um pontap em Alcia e no 
menino. Estes fugiram para Richrnond, onde moravam os pais de Alcia. Esta residiu l at casar-se pela segunda vez. Teve alguns anos de felicidade com um jovem 
que amava desde a infncia e, ento, este morreu tambm.
Duas vezes casada, duas vezes viva, com um filho pequeno e, agora, rf de pai e me. Pouco depois, encontrou um caroo no seio e veio a falecer de cncer alguns 
anos mais tarde. Foi quando o filho dela, Garland Christopher Foxworth, o quarto do mesmo nome, veio morar aqui. Nunca o chamamos
de outro nome seno Chris.
        Mame hesitou e apertou os braos em torno de Chris e eu.
        - Sabem de quem estou falando?  Adivinharam quem era o tal jovem?
        Estremeci. O misterioso meio-tio. E sussurrei:
        Papai... voc est falando de papai.
        - Sim - confirmou ela, suspirando fundo.
 Debrucei-me para olhar meu irmo mais velho, que permanecia imvel, uma expresso muito esquisita no rosto e olhos vidrados.
        Mame continuou:
#67
        - Seu pai era meu meio-tio, mas apenas trs anos e meio mais velho que eu. Lembro-me da primeira vez em que o vi. Eu sabia que ele viria, o meio-tio que 
eu jamais vira e de quem no ouvira falar muito, e desejava dar-lhe uma boa impresso, de modo que passei o dia inteiro me arrumando, fazendo
permanente no cabelo, tomando banho e vestindo-me com as roupas que eu julgava serem as mais bonitas e elegantes que possua. Eu tinha quatorze anos e essa  a idade 
em que as garotas comeam a sentir o poder que exercem sobre os homens. Eu sabia ser o que a maioria dos rapazes considerava bonita e creio que, de certo modo, estava 
madura para me apaixonar. Seu pai tinha
dezessete anos. Era final de primavera e ele estava de p no centro do vestbulo, com duas maletas perto dos sapatos surrados. Suas roupas pareciam muito usadas 
e apertadas para ele. Meus pais estavam com ele, mas o rapaz virava-se para todos os lados, olhando tudo, perplexo ante a demonstrao de riqueza. Eu, por mim, jamais 
prestei muita ateno ao que me cercava. Estava ali e eu aceitava como parte de minha herana, at que casei e passei a levar uma
vida de pobreza, mal me dei conta de que fora criada num lar excepcional. Compreendam: meu pai  um "colecionador". Compra tudo que seja considerado uma obra de 
arte mpar, no porque aprecie arte, mas porque gosta de possuir coisas. Gostaria de possuir tudo, se possvel; especialmente
coisas bonitas. Eu cheguei a pensar que fizesse parte de sua coleo de objets d'art... e ele pretendia guardar-me para si, no por prazer, mas a fim de evitar que 
os outros extrassem prazer do que lhe pertencia.
        O rosto corado, os olhos fitando o espao, aparentemente revivendo aquele dia excepcional em que um jovem meio-tio entrou em sua vida, minha me prosseguiu:
        - Seu pai veio at ns to inocente, ingnuo, carinhoso e vulnervel, pois s conhecera afeio honesta, amor genuno e uma grande pobreza material. Mudou-se 
de uma casa com quatro cmodos para essa manso imensa e grandiosa, que lhe esbugalhou os olhos e lhe ofuscou as esperanas. Julgou ter tropeado na boa sorte, num 
paraso terrestre. Fitava meus pais com toda a
gratido a transbordar-lhe dos olhos. Hah! A pena que sinto pela sua gratido ao ser recebido aqui di-me no peito at hoje. Na verdade, metade do que ele estava 
vendo deveria pertencer-lhe, de pleno direito. Meus pais fizeram o possvel para que ele se sentisse como um parente pobre. Avistei-o ali, parado  luz do sol, e 
estaquei no meio da escada. Uma aura de luz prateada formava
um halo em torno de seus cabelos dourados. Era lindo. No apenas bonito, mas lindo. Existe uma diferena, vocs sabem. A verdadeira beleza se irradia de dentro para 
fora e ele a possua.
        - Produzi algum leve rudo que o fez erguer a cabea e seus olhos azuis
se iluminaram, oh, eu bem me lembro de como se iluminaram! e, ento, fomos apresentados e a luz de seus olhos se extinguiu. Eu era sua meia-sobrinha e, portanto, 
proibida. Ele ficou to desapontado quanto eu. A partir
daquele dia, eu na escada e ele no vestbulo, acendeu-se entre ns uma centelha, uma minscula brasa ardente que viria a crescer cada vez mais, at que nenhum de 
ns dois conseguiu continuar a neg-la. No tenciono embara-los com o 
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relato de nosso romance - disse ela, meio sem jeito, quando mudei de posio e Chris virou a cabea para esconder o rosto. - Basta dizer que, conosco, foi amor  
primeira vista, pois isso s vezes acontece. Talvez ele estivesse no ponto para apaixonar-se, como eu estava, ou talvez fosse por estarmos ambos necessitados de
algum que nos desse carinho e afeto. A essa altura, ambos os meus irmos mais velhos j tinham morrido em acidentes; eu tinha poucos amigos, pois ningum "servia"
para a filha de Malcolm Foxworth. Eu era a jia, o deleite de meu pai; se algum dia um homem me tirasse dele, teria que ser por um preo muito elevado. Assim, seu
pai e eu nos encontrvamos furtivamente nos jardins e ficvamos apenas sentados, conversando durante horas  fio; s vezes, ele me empurrava num balano, ou eu o 
empurrava; s vezes, ficvamos em p no balano, impulsionando-o com as pernas, fitando-nos  medida que subamos cada vez mais alto. Ele revelou todos os seus segredos 
e eu lhe revelei todos os meus. Em breve, tinha que
acontecer: fomos obrigados a confessar que nos amvamos profundamente e, certo ou errado, precisvamos casar-nos. E tnhamos que fugir dessa casa e escapar ao domnio 
de meus pais antes que nos transformassem em duplicatas deles, pois era esse seu objetivo: tomar o pai de vocs e mud-lo, fazendo-a pagar pelo mal que sua me cometera 
ao casar-se com um homem to mais idoso que ela. Deram-lhe tudo; isso eu admito. Trataram-no como se fosse um filho, pois ele estava destinado a substituir os dois 
filhos homens que eles haviam perdido. Mandaram-no estudar na Universidade de Yale e ele foi um aluno brilhante. Sua inteligncia foi herdada dele, Christopher.
Formou-se em apenas trs anos, mas nunca pde utilizar o diploma conseguido, pois trazia o seu verdadeiro nome e tnhamos que ocultar do mundo nossa real identidade. 
A vida foi dura para ns durante os primeiros anos de casamento porque seu pai foi obrigado a negar sua formao universitria.
        Mame fez uma pausa. Olhou pensativamente para Chris e, depois, para mim. Abraou os gmeos e beijou-lhes as cabeas louras. Ento, seu rosto vincou-se de 
preocupao e ela franziu a testa.
        - Cathy, Christopher, so vocs dois que eu espero que compreendam. Os gmeos so pequenos demais para isso. Esto tentando entender o que houve entre seu 
pai e eu?
        Chris e eu anumos com a cabea.
        Mame agora falava minha lngua: o idioma da msica e do bal, do romance e do amor, de rostos belos em lugares bonitos. Os contos de fadas podem tornar-se 
realidade!
        Amor  primeira vista. Oh, isso aconteceria comigo e eu tinha certeza de que ele seria to belo quanto papai, irradiando beleza, tocando-me o corao. A 
gente precisava amar, ou acabava murchando e morria.
        - Agora, ouam com ateno - disse mame em voz baixa, que deu mais nfase s suas palavras. - Estou aqui para fazer o possvel a fim de que meu pai torne 
a gostar de mim; e que me perdoe por haver-me casado com seu
meio-irmo. Entendam: to logo completei dezoito anos, fugi com seu pai e, duas semanas mais tarde, voltamos casados e contamos a meus pais. Meu pai
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quase teve um ataque. Gritou, esbravejou, expulsou-nos dessa casa e disse-nos
que nunca mais voltssemos! Por esse motivo, fui deserdada e seu pai tambm, pois acredito que meu pai tencionava deixar alguma coisa para ele; no muito, porm 
algum dinheiro. A parcela maior caberia a mim, porque minha me tambm possua dinheiro de famlia. Ora, ouvindo-a falar, tem-se a impresso de que o motivo pelo 
qual meu pai se casou com ela foi o dinheiro
que minha me herdou dos pais, embora na juventude ela fosse o que se chama de mulher vistosa; no uma grande beldade, mas possua um porte rgio, nobre e poderoso.
        No, pensei amargamente com meus botes... aquela velha j nascera feia!
        - Portanto, estou aqui para fazer o possvel para que meu pai goste novamente de mim e perdoe-me por haver-me casado Com meu meio-tio. A fim de atingir meu 
objetivo, serei obrigada a representar o papel de filha obediente, humilde, castigada e sinceramente arrependida. As vezes, quando representamos um papel, assumimos 
o carter do personagem. Portanto, desejo dizer agora, enquanto ainda sou completamente eu mesma, tudo o que vocs precisam ouvir. Por essa razo, estou relatando 
tudo e sendo to franca quanto possvel. Confesso que no possuo grande fora de vontade e no sou do tipo que vence sozinha na vida. S era forte quando tinha o
apoio de seu pai e agora no conto mais com ele. E l no trreo, num quartinho que se abre para uma gigantesca biblioteca, est um homem como vocs jamais conheceram.
J conhecem minha me e sabem um pouco como ela ; todavia, ainda no conhecem meu pai. E no quero que o conheam antes que ele me perdoe e aceite o fato de que
tenho quatro filhos gerados por seu meio-irmo. Ser muito difcil convenc-lo a aceitar isso, mas no julgo que seja difcil demais, porque o pai de vocs morreu
e no  fcil guardar ressentimentos contra quem j est morto e enterrado.
        No sei por que sentia tanto medo.
        - Com a finalidade de induzir meu pai a incluir-me novamente em seu testamento, serei obrigada a fazer tudo que ele quiser.
        - O que poderia querer ele alm de obedincia e demonstrao de respeito? - indagou Chris em tom muito sbrio e adulto, como se compreendesse todos os detalhes 
da situao.
        Mame fitou-o demoradamente, cheia de carinhosa compaixo, erguendo a mo para acariciar-lhe o rosto juvenil. Chris parecia uma edio mais jovem e menor
do marido que ela enterrara to recentemente. No  de espantar que ela tivesse os olhos cheios de lgrimas.
        - No sei o que ele desejar, querido, mas farei tudo que for necessrio. Ele tem que me incluir no testamento, de qualquer modo. Agora, porm, vamos esquecer
tudo isso. Vi seus rostos enquanto eu falava. No quero que acreditem nas palavras de minha me. O que seu pai e eu fizemos no foi
imoral. Casamo-nos devidamente numa igreja, como tantos outros casais jovens que se amam. Nada houve de "pecaminoso" entre ns. E no so malvados, ou "gerados pelo
Demnio", seu pai diria que isso no passa de "baboseiras".
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Minha me gostaria que vocs se julgassem indignos, como mais um
meio de castigar-me, e a vocs tambm. Quem estabelece as normas da sociedade so as pessoas, no Deus. Em algumas partes do mundo, parentes mais prximos se casam
entre si e tm filhos; o fato  considerado perfeitamente normal. Todavia, no tentarei justificar o que fizemos, pois somos obrigados a obedecer as normas da sociedade
em que vivemos. Uma sociedade que acredita que homens e mulheres de parentesco prximo no se devem casar entre si, pois, se o fizerem, podem gerar filhos mental
ou fisicamente imperfeitos. Contudo, quem  perfeito?
        Ento, mame riu, ao mesmo tempo em que chorava, abraando-nos todos.
        - Seu av profetizou que nossos filhos nasceriam com chifres, corcundas, rabos bifurcados e patas... Portou-se como um louco desvairado, tentando amaldioar-nos
e deformar nossos filhos, porque desejava que fossmos malditos! Alguma dessas profecias se realizou? - perguntou, parecendo um tanto descontrolada.
        - No - prosseguiu, em resposta  prpria pergunta. - Seu pai e eu nos preocupvamos um pouco quando eu estava grvida pela primeira vez. Ele andou a noite
inteira pelos corredores da maternidade, quase at o amanhecer. Ento, uma enfermeira anunciou-lhe que ele era pai de um menino perfeito sob todos os aspectos. Seu
pai correu ao berrio, a fim de verificar pessoalmente. Vocs deveriam estar presentes para ver-lhe a felicidade estampada no rosto quando ele entrou em meu quarto
sobraando duas dzias de rosas vermelhas; havia lgrimas em seus olhos quando ele me beijou. Seu pai tinha tanto orgulho de voc, Christopher, tanto orgulho. Distribuiu
entre os amigos seis caixas de charutos. Depois, saiu e foi comprar para voc um basto de beisebol feito de plstico, uma luva de jogador de beisebol e uma bola
de futebol. Quando seus dentes comearam a nascer, voc mordia o
basto e batia com ele no bero e na parede, a fim de avisar-nos que desejava sair do quarto.
        - Depois, veio Cathy. E voc, querida, era linda e to perfeita como seu irmo. E sabe como seu pai a amava. Para ele, voc era a doce bailarina Cathy, que
empolgaria as platias do mundo inteiro ao pisar o palco. Lembra-se de sua primeira apresentao de bal, quando tinha apenas quatro anos? Usou sua primeira roupinha
cor-de-rosa de bailarina e cometeu alguns erros, mas todos na platia aplaudiram e voc tambm bateu palmas, como se estivesse
orgulhosa apesar dos enganos. E seu pai lhe enviou uma dzia de rosas, lembra-se? Ele jamais via os erros cometidos por voc. E sete anos depois que voc chegou
como uma bno para ns, nasceram os gmeos. Agora, tnhamos dois meninos e duas meninas, desafiamos o destino quatro vezes e vencemos! Portanto, se Deus quisesse
castigar-nos, teve quatro oportunidades para dar-nos filhos deformados fsica ou mentalmente. Assim, jamais permitam que sua av, ou qualquer outra pessoa, os convenam
de que lhes falta alguma competncia, de que so menos dignos, de que no so totalmente agradveis aos olhos de Deus. Se houve algum pecado, foi cometido por seus
pais, no por vocs.
#71
Na verdade, vocs so as quatro crianas que todos os nossos amigos em Gladstone invejavam e chamavam de bonecas de Dresden. Bonecas de fina porcelana alem. Lembrem-se
sempre do que tinham em Gladstone, apeguem-se a isso. Continuem a acreditar em si mesmos, em mim e em seu pai. Apesar de ele ter morrido, continuem a am-lo e respeit-lo.
Ele merece. Tentava tanto ser um bom pai para vocs. No creio que existam muitos homens que se importem tanto com isso como ele se importava.
        Exibiu um sorriso brilhante atravs das lgrimas:
        - Agora, digam-me quem so vocs!
        - As bonecas de Dresden! - bradamos Chris e eu.
        - Agora, vocs algum dia acreditaro no que sua av diz a respeito de terem sido gerados pelo Demnio?
        - No! Nunca, nunca!
        Apesar de tudo, eu precisaria ponderar cuidadosamente, mais tarde, metade do que as duas mulheres nos disseram; ponderar profundamente. Eu queria acreditar
que Deus estava satisfeito conosco, acreditar em quem ns ramos e no que ramos. Meneei afirmativamente a cabea, disse com meus botes, diga que sim, como Chris
disse; no seja como os gmeos, que se limitam a fitar mame, sem entenderem nada. No seja to desconfiada - no! Chris declarou na mais firme das vozes:
        - Sim, mame, acredito no que voc diz porque se Deus desaprovasse seu casamento com nosso pai, certamente vocs seriam castigados atravs dos filhos. No
acredito que Deus tenha as vistas curtas e seja cheio de preconceitos, como so nossos avs. Como pode aquela velha dizer coisas to horrveis, quando possui olhos
e pode ver perfeitamente que no somos feios, deformados e, muito menos, retardados?
        O alvio, como um rio represado e repentinamente libertado, fez as lgrimas escorrerem pelo belo rosto de mame. Ela apertou Chris de encontro ao peito,
beijando-lhe o topo da cabea. Ento, tomou o rosto dele entre as palmas das mos, fitando-o no fundo dos olhos, ignorando o resto de ns.
        - Muito obrigada, meu filho, por compreender - disse num sussurro rouco. - Mais uma vez, muito obrigada por no condenar seus pais, no importa o que eles
tenham feito.
        - Eu a amo, mame. No importa o que fez, ou o que fizer, eu sempre compreenderei.
        - Sim, voc compreender. Eu sei que voc compreender - murmurou ela. Olhou, embaraada, para mim. Eu me mantinha afastada, observando, pesando aquilo tudo,
avaliando minha me. - O amor nem sempre chega quando queremos. s vezes, ele simplesmente acontece, contrariando-nos a vontade.
        Baixou a cabea, segurando as mos de meu irmo, agarrando-se a elas.
        - Meu pai me adorava quando eu era jovem. Queria guardar-me eternamente para si mesmo. Desejava que eu jamais me casasse com algum. Lembra-me de que, quando
eu tinha apenas doze anos, ele me prometeu legar-me
todo o seu esplio se eu permanecesse a seu lado at ele morrer de velhice.
#72
        Repentinamente, ergueu a cabea e olhou para mim. Teria percebido alguma dvida, alguma indagao de minha parte? Seus olhos se tornaram sombrios, profundos,
escuros.
        - Juntem as mos - ordenou com voz firme, empertigando os ombros e soltando uma das mos de Chris.
        - Quero que repitam comigo: "Somos crianas perfeitas, mental, fsica e emocionalmente. Somos puras e obedientes a Deus em todos os aspectos. Temos tanto
direito de viver, amar e desfrutar dos prazeres da vida quanto qualquer criana neste inundo".
        Sorriu para mim e estendeu o brao para segurar-me a mo livre. Ento, chamou Carrie e Cory para que se juntassem  cadeia formada pela famlia.
        - Aqui em cima, vocs precisaro de alguns rituais que os sustentem no
decorrer dos dias, algumas pedras onde possam firmar os ps. Deixem-me preparar alguns para usarem quando eu estiver afastada. Cathy, quando eu olhar para voc,
veja-me na sua idade. Ame-me, Cathy; confie em mim, por favor.
        Hesitantes, fizemos o que ela mandava e repetimos a litania que deveramos recitar sempre que sentssemos alguma dvida. Quando terminamos, ela sorriu para
ns, com aprovao e apoio.

        - Pronto! - exclamou, parecendo mais satisfeita. - Agora, no imaginem que passei o dia sem ter vocs quatro constantemente na cabea. Pensei muito em nosso
futuro e decidi que no podemos continuar a viver aqui, onde somos dominados por minha me e meu pai. Minha me  uma mulher cruel, sem corao, que, por acaso,
me deu  luz mas nunca me deu um pingo de amor, pois isto ela reservou aos dois filhos homens. Quando recebi a carta dela, fui o bastante tola para acreditar que
ela me trataria de modo diferente de antes. Julguei que, a essa altura, ela tivesse suavizado um pouco com a
idade e que, depois de ver vocs e passar a conhec-los, seria como todas as avs desse mundo e os acolheria de braos abertos, encantada e deleitada por ter novamente
crianas a quem amar. Eu esperava tanto que bastasse sua av ver vocs... - engasgou-se, quase chorando outra vez, como se nenhuma pessoa de bom senso pudesse deixar
de amar seus filhos. - Posso entender que ela no goste de Christopher - prosseguiu, abraando-o com fora e beijando-lhe o rosto. - Ele  por demais parecido com
o. pai. E sei, Cathy, que ela  capaz de olhar para voc e me ver. Nunca gostou de mim, no conheo exatamente o motivo, mas talvez papai gostasse demais de mim
e ela sentisse cimes. Todavia, jamais me passou pela cabea que ela poderia ser cruel para
com qualquer de vocs e, muito menos, Com meus queridos gmeos. Obriguei-me a acreditar que as pessoas mudam com a idade e comeam a reconhecer seus erros, mas agora
compreendo o quanto me enganei.
        Enxugou as lgrimas.

        - Por isso, amanh de manh, bem cedo, irei  cidade grande mais prxima para matricular-me numa escola que me ensine a trabalhar como secretria. Aprenderei
datilografia, taquigrafia, contabilidade, servio de arquivo, e tudo mais que uma boa secretria precisa saber. Eu aprenderei. Quando
#73
souber fazer tudo isso, vou arranjar um bom emprego, que pague um salrio adequado. Ento, terei dinheiro suficiente para tirar vocs todos daqui. Encontraremos
um apartamento em algum lugar aqui perto, de modo que eu ainda possa visitar meu pai. Em breve, estaremos todos vivendo sob o mesmo teto, o nosso teto, e voltaremos
a ser uma famlia de verdade.
        - Oh, mame! - exclamou Chris, cheio de alegria. - Eu tinha certeza de que voc encontraria uma soluo! Sabia que no nos deixaria trancados nesse quarto.
        - Debruou-se para lanar-me um olhar de confiante satisfao, como se soubesse desde o incio que sua amada me resolveria todos os problemas, por mais
complicados que fossem.
        - Confiem em mim - disse mame, agora sorridente e segura de si. Mais uma vez, teve beijos para Chris.
        Desejei poder, de algum modo, ser igual a meu irmo Chris e tomar tudo o que nossa me dizia como uma promessa sagrada. Contudo, meus pensamentos traioeiros
voltaram-se demoradamente para as palavras que ela prpria dissera a respeito de no ter fora de vontade e ser incapaz de comear tudo sem a presena de papai para
dar-lhe apoio. Desanimada, fiz minha pergunta:
        - Quanto tempo demora para se aprender a ser uma boa secretria?
        - Depressa - depressa demais, na minha opinio - ela replicou :
        - S um pouquinho, Cathy. Mais ou menos um ms. Contudo, se demorar um pouco mais que isso, vocs devem ter pacincia e no esquecer que eu no sou muito
esperta nesse tipo de coisas. Na realidade, no  por minha culpa - acrescentou apressadamente, como se pudesse perceber que eu a culpava por ser incapaz. - Quando
uma pessoa nasce rica e  educada em escolas tipo internato, reservadas apenas s filhas de gente extremamente rica e poderosa, para depois ser enviada a uma escola
feminina de aperfeioamento, aprende as regras de polidez da etiqueta social, assuntos acadmicos, mas, sobretudo,  preparada para o carrossel de namoros, festas
de debutantes e, tambm, para receber em casa e ser uma anfitrioa perfeita. Nunca me ensinaram nada de prtico. Jamais julguei que iria necessitar de habilidades
comerciais. Pensei que sempre teria um marido para cuidar de mim e, se no arranjasse marido, meu pai se encarregaria disso. Ademais, apaixonei-me por seu pai e
sempre o amei. Sabia que nos casaramos quando eu completasse dezoito anos de idade.

        Naquele minuto, ela me dava uma boa lio: eu jamais me tornaria to dependente de um homem a ponto de no conseguir sobreviver sozinha no mundo, por mais
cruel que fosse o golpe desferido contra mim pela vida! Mas, acima de tudo, sentia-me mesquinha, raivosa, envergonhada, culpada, por achar que ela era a culpada
de tudo aquilo, quando, na verdade, como poderia
prever o que o futuro lhe reservava?
        - Tenho que ir, agora - disse ela, levantando-se para sair, enquanto os gmeos explodiam em lgrimas.
#74
        - Mame, no v embora! No nos abandone! - gritavam, envolvendo as pernas dela com os bracinhos midos.
        - Voltarei amanh de manh, antes de sair para a tal escola. No duro, Cathy - disse, fitando-me nos olhos. - Prometo fazer o melhor possvel. Quero tirar
vocs desse lugar tanto quanto vocs desejam sair dele.         Chegando  porta, comentou que fora bom ns termos visto as costas, pois agora ela sabia o quanto
impiedosa era sua me.
        - Pelo amor de Deus, obedeam as regras estabelecidas por ela. Sejam recatados no banheiro. Entendam o quanto ela  capaz de ser desumana no apenas comigo,
mas com qualquer pessoa que me pertena.
        Abriu os braos para todos ns e corremos para abra-la, esquecendo-nos das costas chicoteadas.
        - Eu amo tanto vocs todos! - soluou minha me. - Apeguem-se a isso. Juro que me aplicarei como nunca fiz em minha vida. Sinto-me to prisioneira quanto
vocs, to encurralada pelas circunstncias, sob certo aspecto. Deitem-se esta noite com pensamentos felizes, sabendo que por pior que as coisas possam parecer,
nunca so to ruins. Vocs sabem que  fcil gostar de
mim e, em outros tempos, meu pai me amava muito. Portanto, isso facilitar que ele volte a gostar de mim, no  mesmo?
        Sim, era mesmo. Amar muito algum num perodo da vida torna as pessoas vulnerveis a um novo ataque de amor. Eu sabia; j me apaixonara seis vezes.
        - E enquanto estiverem deitados no escuro desse quarto, lembrem-se de que amanh, aps matricular-me na escola, vou comprar novos brinquedos e jogos para
tornar as horas de vocs mais ocupadas e agradveis aqui dentro. E no demorar muito at que meu pai me ame outra vez e me perdoe tudo.
        - Mame - perguntei. - Tem dinheiro suficiente para comprar coisas para ns?
        - Tenho, sim - respondeu ela, apressada. - Tenho o bastante. Alm disso, meus pais so orgulhosos. No permitiriam que seus amigos e vizinhos me vissem mal
vestida ou desarrumada. Cuidaro de mim, e de vocs tambm. Vocs vero. E economizarei cada minuto de folga e cada dlar de sobra, guardando-os e fazendo planos
para o dia em que pudermos ter a liberdade de vivemos em nosso prprio lar, como antes, e voltarmos a ser uma famlia.
        Foram suas ltimas palavras antes de soprar-nos beijos e sair, trancando a porta por fora.
        Nossa segunda noite por detrs de uma porta trancada.
        Agora, sabamos muitas coisas mais... talvez demais.
        Depois que mame saiu, Chris e eu acomodamos os gmeos e nos deitamos. Ele sorriu para mim ao curvar o corpo de encontro s costas de Cory, e seus olhos
j estavam sonolentos. Fechando-os, murmurou:
        - Boa-norte, Cathy. Proteja-se das pulgas.
        Como Christopher fizera com Cory, ajustei o corpo s pequeninas costas clidas de Carrie, que se ajeitou em meus braos numa posio cncava de colher, com
meu rosto colado a seus cabelos gostosos, macios.
#75
        Sentindo-me inquieta, pouco depois eu estava deitada de costas, olhando para cima e sentindo o grande silncio da enorme casa que se acomodou e dormiu. No
escutei um sussurro de movimento na imensa manso; nem os toques agudos do telefone; nem um aparelho domstico sendo ligado e desligado na cozinha; nem mesmo um
co latindo l fora, ou um carro passando para lanar um facho de luz capaz de penetrar as pesadas cortinas.
        Pensamentos falsos vinham-me  mente para dizer-me que no ramos desejados, estvamos trancados... gerados pelo demnio. Tais pensamentos insistiam em vagar-me
pela cabea, fazendo-me sofrer. Era preciso encontrar um meio de livrar-me deles. Mame nos amava, desejava-nos, esforar-se-ia por
ser uma tima secretria para um homem de sorte. Faria isso. Eu tinha certeza. Ela resistiria aos meios que seus pais empregavam para afast-la de ns. Ela venceria,
sem dvida.
        Deus - rezei - ajude mame a aprender depressa, por favor!
        Fazia um calor horrvel naquele quarto abafado. L fora, eu podia escutar o vento farfalhando as folhas, mas at ns no chegava um sopro de ar suficiente 
para refrescar-nos; apenas o bastante para insinuar que l fora estava fresco e ali dentro tambm estaria - se ao menos pudssemos abrir as janelas. Suspirei, pensativa, 
ansiando por ar fresco. Mame no nos dissera que as noites nas montanhas eram sempre frias, mesmo no vero? Estvamos
em pleno vero e, com as janelas fechadas, fazia calor.
        Na semi-obscuridade rosada, Chris murmurou meu nome.
        - Em que est pensando?
        - No vento. Parece o uivo de um lobo.
        - Eu sabia que voc estaria pensando em algo bem alegre. Puxa! Parece at a encarregada das idias deprimentes.
        - Pois tenho uma outra tima para voc: ventos sussurrantes, como almas penadas tentando dizer-nos alguma coisa.
        Ele soltou um gemido.
        - Agora, escute aqui, Catherine Boneca (o nome artstico que eu pretendia adotar algum dia), ordeno-lhe que no fique a deitada a imaginar pensamentos to 
sinistros. Encararemos cada hora como esta que se apresentar, jamais pensando na hora que vir depois e, empregando esse mtodo, ser muito mais fcil que pensar 
em termos de dias e semanas. Pense em msica, em danar, em cantar. J no ouvi dizer que voc nunca se sente triste quando a msica lhe dana na cabea? 
        - Em que pensar voc?
        - Se estivesse menos sonolento, seria capaz de produzir dez volumes de pensamentos, mas, agora, estou cansado demais para responder. E, de todo modo, voc 
conhece meu objetivo. No momento, pensarei apenas nos jogos e brincadeiras que teremos para fazer - disse ele antes de bocejar, espreguiar-se e sorrir novamente 
para mim. - Que achou de toda aquela conversa a respeito de meios-tios se casarem com meias-sobrinhas e terem filhos com chifres, rabos e patas?
#76
        - Na qualidade de quem busca toda a espcie de conhecimento, e como futuro mdico, acha que seja mdica ou cientificamente possvel?
        - No! - respondeu ele, como se fosse profundo conhecedor do assunto. - Se assim fosse, o mundo pulularia de monstros parecidos com o Demnio. E, falando 
com franqueza, eu gostaria de ver um demnio, ao menos uma vez.

        - Eu os vejo o tempo todo, em meus sonhos.
        - Hah! - zombou ele. - Voc e seus sonhos loucos. A propsito, os gmeos foram formidveis, hem? Na verdade, senti-me bastante orgulhoso deles quando enfrentaram 
to desafiadoramente aquela gigantesca av. Puxa, eles so corajosos! Ento, tive medo de que ela fizesse alguma coisa realmente horrvel.
        - E o que ela fez no foi horrvel? Levantou Carrie pelos cabelos. Deve ter dodo. E deu uma bofetada em Cory que o atirou longe. Deve ter dodo, tambm. 
Que mais voc queria?
        - Ela podia ter feito pior.
        - Acho que  maluca.
        - Talvez tenha razo, Cathy - murmurou ele, tonto de sono.
        - Os gmeos no passam de bebs. Cory estava apenas protegendo Carrie, voc sabe como eles so um para O outro - disse eu, hesitando antes de indagar: - 
Chris, nossos pais agiram corretamente apaixonando-se um pelo outro? No poderiam ter feito algo para evitar?
        - No sei. Prefiro que no falemos nisso; fico nervoso.
        - Eu tambm. Mas creio que isso explica por que motivo temos todos cabelos louros e olhos azuis.
        - Sim - replicou ele, bocejando. - As bonecas de Dresden: eis o que somos.
        - Voc tem razo. Passei O dia inteiro querendo jogar alguma coisa. E no se esquea: quando mame nos trouxer o novo jogo de Monoplio de luxo teremos tempo 
de terminar ao menos uma partida.
        Nunca tnhamos acabado uma partida, porque o jogo era demorado.
        - E as sapatilhas prateadas de bailarina sero minhas.
        - Certo - murmurou ele. - Ficarei com a cartola ou o carro de corridas.
        - A cartola, por favor.
        - Est certo. Desculpe, mas esqueci. E poderemos ensinar os gmeos a serem banqueiros e contar o dinheiro.
        - Antes, teremos que ensin-los a contar.         - Isso ser fcil: os Foxworth conhecem tudo a respeito de dinheiro.
        - No somos Foxworths!
        - O que somos, ento?
        - Dollangangers! Eis o que somos!
        - Est bem. Como voc preferir.
        E, mais uma vez, deu-me boa-noite.
#77
     Uma vez mais, ajoelhei-me ao lado da cama e coloquei as mos sob o queixo em posio de prece. Em silncio, comecei: "Agora, que me deito, rogo ao Senhor que 
mantenha minha alma..." Todavia, sem saber por que motivo, eu simplesmente no podia chegar s palavras que pediam ao Senhor para ficar com minha alma se eu morresse 
antes de acordar. Tornei a pular aquele trecho e pedi bnos divinas para mame, para Chris, para os gmeos e para papai tambm, onde ele estivesse no cu.
     Ento, aps voltar para a cama, tive que me lembrar do bolo, ou dos doces, e do sorvete que a av praticamente prometera na noite anterior - se fssemos bons.
     E tnhamos sido.
     Ao menos at Carrie comear a berrar - e, ainda assim, a av no chegara ao quarto trazendo as sobremesas.
     Como poderia ela adivinhar que, posteriormente, no mereceramos os doces?
     - Em que est pensando agora? - indagou Chris num tom montono e sonolento. Julguei que j estivesse adormecido e no me observasse.
     - Nada demais. Apenas leves idias relativas a sorvete e bolo, ou doces, que a av disse que traria se fssemos bem comportados.
     - Amanh ser outro dia, de modo que no desista das recompensas. E talvez amanh os gmeos se esqueam de quererem brincar l fora. No lembram das coisas 
por muito tempo.
     De fato, no lembravam. J tinham esquecido papai e este morrera apenas em abril. Com que facilidade Cory e Carrie abandonavam um pai que os amara tanto! Eu 
no conseguia abandon-lo ou esquec-lo; jamais o esqueceria e, embora no pudesse v-lo com tanta nitidez, eu o... sentia.

Minutos que Pareciam Horas

     Todos os dias se arrastavam. Montonos.
        O que fazer com o tempo que se tem em superabundncia? Para onde olhar depois de j ter visto tudo? Em que direo orientar os pensamentos quando os devaneios 
podem causar tantas encrencas? Eu podia imaginar como seria correr livremente l fora, atravs dos bosques, com as folhas secas estalando sob os ps. Podia imaginar-me 
nadando no lago ou vadeando num riacho da montanha. Contudo, os devaneios no passavam de teias de aranha, facilmente dilacerveis, e eu logo seria trazida de volta 
 dura realidade. E onde estava a felicidade? No passado? No futuro? No naquela hora, minuto e segundo. Possuamos uma coisa, e s ela, para dar-nos uma centelha 
de alegria: a
esperana.
#78
        Chris afirmava que era um pecado mortal desperdiamos o tempo. Tempo era muito valioso. Ningum tinha tempo bastante, ou vivia por bastante tempo, para aprender 
o suficiente. A nossa volta, o mundo caminhava para o fogo, gritando: "Depressa, depressa, depressa!" E vejamos nossa situao: tnhamos tempo de sobra, horas por 
encher, um milho de livros para ler, tempo para dar asas  imaginao. O gnio criativo nasce no momento de lazer, sonhando com o impossvel e, posteriormente, 
tornando-o realidade.
        Mame veio visitar-nos, como prometera, trazendo novos jogos e brinquedos para ocuparmos nosso tempo. Chris e eu adorvamos Monoplio, domin, xadrez chins 
e damas; quando mame nos trouxe um par de baralhos
de bridge e um livro que ensinava vrios jogos de cartas, tornamo-nos verdadeiros profissionais do baralho!
        Era mais difcil brincarmos com os gmeos, que ainda no tinham idade
para jogar jogos obedecendo regras. Nada lhes prendia a ateno durante muito tempo: nem os baralhos em miniatura que mame trouxera para eles, nem os pequenos caminhes 
basculantes, nem o trem eltrico que Chris montou de modo que os trilhos passassem por baixo das camas e da penteadeira, subissem pelo banquinho e descessem por 
baixo da cmoda. Para onde quer que nos virssemos, pisvamos em alguma coisa. Uma coisa era indubitvel: os gmeos detestavam o sto - tudo l em cima lhes causava 
susto e temor.
        Todos os dias, levantvamo-nos cedo. No tnhamos despertador, apenas nossos relgios de pulso. Todavia, algum sistema automtico de medir o tempo passou 
a controlar-me o corpo e no me permitia dormir at tarde,
mesmo que eu quisesse.

        To logo nos levantvamos, usvamos o banheiro; em dias alternados, primeiro os meninos, depois Carrie e eu, e vice-versa. Precisvamos estar inteiramente 
vestidos e arrumados antes que a av entrasse, seno...
        A av entrava em nosso sinistro quarto escurecido. Postados em posio de sentido, espervamos que ela deixasse no quarto a cesta de piquenique e fosse embora. 
Ela raramente nos dirigia a palavra e, quando o fazia, era apenas para indagar se dvamos graas antes das refeies, rezvamos antes de deitar e lamos uma pgina 
da Bblia por dia.
        - No - respondeu Chris certa manh. Ontem no lemos uma pgina, lemos vrios captulos. Se considera a Bblia uma espcie de castigo para ns, pode mudar 
de idia. Achamos que  uma leitura fascinante, mais sangrenta e sensual que qualquer filme que j vimos. E fala mais de pecados que qualquer outro livro que j 
encontramos.
        - Cale a boca, menino! - rosnou ela. - Perguntei  sua irm, no a voc.
        Em seguida, ela me ordenou que repetisse alguma citao que aprendera e, dessa forma, freqentemente zombvamos dela em particular, pois bastava procurar 
com meticulosidade e pacincia que a Bblia fornecia frases aplicveis a praticamente qualquer situao. Naquela manh, eu respondi:
        - "Por que tornastes vs mal por bem?" Gnesis, 44:4.
#79
        Ela fez uma carranca, girou nos calcanhares e saiu. Passaram-se alguns
dias antes que ela dirigisse a palavra a Chris Com rispidez, sem olh-lo, mantendo-se de costas para ele:
        - Repita para mim uma citao do Livro de Job. E no tente me enganar que l a Bblia quando isso  mentira!
        Chris parecia confiante e bem preparado.
        - "Job, 28:12 - Mas a sabedoria, onde se acha ela? E qual  o lugar da inteligncia? Job, 28:28 - Eis a o temor do Senhor, ele  a sabedoria. E apartar-se
do mal,  a inteligncia. Job, 31.35 - Quem me dera que o Onipotente me ouvisse, e que escrevesse o livro o mesmo que me julga. Job, 32:9 - No so os sbios os 
que tm muita idade, nem os ancios que julgam o que  justo."
        E Chris parecia disposto a prosseguir indefinidamente, mas o rosto da av ficou rubro de raiva. E nunca mais ela mandou que Chris fizesse citaes da Bblia. 
Eventualmente, tambm parou de me pedir a mesma coisa, pois eu sempre conseguia lembrar-me de alguma citao que a irritava.
        Todas as tardes, por volta de seis horas, mame vinha ao nosso quarto, sempre ofegante e com muita pressa. Vinha carregada de presentes para ns: roupas 
novas, novas coisas para fazermos, novos livros para lermos, novos jogos para nos divertirmos. Em seguida, corria para tomar banho e vestir-se em seu conjunto de 
aposentos para um jantar formal no andar trreo, onde um mordomo e uma criada serviam a mesa e, a julgar pelas apressadas explicaes de mame, quase sempre havia 
visitas para jantar. Fomos informados de que "muitos negcios importantes so fechados  mesa".
        As melhores ocasies eram quando ela contrabandeava exticos canaps
e saborosos horas d'oeuvres, embora nunca trouxesse doces, a fim de no estragar nossos dentes.
        S aos sbados e domingos ela podia passar mais que uns poucos momentos conosco e sentava-se  nossa pequena mesa para
almoar. Certa vez, deu uma palmada
no estmago:
        - Vejam como estou engordando, pois a1moo com meu pai e depois, com a desculpa de querer tirar um cochilo, subo para a1moar Com meus filhos.
        As refeies com mame eram maravilhosas, pois lembravam-me os velhos tempos em que morvamos com papai.
        Certo domingo, mame entrou com o cheiro fresco do ar livre, trazendo um litro de sorvete de baunilha e uma torta de chocolate que comprara numa confeitaria. 
O sorvete derretera-se quase em uma sopa, mas ns o comemos assim mesmo. Imploramos-lhe que passasse a noite conosco, dormindo entre
Carrie e eu, a fim de podermos v-la conosco quando acordssemos de manh. Mas ela olhou demoradamente para o quarto abarrotado de coisas e sacudiu a cabea.
        Sinto muito, mas no posso. Realmente no posso. Entendam: as criadas ficariam curiosas se minha cama no fosse usada. E trs numa s cama ficam muito apertados.
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        - Quanto tempo, ainda, mame? - indaguei. - Estamos aqui h duas semanas e parece que foram dois anos. O av no a perdoou por ter-se casado com papai? Voc 
j falou sobre ns?
        - Meu pai me deu, por emprstimo, um de seus automveis - replicou ela com o que considerei uma evasiva. - E creio que me perdoar, do contrrio no permitiria 
que eu usasse seu carro, dormisse sob seu teto ou comesse da sua comida. Mas o fato  que ainda no tomei coragem bastante para contar-lhe que mantenho quatro filhos 
escondidos nesta casa. Tenho que calcular a hora exata com muito cuidado e vocs precisam ter pacincia.
        - O que faria ele se soubesse a respeito de ns? - perguntei, ignorando o olhar carrancudo que Chris me lanava.
        Ele j me advertira que se eu insistisse em fazer muitas perguntas, mame deixaria de vir visitar-nos todos os dias. Ento, o que seria de ns?
        - S Deus sabe o que ele faria - sussurrou mame, temerosa. - Cathy, prometa-me que no tentar fazer os criados escutarem. Ele  um homem cruel, desalmado, 
que possui muito poder. Deixe-me calcular cuidadosamente o momento em que acredito que ele estar pronto para ouvir.
        Mame se foi por volta das sete e, pouco depois, ns nos recolhemos. amos cedo para a cama porque acordvamos cedo. E quanto mais tempo passssemos dormindo, 
mais curtos seriam nossos dias. Arrastvamos os gmeos
para o sto logo aps as dez horas. Explorar o gigantesco sto era uma das
melhores maneiras de ocuparmos nosso tempo. L em cima existiam dois pianos, tipo armrio. Cory trepava num dos bancos giratrios que subiam e desciam por meio de 
um eixo com rosca e ficava rodando de um lado para outro. Martelava as teclas amareladas e tombava a cabea de lado para escutar com grande ateno. O piano estava 
desarmado e o barulho era to dissonante que
nos causava dor de cabea.
        - No toca direito - dizia ele. - Por que no toca direito?
        - Precisa de armao - respondia Chris, que tentara afinar o instrumento mas s conseguira partir algumas cordas.
        As cordas partidas foram o final da tentativa de tocar msica nos dois velhos pianos. Havia cinco vitrolas marca RCA Victor, cada uma delas com um cozinho 
branco que virava a cabea de modo encantador, como se maravilhado pela msica que escutava. Todavia, apenas um dos aparelhos funcionava bem. Dvamos-lhe corda, 
colocvamos no prato um velho disco empenado
e escutvamos a msica mais esquisita que j ouvramos!
        Havia pilhas e pilhas de discos de Enrico Caruso mas, infelizmente, muito mal-cuidados, simplesmente empilhados no cho, sem mesmo terem as velhas capas 
de papelo. Sentvamo-nos em semicrculo para escutar a voz de Caruso. Christopher e eu sabamos que ele era o maior cantor de peras do mundo e ali estava nossa 
oportunidade de escut-lo. A voz que ouvamos era to aguda que soava falso e ficamos sem saber o que ele tinha para ser to famoso. Por algum estranho motivo, porm, 
Cory o adorava.
        Ento, bem devagar, a corda da vitrola ia terminando e transformava a voz de Caruso num simples gemido. Nesse momento, um de ns corria como
#81
louco para girar a manivela at o final, de modo que ele cantasse depressa e engraado, como o Pato Donald estrilando raivoso - e os gmeos caam na gargalhada. 
 claro. Tratava-se do tipo de fala deles, de sua linguagem secreta.
        Cory passava seus dias inteiros no sto tocando os discos. Carrie, porm, era inquieta, sempre buscando algo, sempre insatisfeita, procurando sem cessar 
alguma coisa melhor para fazer.
        - No gosto desse enorme lugar horrvel! - berrava pela bilionsima vez. - Tirem-me desse lugar mim! Levem-me para fora j! Imediatamente! Tirem-me daqui 
ou derrubo as paredes a pontaps! Derrubo! Sei que posso
derrubar!
        Corria para as paredes, atacando-as com os minsculos ps e punhos, conseguindo arranhar-se seriamente antes de desistir.
        Eu sentia pena dela e de Cory. Todos ns gostaramos de arrombar as paredes e sair dali. No caso de Carrie, porm, era como se as paredes pudessem tombar 
ante a intensidade crescente de sua voz, como as paredes de Jeric ruindo ao som das trombetas de Josu.
        Na verdade, era um alvio quando Carrie tomava coragem para atravessar o sto e descer a escada at o quarto, onde podia brincar com suas bonecas, o fogo 
e as panelas em miniatura, a tbua de passar roupa com o pequeno ferro que no esquentava.
        Pela primeira vez, Cory e Carrie eram capazes de passar algumas horas separados um do outro, e Chris afirmava que isso era bom. No sto estava a msica 
que encantava Cory; no quarto, Carrie podia conversar com as suas "coisas".

        Tomar muitos banhos era outra maneira de gastarmos o excesso de tempo e ensaboarmos a cabea prolongava o ritual. Oh, ramos as crianas mais limpas no mundo 
inteiro! Tirvamos um cochilo depois do almoo, que durava at quando conseguamos prolong-lo. Chris e eu fazamos concursos de descascar mas de modo que a casca 
sasse inteira, numa comprida fita em espiral. Descascvamos laranjas e tirvamos todos os pedacinhos da pele branca que os gmeos detestavam. Recebamos pequenas 
caixas de bolachas de queijo, que contvamos e dividamos em quatro pores escrupulosamente iguais.
        Nossa brincadeira mais perigosa e divertida era imitar a av - sempre temerosos de que ela entrasse de repente no quarto e nos pegasse envoltos em sujos 
panos cinzentos apanhados no sto, que utilizvamos para representar seus uniformes de tafet cinzento. Chris e eu ramos os melhores imitadores. Os gmeos tinham 
tanto medo da av, a ponto de nem mesmo ousarem erguer os olhos quando ela estava no quarto.
        - Crianas! - dizia rispidamente Chris, parado junto  porta, com uma invisvel cesta de piquenique na mo. - Comportaram-se de maneira decente, honrosa 
e adequada? Este quarto est uma balbrdia! Menina - voc a! - alise direito aquele travesseiro antes que eu lhe esmague a cabea com a simples fria do meu olhar!
#82
        - Perdo, av! - exclamava eu, rastejando para Chris com as mos postas sobre o peito. - Eu estava morta de cansada de tanto limpar as paredes do sto. 
Precisava descansar.
        - Descansar! - rosnava a "av" perto da porta, o vestido prestes a cair. - No existe descanso para os maus, os corruptos, os pecadores e os impuros. Para 
vocs, s existir trabalho, at morrerem e ficarem pendurados para sempre acima dos braseiros de churrasco do inferno eterno!
     Ento, Chris erguia os braos sob o pano em gestos horripilantes que faziam os gmeos gritar de pavor - e, como uma bruxaria, a av desaparecia, restando apenas 
um Chris sorridente.
     As primeiras semanas foram como segundos transformados em horas, a despeito de tudo o que fazamos para entreter-nos - e fazamos muito. Eram as dvidas e os 
temores, as esperanas e as expectativas, que nos mantinham sob constante tenso e suspense, esperando, esperando - e sabendo que no estvamos mais prximos de 
ser libertados e podermos descer.
        Agora, os gmeos corriam para mim com seus pequenos cortes e ferimentos, alm das farpas apanhadas na madeira apodrecida do sto. Eu retirava cuidadosamente 
as farpas com pina, Chris aplicava o anti-sptico e o esparadrapo que eles adoravam. Um dedinho ferido era motivo bastante para exigir carinhos especiais e canes 
de ninar quando eu os colocava na cama, beijava-lhes os rostos e fazia ccegas nos locais que provocavam risadinhas, os bracinhos finos envolvendo-me o pescoo. 
Eu era amada, muito amada... e necessria.

        Nossos gmeos mais pareciam bebs de trs anos que crianas de cinco. No no modo de falar, mas na maneira como esfregavam os olhos com os pulsos minsculos 
e faziam "beicinho" quando lhes negavam alguma coisa, bem como no jeito que davam de prender a respirao at ficarem roxos, obrigando-nos a darmos o que desejavam. 
Eu era muito mais susceptvel a esse tipo de chantagem que Chris; este argumentava ser impossvel algum sufocar-se daquele modo. No obstante, v-los to roxos 
era um espetculo apavorante.
        Chris disse-me em particular:
        - Na prxima vez que se portarem assim, quero que voc os ignore, mesmo que tenha que trancar-se no banheiro. E pode acreditar que eles no morrero...
        Foi exatamente o que eles me foraram a fazer - e no morreram. Foi a ltima vez que tentaram utilizar tal truque para evitar comer coisas de que no gostavam 
- e no gostavam de nada, ou de quase nada.

        Carrie possua a postura de costas curvas de todas as meninas pequenas, com a barriga estufada para diante num arco acentuado, e adorava pular pelo quarto 
puxando a saia para os lados, de modo a exibir as calcinhas franzidas. (Ela s usava calcinhas de renda franzida.) E se as calcinhas tivessem pequenas rosas feitas 
com fitinhas, ou algum bordado na parte da frente, tnhamos que v-las ao menos uma dzia de vezes ao dia e comentar que ela ficava linda com aquelas calcinhas.
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        Cory, naturalmente, usava cuecas como as de Chris e se orgulhava muito disso. A memria das fraldas que usara at pouco tempo atrs devia estar ainda muito 
viva em sua mente. Se, por um lado, Cory tinha uma bexiga temperamental, por outro Carrie sofria de diarria sempre que comia um pedacinho de qualquer fruta que 
no fosse ctrica. Na verdade, eu detestava os dias em
que a av nos trazia pssegos e uvas, pois a querida Carrie adorava uvas verdes descaroadas, pssegos e mas... e todas elas faziam o mesmo efeito desastroso. 
Podem crer: toda vez que apareciam frutas  porta eu ficava desanimada, pois sabia quem tinha que lavar as calcinhas franzidas, a menos que me movimentasse com a 
rapidez do raio, correndo com Carrie sob o brao e largando-a no vaso sanitrio em cima da hora. Chris ria s gargalhadas quando eu no chegava a tempo - ou Carrie 
no agentava. Alis, Chris sempre mantinha ao alcance da mo a jarra azul, pois quando Cory sentia a bexiga funcionar tinha que aliviar-se imediatamente e era um 
desastre se alguma das meninas estivesse no banheiro, com a porta trancada. Mais de uma vez ele molhara as calas curtas e depois enterrara o rosto no meu colo, 
morto de vergonha. (Carrie jamais se envergonhava - a culpa era sempre minha por no agir bastante depressa.)
        - Cathy, quando iremos l fora? - sussurrou Cory aps um dos acidentes.
        - To logo mame nos d autorizao.
        - Por que mame no d autorizao?
        - L embaixo mora um velho que no sabe que estamos aqui. E precisamos que ele volte a gostar de mame o bastante para aceitar-nos.
        - Quem  o velho?
        - Nosso av.
        - Ele  como a av?
        Sim, creio que seja.
        - Por que ele no gosta de ns?
        - Ele no gosta de ns porque... porque, bem, porque no  sensato. Acho que  doente da cabea, como do corao.
        - Mame ainda gosta de ns?
        Ora, eis uma pergunta que me tirava o sono.

        Vrias semanas j se haviam passado quando chegou um domingo em que mame no apareceu durante o dia. Doa-nos no a ter conosco, quando sabamos que ela 
estava de folga na escola e se encontrava em algum lugar daquela mesma casa.
        Eu estava deitada de bruos no cho, onde era mais fresco, lendo Judas, o Obscuro. Chris se encontrava no sto,  procura de novo material de leitura, e 
os gmeos engatinhavam pelo quarto empurrando pequenos carros e caminhes.
#84
        O dia arrastou-se at o cair da tarde antes que, afinal, a porta se abrisse
e mame escorregasse para dentro do quarto, usando sapatos de tnis, shorts brancos e uma camisa branca com gola de marinheiro, debruada com uma lista azul e outra 
vermelha, trazendo uma ncora bordada. Tinha o rosto corado e bronzeado do ar livre. Parecia to vibrante e saudvel, to incrivelmente feliz, enquanto ns murchvamos, 
doentios, no calor abafado daquele quarto escuro.
        Roupas de velejar - oh, eu as conhecia - e era isso que ela estivera fazendo. Ressentida, olhei para ela, desejando que minha pele estivesse bronzeada pelo 
sol, as pernas de cor to saudvel quanto as dela. Seus cabelos estavam desfeitos pelo vento e ficavam-lhe muito bem, tornando-a dez vezes mais bela, saudvel, sensual. 
E ela era quase uma velha; tinha quase quarenta anos.
        Era bastante bvio que aquela tarde lhe dera mais prazer que qualquer outra desde a morte de nosso pai. E eram quase cinco horas. L embaixo, o jantar era 
servido s sete, o que significava que ela teria muito pouco tempo para ficar conosco antes de precisar descer a seus aposentos, onde poderia tomar banho e vestir-se 
de modo mais adequado para a refeio.
        Deixei o livro de lado e virei-me para sentar-me. Sentia-me magoada e desejava mago-la tambm.
        - Onde esteve? - perguntei num tom agressivo.
        Que direito tinha ela a divertir-se enquanto permanecamos trancados e
impedidos das atividades juvenis que eram um direito nosso? Eu jamais teria na vida outro vero com doze anos de idade, nem Chris aproveitaria o seu vero de quatorze 
anos. Nem os gmeos o seu quinto vero.

        O tom agressivo e acusador de minha pergunta abateu-lhe a radincia. Ela empalideceu, seus lbios tremeram e talvez, naquele momento, nossa me se arrependesse 
de ter-nos trazido um grande calendrio de parede no qual podamos verificar se era sbado ou domingo. O calendrio estava marcado com os grandes X vermelhos que 
fazamos para contar nossos dias de aprisionamento - nossos dias quentes, solitrios, cheios de expectativa e sofrimento.
Deixou-se cair numa poltrona e pegou uma revista para abanar-se, cruzando as pernas bonitas.
     - Sinto t-los deixado  minha espera - respondeu, enviando-me um sorriso carinhoso. - Eu queria fazer-lhes uma visita pela manh, mas meu pai exigiu toda a 
minha ateno e eu j assumira compromisso para a tarde, embora os tenha interrompido antes da hora para poder passar algum tempo com
meus filhos antes do jantar.
     Embora no parecesse suada, ergueu o brao sem mangas e abanou a axila, como se no conseguisse suportar aquele quarto.
     - Estive velejando, Cathy - continuou. - Meus irmos me ensinaram a velejar quando eu tinha nove anos e depois, quando seu pai veio morar aqui, eu ensinei a 
ele. Costumvamos passar um bocado de tempo no lago. Velejar  quase como voar... uma diverso maravilhosa - concluiu desajeitadamente, percebendo que seu divertimento 
estragara o nosso.
#85
        - Velejando? - repliquei, quase gritando. - Por que no estava l embaixo, falando com seu pai a respeito de ns? Por quanto tempo ainda tenciona manter-nos 
trancados aqui? ara sempre?
        - Seus olhos azuis vagaram inquietamente pelo quarto; parecia prestes a erguer-se da poltrona que raramente usvamos, pois sempre a reservvamos especialmente 
para ela - o seu trono. Talvez ela tivesse ido naquele instante, se Chris no tivesse voltado do sto com os braos carregados de enciclopdias to antigas que 
no incluam televiso ou avies a jato.
        - Cathy, no grite com nossa me - repreendeu ele. - Ol, me. Puxa! Voc est linda! Gosto dessa roupa de velejar.
        Largou a carga de livros sobre a penteadeira que usava como mesa de estudo e atravessou o quarto para abraar nossa me. Senti-me trada no s por minha 
me, como por meu irmo. O vero estava quase terminando e no havamos feito coisa alguma: nenhum piquenique, nem natao, nem passeios no bosque, nem mesmo avistado 
um barco ou vestido um mai para vadear
num tanque de quintal.

        - Mame! - exclamei, erguendo-me de um salto, disposta a batalhar por nossa liberdade. - Creio que j  tempo de voc falar com seu pai a nosso respeito! 
Estou cansada, enjoada de viver nesse quarto e brincar rio sto! Quero nossos gmeos ao ar livre e ao sol! E tambm quero sair saqui! Eu quero velejar! Se o av 
a perdoou por ter-se casado com papai, ento, por que
no pode aceitar-nos? Somos to feios, to terrveis, to estpidos que ele se
envergonhasse de sermos seus parentes consangneos?
        Mame empurrou Chris para longe de si e afundou-se fatigadamente na mesma poltrona da qual acabava de levantar-se. Escondeu o rosto nas mos. Intuitivamente, 
adivinhei que ela estava prestes a revelar alguma verdade que omitira anteriormente de ns. Chamei Cory e Carrie, e mandei que se sentassem perto de mim, um de cada 
lado, de modo a poder abra-los simultaneamente. E Chris, embora eu imaginasse que fosse permanecer em p junto  nossa me, veio sentar-se na cama, ao lado de 
Cory. Voltvamos a ser, como antes, filhotes de pssaros pousados numa corda de varal de roupas,  espera de que uma rajada de vento forte nos soprasse para longe.
        - Cathy, Christopher - comeou nossa me, com a cabea ainda baixa, embora colocasse as mos no colo e passasse a mov-las nervosamente. - No fui totalmente 
franca com vocs.
        Como se eu j no tivesse adivinhado...
        - Ficar para jantar conosco essa noite? - indaguei, desejando, sem saber por que motivo, adiar a verdade.
        - Obrigada pelo convite. Eu gostaria de aceitar, mas fiz outros planos para esta noite.
        E aquele era o nosso dia; nosso tempo com ela devia ir at o anoitecer.
        E, na vspera, ela passara apenas meia hora conosco.
        - A carta - murmurou, erguendo a cabea, as sombras escurecendo os olhos azuis numa tonalidade verde. - A carta que minha me me escreveu
#86
quando ainda estvamos em Gladstone. Aquela carta nos convidava a morar aqui. No lhes contei que meu pai escreveu um curto bilhete no p da pgina?
        - Sim, mame, Prossiga - encorajei. - Somos capazes de aceitar tudo que voc tiver a contar.
        Nossa me era uma mulher controlada, fria e composta, mas tinha uma coisa que jamais conseguira controlar: as mos. Estas sempre lhe traam as emoes. Uma 
mo sonhadora e caprichosa ergueu-se at pairar perto do pescoo, tateando, os dedos procurando um colar de prolas para torcer e destorcer; como a jia no estava 
ali, os dedos continuaram a movimentar-se no ar. Os dedos da outra mo, pousada no colo, esfregavam-se uns nos outros, como se tentassem limpar-se.

        - Sua av escreveu a carta e assinou-a, mas, no final, meu pai acrescentou um bilhete.
        Hesitou, fechou os olhos, esperou alguns segundos e depois tornou a abri-los para lanar-nos um novo olhar.
        - Seu av escreveu para dizer que estava muito satisfeito com a morte do pai de vocs. Escreveu que os maus e os corruptos sempre recebem o que merecem. 
Escreveu que a nica vantagem de meu casamento foi no gerar filhos do Demnio.
        Outrora, eu teria perguntado o que significavam aquelas palavras. Agora, eu sabia. Filhos do Demnio ou gerados pelo Demnio eram a mesma coisa: algo ruim, 
podre, nascido para ser mau.

        Sentada na cama, abraando os gmeos, olhei para Chris, que devia ser muito parecido com nosso pai quando tinha a mesma idade; passou-me de relance diante 
dos olhos a imagem de papai em seus trajes brancos de jogar tnis: alto, orgulhoso, de cabelos dourados e pele cor-de-bronze. O mal era escuro, retorcido, corcunda, 
baixo - no assumia uma postura altaneira e sorria
com lmpidos olhos azuis, da cor do cu, que nunca mentiam.
        - Minha me fez os planos para ocultar vocs e escreveu-os numa pgina que meu pai no leu - concluiu ela, embaraada, o rosto ruborizado.
        - Nosso pai era considerado mau e corrupto apenas por ter-se casado
com sua meia-sobrinha? - indagou Chris, no mesmo tom frio e controlado usado por nossa me. - Foi o nico erro que ele cometeu na vida?
        - Sim! - exclamou mame, feliz porque ele, o seu filho predileto, compreendia. - Em toda a sua vida, seu pai cometeu um nico e imperdovel pecado: apaixonar-se 
por mim. A lei probe o casamento entre um tio e uma
sobrinha, mesmo que o parentesco seja apenas pela metade. Por favor, no nos condenem. Eu j lhes expliquei o que aconteceu. Dentre todos ns, seu pai era o melhor...
     Interrompeu-se, prestes a chorar, e implorou-nos com os olhos. E eu adivinhei o que viria a seguir.
     - O mal e a corrupo esto no olhar de quem acusa - prosseguiu ela depressa, ansiosa por fazer-nos ver as coisas a seu modo. - Seu av seria capaz de encontrar 
esses defeitos num anjo.  o tipo de homem que espera, exige 
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perfeio de todos os membros da famlia, mas est muito longe de ser perfeito. Todavia, no tente lhe dizer isso, porque ele o esmagar como a um inseto.
     Engoliu nervosamente e depois, parecendo quase enojada pelo que era obrigada a dizer, acrescentou:

     - Christopher, julguei que aps voc estar aqui eu poderia falar com meu pai a seu respeito, contando-lhe que voc era o aluno mais brilhante da classe, sempre 
tirou as notas mximas; julguei que quando ele visse Cathy e soubesse de seu grande talento para a dana... julguei que essas duas coisas, por si, seriam suficientes 
para convenc-lo sem mesmo haver necessidade de
mostrar-lhe os gmeos, to lindos e encantadores, sem falar nos talentos que
possuem  espera de desenvolvimento. Tola, esperanosa, julguei que ele cederia facilmente e admitiria seu erro ao considerar nosso casamento to errado.

     - Mame - interpus, quase chorando. - Parece que voc quer dizer que nunca falar com ele sobre ns; que ele jamais gostar de ns, por mais lindos que sejam 
os gmeos, por mais inteligente que seja Chris, por melhor que eu seja capaz de danar. Nada disso far a menor diferena para ele. O av continuar a detestar-nos 
e considerar-nos filhos do Demnio, no  mesmo?

     Ela se levantou e se aproximou da cama, deixando-se cair novamente de joelhos e tentando abraar-nos todos de uma s vez.
     - J no lhes disse antes que ele tem pouco tempo de vida? Fica sem flego ao menor esforo que faz. E se no morrer logo, encontrarei um meio de falar a respeito 
de vocs. Juro que arranjarei. Peo-lhes apenas que tenham pacincia. Que sejam compreensivos. Eu os compensarei mil vezes pelos divertimentos de que vocs esto 
sendo privados agora!
     Seus olhos lacrimosos imploravam.
     - Por favor, por favor. Por mim, porque vocs me amam e eu os amo, continuem a ter pacincia. No demorar muito. No pode demorar. E eu farei tudo para tornar-lhes 
a vida agradvel, o mais agradvel possvel. E pensem na riqueza que herdaremos em breve!
     - Est bem, mame - disse Chris, tomando-a nos braos exatamente como nosso pai o faria. - Voc no est pedindo muito e ns temos muito a ganhar.
     - Sim - disse mame, com entusiasmo. - S mais um curto perodo de sacrifcio e mais um pouco de pacincia, e vocs tero tudo o que pode existir de bom e gostoso 
nessa vida.
     O que me restava dizer? Como podia eu protestar? J tnhamos sacrificado mais de trs semanas. O que seriam mais alguns dias, ou semanas, ou at mesmo mais 
um ms?
     Alm do arco-ris o pote de ouro nos aguardava. Mas o arco-ris  feito da mais frgil filigrana e o ouro pesa uma tonelada. Desde o incio do mundo, o ouro 
foi motivo para se fazer quase tudo.

#88
Fazer um Jardim Crescer

        Agora, conhecamos toda a verdade.
        Permaneceramos naquele quarto at que nosso av morresse. E ocorreu-me naquela noite, quando me sentia deprimida e desanimada, que talvez nossa me soubesse 
desde o incio que seu pai no era do tipo que perdoa algum de alguma coisa.
        - Mas ele pode morrer a qualquer hora - disse o meu alegre otimista Christopher. - As doenas cardacas so assim. Um cogulo pode soltar-se e chegar ao 
corao ou ao pulmo e extinguir-lhe a vida como se sopra uma vela.
        Chris e eu trocamos comentrios cruis e irreverentes, mas nossos coraes sangravam, sabendo que era, errado e estvamos faltando ao respeito como um meio 
de aplacar a dor de nosso amor-prprio ferido.
        - Agora, veja bem - disse ele. - J que vamos ficar aqui em cima por mais algum tempo, devemos ter mais determinao para acalmar os gmeos, e ns mesmos, 
com coisas que nos entretenham melhor. E s Deus sabe que, se realmente nos aplicarmos, talvez possamos imaginar algumas coisas bem interessantes e fantsticas.
        Naturalmente, quando se dispe de um sto cheio de trastes velhos e grandes armrios abarrotados de roupas apodrecidas e fedorentas, mas nem por isso menos 
elegantes e antigas, surge logo a inspirao de montar peas teatrais. J que um dia eu me tornaria uma estrela do palco, desempenharia as
funes de produtora, diretora, coregrafa e,  claro, a grande estrela da companhia. Chris, por sua vez, desempenharia todos os principais papis masculinos. E 
os gmeos poderiam participar como figurantes, desempenhando pequenos papis.
        Mas no queriam participar! Desejavam ser a platia: sentar-se, assistir e aplaudir.

        No era m idia; afinal, o que seria de uma pea sem platia? Era uma pena eles no terem dinheiro para comprar entradas.
        - Convocaremos um ensaio geral - disse Chris. - E j que voc parece ser tudo na companhia e conhece todos os detalhes da produo teatral, escreva o roteiro.
        Hah! Como se eu precisasse escrever um roteiro! Era a minha oportunidade de representar Scarllet O'Hara. Tnhamos todas as roupas da poca, inclusive espartilhos 
e belas sombrinhas - embora furadas aqui e ali. E roupas adequadas para Chris, tambm. Os bas e armrios ofereciam-nos uma ampla
variedade de escolha e eu, naturalmente, escolhi a melhor roupa - tirada de um armrio - com as respectivas roupas de baixo - encontradas num ba. Enrolei meu cabelo 
em trapos, de modo a faz-lo cair em longos cachos espirais sob um velho chapu de palha estilo Leghom, enfeitado com desbotadas flores de seda e uma larga fita 
de cetim verde, j pardacenta nas orlas. Meu vestido de babados, armado sobre aros metlicos, era de um tecido muito leve
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e transparente que parecia voile. Tenho a impresso de que outrora fora cor-de-rosa, mas agora era difcil definir a cor.
        Rhett Butler usava uma bela roupa com calas cor-de-creme e um palet de veludo marrom com botes de prola sobre um colete de cetim onde ainda apareciam 
algumas rosas desbotadas.
        - Venha, Scarlett - disse-me ele. - Precisamos fugir de Atlanta antes
que Sherman tome a cidade e a incendeie.
        Chris estendera cordas nas quais prendemos cobertores que faziam as vezes de cortinas do palco. Nossa platia de dois espectadores batia impacientemente 
os ps no cho, ansiosa por ver Atlanta em chamas. Segui Rhett at o "palco" e estava pronta para tent-lo, provoc-lo, flertar e encantar, colocando-o em chamas 
antes de fugir com um Ashley Wilkes de cabelos desbotados, quando uma de minhas anguas rotas prendeu-se sob um de meus sapatos engraados e grandes demais. Desmoronei 
de bruos numa posio pouco digna, que deixou  mostra meus cales encardidos enfeitados com rendas esfarrapadas. A platia aplaudiu de p, julgando que a queda 
era uma palhaada que fazia parte do espetculo.
        - A pea terminou! - anunciei, comeando a rasgar as velhas roupas fedorentas.
        - Vamos comer! - gritou Carrie, que era capaz de dizer qualquer coisa para afastar-nos do sto que ela tanto detestava.
        Cory esticou o beicinho e olhou em volta.
        - Eu queria que tivssemos outra vez o nosso jardim - disse num tom to tristonho e sonhador que chegou a causar-me dor - No gosto de balanar quando as 
flores no balanam com o Vento.
        Seus cabelos louros tinham crescido at tocarem o colarinho da camisa e formavam pequenos anis, enquanto os cabelos de Carrie iam-lhe at o meio das costas 
e moviam-se como uma cascata ondulante. Naquele dia, usavam roupas azuis, pois era segunda-feira. Tnhamos cores para cada dia da semana. Amarelo era a nossa cor 
de domingo, e vermelho a de sbado.
        O desejo expresso por Cory trouxe idias  cabea de Chris, pois este girou lentamente sobre si mesmo, estudando o sto com ar pensativo.
        -  foroso admitirmos que este sto  sinistro e desolado - comentou, pensando em voz alta. - Todavia, por que no podemos, empregando nossos talentos 
criativos de modo construtivo, realizar uma metamorfose e transformar esta feia lagarta numa linda e brilhante borboleta?
        - Sorriu para mim e para os gmeos de modo to encantador e convincente que me deixei conquistar de imediato. Seria divertido tentar embelezar aquele local 
horrvel, dando aos gmeos um colorido jardim artificial onde poderiam balanar-se e ver coisas belas. Naturalmente, jamais terminaramos de decorar o sto inteiro, 
pois o espao era imenso e o av poderia morrer a qualquer momento - quando sairamos dali para sempre.
        Mal conseguimos esperar a chegada de mame naquela noite e, quando ela veio, Chris e eu ralatamos-lhe entusiasticamente nosso projeto de decorar o sto 
e transform-lo num alegre jardim artificial onde os gmeos no sentiriam medo. A mais 
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estranha das expresses brilhou nos olhos dela por um breve instante.
        - Muito bem, ento - disse, animada. - Se pretendem embelezar o sto, primeiro precisam limp-lo. E farei o possvel para ajudar.
        s escondidas, mame nos trouxe panos de cho, baldes, vassouras, escovas e caixas de sabo em p. Ajoelhou-se conosco para esfregar os cantos do sto, 
as beiradas e embaixo dos mveis mais pesados. Maravilhei-me de mame saber como escovar e limpar as coisas. Quando morvamos em Gladstone,
tnhamos uma faxineira que vinha fazer o trabalho pesado duas vezes por semana - trabalho que deixava as mos de mame avermelhadas e quebrava-lhe as unhas. E ali 
estava ela, de quatro no cho, usando velhas blue jeans desbotadas e uma blusa velha, com o cabelo preso num coque sobre a nuca. Admirei-a de verdade. Fazia calor, 
o trabalho era duro e humilhante - mas ela no
fez uma s reclamao; apenas ria e tagarelava, agindo como se aquilo fosse
muito divertido.
        Aps uma semana de trabalho duro, limpamos da melhor maneira possvel a maior parte do sto. Ento, mame trouxe-nos inseticidas para matar os insetos que 
haviam se escondido durante a limpeza. Recolhemos baldes cheios de aranhas e outros bichinhos rastejantes, derramando-os por uma janela dos fundos, onde rolaram 
para uma parte mais baixa do telhado. Posteriormente, a chuva os empurrou para as calhas, onde foram encontrados pelos pssaros. As aves fizeram um festim macabro, 
enquanto ns quatro, sentados no peitoril de uma janela, observvamos. Nunca encontramos um rato ou camundongo, mas vamos suas fezes. Presumimos que estivessem 
 espera de que toda a movimentao terminasse antes de se aventurarem a sair de suas tocas escuras e
secretas.
        Agora que o sto estava limpo, mame trouxe-nos folhagens e at mesmo uma aucena que deveria florescer na poca do Natal. Franzi a testa quando ela anunciou 
o fato, pois no ficaramos trancados at l.
        - Levaremos conosco - disse ela, acariciando-me o rosto. - Quando formos embora, levaremos todas as nossas plantas, de modo que no precisa franzir a testa 
e fazer essa cara infeliz. No deixaramos nesse sto qualquer coisa que goste de luz e sol.
        Colocamos as plantas na sala de aulas do sto, pois ali as janelas se abriam para o leste. Alegres e satisfeitos, descemos todos a estreita escada para 
nosso quarto; mame lavou-se em nosso banheiro e depois deixou-se cair, exausta, em sua poltrona especial. Os gmeos se acomodaram no seu colo enquanto eu arrumava 
a mesa para o almoo. Foi um timo dia, pois mame ficou conosco at a hora do jantar; ento, suspirando, declarou que precisava ir-se. Seu pai exigia muito dela, 
querendo saber aonde ela ia todos os sbados e por que se demorava tanto.
        - No pode dar uma fugidinha de volta at aqui antes de irmos para a cama? - indagou Carrie.
        - Hoje  noite irei ao cinema - replicou mame, muito calma. - Antes de sair, porm, darei um pulo at aqui para v-los outra vez. Tenho algumas
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daquelas caixinhas de passas que vocs podem mastigar entre as refeies. Esqueci-me de traz-las.
        - Os gmeos eram loucos por passas e senti-me alegre por eles.
        - Vai sozinha ao cinema? - perguntei.
        - No. Existe uma garota que cresceu comigo; era minha melhor amiga e agora est casada. Vou ao cinema com eles. Moram a apenas algumas casas daqui.
        Levantou-se, foi  janela e, depois que Chris apagou as luzes, abriu as cortinas e apontou na direo da casa onde morava sua melhor, amiga.
        - Elena tem dois irmos solteiros, um dos quais estuda advocacia. Cursa a Faculdade de Direito da Universidade de Harvard e o outro  jogador profissional 
de tnis.
        - Mame! - exclamei. - Est namorando um dos irmos?
        Ela riu, tornando a fechar as cortinas.
        - Acenda as luzes, Chris. No, Cathy; no estou namorando ningum. Para dizer a verdade, estou to cansada que preferia ir direto para a cama. De qualquer
maneira, no gosto muito de filmes musicais. Gostaria de ficar com meus filhos, mas Elena sempre insiste para que eu saia e, quando recuso, ela fica perguntando
qual o motivo. No quero que as pessoas comecem a imaginar por que razo fico em casa todos os fins de semana; por isso, s vezes tenho que velejar ou ir ao cinema.

        Fazer que o sto ficasse apenas bonito parecia altamente improvvel - transform-lo num belo jardim era algo muito acima do arco-ris. Exigiria uma enorme
quantidade de trabalho penoso e capacidade criativa, mas o meu bendito irmo estava convencido de que podamos faz-lo num tempo insignificante! Em breve ele convenceu 
mame da idia, a tal ponto que todos os dias, ao voltar do curso de secretariado, ela nos trazia livros de colorir, dos quais podamos recortar flores previamente 
impressas. Mame nos trouxe caixas de aquarela, muitos pincis, caixas de lpis de cor, enormes quantidades de cartolina colorida, bojudos vidros de cola branca 
e quatro pares de tesouras com pontas redondas.
        - Ensinem os gmeos a colorir e recortar as flores - instruiu ela. - E deixem-nos participar de tudo o que vocs faam. Nomeio-os professores de jardim de 
infncia de seus irmos menores.

        Mame regressava da cidade, que ficava a uma hora de distncia de trem, radiante de sade, a pele fresca e rosada pelo ar livre, as roupas to lindas que 
me deixavam sem flego. Tinha sapatos de todas as cores e acumulava pouco a pouco peas de joalheria que ela chamava "de fantasia", embora as
pedras de imitao parecessem, pelo brilho faiscante, brilhantes verdadeiros. Ela se deixava cair na "sua" poltrona, exausta mas feliz, e relatava os acontecimentos 
do dia.
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        - Oh, como eu gostaria de que aquelas mquinas de escrever tivessem letras nas teclas! Parece que s consigo me lembrar de uma fileira. Tenho que olhar sempre 
para o quadro indicativo, na parede, e isso me atrasa. Tambm no consigo lembrar-me direito da fileira de baixo. Mas sei onde ficam todas as vogais. Como sabem, 
essas teclas so mais usadas que as outras. At o momento, atingi a velocidade de vinte palavras por minuto, o que no  muito bom. Alm disso, cometi quatro erros 
naquelas vinte palavras. E aqueles rabiscos de taquigrafia... - suspirou, como se eles tambm a deixassem perplexa. - Bem, creio que acabarei aprendendo. Afinal, 
outras mulheres aprendem; se elas conseguem eu tambm conseguirei.
        - Gosta de suas professoras, mame?
        Ela soltou uma risada juvenil antes de responder:
        - Primeiro, deixem-me contar a respeito de minha professora de datilografia. Chama-se Sra. Helena Brady. Tem um formato semelhante ao da av de vocs:  
enorme. S que seus seios so muito maiores! Na realidade, tem os seios mais notveis que j vi! E as alas do suti no param de lhe escorregar dos ombros. E quando 
no so as alas do suti, so as da combinao, de modo que ela est sempre enfiando a mo pelo decote do vestido a fim de pux-las de volta ao lugar, e os homens 
na classe sempre soltam risadinhas zombeteiras.
        - Homens tomam aulas de datilografia? - indaguei, surpresa.
        - Sim, temos alguns jovens na nossa classe. Alguns so jornalistas ou
escritores, outros tm algum bom motivo para querer aprender a escrever  mquina. A Sra. Brady  divorciada e est de olho num desses rapazes. Flerta com ele que, 
por sua vez, procura ignor-la. Ela  pelo menos dez anos mais velha que ele, que est sempre olhando para mim. Agora, Cathy, no fique imaginando coisas. Ele  
baixo demais para mim. Eu jamais me casaria com um homem que no pudesse me pegar no colo para atravessar a porta do quarto nupcial. No caso, eu poderia carreg-lo 
no colo, pois tem apenas um metro e cinqenta e cinco.
        Todos ns soltamos gostosas gargalhadas, pois papai tinha pelo menos mais trinta centmetros de altura e carregava mame com facilidade. Ns o vramos fazer 
isso muitas vezes - em especial nas noites de sexta-feira, quando regressava de viagem e os dois se fitavam de modo to esquisito.
        - Mame, no est pensando em casar-se outra vez, est? - quis saber Chris, num tom muito tenso. Mame o abraou depressa.
        - No, querido; claro que no. Eu amava muito seu pai. Seria preciso um homem muito especial para calar os sapatos dele e at agora no encontrei um que 
fosse capaz de calar-lhe as meias.

        Brincar de professores de jardim de infncia foi muito divertido - ou poderia ter sido, se nossos alunos demonstrassem um mnimo de disposio nesse sentido. 
Entretanto, to logo terminvamos a refeio matinal, lavvamos e guardvamos a loua, colocvamos a comida restante no lugar mais fresco do quarto, espervamos 
que as dez 
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horas chegassem e se fossem com os criados do segundo andar, Chris e eu arrastvamos, cada um, um dos gmeos que berravam, subindo a escada do sto e levando-os 
 sala de aulas. Ali, podamos sentar-nos nas carteiras dos alunos e fazer uma grande baguna ao recortar flores de cartolina colorida, usando os lpis para ressaltar 
as cores com nervuras e pontinhos redondos. Chris e eu fazamos as flores mais bonitas; as feitas pelos gmeos pareciam mais manchas coloridas.
        - Arte moderna - comentou Chris, batizando o tipo de flores que eles produziam.
        - Nas desoladas paredes cinzentas feitas de tbuas, colvamos nossas grandes flores coloridas. Chris voltou a subir na velha escada  qual faltavam alguns 
degraus, a fim de prender compridos barbantes nas vigas do sto. Nesses barbantes estendidos, prendemos flores coloridas que se movimentavam incessantemente nas 
correntes de ar que cortavam o sto.
        Mame subiu para verificar os resultados de nossos esforos e sorriu satisfeita.
        - Sim, estio conseguindo um resultado maravilhoso. Isto aqui est ficando bonito.
        Aproximou-se pensativamente das margaridas, como se imaginasse algo que poderia trazer para ns. No dia seguinte, voltou com uma enorme caixa chata contendo 
contas de vidro colorido e lantejoulas, de forma a podermos acrescentar brilho e encanto ao nosso Jardim. Oh, trabalhamos como escravos para fazer aquelas flores, 
pois qualquer ocupao a que nos dedicssemos era alvo de um zelo fervoroso e diligente. Os gmeos contraram parte de nosso entusiasmo e pararam de berrar, morder 
e resistir sempre que mencionvamos a palavra sto. Pois, afinal, o sto se transformava lentamente, mas a passos
firmes, num alegre jardim. E quanto mais ele mudava, mais decididos ficvamos a cobrir cada parede daquele espao interminvel.
        Todos os dias, naturalmente, mame - ao regressar das aulas de secretariado - era obrigada a inspecionar as realizaes do dia.
        - Mame - reclamou Carrie, no seu peculiar gorjeio de pssaro sem flego. - No fazemos outra coisa o dia inteiro: s flores. E s vezes Cathy nem quer que 
desamos para almoar!
        - Cathy no deve preocupar-se tanto com o sto a ponto de esquecer as refeies.
        - Ora, mame, estamos fazendo isso para eles, de modo que no tenham medo de vir aqui.
        Mame riu, abraando-me.
        - Ora, como voc  persistente. E seu irmo tambm. Devem ter herdado isso de seu pai; certamente no foi de mim. Desisto com facilidade.
        - Mame! - exclamei, inquieta. - Ainda est freqentando a escola? J melhorou sua datilografia, no ? 
        - Claro que sim.
        Tornou a sorrir e recostou-se na poltrona, erguendo a mo e, aparentemente, admirando a pulseira que usava. Comecei a perguntar por que ela precisava de 
tantas 
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jias para freqentar o curso de secretariado, mas mame falou antes de mim:
        - O que vocs precisam agora  de animais para o seu jardim.
        - Mas, mame, se no conseguimos fazer rosas, como vamos at mesmo desenhar animais?
        Ela me lanou um sorriso misterioso, passando o dedo frio em meu nariz.
        - Oh, Cathy, voc  mesmo como So Tom. Questiona tudo, duvida de tudo, mesmo j sabendo, agora, que vocs so capazes de fazer qualquer coisa desde que 
realmente queiram faz-la. Pois vou contar-lhe um segredo que j conheo h algum tempo: nesse mundo onde tudo  complicado, existe um livro que nos ensina como 
tudo pode ser muito simples.
        Isso eu viria a descobrir.
        Mame trouxe-nos dzias de livros didticos de arte. O primeiro deles ensinou-nos a reduzir todos os desenhos complicados a formas geomtricas bsicas: esferas, 
cilindros, cones, prismas, cubos. Uma  cadeira no passava de um cubo - o que eu no sabia anteriormente. Uma rvore de Natal era apenas uma casquinha cnica de 
sorvete invertida. - Eu tambm no sabia antes. As pessoas eram apenas combinaes de todas aquelas formas bsicas: as cabeas eram esferas; pescoos, braos, pernas, 
torsos superiores e inferiores eram simples prismas retangulares ou cilindros; os ps eram pirmides triangulares. E, acreditem se quiserem, usando esse mtodo bsico, 
com uns poucos acrscimos bem simples, logo tivemos coelhos, esquilos e outras pequenas criaturas amistosas - todas elas feitas por nossas prprias mos.
        Tinham um aspecto peculiar,  verdade, mas achei que suas esquisitices tornavam-nas ainda mais engraadinhas. Chris coloria todos os seus animais de modo 
realista, enquanto eu decorava os meus com bolinhas, desenhos quadriculados, padres escoceses e colocava bolsinhos debruados com renda nas galinhas chocas. Quando 
nossa me fez compras numa loja que oferecia noes de costura, tnhamos rendas, cordes de todas as cores, botes, lantejoulas, feltro, contas e outros materiais 
decorativos. As possibilidades eram infinitas. Quando ela depositou aquela caixa em minhas mos, sei que meus olhos devem ter demonstrado todo o amor que eu sentia 
por ela naquela poca, pois aquilo provava que ela pensava em ns quando estava no mundo l fora. No pensava apenas em roupas novas, jias e cosmticos para si 
mesma. Tentava tornar nosso confinamento o mais agradvel possvel.
        Uma tarde chuvosa, Cory correu para mim com uma lesma de papel alaranjado na qual trabalhara laboriosamente a manh inteira e metade da tarde. Comera apenas 
um pouco de seu almoo favorito - sanduches de gelia e creme de amendoim - e estava ansioso por voltar ao "trabalho" e colocar "aquelas coisas que brotam da cabea".
        Numa atitude orgulhosa, estacou com as perninhas abertas, observando com ateno as menores alteraes da expresso de meu rosto. O que ele fizera no se 
parecia seno com uma bola de praia entortada, com duas antenas tremulantes.
#95
        - Acha que a lesma est boa? - perguntou, com a testa franzida de preocupao, quando no encontrei o que dizer.
        - Sim - repliquei rapidamente. -  uma lesma linda, maravilhosa.
        - Voc no acha que parece uma laranja?
        - No; claro que no. Laranjas no possuem anis, como essa lesma. Nem sensores curvos.
        Chris aproximou-se para examinar a pobre criatura que eu tinha nas mos.
        - No se d a isso o nome de sensores - corrigiu ele. - Uma lesma faz parte da
famlia dos moluscos, que possuem corpos moles, sem espinha dorsal. E essas 
coisinhas so chamadas de antenas e esto ligadas ao crebro. A lesma tem um intestino tubular que termina na boca e movimenta-se por meio de um p com orlas dentadas.
        - Christopher - interrompi friamente. - Quando Cory e eu desejarmos saber algo a respeito dos intestinos tubulares das lesmas, enviar-lhe-emos um telegrama. 
Por favor, v sentar-se num prego e aguardar o telegrama.
        - Quer ser ignorante pelo resto da vida?
        - Sim! - retruquei irritada. - Quando se trata de lesmas, prefiro no saber nada!

        Cory foi comigo ver Carrie juntar pedaos de papel roxo e col-los. Seu mtodo de trabalho era atabalhoado, ao contrrio do cauteloso labor de Cory. Carrie 
usou a ponta redonda de sua tesoura para abrir um buraco naquela... coisa roxa. Por detrs do buraco, colou um pedao de papel vermelho. Quando terminou de montar 
a... coisa, batizou-a de minhoca. O objeto ondulava como uma gigantesca jibia, faiscando o nico e malvolo olho vermelho com
clios pretos semelhantes a pernas
de aranhas.
        - Chama-se Charlie - declarou, entregando-me a "minhoca" de quase um metro e meio. (Quando nos chegavam s mos coisas ainda sem nome, ns lhes dvamos um 
nome comeado por C, para que pertencessem  "famlia".)
        Numa parede do sto, em meio ao nosso lindo jardim de flores de papel, colamos a lesma epilptica ao lado da feroz e ameaadora minhoca. Oh, formavam um 
belo par! Chris sentou-se e pintou um grande aviso vermelho: TODOS OS ANIMAIS: CUIDADO COM MINHOCAS!!!
        Pintei outro aviso, achando que a pequena lesma de Cory era quem corria perigo: H UM MDICO NESTA CASA? (Cory batizou sua lesma de Cindy Lou.)
        Mame riu ao ver as realizaes daquele dia. Estava satisfeita por verificar que nos divertamos.
        - Sim, naturalmente h um mdico nesta casa - declarou, curvando-se para beijar o rosto de Chris. - Este meu filho sempre soube como tratar um animal doente. 
E, Cory, adoro sua lesma, ela parece... to... to sensvel.
        - Gosta do meu Charlie? - quis saber Carrie, ansiosa. - Foi feito com capricho. Usei todo o roxo para torn-lo maior. Agora, no temos mais roxo.
#96
        -  uma linda minhoca; na realidade, uma minhoca maravilhosa - disse mame, pegando os gmeos no colo e dando-lhes os beijos e abraos que s vezes esquecia. 
de dar. - Especialmente aqueles ctios negros que voc colocou em volta do olho vermelho, um grande efeito.
        Foi uma cena ntima; acolhedora: os trs na poltrona e Chris sentado no brao desta, com o rosto prximo ao de mame. Ento, tive que me meter para estragar 
tudo, como era meu detestvel costume.
        - Quantas palavras por minuto voc consegue bater agora, mame?
        - Estou melhorando.
        - O quanto?
        - Estou fazendo o melhor possvel, no duro, Cathy. J lhe disse que o teclado no tem letras.
        - E a taquigrafia? Com que velocidade consegue tomar um ditado?
        - Estou tentando.  preciso ter pacincia. Coisas assim no se aprendem da noite para o dia.
        Pacincia. Eu coloria a pacincia de cinzento, com nuvens negras pairando acima. Coloria a esperana de amarelo, como o sol que s conseguamos enxergar 
nas curtas horas matinais. Logo ele subia no cu e desaparecia de vista, deixando-nos desolados a fitar o cu azul.

        Quando as pessoas crescem e tm uma poro de coisas adultas a fazer, esquecem o quanto pode ser comprido o dia para uma criana. Parecia que tnhamos vivido 
quatro anos no decurso daquelas sete semanas. Ento, chegou outra temida sexta-feira, em que precisvamos pular da cama ao alvorecer e correr como loucos para livrar 
o quarto e o banheiro de qualquer vestgio de nossa existncia. Eu tirava os lenis das camas e os embolava juntamente com as fronhas e os cobertores, estendendo 
as colchas  diretamente sobre os colches - da maneira como a av ordenara que fizssemos. Na noite anterior, Chris j desmontara os trilhos do trem. Trabalhamos 
como alucinados para
deixar o quarto arrumado e imaculadamente limpo; depois, o banheiro. Em seguida, a av chegava com a cesta de piquenique e mandava que subssemos com ela para o 
sto, onde fazamos a refeio matinal. Eu limpara meticulosamente, todas as nossas impresses digitais e os mveis de mogno brilhavam.
A av fez uma carranca terrvel ao perceber o fato, e diabos me levem se ela no utilizou a poeira do aspirador de p para deixar todos os mveis empoeirados novamente.
        s sete horas estvamos no sto, mais precisamente na sala de aulas, comendo nosso mingau frio de cereais, acompanhado de passas e leite. Escutvamos levemente 
o barulho que as empregadas faziam ao empurrarem os mveis de nosso quarto. Nas pontas dos ps, avanamos at o vo da escada e nos encolhemos no ltimo degrau, 
ouvindo o que se passava l embaixo, embora
a mortos de medo de sermos descobertos a qualquer momento.
        Escutar os movimentos, risadas e conversas das criadas, enquanto a av
permanecia junto  porta do armrio mandando-as limpar os espelhos, polir os
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mveis e arejar os colches - tudo aquilo me provocava a mais estranha sensao. Por que as criadas no percebiam algo diferente? No  tnhamos deixado ara trs 
algum odor que indicasse o fato de Cory fazer pipi na cama com freqncia? Era como se ns realmente no existssemos, como se no estivssemos vivos e nossos odores 
fossem imaginrios. Abraamo-nos com fora, muita fora.
        As criadas no entraram no armrio embutido; no abriram a porta alta e estreita. No nos viram ou escutaram, nem pareceram achar estranho que a av no 
tenha abandonado o quarto por um segundo, mesmo quando elas estavam no banheiro esfregando a banheira, limpando o vaso sanitrio, limpando o cho de ladrilhos.
        Aquela sexta-feira operou algo estranho em todos ns. Creio que murchamos as nossas avaliaes de ns mesmos, pois mais tarde no encontramos o que dizer. 
No tivemos prazer em nossas brincadeiras ou livros, permanecendo calados ao recortarmos nossas margaridas e tulipas de papel,  espera de que mame trouxesse de 
volta consigo a esperana.
        No obstante, ramos jovens e, nessa idade, a esperana tem razes profundas e fortes, que descem at a ponta dos ps. Quando entramos no sto e vimos nosso 
jardim que crescia a cada dia, conseguimos rir e fingir. Afinal, estvamos deixando nossa marca no mundo. Fazamos uma coisa bela do que antes fora sujo e feio.
        Os gmeos decolaram como borboletas, voando por entre as flores pendentes das vigas. Chris e eu os empurramos bem alto nos balanos, criando correntes de 
ar que balanavam loucamente as flores. Escondamo-nos atrs de rvores de papier-mch da altura de Chris e sentvamo-nos em cogumelos do mesmo material, cobertos 
com almofadas de espuma de borracha colorida que eram, com toda a franqueza, melhores que o artigo genuno - ao menos para quem no tinha um apetite especial para 
comer cogumelos...
        -  lindo! - exclamou Carrie, rodopiando sem parar, segurando a curta saia pregueada, de modo que ramos obrigados a ver as novas calcinhas franzidas de 
renda que mame lhe dera de presente na vspera. Todas as roupas e sapatos novos tinham que passar a primeira noite com Carrie e Cory em suas camas. ( horrvel 
acordar  noite com o rosto colado a um sapatinho de tnis.)
        - Tambm serei bailarina! - exclamou alegremente, continuando a girar at que, eventualmente, caiu.
        Cory correu para verificar se ela se machucara. Carrie comeou a berrar ao ver o sangue escorrer de um corte no joelho.
        - Oh... se machuca, no quero ser bailarina!
        Eu no ousava deix-la saber que machucava - oh, Deus, como doa!

        Tempos atrs, eu passeara em jardins de verdade, em florestas reais - e sempre sentira sua mgica aura - como se algo mgico e maravilhoso estivesse  espera 
logo aps a primeira curva. Para tornar nosso jardim de sto encantado, Chris e eu engatinhamos pelo cho desenhando margaridas com giz
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branco e traando um crculo em volta delas. Do interior daquele crculo mgico com flores brancas todo o mal fora banido. Ali, podamos sentar-nos no cho com as 
pernas cruzadas e,  luz de uma nica vela, Chris e eu inventvamos compridas e complicadas estrias de fadas boas que cuidavam das crianas pequenas, bem como feiticeiras 
malvadas que sempre eram derrotadas.
        Ento, Cory falou. Como sempre, era ele quem fazia as perguntas mais difceis de responder.
        - Para onde foi toda a grama?
        - Deus levou a grama para o cu - disse Carrie, livrando-me da obrigao de inventar uma resposta.
        - Por qu?
        - Para papai. Ele gosta de aparar o gramado.
        Os olhos de Chris encontraram os meus. E julgvamos que eles tinham esquecido papai...
        Cory franziu a testa, olhando as pequenas rvores de papelo feitas por Chris.
        - Onde esto todas as rvores grandes?
        - No mesmo lugar - respondeu Carrie. - Papai gosta de rvores grandes.
        Dessa vez, desviei os olhos. Como eu detestava mentir para os gmeos falar com eles daquela maneira era apenas uma brincadeira infindvel, que eles pareciam 
suportar com mais pacincia que Chris e eu. E eles nunca nos perguntaram por que motivo precisvamos fazer aquela brincadeira.
        Nunca a av subira ao sto para perguntar o que estvamos fazendo,
embora ela abrisse freqentemente a porta do quarto da maneira mais silenciosa possvel, esperando que no ouvssemos o barulho da chave girando na fechadura. Espiava 
pela fresta, tentando pegar-nos fazendo algo "maldoso" ou "pecaminoso".
        No sto, ficvamos livres para fazer o que quisssemos sem medo de represlias, a menos que Deus empunhasse um chicote. Nem uma s vez a av se retirou 
de nosso quarto sem nos lembrar que Deus estava vendo tudo, embora ela estivesse ausente. De vez que ela nem sequer entrava no armrio embutido para abrir a porta 
do vo da escada do sto, minha curiosidade ficou espicaada. Lembrei-me de perguntar a mame to logo ela chegasse, a fim de no me esquecer mais uma vez.
        - Por que a av nunca sobe ao sto para ver O que estamos fazendo? Por que apenas pergunta e julga que respondemos a verdade?
        Mame, parecendo fatigada e desanimada, derreara-se em sua poltrona "especial". Seu novo costume de l verde parecia muito caro. Fora ao cabeleireiro e mudara 
o penteado. Respondeu-me de modo distrado, como se pensasse em coisas mais agradveis:
        - Oh, no lhes contei antes? Sua av sofre de claustrofobia, um distrbio emocional que lhe causa falta de ar em qualquer ambiente confinado. Entendam: quando 
ela era criana, os pais costumavam tranc-la num armrio como castigo.
#99
        Puxa! Como era difcil imaginar que aquela mulher enorme algum dia tivesse sido bastante jovem e pequena para ser castigada. Quase senti pena da criana 
que ela fora, mas lembrei-me de que parecia muito feliz em manter-nos trancados. Aparecia em seus olhos, sempre que nos encarava: a petulante
satisfao de ter-nos capturado de modo to hbil. Ainda assim, era peculiar que o destino lhe tivesse imposto tal medo, que nos dava bons motivos para beijarmos 
as estreitas paredes daquele vo de escada. Chris e eu costumvamos especular sobre o modo como mveis to grandes e pesados tinham sido levados at o sto. Certamente, 
seria impossvel manobr-los atravs do estreito armrio embutido e subir com eles pela escada, que mal tinha trinta centmetros de largura. E, embora dssemos uma 
busca cuidadosa para encontrar outra porta maior no sto, no conseguimos. Talvez existisse alguma escondida atrs de um dos gigantescos armrios pesados demais 
para que pudssemos mov-los. Chris julgava que os mveis maiores poderiam ter sido iados at o telhado e, depois, passados atravs de uma das janelas maiores do 
sto.
     Todos os dias a bruxa-av entrava em nosso quarto para apunhalar-nos com aquele olhar duro e rosnar atravs dos lbios finos e retorcidos. Todos os dias, fazia-nos 
sempre as mesmas perguntas: "O que estiveram planejando? O que fizeram no sto? Deram graas antes das refeies de hoje? Ajoelharam-se ontem  noite e pediram 
a Deus que perdoe seus pais pelo pecado que cometeram? Esto ensinando aos dois menores a palavra do Senhor? Usaram o banheiro juntos, meninos e meninas?" - nesse 
ponto, seus olhos faiscavam: "Tm sido sempre recatados? Ocultam as partes privadas de seus corpos dos olhares dos outros? Tocam seus corpos quando no  necessrio 
por motivos de higiene?"
        Oh, Deus! Como ela fazia a pele parecer algo sujo! Depois que ela saa, Chris ria.
        - Acho que ela cola as roupas de baixo no corpo - pilheriava ele.
        -No! Usa pregos! - replicava eu.
        - J notou como ela gosta da cor cinza?
        Se eu notara? Quem no notaria? Sempre cinza. Algumas vezes, o cinza tinha listras quase invisveis de vermelho ou azul, por outras, um leve desenho em relevo 
quase imperceptvel, ou jacquard, mas o tecido era invariavelmente o mesmo: tafet, com o broche de brilhantes fechando a frente sem decote, suavizada apenas por 
debruns de croch feito  mo. Mame sempre nos
dissera que uma viva da cidadezinha mais prxima confeccionava aqueles uniformes que pareciam armaduras blindadas.
        - Essa tal senhora  muito amiga de minha me. E usa cinza porque  muito mais barato comprar tecido por pea do que por metro. E pensar que seu av possui 
uma tecelagem que fabrica tecidos finos, em algum lugar da
Gergia.
        Puxa vida! At os ricos tinham que ser sovinas!
        Uma tarde de setembro, desci correndo a escada do sto para ir ao banheiro e esbarrei na av! Ela me agarrou pelos ombros, fitando-me furiosamente.
#100
        - Olhe por onde anda, menina! - estrilou. - Por que tanta pressa.
        Seus dedos pareciam ao atravs do fino tecido de minha blusa. Como ela falara primeiro, eu podia responder.
        - Chris est pintando uma paisagem maravilhosa - expliquei, sem flego. - E preciso voltar logo com gua fresca antes que a primeira demo seque.  importante 
manter as cores limpas e ntidas.
        - Por que ele no vem buscar a gua? Por que voc serve de criada para ele?
        - Porque ele est pintando e perguntou se eu me importava de vir buscar gua fresca. Eu no estava fazendo nada, s observando. E os gmeos derramariam a 
gua.
        - Idiota! Nunca sirva de criada para um homem. Obrigue-o a cuidar-se sozinho. Agora, diga logo a verdade: o que esto realmente fazendo l em cima?
        - Palavra de honra. Estou dizendo a verdade. Estamos dando duro para enfeitar o sto, a fim de que os gmeos no tenham medo de l. E Chris  um artista 
maravilhoso.
        Ela franziu os lbios zombeteiramente e indagou, desdenhosa:
        - Como voc poderia saber?
        - Ele tem talento artstico; todos os seus professores afirmavam isso.
        - Ele lhe pediu para posar... sem roupas?
        Fiquei chocada.
        - No! Claro que no!
        - Ento, por que est tremendo?
        - Estou... com medo... de voc - gaguejei. - Todos os dias, vem perguntar-nos que coisas pecaminosas e ms estamos  fazendo. Na verdade, no sei o que pensa 
que estejamos fazendo. Se no nos explicar exatamente, como podemos evitar fazer ruim, no sabendo o que  ruim?
        Ela me olhou de cima a baixo e sorriu, sarcstica.
        - Pergunte a seu irmo mais velho; ele sabe o que quero dizer. O macho da espcie j nasce sabendo tudo que  ruim.
        Rapaz, cheguei a piscar! Chris no era ruim ou mau. Havia ocasies em que me irritava, mas no era pecaminoso. Tentei explicar isso  av, mas ela nem quis 
escutar.
        Mais tarde, naquele mesmo dia, ela entrou em nosso quarto trazendo um vaso de barro com crisntemos amarelos. Encaminhou-se diretamente a mim, colocou-me 
o vaso nas mos.
        - Eis aqui algumas flores de verdade para seu jardim de mentira - disse com indiferena.
        Partindo dela, foi algo to inesperado que me tirou o flego. Iria ela mudar - encarar-nos de modo diferente? Seria capaz de aprender a gostar de ns? Agradeci-lhe 
efusivamente as flores. Talvez tenha sido efusiva demais, pois ela girou nos calcanhares e saiu a passos rgidos, como se estivesse embaraada.
        Carrie veio correndo afundar o rostinho na massa de ptalas amarelas.
#101
        - Lindas - comentou. - Posso ficar comelas, Cathy?
        Claro que podia ficar com elas. Com grande reverncia, o vaso de flores foi colocado no peitoril da parte leste do sto para receber sol. Nada podamos 
ver seno colinas e as montanhas distantes, com as rvores no intervalo; acima delas, uma nvoa azulada. As flores de verdade passavam as noites conosco, de modo 
que os gmeos pudessem acordar de manh e ver perto de si algo belo e vivo, que crescia com eles.

        Sempre que me lembro de ser jovem, torno a ver aquelas colinas e montanhas cobertas de nvoa azulada, e as rvores rigidamente perfiladas nas encostas. E 
sinto outra vez o cheiro do ar seco e poeirento que respirvamos no sto. Vejo de novo as sombras do sto, que se mesclavam to bem s sombras de minha mente. 
E volto a escutar as silenciosas indagaes sem resposta:
Por qu? Quando? Por quanto tempo?
        Amor... Eu depositava tanta f nele.
        Verdade... Eu continuava a acreditar que ela sai dos lbios da pessoa que mais amamos e em quem mais confiamos.
        Confiana... Est intimamente ligada ao amor e  verdade. Onde termina um e comea outro? Como saber que o amor  o mais cego?
        Mais de dois meses se haviam passado e o av continuava vivo.
        Ficvamos em p, sentvamo-nos, deitvamo-nos nos largos parapeitos das janelas do sto. Olhvamos, tristonhos e sonhadores, os topos das rvores que, do 
verde escuro de vero, assumiam da noite para o dia os brilhantes tons de vermelhos, dourados, alaranjados e marrons trazidos pelo incio do outono. O espetculo 
me comovia; creio que comovia a todos ns, inclusive os gmeos, assistir  partida do vero e  chegada do outono. E s podamos observar, mas nunca participar.
        Meus pensamentos voavam freneticamente, desejando fugir daquela priso e encontrar o vento que me desfizesse os cabelos, me fustigasse o rosto, fizesse com 
que eu me sentisse viva outra vez. Ansiava pela companhia de todas as crianas que corriam em liberdade pelos gramados pardacentos, esfregando os ps nas folhas 
secas que estalavam - como eu fazia outrora.
        Por que eu nunca entendera, quando podia correr livremente, que estava experimentando a felicidade? Por que eu pensava, naquela poca, que a felicidade estava 
sempre no futuro, quando eu fosse adulta, capaz de tomar minhas decises, seguir meu caminho, ser dona de meu nariz? Por que me parecia que ser criana nunca era 
suficiente? Por que julgava que a felicidade estava reservada aos adultos?
        - Voc parece triste - comentou Chris, que estava junto de mim, com Cory sentado ao lado dele e Carrie ao meu outro lado.
        Naqueles dias, Carrie era como minha pequena sombra, seguindo-me aonde eu fosse, fazendo tudo que eu fazia e imitando o modo como ela julgava que eu me sentia 
- exatamente como Chris tambm tinha sua pequena sombra em Cory. Para haver quatro irmos mais unidos que ns, teriam que ser qudruplos siameses.
#102
        - No vai responder? - indagou Chris. - Por que est to triste? As rvores esto lindas, no esto? Quando  vero, eu penso que gosto mais do vero; entretanto, 
quando chega o outono, acho que gosto mais do outono; e no inverno, esta  minha estao predileta, mas na primavera acho que esta  a melhor poca.
        Sim, aquele era meu Boneco Christopher. Vivia o momento e sempre o achava bom, a despeito das circunstncias.
        - Eu estava relembrando a velha Sra. Bertram e sua enfadonha conversa sobre o famoso Ch de Boston. Fazia a histria to chata e as pessoas to irreais. 
Mesmo assim, eu gostaria de voltar a ficar enfadada daquele modo.
        - Sim - concordou ele. - Compreendo o que voc quer dizer. Eu tambm achava a escola uma chateao e histria uma matria sem graa. Em especial a histria 
dos Estados Unidos - com exceo dos ndios e do velho Oeste. Mas, pelo menos, amos  escola e fazamos a mesma coisa que as outras
crianas da nossa idade. Agora, estamos apenas perdendo tempo, sem fazer nada. Cathy, no desperdicemos um minuto! Preparemo-nos para o dia em que sairmos daqui. 
Se no estabelecermos com firmeza em nossas mentes os objetivos que desejamos alcanar e lutarmos sempre para atingi-los, jamais conseguiremos chegar l. Eu me convencerei 
de que se no puder ser mdico
no desejarei ser qualquer outra coisa, nem vou querer qualquer coisa que o dinheiro possa comprar!
        Fez a declarao com profunda intensidade. Eu desejava ser uma grande bailarina, mas aceitaria alguma outra coisa. Chris franziu a testa, como se lesse meus 
pensamentos. Fitou-me com os olhos muito azuis e ralhou porque eu no fizera uma s vez meus exerccios de bal desde que tnhamos vindo para aquela casa.
        - Cathy, amanh fixarei uma barra na parte do sto que j terminamos de enfeitar. Voc vai treinar cinco ou seis horas por dia, exatamente como na escola 
de bal!
        - Negativo! Ningum me obrigar a fazer coisa nenhuma! Alm disso, no se pode fazer posies de bal sem usar roupas adequadas a isso!
        - Que estupidez!
        - Sou estpida! Voc, Christopher,  um gnio!
        Comecei a chorar e fugi do sto, correndo por entre a flora e a fauna de papel. Corri, corri, corri para a escada. Voei, voei, voei pelos degraus ngremes 
e estreitos, desafiando o destino a fazer-me cair. Quebrar-me uma perna ou o pescoo, deixando-me morta em um caixo. Ento, todos ficariam tristes; chorariam pela 
grande bailarina que eu deveria ter sido.
        Joguei-me na cama e solucei no travesseiro. Nada havia ali seno sonhos, esperanas - nenhuma realidade. Eu ficaria velha e feia, jamais voltaria a ver uma 
poro de pessoas. Aquele velho l embaixo era capaz de viver at cento e dez anos! Todos aqueles mdicos conseguiriam mant-lo vivo para sempre - e eu perderia 
a Noite das Bruxas: nada de truques, brincadeiras, festas ou doces. Cheia de autocomiserao, jurei que algum pagaria, e pagaria bem caro, por tudo aquilo - algum 
pagaria!
#103
        Usando seus sujos sapatos brancos de tnis, eles vieram a mim - meus dois irmos e minha irmzinha - cada qual tentando reconfortar-me com pequenos presentes 
de suas queridas posses: os lpis de cor de Carrie, o livro das estrias de Pedro Coelho de Cory; mas Chris limitou-se a ficar sentado, olhando para mim. Nunca me 
senti to pequena.

        Uma noite, bem tarde, mame chegou com uma grande caixa e me entregou para abrir. Dentro dela, entre camadas de papel de seda, estavam roupas de bal: uma 
cor-de-rosa vivo, outra azul-turquesa, com malhas e sapatilhas combinando com os saiotes de tule. "De Christopher", estava escrito
no carto dentro da caixa. E havia, tambm, discos de msica de bal. Comecei a chorar ao abraar minha me e, depois, meu irmo. Desta feita, no eram lgrimas 
de frustrao ou desespero. Agora, eu tinha um objetivo pelo qual lutar.

        - Eu queria, acima de tudo, comprar uma roupa de bal branca para voc - disse mame, ainda me abraando. - Tinham uma linda, num tamanho maior que o seu, 
com uma touca de penas brancas que tapam as orelhas, especial para O Lago dos Cisnes. Encomendei uma do tamanho certo, Cathy. Trs roupas devem ser o bastante para 
dar-lhe inspirao, no  mesmo? 
        Qh, sim! Quando Chris prendeu solidamente a barra a uma parede do sto, passei a treinar horas a fio, enquanto a msica tocava. No existia um enorme espelho 
por detrs da barra, como havia nas escolas de dana que eu freqentara; mas eu tinha na cabea um gigantesco espelho natural, no qual via-me como Pavlova danando 
diante de dez mil espectadores encantados. Repetia os nmeros e curvava-me para receber dzias de buqus de rosas, todas elas vermelhas. Com o tempo, mame trouxe-me 
discos de todos
os bailados de Tchaikovsky, que eram tocados num toca-discos eltrico que, por meio de uma dzia de fios de extenso, fora ligado a uma tomada em nosso quarto.
        Danar ao som da linda msica transportava-me, fazendo-me esquecer momentaneamente que a vida passava depressa, deixando-nos para trs. O que importava, 
desde que eu danasse? Era melhor fazer piruetas e simular que tinha um parceiro para amparar-me quando eu assumia as posies mais difceis. Eu caa, levantava-me 
e recomeava a danar at perder o flego e sentir dores em todos os msculos. As malhas grudavam-se a meu corpo com o suor
e meu cabelo ficava molhado. Eu permanecia estirada no cho para descansar. Ofegante; depois, levantava-me e voltava  barra para fazer os plis. s vezes, eu era 
a Princesa Aurora em A Bela Adormecida; outras, danava tambm a parte do prncipe, pulando alto no ar e batendo os ps um contra o outro.
        - Certa feita, ergui os olhos em meus espasmos finais da morte do cisne e vi Chris nas sombras do sto, observando-me com uma expresso muito estranha. 
Logo ele faria aniversrio: o dcimo quinto. Como se explicava que j parecesse um homem e no um menino? Seria apenas aquela vaga expresso em seu olhar que revelava 
a rpida mudana da infncia para a maturidade?
#104
        Nas pontas dos ps, em pointe, realizei uma seqncia de pequenos passos, rpidos e iguais, que supostamente do a impresso de que a bailarina est deslizando 
sobre o palco e criando o que  conhecido  poeticamente por "colar de prolas". Dessa forma, cheguei at Chris e estendi os braos para ele.
        - Venha, Cnris, seja meu danseur; deixe-me ensinar-lhe.
        Ele sorriu, aparentemente divertido, mas sacudiu a cabea e declarou que era impossvel.
        - O bal no  para mim. Mas eu gostaria de aprender a valsar, se a msica for de Strauss.
        Aquilo me fez rir. Na ocasio, as nicas msicas de valsa que possuamos ( exceo de bailados) eram velhos discos de Strauss. Corri ao toca-discos para 
tirar O Lago dos Cisnes e colocar Danbio Azul.
        Chris era desajeitado. Segurava-me erradamente, como se embaraado. Pisou em minhas sapatilhas cor-de-rosa. Mas era tocante o esforo que ele fazia para 
tentar corretamente os passos mais simples. E senti-me incapaz de dizer-lhe que todos os seus talentos deviam residir no crebro e na habilidade de suas mos de 
artista, pois certamente nenhuma parcela deles lhe escorrera para as pernas e os ps. No obstante, a msica de Strauss tinha algo doce e encantador, era romntica 
e fcil de danar, to diferente das atlticas valsas de bailados que deixavam a gente suada e sem flego.
        Quando mame finalmente entrou pela porta com a maravilhosa roupa branca especial para O Lago dos Cisnes, um lindo corpete justo coberto de penas, uma touca 
tambm de penas, sapatilhas brancas e uma malha branca to fina que o rosado de minha pele aparecia atravs dela, mal consegui respirar!
        Oh! Parecia que o amor, a esperana e a felicidade podiam ser trazidos ao nosso confinamento numa gigantesca caixa de cetim branco com um lao violeta e 
entregues a mim por algum que realmente se importara comigo
quando outro algum que gostava de mim lhe dera a idia.

        Dana, bailarina, dana, e faz tuas piruetas
        Em ritmo com teu corao ferido.
        Dana, bailarina, dana, no deves esquecer
        Que precisas o bailado terminar.
        Uma vez, disseste que o amor tinha que esperar,
        Pois querias antes a fama, o teu grande objetivo.
        Vivemos e aprendemos... O amor se foi, bailarina; acabou".

        Eventualmente, Chris conseguiu danar valsa e fox-trot. Quando tentei ensinar-lhe o charleston, ele recusou:
        - No preciso aprender todos os tipos de dana, como voc. No trabalharei no palco; s quero aprender a entrar numa pista de danas com uma garota sem fazer 
papel de palhao.
        Eu praticamente nascera danando. No havia tipo de dana que eu fosse incapaz ou no quisesse danar.
#105
        - Chris, voc precisa saber uma coisa: no poder passar o resto da vida danando apenas valsa e fox-trot. Todo ano surge uma nova moda, como no caso das 
roupas.  preciso atualizar-se, adaptar-se. Venha, vamos danar um pouco de jazz para desenferrujar suas juntas rgidas, que devem estar quase paralticas de tanto 
voc ficar sentado lendo.
        Parei de valsar e corri ao toca-discos para colocar um novo nmero: "Voc no passa de um co de caa".
        Levantei os braos e comecei a girar os quadris.
        - Voc precisa aprender a danar o rock'n 'roll, Chris. Escute o ritmo, solte o corpo e aprenda a movimentar os quadris, como Elvis Presley. Vamos... fique 
com os olhos semicerrados, parecendo sonolento, sexy... e faa beicinho, porque seno nenhuma pequena se apaixonar por voc.
        - Ento, nenhuma pequena se apaixonar por mim.
        Foi assim que ele falou, uma declarao lacnica e muito sria. Chris jamais permitiria que algum o forasse a fazer algo que contrariasse a idia que ele 
fazia de si mesmo e, sob certo aspecto, eu gostava dele por ser assim: forte, resoluto, decidido a ser ele mesmo, embora seu tipo j tivesse sado de moda h muito 
tempo. Meu Sir Christopher, o galante cavaleiro.

         maneira de Deus, mudvamos as estaes no sto. Retiramos as flores e penduramos folhas de outono, coloridas em tons de marrom, ferrugem, vermelho e dourado. 
Se ainda estivssemos l quando o inverno chegasse, substituiramos as cores de outono por desenhos brancos rendados, que j estvamos recortando para tal eventualidade. 
Fizemos gansos e patos selvagens com cartolina branca, cinzenta e preta, pendurando-os em bandos, de asas abertas, virados na direo do sul. Era fcil fazermos 
aves: bastavam ovais alongados, c9m esferas fazendo as vezes de cabea. Pareciam lgrimas aladas.
        Quando Chris no estava sentado, com o nariz enfiado num livro, pintava a aquarela panoramas com colinas cobertas de neve e lagos congelados onde deslizavam 
patinadores. Inseria nas paisagens pequenas casas amarelas e cor-de-rosa, quase cobertas pela neve, com fumaa saindo das chamins.
E, ao longe, uma enevoada torre de igreja. Quando terminava a paisagem, pintava a moldura como se fosse uma esquadria de janela. Ao pendurarmos o quadro na parede, 
tnhamos uma sala com viso panormica!
        Outrora, Chris sempre implicara comigo e eu nunca conseguia agrad-lo. Um irmo mais velho... Ali, porm, mudamos - tanto ele como eu - da mesma forma que 
alteramos o nosso mundo no sto. Deitados lado a lado
num colcho velho, manchado e malcheiroso, conversvamos horas a fio, fazendo planos para o tipo de vida que levaramos quando estivssemos livres e ricos como Midas. 
Viajaramos o mundo inteiro. Chris conheceria e se apaixonaria pela mulher mais bela e sexy, que tambm era brilhante, compreensiva, encantadora, espirituosa e tima 
companhia; ela seria a dona-de-casa perfeita, a mais fiel e devotada das esposas, a melhor das mes jamais brigaria, 
#106
reclamaria, choraria ou duvidaria das decises de Chris, nem ficaria desapontada ou desencorajada se ele cometesse enganos estpidos no mercado de capitais e perdesse 
at o ltimo vintm. Compreenderia que ele fizera o melhor possvel e em breve, com sua brilhante inteligncia, tornaria a ganhar
uma fortuna.
        Rapaz! Chris me deixava deprimida. Como, nesse mundo, eu conseguiria satisfazer as necessidades de um homem como ele? De um modo ou outro, compreendi que 
ele estava estabelecendo o padro pelo qual eu julgaria todos os meus futuros pretendentes.
        - Chris, essa mulher inteligente, encantadora, espirituosa, linda, no poder ter um s pequenino defeito?
        - Por que deveria ter?
        - Veja nossa me, por exemplo: voc acha que ela  isso tudo, exceto, talvez, brilhante.
        - Mame no  estpida! - defendeu ele, com veemncia. - Ela apenas foi criada no meio ambiente errado! Foi reprimida quando criana; obrigaram-na a sentir-se 
inferior por ser do sexo feminino.
        Quanto a mim, aps ser uma prima ballerina por vrios anos e estar pronta para casar-me e lanar razes, no sabia que tipo de homem desejar se ele no estivesse 
 altura de Chris ou de meu pai. Desejava um homem bonito - isso eu sabia, pois queria ter filhos bonitos. E brilhante, sob pena de no respeit-lo. Antes de aceitar 
o anel de noivado, eu me sentaria para jogar muitos jogos contra ele; se eu ganhasse uma vez ou outra, sorriria, sacudiria a cabea e o mandaria devolver o anel 
 joalheria.
        E enquanto fazamos planos para o futuro, nossos vasos de filodendros murcharam; nossas folhas de trepadeira amarelaram antes de morrer. Trabalhvamos com 
ardor, dispensando s nossas plantas um tratamento carinhoso, conversando com elas, suplicando-lhes, implorando-lhes que fizessem O favor
de parar de parecerem doentes, se animassem e erguessem a cabea. Afinal, pegavam o sol mais saudvel: o sol matinal do leste.

        Dentro de poucas semanas, Cory e Carrie pararam de implorar para sair. Carrie j no esmurrava a pesada porta de carvalho e Cory deixou de tentar arromb-la 
a pontaps com seus pezinhos midos calados de tnis macios, que no impediam a formao de equimoses nos artelhos.
        Passaram a aceitar com docilidade o que antes renegavam com veemncia - o "jardim" do sto era o nico "l fora" de que dispunham. E com o tempo, por mais 
pena que isso causasse, esqueceram a existncia de outro mundo que no aquele onde estvamos aprisionados.
        Chris e eu arrastamos vrios colches velhos para perto das janelas do leste, de modo que podamos escancarar as janelas e tomar banho de sol, absorvendo 
os raios benficos que j no precisavam atravessar as vidraas sujas para chegarem at ns. Crianas necessitam de sol para o crescimento. Bastava-nos olhar para 
nossas plantas moribundas e verificar o que o ar do sto estava causando s nossas folhagens.
#107
        Sem o menor embarao, despamo-nos inteiramente e tomvamos banho de sol durante o curto tempo em que ele entrava pelas nossas janelas. Vamos as diferenas 
anatmicas existentes entre ns e pouca importncia lhes dvamos. Com a maior franqueza, contamos a mame o que fazamos para evitar que morrssemos por falta de 
sol. Mame olhou de Chris para mim e deu um sorriso amarelo.
        - Est bem, desde que no deixem sua av saber. Ela no aprovaria, como vocs bem sabem.
        Atualmente, compreendo que ela olhou para Chris, e depois para mim,  procura de sinais que indicassem nossa inocncia ou o despertar de nossa sexualidade. 
E o que viu deve ter-lhe dado alguma confirmao de que ainda ramos apenas crianas - embora ela devesse saber melhor das coisas.
        Os gmeos adoravam ficar despidos e brincar como bebs. Gargalhavam, soltavam risadinhas quando usavam termos incompreensveis para ns e gostavam de olhar 
para os locais de onde vinha o "du-du", bem como imaginavam por que motivo o fazedor de "di-di" de Cory era to diferente do de Carrie.
        - Por que, Chris? - indagou Carrie, apontando para o que ele tinha, Cory tambm tinha, mas ela e eu no tnhamos.
        Continuei a ler O Morro dos Ventos Uivantes e tentei ignorar aquela
conversa tola.
        Chris, porm, tentou dar uma resposta adequada e, tambm, verdadeira:
        - Todas as criaturas do sexo masculino possuem os rgos sexuais no lado de fora do corpo, e todas as do sexo feminino no lado de dentro, guardados.
        - Guardados com bom gosto - comentei.
        - Sim, Cathy; sei que voc aprova seu corpo de tanto bom gosto e eu aprovo o meu de tanto mau gosto, de modo que devemos estar felizes pelo fato de serem 
como so. Nossos pais aceitavam nossos corpos despidos como aceitavam nossos olhos e cabelos; assim faremos ns, tambm. E esqueci um detalhe: os pssaros machos 
possuem os rgos arrumados no lado de dentro do corpo, com bom gosto, da mesma forma que as fmeas.
        Intrigada, perguntei:
        - Como sabe?
        - Sabendo.
        - Leu em algum livro?
        - Que outra coisa poderia ser? Acha que apanhei uma ave e a examinei?
        - Partindo de voc, eu no duvidaria.
        - Pelo menos, leio para aperfeioar o crebro e no apenas para distra-lo.
        - Vai ser um homem muito chato, eu o previno... E se um pssaro macho tem rgos sexuais guardados dentro do corpo, no  uma fmea?
        - No!
        - Mas no compreendo, Chris. Por que as aves so diferentes?
        - Precisam de formas aerodinmicas para voar.
#108
        Mais uma vez, eu ficava perplexa e ele tinha todas as respostas. Eu deveria saber que o crebro dos crebros tinha as respostas...
        - Muito bem. Mas por que os pssaros machos so assim? E deixe de lado o detalhe da forma aerodinmica.
        Ele vacilou, com o rosto muito vermelho, e procurou um meio de responder delicadamente.
        - Os pssaros machos ficam excitados e isso faz o que est dentro vir para fora.
        - Como ficam excitados?
        - Cale a boca e leia seu livro, e deixe-me ler o meu!

        Alguns dias fazia muito frio para tomarmos banho de sol. Depois, o clima ficou gelado, de modo que at mesmo usando nossas roupas mais quentes e pesadas 
ainda tremamos de frio, a menos que corrssemos. Logo o sol matinal se afastou do leste, deixando-nos desolados e desejosos de que o sto tivesse janelas no lado 
sudeste. Mas as janelas estavam com os postigos fechados
e pregados com tbuas.
        - No importa - disse mame. - O sol da manh  o mais saudvel.
        Palavras que no nos animavam, pois nossas plantas estavam morrendo, uma a uma, no sol mais saudvel.
        No incio de novembro, o sto comeou a ficar frio como o Plo rtico. Batamos dentes, espirrvamos com freqncia, e reclamamos a mame que precisvamos 
de um fogo com uma chamin, pois ambos os foges da sala de aulas tinham sido desligados. Mame falou em trazer um aquecedor eltrico ou a gs, mas temia que um 
aquecedor eltrico pudesse provocar um incndio caso fosse ligado a muitos fios de extenso, e um aquecedor a gs tambm precisaria de um chamin.
        Trouxe-nos pesadas roupas de baixo e grossos casacos de esquiar, com capuzes, bem como calas de esquiar, em cores brilhantes e forradas com l. Trajando 
essas roupas, amos diariamente para o sto, onde podamos ficar  vontade, escapando ao olhar sempre vigilante da av.
        Em nosso quarto abarrotado, mal tnhamos espao para andar sem esbarrar em alguma coisa e ficar cheios de equimoses. No sto, ficvamos frenticos, gritando 
enquanto nos perseguamos mutuamente, brincando de esconder; montvamos pequenas peas teatrais numa atividade desenfreada. s vezes, brigvamos, discutamos, chorvamos 
e, depois, voltvamos s brincadeiras frenticas. Tnhamos paixo por brincar de esconder. Chris e eu fazamos planos para a brincadeira terrivelmente ameaadora, 
apavorando - mas no muito - os gmeos, que j temiam suficientemente as "coisas ruins" que se ocultavam nas escuras sombras do sto. Carrie relatava ansiosamente 
ter
visto monstros escondidos sob os mveis protegidos por capas de pano.
        Um dia, percorramos a zona polar do sto  procura de Cory.
        - Vou descer - declarou Carrie, com o rostinho cheio de ressentimento, o beicinho esticado.
#109
        Seria intil tentar convenc-la a ficar para continuar a brincadeira, pois era teimosa demais. Afastou-se, petulante, em seu traje vermelho de esquiar, deixando-me 
com Chris para procurarmos Cory. Geralmente, ele era muito fcil de encontrar. O modo mais correto de procur-lo era ir ao local onde Chris se escondera pela ltima 
vez; portanto, bastava-nos ir direto ao terceiro armrio e l estaria Cory, agachado no cho, escondido sob um monte de roupas velhas, sorrindo para ns. Dvamos-lhe 
um pouco de tempo para divertir-se, evitando o local durante um certo intervalo. Ento, decidimos "encontr-lo". E quando olhamos - ele no estava l!
        - Diabo! - exclamou Chris. - Afinal, resolveu ser criativo e escolheu um lugar original para esconder-se.
        Era o resultado de ler tantos livros: falar difcil. Limpei o nariz e dei mais uma olhada em volta. Para quem fosse realmente criativo, existiam milhes 
de esconderijos nas mltiplas alas do sto.
        Podamos levar muitas horas para encontrar Cory .Eu estava com frio, cansada, irritada, farta de brincar todos os dias da mesma maneira porque Chris insistia 
em manter-nos ativos.
        - Cory! - berrei. - Venha de onde estiver! Est na hora do almoo!
        Ora, aquilo deveria ser o bastante para faz-lo aparecer. As refeies eram acolhedoras e dividiam os nossos longos dias em diversas partes.
        Ele continuou a no responder. Olhei para Chris, furiosa.
        - Sanduches de creme de amendoim com gelia de uvas! - gritei.
        Era a comida predileta de Cory e deveria traz-lo correndo. Mesmo assim, nenhum rudo nem resposta - nada.
        De repente, senti medo. No podia acreditar que Cory tivesse perdido o temor do imenso sto sombrio e estivesse, afinal, levando a brincadeira a srio. 
Contudo, suponhamos que estivesse querendo imitar Chris ou eu? Oh, Deus!
        - Chris! - bradei. - Precisamos achar Cory, depressa!
        Chris deixou-se contagiar por meu pnico; girou nos calcanhares e correu, chamando pelo nome de Cory, ordenando-lhe que parasse com a brincadeira de esconder. 
Ambos corremos, procurando, chamando repetidamente o nome de Cory. A brincadeira terminara e estava na hora do almoo. Nenhuma resposta. E eu estava quase gelada 
a despeito de todas as roupas que usava. At minhas mos pareciam azuladas.
        - Oh, meu Deus! - murmurou Chris, estacando. - E se ele se escondeu num dos bas? A porta pode ter cado e o trinco fechado!
        Cory morreria sufocado!
        Corremos como loucos, procurando, abrindo as tampas de cada um dos velhos bas. Jogamos longe pantalonas, anguas,  camisolas, espartilhos, camisas, temos, 
sempre impulsionados por crescente terror. E durante todo o tempo, eu rezava a Deus para que no deixasse Corry morrer.
        - Eu o encontrei, Cathy! - gritou Chris.
        Girei nos calcanhares e vi Chris tirando o pequeno corpo inerte de dentro de um ba cujo trinco cara, fechando-o l dentro. Com as pemas bambas
#110
de alvio, tropecei at eles e beijei o rosto plido de Cory, que assumira uma
colorao estranha por falta de oxignio. Seus olhos entreabertos estavam fora de foco e ele praticamente perdera os sentidos.
        - Mame - sussurrava. - Quero minha mame...
        Mas mame estava a quilmetros de  distncia, aprendendo datilografia e taquigrafia. S nos restava uma v impiedosa, que no sabamos como localizar numa 
emergncia.
        - V depressa e encha a banheira, em primeiro lugar - disse-me Chris. - Com gua quente, mas no demais. No queremos escald-lo.
        Ento, tomou Cory nos braos e correu atrs de mim na direo da escada.
        Cheguei primeiro ao banheiro e corri  banheira. Olhei para trs e vi Chris depositar Cory na cama. Ento, debruou-se sobre o menino, tapou-lhe o nariz 
e abaixou-se at cobrir com a boca os lbios de Cory, que estavam abertos e azuis. Meu corao quase parou! Estaria morto? Deixara de respirar?
        Carrie olhou de relance o que estava acontecendo, viu o irmo gmeo azul e imvel, e comeou a berrar.
        No banheiro, abri totalmente ambas as torneiras; a gua correu com fora. Cory ia morrer! A gua correu com fora e depois as torneiras comearam a lanar 
um jato constante. Eu sempre pensava na morte... e a maioria de meus sonhos se tornavam realidade! Como sempre, exatamente quando julgava que Deus nos voltara as 
costas e no se importava mais conosco, eu me agarrava desesperadamente  minha f, implorando a Ele que no deixasse Cory morrer... por favor, Deus, por favor, 
por favor, por favor...
        Talvez minhas desesperadas preces contribussem tanto para reviver Cory quanto a respirao artificial que Chris lhe aplicava.
        - Est respirando outra vez - disse Chris, plido e trmulo, ao carregar
Cory para a banheira. - Agora, tudo O que precisamos fazer  aquec-lo.
        Num piscar de olhos, despimos Cory e o mergulhamos na banheira de gua quente.
        - Mame - balbuciou Cory ao recobrar os sentidos. - Quero mame.
        Repetia incessantemente aquelas palavras e tive vontade de esmurrar as paredes por causa de tal injustia! Quem devia estar ali era a me dele, no uma me 
"faz-de-conta", que nem sabia como agir. Eu queria sair dali, mesmo que precisasse mendigar pelas ruas!
        Todavia, repliquei num tom calmo, que levou Chris a erguer a cabea para lanar-me um olhar de aprovao:
        - Por que no faz de conta que eu sou mame? Farei por voc tudo que ela faria, como segur-lo no colo e embal-lo para dormir enquanto canto uma cano 
de ninar. Farei isso logo que voc almoar e tomar um pouco de leite.
        Chris e eu estvamos ajoelhados quando pronunciei essas palavras. Chris massageava os pezinhos de Cory, enquanto eu lhe esfregava as mos frias para voltar 
a esquent-las. Quando a pele de Cory voltou  cor normal, ns o enxugamos, vestimos-lhe seu pijama mais quente, depois o enrolamos num cobertor e o acomodamos na 
velha cadeira de balano que Chris trouxera do sto.
#111
Sentei-me com meu irmozinho encolhido no colo, cobri-lhe o rosto de beijos e murmurei-lhe ao ouvido coisas que o fizeram soltar risadinhas.
        Se podia rir, tambm podia comer; dei-lhe pequenos pedaos de sanduche e goles de sopa morna, entremeados com longos sorvos de leite. Enquanto fazia isso, 
amadurecia, ficava mais velha. Em dez minutos, envelheci dez anos. Lancei um olhar de esguelha a Chris quando este se sentou para almoar, e percebi que ele tambm 
mudara. Agora, sabamos que havia real perigo no sto, alm do vagaroso enfraquecimento - por falta de sol. Todos ns enfrentvamos perigos muito piores que os 
camundongos e aranhas que persistiam em sobreviver, a despeito de todos os esforos que dispendamos para extermin-los por completo.
        Sozinho, Chris subiu os estreitos degraus da ngreme escada que levava ao sto, o rosto sombrio ao entrar no armrio embutido. Eu continuava a balanar 
na cadeira, segurando Cory e Carrie no colo, cantando uma cantiga de ninar. De repente, ouvi um feroz martelar l em cima - um barulho enorme, que os criados poderiam 
escutar.
        - Cathy - disse Cory bem baixinho, enquanto Carrie comeava a cochilar. - No gosto de no ter mais minha me.
        - Voc tem uma me: eu.
        - Voc  to boa como uma me de verdade?
        - Sim, creio que sou. Eu o amo muito, Cory, e  isso que faz uma me de verdade.

        Cory me fitou com os olhos azuis muito abertos, para ver se eu era sincera ou apenas zombava de sua necessidade. Ento, seus bracinhos me envolveram o pescoo 
e ele apoiou a cabea no meu ombro.
        - Estou com tanto sono, mame... mas no pare de cantar.
        Eu ainda balanava a cadeira e cantava baixinho quando Chris retornou com uma expresso satisfeita.
        - Nunca mais um daqueles bas se fechar inadvertidamente - declarou. - Quebrei todos os trincos. E as fechaduras dos armrios tambm!
        - Assenti com a cabea.
        Chris sentou-se na cama mais prxima e observou o ritmo da cadeira de balano, escutando a cano que eu continuava a cantar. Seu rosto ruborizou-se vagarosamente 
e ele pareceu embaraado.
        - Sinto-me to isolado, Cathy. Importa-se de eu sentar primeiro e depois vocs trs ficarem no meu colo?
        Papai costumava fazer isso: sentava-nos todos em seu colo, inclusive mame. Seus braos eram bastante compridos e fortes para envolver-nos todos de uma s 
vez e dar-nos a sensao mais gostosa e clida de segurana e amor. Imaginei se Chris conseguiria fazer o mesmo.
        Sentados na cadeira de balano, com Chris abraando-nos no colo, vi de relance nossa imagem no espelho do lado oposto do quarto. Fui invadida por uma sensao 
estranha, que fazia a cena parecer irreal. Chris e eu dvamos a impresso de pais de bonecas - edies mais jovens de papai e mame.
#112
        - A Bblia diz que existe uma hora para tudo - disse ele num murmrio, a fim de no despertar os gmeos. - Hora de nascer, de plantar, de colher, de morrer, 
e assim por diante. E esta  a nossa hora de sacrifcio. Mais tarde, chegar nossa hora de viver e aproveitar a vida.
        Virei a cabea, apoiando-a em seu ombro juvenil, sentindo-me grata por ele ser sempre to otimista e entusiasta. Era gostoso ter seus jovens braos fortes 
em torno de mim - quase to protetores e gostosos como tinham sido os de papai.
        E Chris tinha razo. Nossa hora de felicidade havia de chegar, no dia em
que sassemos daquele quarto e descssemos para assistir a um enterro.

Festas de Fim de Ano

        No comprido talo da aucena apareceu um nico boto - um calendrio vivo que nos fez lembrar que o Dia de Ao de Graas e o Natal se aproximavam. A aucena 
era a nossa nica planta que ainda continuava viva e, de longe em comparao com tudo o mais, constitua nossa posse mais querida. No final de cada dia, era levada 
para baixo, a fim de passar as noites em nosso quarto aquecido. Cory, o primeiro a levantar-se todas as manhs, corria para examinar o boto, ansioso por verificar 
se este sobrevivera  noite. Carrie em breve se juntava a ele, postando-se a seu lado para admirar a planta rstica, valente e vitoriosa, que permanecia viva quando 
todas as outras tinham morrido. Em seguida, os gmeos estudavam o calendrio de parede, para ver o dia que estava marcado com uma circunferncia verde, indicando 
que a planta deveria receber fertilizante. Depois, apalpavam a terra do vaso, sentindo a umidade e sabendo se era preciso reg-la. Confiavam na prpria capacidade
de julgamento, mas sempre vinham perguntar:
        - Devemos regar Amaryllis? Acham que ela est com sede?
        Jamais havamos possudo alguma coisa, viva ou inanimada,  qual no dssemos um nome. E Amaryllis estava decidida a sobreviver. Nem Cory nem Carrie confiavam 
em suas foras infantis para carregarem o pesado vaso at a janela do sto, onde o sol ainda batia, embora por tempo muito curto. Eu tinha permisso para levar 
Amaryllis ao sto, mas era Chris quem descia com ela no final do dia. E, todas as noites, revezvamo-nos na tarefa de marcar
com um grande X vermelho o dia que passara. J tnhamos riscado cem dias.

        As chuvas frias chegaram e os ventos fortes comearam a soprar - s vezes, um denso nevoeiro escondia o sol matinal. Os galhos secos das rvores roavam 
na casa  noite e me acordavam, fazendo-me prender o flego e esperar, esperar, esperar que algo horrvel entrasse no quarto para devorar-me.
#113
        Um dia em que chovia a cntaros e, mais tarde, nevaria, mame chegou ofegante ao nosso quarto, trazendo um caixa de belos artigos para decorao de festas 
para colocarmos em nossa mesa no Dia de Ao de Graas* e torn-la festiva. Inclura entre os objetos uma toalha amarelo-brilhante e guardanapos cor de laranja, 
com franjas nas bordas.
        - Teremos convidados para o almoo de amanh" - explicou, largando a caixa sobre a cama mais perto da porta e fazendo meno de girar nos calcanhares para 
tornar a sair. - E vo assar dois perus: um para ns e outro para os criados. Mas no ficaro prontos a tempo de sua av inclu-los na cesta de piquenique. Mas no 
se preocupem. No permitirei que meus filhos passem um Dia de Ao de Graas sem uma festa digna da ocasio. Darei um jeito de trazer alguma comida quente - um pouco 
de cada coisa que nos servirem. Acho que farei uma grande encenao para servir pessoalmente meu pai e aproveitarei para preparar uma bandeja ao mesmo tempo que 
a dele, a fim de traz-la para vocs. Devo chegar aqui por volta da uma hora.
        E saiu da mesma forma como entrara - como o vento - deixando-nos na expectativa de uma lauta e quente refeio no Dia de Ao de Graas.
        Carne quis saber:
        - O que  Dia de Ao de Graas?
        Cory respondeu:
        - O mesmo que dar graas a Deus antes das refeies.

        Sob certo aspecto, creio que ele tinha razo. E j que dissera algo voluntariamente, longe de mim reprimi-lo com alguma crtica.

        Enquanto Chris segurava os gmeos no colo, sentado em uma das grandes poltronas,
expliquei-lhes a respeito do primeiro Dia de Ao de Graas, muito tempo 
atrs, enquanto me ocupava como qualquer hausfrau * muito feliz para arrumar uma mesa festiva no dia santificado. Os cartes que marcavam nossos lugares  mesa era 
quatro perus de roda aberta, a plumagem amarela e laranja feita de papel. Tnhamos duas grandes velas comemorativas para acender, dois casais de Peregrinos** e duas 
velas ndias - mas eu jamais acenderia velas to lindas para v-las derretidas e transformadas em massas
disformes de cera. Coloquei velas comuns para acendermos na mesa e guardei as velas caras e bonitas para outras refeies do Dia de Ao de Graas, quando estivssemos 
fora daquele lugar. Escrevi nossos nomes, com caligrafia caprichada, nos quatro pequenos perus e coloquei um em frente de cada prato. Nossa mesinha tinha sob o tampo 
uma prateleira onde guardvamos

__________________
*N. do T.: Nos Estados Unidos, a ltima quinta-feira de novembro.

**N. do T.: Nos Estados Unidos, com iniciais  maisculas, designa os Pais Peregrinos,  102 puritanos ingleses emigrados, que se estabeleceram em 1620 na regio ento 
denominada Nova Inglaterra, fundando a colnia de Plymouth (atualmente no Estado de Massachussetts).

#114
nossa loua e talheres. Aps cada refeio, eu os lavava no banheiro, numa
pequena tina de plstico. Chris os enxugava e depois os guardava na prateleira sob a mesa,  espera da prxima refeio.
        Arrumei os talheres com extremo cuidado: garfos  esquerda, facas  direita, com as lminas voltadas para os pratos, e as colheres. Nossa loua era porcelana 
Lenox, Com uma larga orla azul e friso de ouro de 24 quilates - tudo isso estava gravado no fundo das peas. Mame j me dissera que se
tratava de loua velha, de que os criados no dariam por falta. Naquele dia, utilizamos copos de cristal, com p. No consegui resistir  tentao de recuar para 
admirar minha obra artstica. A nica coisa que faltava eram flores - mame deveria ter-se lembrado de trazer flores.
        A uma hora chegou e passou. Carrie reclamou em altos brados:
        - Vamos almoar agora, Cathy!
        - Tenha pacincia. Mame vai trazer para ns comida quente especial e peru assado, com todos os acompanhamentos.
        Com minhas tarefas de dona-de-casa terminadas temporariamente, deitei-me na cama, feliz, para ler mais um trecho de Lorna Doone.
        - Cathy, meu estmago no tem pacincia - disse Cory, trazendo-me de volta de meados do sculo XVII. Chris estava mergulhado num mistrio de Sherlock Holmes, 
que seria rapidamente solucionado - na ltima pgina. No seria maravilhoso se os gmeos acalmassem os estmagos, cuja capacidade era de apenas alguns gramas, e 
lessem como Chris e eu?
        - Coma algumas passas, Cory.
        - No tem mais nada.
        - O modo correto de falar : "no tem mais" ou "as passas acabaram".
        - No tem mais nada, palavra de honra.
        - Coma amendoim
        - Os amendoins terminara. Falei certo?
        - Sim - suspirei. - Coma uma bolacha.
        - Carrie comeu a ltima bolacha.
        - Naquela hora ele no queria mais bolachas.
        Duas horas. Agora, estvamos todos mortos de fome. Nossos estmagos tinham sido acostumados a comer ao meio-dia em ponto. O que estaria detendo mame? Ia 
comer antes para depois trazer nossa comida? No fora isso que ela dissera.
        Pouco depois das trs horas, mame entrou correndo, com uma bandeja de prata enorme, cheia de travessas. Trajava um vestido de jrsei azul e trazia o cabelo 
penteado para trs, preso na altura da nuca por uma travessa de prata. Rapaz! Como estava linda!
        - Sei que esto mortos de fome - comeou, desculpando-se logo de sada. - Mas meu pai mudou de idia e resolveu, em cima da hora, usar a cadeira de rodas 
e comer  mesa com todo mundo.
        Exibiu um sorriso contrariado.
        - Sua mesa est linda, Cathy. Voc fez tudo exatamente como devia. Desculpe-me por ter esquecido as flores; eu no devia. Mas temos nove 
#115
convidados, todos conversando comigo e fazendo um milho de perguntas a respeito de onde estive durante tanto tempo, que vocs nem podem imaginar como foi difcil 
esgueirar-me at a copa quando o mordomo no estava olhando. Puxa! John parece ter olhos at nas costas. E vocs nunca viram algum to impaciente como eu; os convidados 
devem estar pensando que fui indelicada, ou simplesmente fiquei louca. Mas consegui fazer os pratos de vocs e escond-los. Depois, voltei  mesa, muito sorridente, 
e comi uma garfada antes de pedir licena para assoar o nariz em outra sala. Atendi a trs telefonemas dados por mim mesma da linha particular que tenho no quarto. 
Fui obrigada a disfarar a voz para ningum perceber e desejava realmente trazer fatias de torta de abboras para vocs, mas John j tinha cortado a torta e colocado 
as fatias em pratos de sobremesa, de modo que nada pude fazer. Ele notaria se faltassem quatro pedaos.
        Soprou-nos um beijo, regalou-nos com um sorriso brilhante mas contrafeito e desapareceu pela porta.
        Puxa! Ns realmente lhe complicvamos a vida!
        Corremos  mesa para comer.
        - Chris baixou a cabea para dar graas com tanta pressa que Deus no deve ter ficado muito impressionado conosco naquele dia em que seus ouvidos deveriam 
vibrar com palavras mais eloqentes.
        - Obrigado, Senhor, por esta tardia refeio de Ao de Graas. Amm.
        Sorri interiormente, pois era muito caracterstico de Chris ir direto ao
assunto; naquele momento, o assunto era fazer as vezes de anfitrio e colocar
a comida nos pratos que lhe estendamos, cada um por sua vez. Nos pratos de
"Exigente" e "Melindrosa", colocou uma fatia de peito de peru, um pouco de legumes e uma quantidade mnima de salada. As pores mdias cabiam a mim; naturalmente, 
serviu-se por ltimo - grandes quantidades para aquele
que precisava alimentar-se melhor: o crebro da famlia.
        Chris dava a impresso de estar morrendo de fome. Levava  boca enormes garfadas de um pur de batatas que j estava quase frio. Tudo estava quase frio; 
a salada de gelatina comeava a derreter-se e a alface estava
murcha.
        - No gostamos de comida fria! - berrou Carrie, fitando o belo prato servido por Chris, com pequenas pores arrumadas num crculo perfeito. Uma coisa no 
se podia negar a respeito de Chris: era meticuloso.
        A julgar pelo modo como ela olhava para o prato, a Srta. Melindrosa parecia estar vendo cobras e lagartos; e o Sr. Exigente imitava a expresso enojada de 
sua irm gmea.
        - Falando com franqueza, cheguei a ter um pouco de pena de mame, que tanto se esforara para trazer-nos uma gostosa refeio quente e, com isso, estragara 
seu almoo, alm de fazer papel de tola perante os convidados. E, agora, aqueles dois no iam comer coisa alguma! Depois de passarem trs horas reclamando e insistindo 
que estavam famintos! Crianas!
        O gnio  minha frente fechou os olhos para deliciar-se com o prazer de ter algo diferente: comida deliciosa, preparada com esmero, em lugar daquela
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porcaria jogada apressadamente numa cesta de piquenique antes das seis da manh. Todavia, para fazer-se justia  av,  preciso ressaltar que ela nunca nos esquecia; 
devia acordar ainda no escuro para chegar  cozinha antes do cozinheiro e das empregadas.
        Ento, Chris fez algo que realmente me chocou. Sabia muito bem que no devia espetar com o garfo um enorme pedao de peito de peru e enfi-lo inteiro na 
boca! O que havia com ele?
        - No coma assim, Chris. D mau exemplo voc sabe a quem.
        - No esto olhando para mim - replicou ele com a boca cheia de comida. - E estou morto de fome. Nunca me senti to faminto na vida e tudo est delicioso.
        Delicadamente, cortei meu pedao de peru em pedacinhos menores e coloquei alguns na boca, para mostrar quele suno em frente a mim a maneira correta de 
portar-se  mesa. Engoli primeiro e depois disse:
        - Tenho perla de sua futura esposa. Ele se divorciar de voc com menos de um ano de casamento.
        Ele continuou a comer, surdo e mudo a qualquer coisa seno o prazer de sentir o gosto da comida.
        - Cathy - disse Carrie. - No seja malvada com Chris, porque no gostamos de comida fria e, de qualquer maneira, no vamos mesmo comer. No queremos.
        - Minha mulher me adorar tanto que ficar encantada ao pegar minhas meias sujas. E, Carrie, voc e Cory gostam de mingau frio com passas; portanto, comam!
        - No gostamos de peru frio... e essa coisa marrom em cima das batatas parece esquisita.
        - Essa coisa escura se chama molho e est delicioso. E os esquims adoram comida fria.
        - Cathy, os esquims gostam de comida fria?
        - No sei, Carrie. Acho melhor gostarem, seno morrero de fome.
        Pelo que me  mais sagrado, no consegui ver qualquer ligao entre a comida dos esquims e nossa refeio do Dia de Ao de Graas.
        - Chris, no tinha algo melhor para dizer? Por que falar em esquims?
        - Esquims so ndios. E os ndios fazem parte da tradio do Dia de Ao de Graas.
        - Oh...
        - Voc sabe,  claro, que o continente norte-americano era ligado  sia - disse ele entre garfadas. - Os ndios vieram da sia a p e alguns deles gostaram 
tanto do gelo e da neve que simplesmente ficaram no crculo rtico, enquanto outros foram mais ajuizados e seguiram para o sul.
        - Cathy, o que  essa coisa molenga que parece gelatina? Com caroos?
        -  salada de uva-do-monte. Os caroos menores so uvas-do-monte e os maiores so nozes. A massa branca  creme de leite.
        E estava uma delcia; tinha tambm abacaxi picado.
#117
        - No gosto dessa coisa molenga.
        - Carrie - interveio Chris. - J estou cansado do que voc gosta e no gosta. Coma!
        - Seu irmo tem razo, Carrie. Est uma delcia. Os passarinhos adoram essas frutas e vocs so passarinhos, no so?
        - Passarinhos no comem frutas. Ele comem aranhas e outros insetos. Ns vimos quando eles comeram as aranhas. Pegavam direto da calha e engoliam sem mastigar! 
No podemos comer o que os passarinhos comem.
        - Cale a boca e coma - ordenou Chris, com a boca cheia.
        Ali estvamos ns, com a melhor comida (embora quase fria) que vamos desde que morvamos naquela casa detestvel, e os gmeos limitavam-se a olhar para 
os pratos, sem provar um s pedao!
        E Chris devorava tudo que estava  vista, como um porco premiado na exposio!
         Os gmeos provaram o pur de batatas com molho. O pur estava "encaroado" e o molho "esquisito". provaram o recheio absolutamente divino e o declararam 
"encaroado e esquisito".
        - Ento, comam as batatas-doces! - quase gritei. - Vejam como esto bonitas. So macias porque foram passadas no liqidificador e temperadas com marshmellow. 
Vocs adoram marshmellow; tem sabor de laranja e suco de limo.
        E pedi a Deus para que eles no notassem as "encaroadas" nozes.

        Creio que somando os dois, sentados um em frente ao outro, remexendo a comida at transform-la numa pasta, comeram o equivalente a trs garfadas.
        Enquanto Chris sonhava com uma sobremesa que no viera, comecei a tirar a mesa. Ento, por algum motivo extraordinrio, Chris passou a ajudar-me! No consegui 
acreditar. Ele sorriu de um modo que me desarmou e at mesmo beijou-me o rosto. E se boa comida era capaz de causar tal transformao num homem, eu estava disposta 
a aprender a cozinhar para gourmets. Chris at mesmo apanhou suas meias usadas antes de vir ajudar-me a lavar e secar a loua, os cristais e os talheres.
        Dez minutos depois que Chris e eu terminamos de arrumar tudo sob a mesa e cobri-la com uma toalha limpa, os gmeos anunciaram simultaneamente:
        - Nossos estmagos esto doendo! Estamos com fome!
        Chris estava lendo na sua "escrivaninha". Deixei Lorna Doone de lado, levantei-me da cama e dei a cada um dos gmeos um sanduche de creme de amendoim e 
gelia, tirados da cesta de piquenique.
        Enquanto eles comiam, dando pequenas dentadas nos sanduches, atirei-me na cama e observei-os realmente perplexa. Como podiam gostar daquela porcaria? Ser 
pai ou me no era to fcil ou delicioso como eu presumira
anteriormente.
#118
        - No se sente no cho, Cory .A faz mais frio que numa cadeira.
        - No gosto de cadeiras - replicou Cory.
        E espirrou.

  No dia seguinte, Cory adoeceu com uma forte gripe. Tinha o rostinho vermelho e febril. Reclamava de dores no corpo todo e nos ossos.
        - Cathy, onde est minha mame? Minha mame de verdade?
        Oh, como ele desejava a presena da me. Afinal, ela apareceu.
        Ficou imediatamente ansiosa ao examinar o rosto de Cory e foi correndo buscar um termmetro. Voltou com ar infeliz, acompanhada pela detestada av.
        Com o fino tubo de vidro na boca, Cory olhava para a me como se um anjo dourado viesse socorr-lo naquela hora de sofrimento. E eu, sua pretensa me, fiquei 
esquecida.
        - Querido, meu amado filhinho - ninava ela, aps peg-lo na cama e lev-lo no colo para a cadeira de balano, onde no parava de beijar-lhe a testa.
        - Estou aqui, meu amor. Eu o amo. Tomarei conta de voc e mandarei as dores embora. Coma direito, tome seu suco de laranjas como um bom menino e logo ficar 
bom.
        Recolocou-o na cama e ficou por perto at enfiar-lhe uma aspirina na boca e dar-lhe gua para engolir o comprimido. Tinha os olhos azuis toldados de lgrimas 
de preocupao, e suas esguias mos brancas mexiam-se nervosamente.
        Dois dias mais tarde, Carrie estava acamada ao lado de Cory, tossindo e
espirrando como ele; sua temperatura subiu to depressa que fiquei em pnico. Chris tambm parecia assustado. Desanimados e plidos, os dois gmeos jaziam lado a 
lado na enorme cama, com os dedinhos segurando as
cobertas logo abaixo dos queixos arredondados.
        Estavam to brancos que pareciam feitos de porcelana, e seus olhos azuis ficavam cada vez maiores  medida que se afundavam nos rostos: abatidos. Olheiras 
cada vez mais profundas faziam-nos parecer crianas assombradas. Quando nossa me no estava l, aqueles dois pares de olhos imploravam mudamente a Chris e a mim 
que os livrssemos do sofrimento.
        Mame tirou uma semana de folga no curso de secretariado a fim de ficar com os dois gmeos o mximo de tempo possvel. Eu detestava que nossa av julgasse 
necessrio acompanhar mame toda vez que esta vinha ao 
nosso quarto. Estava sempre metendo o nariz onde no era chamada e dando palpites nos quais, no estvamos interessados. J nos dissera que no existamos e no 
tnhamos o direito de viver num mundo que Deus criara 
para os puros e santos - como ela. Vinha apenas com intuito de torturar-nos ainda mais e privar-nos do conforto de termos nossa me a ss?
        O farfalhar de seus ameaadores vestidos cinzentos, o som de sua voz, as batidas de seus passos pesados, a viso de suas enormes mos plidas, moles e 
#119
carnudas, faiscando com anis de brilhante e manchadas de marrom pela aproximao da morte... oh, sim, bastava v-la para abomin-la.
        Por outro lado, l estava mame, visitando-nos com freqncia, fazendo
o possvel para restituir a sade aos gmeos. Tambm exibia olheiras ao
dar-lhes aspirina e gua, e mais tarde suco de laranja e canja de galinha bem
quente.
        Certa manh, mame entrou apressadamente com uma grande garrafa trmica de suco de laranjas que ela acabava de espremer.
        -  melhor que os sucos congelados ou enlatados - explicou. - Tem uma grande quantidade de vitaminas A e C, que so timas para curar gripes.
        Em seguida, preparou uma lista das coisas que desejava que eu e Chris fizssemos, acrescentando que devamos dar suco aos gmeos a intervalos freqentes. 
Guardamos a garrafa no sto, que, no inverno, era to bom quanto qualquer geladeira.
        Bastou um olhar ao termmetro retirado da boca de Carrie para deixar de lado a pose controlada e entrar em pnico.
        - Trinta e nove graus e sete dcimos! - exclamou ela. - Oh, Deus! Preciso lev-los a um mdico, a um hospital!
        Eu estava distante do grande guarda-roupas, apoiando-me de leve nele com uma das mos, exercitando as pernas como vinha fazendo diariamente desde que o sto 
se tornara frio demais. Lancei um rpido olhar de esguelha a minha av, tentando ler sua reao.
        A av no tinha pacincia com quem se descontrolava e fazia cenas.
        - No seja ridcula, Corrine. Qualquer criana tem febre alta quando adoece. No quer dizer coisa alguma. Voc j devia saber disso. Um resfriado        
 
apenas um resfriado.
        Chris ergueu bruscamente a cabea do livro que estava lendo; achava que os gmeos estavam seriamente gripados, ainda que no conseguisse imaginar como tinham 
contrado o vrus.
        A av prosseguiu:
        - Sabe o que fazem os mdicos para curar resfriados? Qualquer um sabe. Existem apenas trs providncias a tomar: ficar na cama, beber muito lquido e tomar 
aspirina. O que mais? E j no tomamos essas providncias?
        Olhou-me com ar malvolo:
        - Pare de balanar as pernas, menina. Deixa-me nervosa.
        Voltou a dirigir os olhos e a voz a mame:
        - Ora, minha me tinha um ditado: os resfriados levam trs dias chegando, trs dias ficando e trs dias indo embora.
        - E se estiverem gripados? - indagou Chris.
        A av virou-lhe as costas, ignorando a pergunta. No gostava do rosto de Chris; ele era parecido demais com papai.
        - Detesto quando pessoas que deviam saber o que esto fazendo questionam a opinio de gente muito mais velha, experiente e sbia. Todo mundo conhece as regras 
dos resfriados: seis dias para comear e ficar, trs dias para ir embora.  o que sempre acontece. Eles ficaro bons.
#120
        Como a av previu, os gmeos ficaram bons. Mas no em nove e sim em... dezenove dias. Bastaram repouso absoluto, lquidos e aspirina - nenhuma receita mdica 
para ajud-los a recuperar a sade mais depressa. Durante o dia, os gmeos ficavam na mesma cama;  noite, Carrie dormia comigo e Cory com Chris. No sei por que 
Chris e eu no adoecemos tambm.
        Passvamos a noite inteira levantando e tornando a deitar; corramos para buscar gua e o suco de laranja mantido gelado na escada do sto. Os gmeos choravam 
para pedir doces, a presena de mame ou algo que lhes desentupisse o nariz. Agitavam e tremiam, fracos e nervosos, preocupados por 
coisas incmodas que no sabiam expressar seno por meio daqueles olhos grandes e assustados que me partiam o corao. Enquanto estavam doentes, faziam perguntas 
que no costumavam fazer quando sos... No era esquisito?
        - Por que ficamos aqui em cima o tempo todo?
        - O andar de baixo foi embora?
        - Foi para onde o sol se esconde?
        - Mame nunca gosta mais de ns?
        - No gosta mais de ns - corrigia eu. 
        - Por que as paredes esto esquisitas?
        - Elas esto esquisitas? - replicava eu.
        - Chris tambm parece esquisito.
        - Chris est cansado.
        - Voc est cansado, Chris?
        - Um pouco. Eu gostaria que vocs dormissem e parassem de fazer tantas perguntas. E Cathy tambm est cansada. Ns gostaramos de dormir sabendo que vocs 
tambm esto dormindo profundamente.

        - No ficamos profundos quando dormimos.
        Chris suspirou, pegou Cory e carregou-o para a cadeira de balano. Logo depois, Carrie e eu tambm estvamos sentadas em seu colo. Ficamos balanando e contando 
estrias at as trs da manh. Noutras noites, lamos
estrias at quatro horas ou mais. Se os gmeos choravam e queriam mame, como faziam quase sem cessar, Chris e eu fazamos as vezes de pai e de me, fazendo o possvel 
para aquiet-los com cantigas de ninar. Balanvamos tanto a cadeira que as tbuas do assoalho comeavam a ranger e, certamente, algum l embaixo poderia ter escutado.
        E durante todo o tempo escutvamos o vento soprando nas montanhas e colinas, raspando os galhos das rvores desfolhadas e fazendo a casa ranger, murmurando 
ameaadoramente e, penetrando em frestas, uivava, gemia, soluava e procurava, por todos os meios, fazer-nos compreender que no estvamos seguros.
        Falamos e lemos tanto em voz alta que Chris e eu ficamos roucos e quase doentes de fadiga. Rezvamos todas as noites, ajoelhados, pedindo a Deus que curasse 
os gmeos.
        - Por favor, Senhor, faa-os voltar ao que eram.
#121
     Chegou o dia em que a tosse diminuiu e as plpebras insones comearam a pesar at se fecharem num sono tranqilo. As mos frias e esquelticas da morte haviam-se 
estendido para pegar nossos pequeninos irmos e relutavam em larg-los, pois os gmeos s recuperaram a sade muito devagar. Quando ficaram "bons", j no eram o 
mesmo par robusto e cheio de vitalidade. Cory, que antes era calado, agora falava ainda menos. Carrie, que adorava o som da prpria voz e tagarelava constantemente, 
tornou-se quase to taciturna quanto Cory .E agora, eu que tinha o silncio pelo qual tanto ansiara, queria de volta os gorjeios que antes se dirigiam sem parar 
a bonecas, carrinhos, trens, barquinhos, travesseiros, plantas, sapatos, vestidos, calcinhas, brinquedos, quebra-cabeas e jogos.

        Verifiquei a lngua de Carrie, achando-a plida, esbranquiada. Assustada, fitei os dois rostinhos lado a lado num travesseiro. Por que eu tanto desejara 
que crescessem e se comportassem como se fossem mais velhos? A longa doena trouxera-lhes um  amadurecimento repentino, colocando-lhes
olheiras escuras sob os grandes olhos azuis e roubando-lhes a cor saudvel. A febre e a tosse haviam deixado atrs de si uma expresso de sabedoria, s vezes irnica, 
de pessoas velhas e cansadas que se contentam com permanecer na cama sem se importarem em saber se o sol nasceu, ou deitou-se, ou nunca mais nascer. Os gmeos me 
causavam "medo; seus rostos abatidos faziam-me
sonhar com a morte.

        E durante todo o tempo o vento continuava a soprar.
        Eventualmente, eles deixaram a cama e passaram a caminhar devagar pelo quarto. Pernas outrora to gordas e rosadas; capazes de saltar e correr, estavam agora 
fracas e finas como talos de capim. Aps a doena, os dois pareciam mais inclinados a apenas rastejar em vez de voar, a apenas sorrir em
vez de gargalhar.
        Fatigada, deixei-me cair de bruos na cama e pensei, pensei, pensei... Que podamos Chris e eu fazer para restaurar o encanto infantil dos gmeos?
        - Vitaminas! - proclamou mame quando Chris e eu fizemos questo de apontar-lhe as diferenas em nossos irmos menores. - Vitaminas so exatamente do que 
eles necessitam. E vocs dois tambm. De agora em diante todos passaro a tomar uma cpsula de vitaminas por dia.
        Enquanto fazia tal declarao, ela ergueu a mo esguia e elegante para ajeitar os lindos cabelos caprichosamente penteados.
        - Ar fresco e sol vm em cpsulas de vitaminas? - indaguei, sentada na cama e encarando uma me que se recusava a reconhecer o que havia de errado. - Depois 
que cada um de ns tomar uma cpsula diria de vitaminas, teremos de volta a sade radiante de que gozvamos ao levarmos
uma vida normal e passvamos a maior parte dos dias ao ar livre?
        Mame estava usando um vestido cor-de-rosa - o rosa lhe caa maravilhosamente, realando-lhe a cor saudvel e emprestando um clido tom rseo aos cabelos 
brilhantes.
#122
        - Cathy - replicou ela, lanando-me um olhar condescendente e movendo-se para ocultar as mos. - Por que insiste invariavelmente em dificultar tanto as coisas 
para mim? Fao o possvel. No duro. E a resposta  afirmativa: a pessoa pode ingerir, nas vitaminas, a sade proporcionada pelo ar livre,  exatamente esse o motivo 
pelo qual se fazem vitaminas. Ou muitas delas, pelo menos.
        Sua indiferena fez-me doer ainda mais o corao. Olhei para Chris, que se mantinha de cabea baixa, escutando tudo sem fazer comentrios. Afinal, indaguei:
        - Mame, quanto tempo ainda vai durar nossa priso?
        - Pouco tempo, Cathy; s mais um pouco de tempo... pode crer.
        - Mais um ms?
        - Possivelmente.
        - Voc no podia arranjar um jeito de levar sorrateiramente os gmeos para um passeio em seu carro? Tomaria providncias para que os criados no vissem. 
Acho que isso faria uma diferena enorme para a sade deles. Chris e eu no precisamos ir.
        Ela girou para encarar meu irmo mais velho e verificar se ele era meu
cmplice naquele compl, mas o rosto de Chris expressava inequvoca surpresa.

        - No! Claro que no! No posso correr tal risco! Nessa casa trabalham oito criados e, embora seus alojamentos sejam bastante isolados da casa principal, 
sempre existe algum espiando por uma janela; e ouviriam o motor do carro. Como so curiosos, olhariam para ver que direo eu tomaria.
        Repliquei num tom frio:
        - Ento quer fazer o favor de arranjar um modo de trazer frutas frescas? Bananas, em especial? Sabe que os gmeos adoram bananas e no comeram uma s desde 
que estamos aqui.
        - Trarei bananas amanh. Seu av no gosta delas.
        - O que tem ele a ver com isso? 
        - No compram bananas porque ele no gosta.
        - Todos os dias teis, voc vai e volta de automvel do curso de secretariado. Pare para comprar bananas. E mais passas e amendoins. E por que no pode trazer, 
de vez em quando, um bocado de pipocas? Certamente isso no estragar os dentes das crianas!

        Ela meneou simpaticamente a cabea, concordando verbalmente.
        - E de que voc gostaria? - indagou a seguir.
        - Liberdade! Quero sair daqui. Estou farta de permanecer trancada num quarto. Quero que Chris saia; quero ver os gmeos fora daqui. Quero que voc alugue 
uma casa, ou compre uma casa... ou roube uma casa. Mas tire-nos aqui.
        - Cathy - comeou ela, implorando. - Estou fazendo o melhor possvel. No lhes trago presentes cada vez que passo por aquela porta? O que mais precisam, 
alm de bananas? Diga!
#123
        - Voc prometeu que ficaramos aqui pouco tempo, e j se passaram meses.
        Ela estendeu as mos num gesto de splica:
        - Quer que eu mate meu pai?
        Atordoada, sacudi a cabea.

        - Deixe-a em paz! - explodiu Chris no momento em que sua deusa fechou a porta atrs de si. - Ela faz por ns tudo o que pode! Pare de implicar com ela!  
um milagre que ela ainda venha aqui, com voc sempre a incomod-la, no parando de fazer perguntas, como se no confiasse nela. Como sabe o quanto ela sofre? Acredita 
que esteja feliz sabendo que seus quatro filhos ficam trancados num quarto e s podem brincar num sto?
        Era difcil, no caso de uma pessoa como nossa me, perceber o que ela pensava ou o que sentia. Sua expresso era sempre calma, imperturbvel, embora muitas 
vezes aparentasse fadiga. Se, por um lado, suas roupas eram novas, caras e ela raramente usasse o mesmo traje duas vezes, por outro tambm recebamos muitas roupas 
novas e caras. No que isso fizesse alguma diferena para ns. Ningum nos via, exceto a av, e esta pouco se importaria se vestssemos trapos - o que, na verdade, 
talvez at lhe arrancasse um sorriso de satisfao.
     
     No subamos ao sto quando chovia ou nevava. Mesmo nos dias claros, o vento rosnava l fora, gritando ao penetrar pelas frestas da casa.
        Uma noite, Cory acordou e me pediu:
        - Mande o vento embora, Cathy.
        Sa da cama, onde Carrie dormia encolhida, e me enfiei sob as cobertas
com Cory, abraando-o. Pobre menino magro, desejando tanto ser amado por sua verdadeira me... e s tinha a mim. Parecia muito mido e frgil, com se aquele vento 
indomvel conseguisse sopr-lo para longe. Encostei o rosto em seus louros cabelos encaracolados e cheirosos, beijando-o como costumava fazer quando ele era um beb 
e substitu minhas bonecas por dois bebs de verdade.
        - No posso mandar o vento embora, Cory. S Deus  capaz disso.
        - Ento, diga a ele que no gosto do vento - replicou Cory, sonolento. - Diga a Deus que o vento quer entrar e me pegar.
        Abracei-o com mais fora... nunca permitindo que o vento levasse Cory
- nunca! Mas compreendi o que ele queria dizer.
        - Conte-me uma estria, Cathy, para eu poder esquecer o vento.
        Cory tinha uma estria predileta, que eu inventara para agrad-lo,  respeito de um mundo de fantasia em que criancinhas moravam numa casinha acolhedora, 
com o pai e a me que eram muito grandes e tinham fora suficiente para colocar em fuga as coisas que causavam medo. Uma famlia de seis pessoas, com um jardim nos 
fundos da casa onde havia balanos pendurados em rvores gigantescas e plantas vivas floresciam - o tipo de plantas que sabiam como morrer no outono e renascer na 
primavera. Tinham um co
#124
chamado Clover e um gato chamado Calico; um pssaro amarelo cantava o dia inteiro numa gaiola dourada e ningum recebia gritos e surras; tambm no existiam portas 
trancadas e cortinas fechadas.
        - Cante uma cantiga, Cathy. Gosto quando voc canta para me fazer dormir.
        Ajeitei-o bem nos meus braos e comecei a cantar a letra que eu escrevera para uma melodia que Cory costumava cantarolar... msica sada de sua cabea. Era 
uma cano destinada a afastar seu medo do vento e, talvez, tambm os meus temores. Foi minha primeira tentativa de fazer poesia.

        Escuto o vento descer da colina,
        Falando comigo na noite calada,
        Murmurando ao meu ouvido
        Palavras que no entendo
        Mesmo quando ele est perto.

        Sinto a brisa soprar do mar,
        Desfazer-me o cabelo e me acariciar,
        Mas nunca me pega pela mo
        Para mostrar compreenso;
        Nunca me afaga com ternura.

        Sei que um dia subirei a colina
        E encontrarei um novo dia,
        E uma voz p'ra dizer o que preciso ouvir:
        Se viverei mais um ano...

        E o meu pequenino adormeceu em meus braos, respirando regularmente, sentindo-se seguro. Por cima de sua cabea vi Chris, com os olhos abertos fixos no teto. 
Quando terminei a cano, voltou-se para encarar-me. Seu dcimo quinto aniversrio j passara, comemorado com um bolo de padaria e
sorvete. Presentes, ns os recebamos quase todos os dias. Agora, Chris possua uma mquina fotogrfica Polaroid e um relgio mais caro. timo. Maravilhoso. Como 
podia satisfazer-se com to pouco?
        No percebia que nossa me j no era a mesma? No notava que ela j no vinha visitar-nos todo dia? Seria to ingnuo a ponto de acreditar em tudo que ela 
dizia, em todas as desculpas que apresentava?

        Vspera de Natal. Havia cinco meses que estvamos em Foxworth Hall. Nem uma nica vez estivramos nos pavimentos inferiores daquela manso enorme e, muito 
menos, l fora. Cumpramos as regras: dvamos graas antes de todas as refeies; ajoelhados junto a nossas camas, rezvamos todas as noites; ramos recatados no 
banheiro; mantnhamos nossos pensamentos
#125
limpos, puros, inocentes... e, no obstante, parecia-me que a cada dia nossa comida piorava de qualidade.
        Convenci-me de que realmente no faria diferena perdermos uma vez as compras de Natal. Haveria outros Natais em que seramos muito, muito ricos e poderamos 
entrar nas lojas para comprar tudo o que quisssemos. Como ficaramos lindos em nossos trajes elegantes, boas maneiras, vozes suaves mas eloqentes, que proclamariam 
ao mundo sermos algum... algum especial... amados, queridos, necessrios.
        Naturalmente, Chris e eu sabamos que Papai Noel no existia. Contudo, desejvamos que os gmeos acreditassem em Papai Noel e no perdessem todo o glorioso 
encantamento de um homem gordo e jovial que percorria o mundo para entregar a todas as crianas exatamente o que elas queriam - mesmo quando no sabiam o que queriam 
at receberem o presente.
        Como seria a infncia sem acreditar em Papai Noel? No o tipo de infncia que eu desejava para os nossos gmeos!
        O Natal era uma poca de grande ocupao, mesmo para quem vivia trancafiado - mesmo para quem comeava a desesperar, duvidar, desconfiar, Em segredo, Chris 
e eu fizemos presentes para mame (que, na verdade, no
necessitava de coisa alguma). E tambm para os gmeos - gordos animais estofados, que costurvamos laboriosamente  mo e depois rechevamos com algodo. Eu fazia 
todo o trabalho de bordado nas caras, antes de os rechearmos. Em particular, trancada no banheiro, eu tricotava para Chris uma touca de l vermelha; ela aumentava 
paulatinamente de tamanho, mas no parava de crescer - creio que mame se esquecera de ensinar-me algo a respeito de dimenses e arremates.
        Ento, Chris apresentou uma sugesto absolutamente idiota e horrvel:
        - Vamos fazer tambm um presente para a av. No  correto ns a deixarmos de fora.  ela quem traz nossa comida e leite; talvez um presente de Natal, prova 
de nossa considerao, seja exatamente o que falta para ganharmos sua afeio. E imagine como nossa vida seria muito mais agradvel se ela ao menos nos tolerasse.
        Era estupidez bastante pensar que aquilo daria resultado, mas acabei acreditando na idia e trabalhamos como escravos, horas a fio, preparando um presente 
para a velha bruxa que nos detestava. Em todo o perodo desde que chegramos  manso, ela nunca - nem uma nica vez - pronunciara nossos
nomes.
        Colamos linho numa moldura, a fim de estic-lo bem, colamos nele pedras coloridas e depois aplicamos meticulosamente cordes dourados e marrons. Quando cometamos 
um erro, tratvamos de refazer tudo com o mximo capricho, para que ela no notasse. A av era perfeccionista e perceberia a
mnima falha. E, na verdade, ns jamais daramos a ela algo aqum do que nossos melhores esforos poderiam produzir.
        - Escutem - disse Chris novamente. - Eu acredito, de verdade, que temos uma possibilidade de captar a simpatia da av. Afinal, ela  nossa av e as pessoas 
mudam. Ningum permanece estacionrio. Enquanto mame se esfora 
#126
para encantar seu pai, devemos trabalhar no sentido de encantar sua me. Embora ela se recuse a olhar para mim, no faz o mesmo em relao a voc.
        Na realidade ela no olhava para mim; via apenas meus cabelos - por algum motivo, fascinava-se com meus cabelos.
        - No se esquea, Cathy: ela nos deu crisntemos amarelos.
        Chris tinha razo: o fato j era uma palha  qual nos agarrarmos.
        No final da tarde, quase ao anoitecer, mame chegou ao nosso quarto com uma rvore de Natal viva, plantada numa pequena tina de madeira. Um p de blsamo 
- o que poderia ter mais perfume de Natal? O vestido de mame era de jrsei vermelho e brilhante; colava-se ao corpo, realando todas as curvas que eu esperava ter 
algum dia. Mame estava risonha e alegre, transmitindo-nos sua alegria ao ficar conosco para ajudar-nos a enfeitar a rvore com os ornamentos e pequenas lmpadas 
que ela tambm trouxera. Deu-nos quatro ps de meia para pendurarmos nos ps das camas, a fim de que Papai Noel os encontrasse e enchesse de presentes.
        - No prximo ano, passaremos o Natal morando em nossa prpria casa - declarou sorridente. E eu acreditei.
        - Sim - acrescentou, ainda sorrindo e enchendo-nos de alegria. - No ano que vem, nessa poca a vida ser maravilhosa para todos ns. Teremos muito dinheiro 
para comprar uma casa como essa para ns e vocs ganharo tudo o que desejarem. Logo esquecero esse quarto e o sto, E todos esses dias ruins que vocs enfrentaram 
com tanta coragem ficaro no esquecimento, como se nunca tivessem acontecido.
        Beijou-nos, disse que nos amava e, quando a vimos sair, no nos sentimos abandonados, como antes. Mame encheu-nos os olhos, as esperanas, os sonhos.

        Mame veio  noite, enquanto dormamos. Pela manh, acordei e encontrei os ps de meia cheios at a boca. E havia inmeros presentes empilhados junto  mesinha 
onde estava a rvore de Natal; em cada espao disponvel no quarto, brinquedos grandes - difceis de embrulhar. - para os gmeos.
        Meu olhar encontrou o de Chris. Ele piscou um olho, sorriu e pulou da cama. Pegou os sinos prateados presos s rdeas de plstico das renas e sacudiu-os 
vigorosamente acima da cabea.
        - Feliz Natal! - exclamou. - Acordem todos! Cory, Carrie, seus dorminhocos, abram os olhos, levantem-se e vejam! Venham ver o que Papai Noel nos trouxe!
        Eles emergiram lentamente dos sonhos, esfregando os olhos sonolentos, fitando com incredulidade os muitos brinquedos, os lindos embrulhos com pequenos cartes 
identificando os destinatrios, os ps de meia listrados estufados de doces, balas, nozes, frutas, chicles, pirulitos de menta e Papais Noel de chocolate.
#127
        Balas de verdade - afinal! Balas duras, do tipo colorido que as igrejas e escolas distribuem nas festas, a melhor espcie de balas para provocar cries pretas 
nos dentes. Mas tudo tinha aparncia e sabor to natalinos!
        Cory ficou sentado na cama, perplexo, e tornou a esfregar os olhos, parecendo por demais maravilhado para falar.
        Carrie, porm, sempre conseguia encontrar o que dizer:
        - Como Papai Noel nos encontrou?
        - Oh, Papai Noel possui olhos mgicos - explicou Chris, pegando Carrie e colocando-a no ombro. Depois, estendeu a mo para pegar Cory tambm. Agia exatamente 
como papai  teria agido, o que me trouxe lgrimas
aos olhos.
        - Papai Noel jamais esqueceria propositalmente uma criana - acrescentou. - Alm disso, sabia que vocs estavam - aqui. Certifiquei-me disso, escrevendo-lhe 
uma longa carta fornecendo nosso endereo e acrescentando uma lista do que desejvamos. A lista tinha mais de um metro de comprimento. 

        Engraado, refleti, pois nossa lista do que todos os quatro queriam era bem curta e simples: queramos sair dali, queramos liberdade.
        Sentei-me na cama e olhei em volta, sentindo um n agridoce na garganta. Mame realmente tentara - disso no havia dvida. Tentara e, a julgar pela aparncia, 
fizera o melhor possvel. Amava-nos, importava-se conosco. Ora, devia ter levado meses para comprar tudo aquilo.
        Sentia-me envergonhada e contrita por tudo de mal que pensara dela. Eis o resultado de querer tudo e, ao mesmo tempo, no ter pacincia nem confiana.
        Chris virou-se para mim com um olhar indagador.
        - No vai sair da cama? Pretende ficar a o dia inteiro? No gosta mais de receber presentes?
        Enquanto Cory e Carrie rasgavam os papis dos embrulhos, Chris se aproximou de mim, estendendo-me a mo.

        - Venha, Cathy. Aproveite o nico Natal que ter em seu dcimo segundo ano de vida. Transforme-o num Natal mpar, diferente de todos os outros que teremos 
no futuro.
        Seus olhos azuis suplicavam.
        Usava um amarrotado pijama de flanela vermelha com pintas brancas e tinha os cabelos dourados em total desalinho. Eu usava uma camisola vermelha de l e 
meus cabelos compridos estavam muito mais desgrenhados que os dele. Peguei-lhe a mo clida e ri. Natal era Natal, no importava onde estivssemos; quaisquer que 
fossem as circunstncias, era um dia que devia ser aproveitado. Abrimos todos os embrulhos, experimentamos nossas roupas novas - o tempo todo enfiando balas e doces 
na boca, antes da refeio matinal. E "Papai Noel" deixara-nos um bilhete recomendando que escondssemos as balas e doces "de vocs sabem quem". Afinal, coisas aucaradas 
ainda provocavam cries dentrias. At mesmo no dia de Natal.
#128
        Sentei-me no cho, usando um novo roupo verde lindo de morrer. Chris trajava um novo roupo vermelho que combinava com o pijama. Eu vestira os gmeos, com 
seus novos roupes azul-brilhante. No creio que pudessem existir quatro crianas mais felizes que ns naquele incio de manh. As barras de chocolate estavam diabolicamente 
divinas - e ainda mais doces por serem proibidas, Era um verdadeiro paraso meter o chocolate na boca e devagar, muito devagar, deix-lo derreter-se enquanto eu 
cerravas as plpebras para melhor sentir o sabor. E, quando olhei, Chris tambm tinha os olhos fechados. Engraado como os gmeos comiam o chocolate, com os olhos 
arregalados, cheios de surpresa. Teriam esquecido as balas? Parece que sim, pois davam a impresso de estarem saboreando o paraso. Quando escutamos o barulho da 
maaneta, ocultamos rapidamente as balas e doces sob a cama mais prxima.
        Era a av. Entrou calada, carregando a cesta de piquenique. Colocou a cesta sobre a mesinha de jogos. No nos desejou "Feliz Natal", nem disse "Bom-dia", 
nem mesmo sorriu ou demonstrou por qualquer outro modo que se tratava de um dia especial. E no devamos falar com ela a menos que nos
dirigisse antes a palavra.
        Foi com relutncia e receio, mas tambm com grande esperana, que peguei o comprido pacote embrulhado em papel de alumnio vermelho tirado de um dos presentes 
que mame nos trouxera. Por baixo do lindo papel estava nosso trabalho de colagem, no qual ns quatro havamos colaborado para criar uma verso infantil do jardim 
perfeito. Os velhos bas do sto haviam-nos fornecido timos materiais, como filigrana de seda para fazer as borboletas que esvoaavam sobre flores bordadas em 
cores brilhantes. Como Carrie insistira em fazermos borboletas cor-de-prpura, com pintas vermelhas - ela adorava a combinao dessas duas cores! - tnhamos feito 
as borboletas em tons pastis. Se existia alguma borboleta de Cores mais estranhas que as de Carrie - uma borboleta artificial,  claro - certamente seria a imaginada 
por Cory: amarela, com manchas verdes e pretas, e olhos feitos com minsculas contas vermelhas. Nossas rvores eram feitas de cordes castanhos, combinados com pequenos 
seixos pardos para imitar casca, e tinham os galhos graciosamente entrelaados, de modo que pssaros de cores vivas podiam pousar ou voar por entre as folhas. Chris 
e eu tnhamos retirado peitas de galinha de travesseiros velhos,  mergulhando-as em tinta de aquarela e deixando-as secar, utilizando depois uma escova de dentes 
velha para alis-las e devolver-lhes a beleza.

        Talvez seja convencimento afirmar que nosso trabalho mostrava sinais de verdadeira arte e muito engenho criativo. Era uma composio equilibrada e, no obstante, 
possua ritmo, estilo... e um encanto que trouxe lgrimas aos olhos de mame quando lhe mostramos o resultado final. Ela foi obrigada a nos dar as costas para que 
ns, tambm, no chorssemos. Oh, sim: aquela obra era, de longe, a melhor pea de trabalho artstico que j havamos
produzido.
#129
        Trmula e apreensiva, aguardei o momento em que ela estivesse com as mos vazias para aproximar-me. Desde que a av jamais olhava para Chris, e os gmeos 
tinham tanto medo dela que chegavam a encolher-se em sua presena, cabia-me fazer a entrega do presente... e eu simplesmente no conseguia obrigar meus prprios 
ps a avanarem. Chris empurrou-me com o cotovelo.
        - Ande logo - sussurrou ele. - Ela ir embora a qualquer momento.
        Meus ps pareciam pregados ao cho. Abracei o comprido embrulho vermelho com ambos os braos. Pela prpria posio que assumi, dava a impresso de estar 
oferecendo algo em sacrifcio, pois no era fcil dar alguma coisa a av quando ela nada nos dera seno hostilidade e estava  espera de uma oportunidade para causar-nos 
dor.
        Naquela manh de Natal, conseguiu muito bem causar-nos sofrimento, mesmo sem empregar um aoite ou uma palavra.
        Minha inteno era aproximar-me dela adequadamente e dizer: "Feliz Natal: vov; desejamos dar-lhe um pequeno presente. No precisa agradecer, pois no nos 
deu trabalho algum.  apenas uma coisinha para demonstrar o quanto somos gratos pela comida e abrigo que a senhora nos d". No, no; ela julgaria que estava sendo 
sarcstica se falasse dessa forma. Seria muito melhor dizer algo como: "Feliz Natal; esperamos que goste deste presente. Todos ns trabalhamos nele, inclusive Cory 
e Carrie, para que a senhora saiba, quando formos embora, que realmente tentamos ser bons meninos".
        O simples fato de avistar-me perto dela, segurando o presente, apanhou-a de surpresa. 

        Lentamente, aps erguer os olhos com valentia a fim de encar-la, estendi-lhe a oferenda natalina. No tencionava implorar-lhe com o olhar. Queria que ela 
aceitasse o presente, gostasse dele e agradecesse, mesmo que o fizesse com frieza. Desejava que ela fosse para a cama naquela noite pensando em ns e vendo que, 
afinal, no ramos to ruins. Queria que ela saboreasse e digerisse o rduo trabalho que empregramos na confeco do presente e refletisse sobre a correo ou erro 
da maneira pela qual nos tratava.
        Do modo mais custico, seu olhar frio e desdenhoso fixou-se na comprida caixa que embrulhramos em vermelha. Na parte superior, havia um ramo artificial 
de pinheiro e um grande lao de fita prateada. Ao lao estava preso um carto que dizia: " av, de Chris, Cathy, Cory e Carrie".
        Os olhos cinzentos como pedra demoraram-se no carto o tempo suficiente para ler os dizeres. Ento, ela ergueu o olhar para encarar-me. Meus olhos, esperanosos, 
suplicavam-lhe, imploravam-lhe que compreendesse - e  nos assegurasse - que no ramos maus, como s vezes eu chegava a temer. Ela tornou a lanar um olhar  caixa 
e depois, deliberadamente, deu-me as costas. Encaminhou-se rigidamente a porta, bateu-a com fora e trancou-a por fora. Fui deixada no centro do quarto, segurando 
o produto final de muitas e longas horas de esforo para conseguirmos perfeio e beleza.
        Idiotas! Eis o que ramos: malditos idiotas!
#130
        Jamais conseguiramos conquist-la, cativ-la! Ela sempre nos consideraria filhos do Demnio! No que lhe dizia respeito, ns realmente no existamos.
        E isso nos magoava. Podem apostar que magoava muito. Eu sentia dor da cabea at as solas dos ps descalos. Meu corao parecia um bola oca que latejava 
dolorosamente no peito. Escutei, atrs de mim, a respirao forada de Chris. E os gmeos comearam a choramingar.

        Era a minha vez de ser adulta, de manter a pose que mame utilizava to bem e com tanta eficincia. Procurei padronizar meus movimentos e expresses pelos 
de mame. Usei as mos como ela usava as suas. Sorri como  ela, lenta e cativamente.
        E o que fiz para demonstrar minha maturidade?
        Joguei o embrulho no cho! Praguejei, pronunciando palavras que nunca empregara antes. Levantei o p e pisei o presente, escutando o papelo estalar ao ser 
esmagado. Gritei! Desvairada de raiva, pulei com ambos os ps sobre o presente, sapateando e  pisando, at ouvir os estalos da bela moldura antiga que havamos encontrado 
no sto, restaurando-a e dando-lhe um esmerado acabamento que a fazia parecer nova. Odiei Chris por convencer-me de que poderamos cativar uma mulher feita de pedra! 
Odiei mame por colocar-nos naquela situao! Ela deveria conhecer melhor sua prpria me; devia trabalhar como balconista numa loja; certamente havia alguma coisa 
que ela pudesse fazer sem nos submeter a tais circunstncias.
        A velha moldura foi pulverizada sob o impiedoso ataque de uma menina desvairada e frentica; todo o nosso trabalho foi estragado.
        - Pare! - exclamou Chris. - Podemos ficar com o quadro!

        Embora ele corresse para evitar a destruio total, a frgil colagem estava em runas. Irremediavelmente perdida. Comecei a chorar.
        Ento, banhada em lgrimas e sacudida por soluos, abaixei-me para apanhar as  borboletas de seda que Cory e Carrie haviam produzido to laboriosamente, 
gastando tanto esforo para dar-lhe um colorido glorioso. Borboletas que eu guardaria pelo resto da vida.
        Chris abraou-me com fora enquanto eu soluava. Tentou reconfortar-me com palavras paternais:
        - Est tudo bem. No importa o que ela faa. Estamos certos e ela est errada. Ns tentamos. Ela jamais tenta.

        Sentamo-nos no cho, calados, em meio a nossos presentes. Os gmeos estavam quietos, os grandes olhos cheios de dvidas, querendo brincar com seus presentes 
e, ao mesmo  tempo, indecisos porque eram nossos espelhos e refletiam as nossas emoes - quaisquer que elas fossem. Oh, a pena que senti ao olh-los feriu-me profundamente. 
Eu tinha doze anos. Em alguma ocasio de minha vida, devia aprender a comportar-me de modo educado e manter a compostura, deixando de ser uma banana de dinamite 
sempre pronta a explodir.
#131
        Mame entrou em nosso quarto, sorridente e saudando-nos pelo Natal. Trouxe mais presentes, inclusive uma enorme casa de bonecas que outrora fora dela... 
e de sua detestvel me.
        - Este presente no  de Papai Noel - anunciou, colocando com muito cuidado a casa de bonecas no cho e, hoje eu juro, no deixando um s centmetro quadrado 
de espao livre. -  o meu presente para Cory e Carrie.
        Abraou os gmeos, beijou-os e disse-lhes que agora poderiam fazer de conta que tinham uma casa, eram pais e anfitries, como ela fazia quando criana.
        Se percebeu que nenhum de ns demonstrou entusiasmo especial pelo presente, no fez comentrios. Rindo muito, alegre e encantadora, ajoelhou-se no cho, 
sentando-se nos calcanhares para nos contar o quanto adorava aquela casa quando tinha cinco anos de idade.
        - Alm disso,  muito valiosa - disse aos borbotes. - No mercado certo, uma casa de bonecas como esta valeria uma fortuna fabulosa. S as bonecas em miniatura, 
com juntas mveis, no tm preo. Os rostos so pintados  mo. As bonecas so feitas na mesma escala da casa, assim como a
mobilia, os quadros, tudo, enfim. A casa 
foi fabricada por um artista que residia na Inglaterra. Cada cadeira, mesa, cama, abajur, candelabro, e tudo o mais,  reproduo exata de antigidades genunas. 
Ao que sei, o arteso levou doze anos para completar o trabalho. 
        - Vejam como as pequenas portas abrem e fecham, perfeitamente encaixadas, o que  muito mais do que se pode dizer desta casa em que estamos morando - prosseguiu 
ela. - Todas as gavetas da mobilia funcionam, abrindo e fechando. E existe uma chavinha para trancar a escrivaninha. Reparem como algumas das portas so de correr
e se embutem nas paredes. Eu gostaria que essa manso tivesse portas assim; no sei por que motivo saram de moda. E vejam as sancas esculpidas  mo, perto do teto,
e os lambris na biblioteca e na sala de jantar... e os livrinhos nas estantes! Acreditem ou no, se usarmos um microscpio poderemos ler os textos!
        Com dedos cuidadosos e conhecedores, demonstrou todos os fascnios de uma casa de bonecas que s os
filhos de gente extremamente rica podem ter.

        Chris,  claro, teve que retirar um dos minsculos livros da estante, a fim de examin-lo meticulosamente para ver o texto to pequeno que s podia ser lido 
com um microscpio. (Existia um tipo muito especial de microscpio que ele esperava possuir algum dia... e eu esperava poder presente--lo como aparelho.)
        Era impossvel deixar de admirar a habilidade e pacincia exigidas para fazer mveis to pequenos. Na sala de estar da frente da casa de estilo elizabetano, 
havia um piano de cauda coberto com uma toalha de seda rendada com franjas de ouro. Uma jarra com pequenssimas flores estava colocada no centro da mesa de jantar. 
Pequenas frutas feitas de cera enchiam a bandeja de prata sobre o aparador do buf.
#132
        Dois candelabros de cristal pendiam do teto, e velas de verdade estavam enfiadas nos castiais. Na cozinha, criados usando aventais preparavam o jantar. 
Um mordomo de libr branca postava-se junto  porta da frente para receber os convidados que chegavam, enquanto na sala de visitas principal damas com vestidos lindos 
estavam de p junto a homens com expresses
impenetrveis.

        No andar superior, no quarto das crianas, estavam trs meninos e, no
bero, um beb estendia os braos para ser levantado ao colo de quem aparecesse para peg-lo. Na fachada lateral, quase nos fundos da casa, fora construdo um anexo 
para guardar uma carruagem maravilhosa! E havia dois cavalos na cocheira! Puxa vida! Quem poderia imaginar que algum fosse
capaz de fazer objetos to minsculos e detalhados? Olhei para as janelas,
embevecida com as elegantes cortinas e forros brancos, com os pratos e
talheres na mesa de jantar, Com os potes e panelas nas prateleiras dos armrios da cozinha - to minsculos que no ultrapassavam o tamanho de ervilhas
verdes do tipo maior.

        - Cathy - disse mame, passando o brao por minha cintura. - Veja esse pequeno tapete.  um persa genuno, feito de pura seda. O tapete na sala de jantar 
 oriental.
        E prosseguiu por longo tempo, exaltando as virtudes do notvel brinquedo.
        - Como pode ser to velha e, apesar de tudo, parecer to nova? - indaguei.
        Uma nuvem escura passou sobre mame, sombreando-lhe o rosto.
        - Quando ela pertencia  minha me, era mantida trancada numa enorme caixa de vidro. Minha me podia olhar  vontade, mas no tocava nela. Quando foi dada 
a mim, meu pai pegou um martelo e quebrou a caixa de vidro, permitindo-me brincar com tudo, sob a condio de eu jurar sobre a Bblia que no quebraria um s objeto.
        - Voc jurou e depois quebrou alguma coisa? - perguntou Chris.
        - Sim, eu jurei e depois quebrei alguma coisa - respondeu mame, com a cabea to baixa que no lhe podamos ver os olhos. - Havia mais um boneco, um jovem 
muito bonito, cujo brao caiu quando tentei tirar-lhe o casaco. Levei um surra de chibata, no s por quebrar o boneco, como por querer ver o que existia por baixo 
das roupas.
        Chris e eu permanecemos sentados e silenciosos, mas Carrie animou-se e
demonstrou grande interesse pelos lindos bonequinhos com roupas to elegantes e coloridas. Gostou especialmente do beb no bero. Vendo a irm to interessada, Cory 
tambm se aproximou, a fim de investigar Pessoalmente os inmeros tesouros da casa de bonecas.
        Foi ento que mame voltou a ateno para mim:
        - Cathy, por que estava com expresso to solene quando entrei? No gostou dos presentes que recebeu? 
        No consegui responder e Chris falou por mim:
#133
        - Cathy est triste porque a av recusou o presente que fizemos para ela.
        Mame deu-me uma palmadinha no ombro, mas evitou meu olhar, Chris continuou:
        - E muito obrigado por tudo; no h nada que voc tenha esquecido de pedir a Papai Noel. Muito obrigado, acima de tudo, pela casa de bonecas. Creio que os 
gmeos  se divertiro mais com ela que com qualquer outra coisa.
        Fitei os dois triciclos para os gmeos pedalarem no sto e fortalecerem as pernas finas e dbeis. Chris e eu recebemos patins que s deveriam ser usados 
na sala de aulas do sto, pois o local era isolado com paredes de alvenaria e
assoalho de tbuas de madeira de lei, sendo mais  prova de som que o resto do sto.
        Mame se ergueu do cho, sorrindo misteriosamente antes de sair. Antes de fechar a porta, prometeu voltar num segundo - e foi ento que nos deu o melhor 
de todos os presentes: um pequeno aparelho porttil de TV!
        - Meu pai deu-me esse aparelho para usar em meu quarto. E adivinhei imediatamente quem o aproveitaria melhor que eu. Agora, vocs possuem uma janela de verdade, 
atravs da qual podem olhar para o resto do mundo.
        Exatamente as palavras necessrias para que minhas esperanas subissem como um foguete.
        - Mame! - exclamei. - Seu pai lhe deu um presente to caro? Isso quer dizer que ele agora gosta de voc? Perdoou-a por ter-se casado com papai? Podemos 
descer, agora?
        Os olhos azuis de mame tornaram a turvar-se de preocupao e no havia sinal de alegria em sua voz ao responder que sim, seu pai se mostrava mais amistoso 
- perdoara a filha pelo pecado que cometera contra Deus e a sociedade. Ento, ela disse algo que me fez o corao bater na garganta:
     - Na prxima semana, meu pai mandar seu advogado redigir um novo testamento, incluindo-me nele. Vai deixar tudo para mim; at essa casa ser minha depois que 
minha me morrer. Meu pai no tenciona deixar dinheiro para minha me porque ela possui a riqueza que herdou dos pais dela.
        Dinheiro! O dinheiro pouco me importava. Tudo o que eu queria era sair dali! E, de repente, fiquei muito feliz - to feliz, que abracei mame, beijando-a 
e estreitando-a contra mim Puxa vida! Aquele era o nosso melhor dia desde que chegramos quela casa... Ento, lembrei-me: mame no dissera que podamos descer. 
No obstante, tnhamos avanado um passo em nosso caminho para a liberdade.
        Mame sentou-se na cama e sorriu - mas apenas com os lbios e no com os olhos. Riu de algumas tolices que Chris e eu dissemos, mas era um riso spero e 
duro, muito diferente do seu normal.
        - Sim, Cathy; transformei-me na filha obediente que seu av sempre desejou. Ele fala, eu obedeo, Ele ordena, eu corro para cumprir a ordem. Afinal, consegui 
agrad-lo.
        Parou bruscamente de falar e olhou na direo das janelas e da luz desbotada que vinha l de fora.
#134
        - Na verdade, consegui agrad-lo de tal maneira que ele me oferecer esta noite uma festa destinada a reapresentar-me a meus velhos amigos e  sociedade 
local. Ser uma festa grandiosa, pois meus pais no poupam esmero e despesas quando recebem convidados. Embora no tomem bebidas alcolicas, no se incomodam de 
servi-las aos que no temem o inferno. Portanto,  evidente que contrataram um buf e, tambm, uma pequena orquestra de danas.
        Uma festa! Uma festa de Natal! Com buf! E uma orquestra de danas! E mame seria includa no novo testamento de seu pai. J tivramos algum dia to maravilhoso 
e feliz?
     - Podemos espiar? - perguntamos Chris e eu, quase ao mesmo tempo. 
        - Ficaremos bem calados.
        - E escondidos onde ningum possa nos ver. 
        - Por favor, mame. Por favor! Faz tempo que no vemos outras pessoas. E nunca fomos a uma festa no dia de Natal.
        Suplicamos, imploramos, rogamos, at que ela no pde mais resistir. Chamou-nos de lado, levando-nos a um canto afastado onde os gmeos no conseguiriam 
escutar o que fosse dito, e Sussurrou:
        - Existe um local onde vocs dois podero esconder-se e, ainda assim, espiar a festa, mas no posso arriscar com os gmeos. So pequenos demais para merecerem 
confiana. Vocs sabem que eles so incapazes de ficar
quietos por mais de dois segundos, e Carrie provavelmente gritaria de deleite, atraindo a ateno de todo mundo. Portanto, quero sua palavra de honra de que nada 
contaro aos gmeos.
        Prometemos.  claro que nada contaramos a eles, mesmo sem uma promessa de guardarmos segredo. Amvamos nossos pequenos gmeos e seramos incapazes de mago-los 
permitindo que soubessem o que perdiam.
        Depois que mame saiu, cantamos canes de Natal e o dia passou de modo bastante alegre, embora a cesta de piquenique nada contivesse de especial para ns: 
sanduches de presunto - de que os gmeos no gostavam - e fatias de peru que ainda estavam geladas, como se retiradas do congelador. Restos do Dia de Ao de Graas.
        Como a noite chegou muito cedo, passei longo tempo olhando para a casa de bonecas, onde Carrie e Cory brincavam alegremente com os pequenos bonecos de porcelana 
e as miniaturas de valor inestimvel.
        Engraado o quanto se pode aprender a partir de objetos inanimados que uma menininha possura e podia olhar, mas nunca tocar. Ento, viera outra menininha 
e a casa lhe fora dada, sem a caixa de vidro, de modo que ela PUDESSE mexer nos objetos e ser punida - quando quebrasse alguma coisa.
        Uma idia aterradora veio-me  mente: imaginei o que Cory ou Carrie quebrariam e qual seria o seu castigo.
        Enfiei um pedao de chocolate na boca, a fim de adoar meus pensamentos errantes e traioeiros.

#135
A Festa de Natal

        Cumprindo a palavra, pouco depois que os gmeos adormeceram profundamente, mame entrou silenciosamente em nosso quarto. Estava to linda que meu corao 
se encheu de orgulho, admirao e, tambm, de uma ponta de inveja. Seu vestido longo tinha uma saia de esvoaante chiffon verde; o corpete era de veludo verde mais 
escuro, bastante decotado para exibir uma boa parte do colo. Sob a pelerine de chiffon verde mais claro, apareciam os cordes brilhantes que amarravam as costas 
do corpete. Nas orelhas, ela trazia pingentes de esmeraldas. Seu perfume fazia-me lembrar o aroma de um jardim almiscarado em noite enluarada numa regio qualquer 
do Oriente. No era de admirar que Chris ficasse petrificado, fitando-a como se ofuscado. Suspirei, sonhadora. Por favor, meu Deus, deixe-me ser assim algum dia... 
deixe-me possuir todas essas curvas harmoniosas que os homens tanto admiram.
        Quando ela se movimentava, o chiffon que lhe cobria os ombros flutuava como asas que nos conduzissem para fora daquela priso pela primeira vez desde que 
ali chegramos. Seguimos mame pelos largos e escuros corredores da ala norte da manso, quase pisando em seus calcanhares calados de prateado. Ela sussurrou:
        - Existe um lugar onde eu costumava ocultar-me, quando criana, para observar as festas dos adultos sem que meus pais soubessem. Vai ficar apertado para 
vocs dois, mas  o nico local de onde podero ver sem serem notados. Agora, prometam-me que ficaro calados e, se tiverem sono, voltaro a seu quarto sem se deixarem 
ver... e no esqueam o caminho de volta at l,
bem como o modo de entrar.
        Recomendou-nos que no demorssemos mais que uma hora, pois os gmeos teriam medo se acordassem e percebessem que estavam sozinhos. Nesse caso, era possvel 
que sassem pelos corredores  nossa procura - e s Deus sabe o que poderia acontecer se o fizessem!
        Fomos escondidos dentro de uma enorme mesa oblonga com armrios sob o tampo. O local era desconfortvel e muito abafado, mas podamos enxergar bastante bem 
atravs da fina tela de arame no fundo do armrio.
        Mame se afastou silenciosamente.
        Muito abaixo de ns estava o gigantesco salo brilhantemente iluminado por velas colocadas em cinco filas sobrepostas em cada um dos trs imensos lustres 
de ouro e cristal pendentes de um teto to alto que no conseguamos v-lo. Eu jamais vira tantas velas acesas ao mesmo tempo! O cheiro das velas, o modo como sua 
luz bruxuleante era captada e brilhava nos prismas de cristal que a espalhavam, refratando raios iridescentes que faziam faiscar todas as jias usadas pelas mulheres, 
transformavam a cena num espetculo de sonho... ou, melhor ainda, num salo de bailes de um filme ntido e colorido, onde Cinderela e o Prncipe Encantado poderiam 
danar!
        Centenas de pessoas ricamente trajadas andavam pelo salo, rindo e conversando. E no canto erguia-se, como uma torre, uma rvore de Natal simplesmente inacreditvel! 
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Devia ter mais de seis metros de altura e brilhava com milhares de lmpadas douradas que faiscavam nos enfeites coloridos e ofuscavam nossos olhos!
        Dzias de criados usando uniformes preto-e-vermelho entravam e saam do salo carregando bandejas de prata cheias de canaps e colocavam-nas em mesas compridas, 
sobre cada uma das quais uma gigantesca fonte de cristal espargia um lquido cor de mbar num receptculo de prata. Muitos homens e mulheres vinham encher suas taas 
de cristal com o lquido borbulhante. Havia, tambm, duas poncheiras de prata com copos do mesmo material completando os jogos; cada uma delas era de tamanho suficiente 
para uma criana ali tomar banho... Era lindo, encantador, excitante, eufrico... e to bom saber que continuava a existir vida feliz fora de nossa porta trancada.
        - Cathy - sussurrou-me Chris ao ouvido. - Eu venderia minha alma ao Diabo s para tomar um gole daquela fonte de cristal e prata!
        Era exatamente o que eu tambm estava pensando!
        Nunca me senti to faminta, sedenta, frustrada. No obstante, estvamos ambos encantados, enfeitiados, ofuscados por todo o esplendor daquilo que a grande 
riqueza era capaz de comprar e exibir. O assoalho onde os pares danavam formava desenhos tipo mosaico e estava to encerado que brilhava como um espelho. Enormes 
espelhos com molduras douradas refletiam os danarinos de tal forma que era difcil distinguir entre as imagens e as pessoas reais. As partes de madeira das inmeras 
cadeiras e sofs situados ao longo das paredes eram douradas, e os encostos e almofadas feitos de veludo vermelho ou brocado branco. Cadeiras francesas,  claro 
- estilo Luis XIV ou XV. Puxa vida, que fantstico!
        Chris e eu observamos os pares que, em sua maioria, eram bonitos e jovens. Comentamos suas roupas, penteados, e especulamos sobre os relacionamentos entre 
eles. Mas, acima de tudo, observvamos nossa me, que era o centro das atenes. Ela danava freqentemente com um homem alto e bonito, de cabelo escuro e um basto 
bigode. Foi ele quem lhe serviu taas de bebida e levou um prato de canaps quando se sentaram num sof de veludo vermelho. Na minha opinio; sentaram-se juntos 
demais. Desviei momentaneamente o olhar a fim de observar os trs chefs que, por trs das compridas mesas, continuavam a preparar o que me pareceu serem panquecas 
e pequenas salsichas para serem recheadas. O aroma de tudo aquilo chegava at ns, fazendo nossas glndulas salivares trabalharem em excesso.
        Nossas refeies eram montonas e cansativas: sanduches, sopas, a perene galinha frita e a eterna salada de batatas. L embaixo, vamos uni festim de gourmet 
com as mais deliciosas iguarias. L, a comida era quente, enquanto a nossa raramente era morna. Basta dizer que guardvamos o leite no sto para que no azedasse 
- e s vezes encontrvamos uma fina camada de gelo na superfcie! Se deixssemos a cesta de piquenique com comida na escada do sto, os ratos desciam para roer 
tudo.
        De vez em quando, mame desaparecia com o homem de cabelo escuro. Aonde iam e o que faziam? Beijavam-se? Estaria ela paixonando-se por ele?
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Mesmo de minha posio alta e remota no armrio da mesa, eu podia perceber que o homem estava fascinado por mame. No conseguia tirar os olhos dela ou deixar de 
toc-la com as mos. E quando danavam alguma msica lenta, ele a segurava de modo a encostar o rosto no dela. Quando paravam de danar, ele mantinha o brao passado 
pelos ombros ou pela cintura de mame - e uma vez ousou at mesmo tocar-lhe o seio!
        Julguei que ela fosse esbofetear aquele rosto bonito - pois eu o faria! Mame, porm, limitou-se a virar-se e sorrir, afastando-o de si e dizendo algo que 
deve ter sido uma advertncia para que no fizesse aquilo em pblico. Ele sorriu, tomou-lhe a mo e levou-a aos lbios, enquanto seus olhares se encontravam prolongada 
e significativamente - ou, pelo menos, assim julguei.
        - Chris, est vendo aquele homem com mame?
        - Claro que estou. Ele  to alto como papai.
        - Voc viu o que ele fez h pouco?
        - Esto comendo, bebendo, rindo,  conversando e danando, como todo mundo. Cathy, pense numa coisa: quando mame herdar todo aquele dinheiro, poderemos ter 
festas assim no Natal e em nossos aniversrios. Ora, no futuro poderemos ter at mesmo alguns desses convidados que estamos vendo - agora. Vamos mandar convites 
a todos os nossos amigos de Gladstone. Puxa, ficaro espantados com o que herdamos!

        Naquele instante, mame e o tal homem se ergueram do sof e saram. Assim, pregamos o olhar na segunda mulher mais fascinante do grupo no salo e tivemos 
pena - pois como poderia competir com nossa me?
        Ento, nossa av entrou no salo, andando sem olhar para os lados nem sorrir para os convidados. No estava vestida de cinzento e isto, por si, bastou para 
deixar-nos espantados. Seu longo vestido de gala era vermelho. rubi, justo na frente e esvoaante nas costas; trazia os cabelos penteados para cima num elaborado 
penteado; jias de rubis e brilhantes faiscavam-lhe no pescoo, orelhas, braos e dedos. Quem jamais imaginaria que aquela mulher de aparncia rgia que atravessava 
o salo fosse a mesma av ameaadora que nos visitava todos os dias?
        Relutantes, fomos forados a admitir em sussurros:
        - Ela parece magnfica.
        - Sim, muito impressionante. Grande demais, como uma amazona.
        - Uma amazona malvada.
        - Sim, uma amazona guerreira, pronta para combater armada apenas com o faiscar dos olhos. Na verdade, no precisa de outra arma.
        Foi ento que o avistei: nosso desconhecido av!
        Fiquei sem flego ao olhar para o salo e ver um homem to parecido com nosso pai, se este tivesse vivido at ficar velho e frgil. Sentado a uma cadeira 
de rodas esmeradamente polida, usava um smoking e sua camisa de gala era branca com pespontos pretos. Os cabelos ralos, antes louros, agora estavam quase totalmente 
brancos e brilhavam como prata s luzes do salo. Quase no tinha rugas - ou, pelo menos, foi essa a nossa impresso l de cima.
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Perplexos e, ao mesmo tempo, fascinados, Chris e eu no conseguimos despregar os olhos dele aps avist-lo.
        Tinha aparncia frgil, mas era excepcionalmente bonito para um homem na avanada idade de sessenta e sete anos e que estava s portas da morte. De repente, 
causando-nos arrepios de medo, ele ergueu a cabea e olhou diretamente para o nosso esconderijo! Por um momento terrvel, amedrontador, deu a impresso de saber 
que estvamos ali, ocultos por detrs da tela de arame! Um leve sorriso lhe brincou nos lbios. Oh, Deus, o que significaria tal sorriso?
        No obstante, ele no aparentava ser impiedoso como a av. Poderia ser realmente o tirano cruel e arbitrrio que o imaginvamos? A julgar pelos sorrisos 
gentis e bondosos que distribua a todos que se aproximavam para cumpriment-lo, apertar-lhe a mo e dar-lhe palmadinhas no ombro, parecia bastante benigno. Ainda 
assim, fora ele quem ordenara que nossa me fosse despida e aoitada do pescoo aos calcanhares, enquanto ele observava. Portanto, como poderamos algum dia perdo-lo 
por isso?
        - Eu no sabia que era to parecido com papai - murmurei para Chris.
        - Por que no? Papai era seu meio-irmo mais moo. O av j era um homem maduro quando nosso pai nasceu; j era casado e tinha dois filhos quando isso aconteceu.

        L estava Malcolm Neal Foxworth, o homem que expulsara de casa sua jovem madrasta com um filho pequeno.
        Pobre mame. Como podamos culp-la por apaixonar-se por seu meio-tio, quando ele era to jovem, bonito e encantador como fora nosso pai? Tendo pais como 
ela descrevera, precisava ter algum para amar, necessitava ser amada em retribuio... Ela amava... ele tambm.
        O amor surge sem ser chamado.
        Ningum pode escolher a pessoa por quem se apaixona - as setas do Cupido so atiradas a esmo.
        Eis os comentrios que Chris e eu trocvamos.
        Ento, repentinamente, calamo-nos ao ouvirmos passos e vozes de duas pessoas que se aproximavam de nosso esconderijo.
        - Corrine no mudou nada - disse um homem que no podamos ver. - S se tornou ainda mais linda e misteriosa.  uma mulher verdadeiramente fascinante.

        - Hah! Voc diz isso porque sempre teve uma queda por ela, Al - replicou sua companheira.  pena que ela no estivesse de olho em voc, como ocorreu em relao 
a Christopher Foxworth. Ora, eis um homem que era algo muito especial. Mesmo assim, espanto-me com o fato de aqueles dois preconceituosos l embaixo se permitirem 
perdoar Corrine por casar-se com seu meio-tio.
        - Tinham que perdo-la. Quando sobra apenas uma dentre trs filhos, os pais so forados a receb-la de volta.
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  - No  engraado como as coisas evoluem? - comentou a mulher, com a voz pastosa e gutural por excesso de bebida. - Trs filhos... e s restou a filha desprezada 
e rejeitada, que herdar tudo.
        O homem semi-embriagado soltou uma risadinha.
        - Corrine no foi sempre to desprezada. Lembra-se de como o velho a adorava? At fugir para casar-se com Christopher, tudo o que ela fazia era correto aos 
olhos do pai. Mas aquela megera, me dela, nunca teve muita pacincia com Corrine. Cimes, talvez. Mesmo assim, que ameixa viosa e madura foi cair logo nas mos 
de Bartholomew Winslow. Gostaria que fosse minha! - concluiu Al, num tom sonhador.
        
        - Aposto que gostaria! - replicou sarcasticamente a mulher, pousando em cima de nossa mesa algo que, pelo som, parecia um copo com gelo dentro. - Uma mulher 
jovem, rica e bonita  mesmo uma ameixa madura para qualquer homem. Demais para um palerma como voc, Albert Donne. Corrine Foxworth jamais olhar para voc; no 
olhava quando voc era mais moo, muito menos agora. Alm disso, voc est preso a mim.
        O par, ainda trocando comentrios cidos, afastou-se at deixarmos de escut-los. Outras vozes fizeram-se ouvir enquanto as longas horas passavam. Meu irmo 
e eu j estvamos cansados de observar e muito necessitados de ir ao banheiro. Alm disso, preocupados com os gmeos deixados sozinhos no quarto. E se um dos convidados 
chegasse ao quarto proibido e visse os gmeos adormecidos? Ento, o mundo inteiro - e nosso av - tomariam conhecimento de que nossa me tinha quatro filhos.
        Um grupo se reunira em torno de nosso esconderijo para conversar, rir e beber. Levou uma eternidade para ir embora e dar-nos uma oportunidade de abrir a 
porta do armrio com extrema cautela. No avistando ningum, samos depressa e corremos na direo de onde viramos. Ofegantes, com as bexigas prestes a estourar, 
chegamos ao nosso silencioso quarto sem sermos vistos ou ouvidos.

        Nossos gmeos dormiam profundamente em camas separadas, da mesma maneira como os havamos deixado. Pareciam duas bonecas frgeis, plidas e idnticas... 
como as crianas que ilustravam, h muito tempo, os livros de estrias infantis. Nada tinham em comum com as crianas atuais - embora anteriormente tivessem. E voltariam 
a ter, jurei para mim mesma!
        A seguir, Chris e eu discutimos a respeito de quem precisava usar o banheiro com maior urgncia. E o assunto foi facilmente resolvido: ele simplesmente empurrou-me 
para cima de uma cama, correu para o banheiro e bateu a porta atrs de si, trancando-a. Furiosa, esperei o que me pareceu uma eternidade at que ele terminasse de 
esvaziar a bexiga. Puxa, como conseguia reter tal quantidade de lquido?
        Satisfeitas as necessidades fisiolgicas e acabadas as discusses, sentamo-nos para comentar o que acabvamos de ver e ouvir.
        - Acha que mame pretende casar-se com Bartholomew Winslow? - indaguei, torturada por minhas perenes preocupaes e ansiedades.
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        - Como vou saber? - redargiu Chris com indiferena. - Mesmo assim, parece que todos pensam realmente que ela se casar com ele e a conhecem melhor que ns 
sob esse aspecto.
        Que declarao estranha! Ns, filhos dela, no sabamos melhor que os outros o que mame pensava? No a conhecamos melhor?
        - Por que diz isso, Chris?
        - O qu?
        - O que acaba de dizer... a respeito de outras pessoas a conhecerem melhor que ns.
        - As pessoas tm muitas facetas, Cathy. Para ns, mame  apenas nossa me. Para os outros,  uma viva linda e sensual, que dever herdar uma imensa fortuna. 
No  de espantar que as mariposas venham todas rodear o tipo de luz brilhante que ela .
        Puxa! E ele dizia tudo isso com a maior naturalidade, como se no lhe fizesse a mnima diferena - quando eu sabia que fazia. Eu julgava conhecer muito bem 
meu irmo. Ele devia estar sofrendo por dentro, como eu, pois no queria que nossa me tornasse a casar-se. Voltei para ele o meu olhar intuitivo... ah, no estava 
to indiferente quanto desejava aparentar - o que me agradou bastante.

        Suspirei, porm, porque gostaria muito de ser uma eterna otimista, como ele. No fundo, eu tinha quase certeza de que a vida sempre me colocaria entre Cila 
e Charibdis; e dar-me-ia sempre uma Opo de Hobson. Eu precisava modificar-me, aperfeioar-me e tornar-me como Chris - eternamente animado. Quando sofresse, teria 
que aprender a dissimular, como ele fazia. Tinha
que aprender a sorrir e nunca franzir a testa, a no ser a eterna pitonisa dos
maus pressgios.

        J havamos discutido entre ns a possibilidade de nossa me casar-se outra vez e nenhum de ns desejava que isso acontecesse. Considervamos mame ainda 
pertencente a papai; queramos que ela permanecesse fiel  lembrana dele, sempre constante para seu primeiro amor. E se ela tornasse a se casar, em que situao 
ficaramos ns quatro? Aquele sujeito, Winslow, de rosto bonito e enorme bigode, estaria disposto a aceitar quatro filhos que no eram seus?
        - Cathy - disse Chris, pensativo. - J lhe ocorreu que esta  a oportunidade perfeita para explorarmos a casa? Nossa porta destrancada, os avs no salo, 
mame ocupada, a ocasio ideal para descobrirmos tudo que for possvel a respeito da manso.
     - No! - exclamei, assustada. - Suponhamos que a av descubra? Ela nos esfolaria vivos! 
        - Ento, voc fica com os gmeos - declarou ele, com espantosa firmeza. - Se eu for apanhado, o que no acontecer, sofrerei o castigo e assumirei toda a 
culpa. Encare a coisa sob o seguinte aspecto: talvez precisemos, algum dia, saber como fugir desta casa.
        Um sorriso divertido brincou-lhe nos lbios antes de acrescentar:
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        - De todo modo, vou disfarar-me, para a eventualidade de ser avistado.
        Disfarar-se? Como?
        Eu esquecera, porm, o verdadeiro tesouro de roupas velhas que tnhamos no sto. Chris passou l apenas alguns minutos antes de descer, usando um terno 
escuro, de feitio antigo, que no lhe ficava grande demais. Chris era robusto e alto para sua idade. Ajustou sobre os cabelos louros uma peruca escura e velha que 
encontrou num dos bas. Talvez ele fosse tomado por um homem raqutico, caso a iluminao estivesse bastante fraca - um homem de aparncia ridcula!
        Desfilou airosamente diante de mim. Ento, curvou-se e imitou o andar de Groucho Marx, segurando um charuto invisvel. Parou bem  minha frente, sorrindo 
encabulado ao fazer uma profunda reverncia, tirando da cabea uma cartola imaginria num amplo e cavalheiresco gesto de respeito. Tive que rir e ele tambm riu 
- no apenas com os olhos - antes de endireitar-se e dizer:

        - Agora, diga-me com sinceridade: quem conseguiria reconhecer neste homenzinho moreno e sinistro um membro da famlia Foxworth?
        Ningum! Quem j vira um Foxworth como ele? Um homenzinho magro e desajeitado, com feies bem delineadas e cabelos desgrenhados, usando um fino bigodinho 
pintado a lpis? Nenhuma das fotografias existentes no sto mostrava algo parecido com aquela figura que se postara diante de mim.
        - Est certo, Chris, deixe de palhaada. V descobrir o que puder, mas no se demore muito. No gosto de ficar aqui sem voc.
        Ele se aproximou para dizer num furtivo e conspiratrio sussurro de ator:
        - Voltarei breve, minha beleza loura. E quando regressar, trarei comigo todos os segredos sombrios e misteriosos dessa imensa e velha manso.
        E, de repente, apanhando-me de surpresa, lascou-me um beijo no rosto.
        Segredos? E ele afirmava que eu era dada a exageros! O que havia com ele? No compreendia que ns ramos os segredos daquela casa?
        Eu j tomara banho, lavara os cabelos e me vestira para deitar. Naturalmente, tratando-se de uma noite de Natal, no podia ir para a cama com uma camisola 
que j usara anteriormente - em especial quando "Papai Noel" me trouxera vrias camisolas novas. Escolhi uma linda, branca, com mangas bufantes franzidas nos pulsos, 
com franzidos tambm na frente e costas do corpete, bordada com lindas rosas e folhas delicadamente desenhadas. Era uma linda camisola, que me fazia sentir bela 
e extica pelo simples fato de vesti-la.
        Chris baixou O olhar de meus cabelos at meus ps descalos que mal apareciam abaixo da bainha da comprida camisola e seus olhos me disseram algo que jamais 
haviam expressado antes com tanta eloqncia. Chris fitou-me o rosto e os cabelos que cascateavam at abaixo da cintura, e eu sabia estarem brilhantes de tanto serem 
escovados diariamente. Meu irmo parecia to impressionado e ofuscado quanto ao fitar demoradamente o busto cheio de mame acima do decote de veludo verde.
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        E no era de espantar que ele me tivesse beijado voluntariamente - eu parecia uma princesa.
        Parou junto  porta, hesitante, ainda olhando para mim, e creio que ficou muito feliz por fazer o papel de cavaleiro galante protegendo a bela donzela loura, 
as crianas pequenas e todos aqueles que confiassem em sua audcia.
        - Tome cuidado at rever-me - sussurrou.
        - Christopher - repliquei, igualmente num sussurro. - Voc s precisa de um corcel branco e um escudo.
        - No - disse ele. - Preciso de um unicrnio e de uma lana com uma
cabea verde de drago na ponta. Ento, voltarei galopando, com minha brilhante armadura branca, enquanto a tempestade de granizo rugir no ms de agosto e for meio-dia. 
Quando eu desmontar, vereis um cavaleiro com trs metros de altura. Portanto, quando falar comigo, fazei-o de modo respeitoso, minha Lady Catherine.
        - Sim, meu Lord: Ide matar o hediondo drago que se esconde algures, mas no tardeis muito, pois poderei ser vtima dos males que pairam sobre mim e os meus 
neste castelo frio como pedra, onde todas as pontes levadias esto recolhidas e as grades fechadas.
        - Adeus - segredou Chris. - No temais. Logo regressarei para cuidar de vs e dos vossos.
        Dei uma risadinha ao subir na cama para deitar-me ao lado de Carrie. O sono foi, naquela noite, um desconhecido esquivo; pensei em minha me e naquele homem, 
pensei em Chris, em todos os rapazes, em homens, em namoro, e em amor. Ao mergulhar suavemente nos sonhos, embalada pela msica que vinha do salo, minha mo se 
ergueu para tocar O pequeno anel com a pedra de granada em forma de corao que meu pai me pusera no dedo quando eu tinha apenas sete anos de idade. Um. anel que 
j ficara pequeno h muito
tempo. Minha pedra de toque. Meu talism, usado agora num fino cordo de ouro, ao pescoo.
      Feliz Natal, papai.

A Explorao de Chris
e Suas Repercusses

        De repente, mos brutas sacudiram-me pelos ombros, despertando-me aos safanes! Chocada, assustada, olhei temerosamente para uma mulher na qual quase no 
pude reconhecer minha me. Olhando-me raivosamente, ela quis saber com voz irada:
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        - Onde est seu irmo?
        Perplexa por verificar que ela, to descontrolada, era capaz de ter no rosto tal expresso e falar daquela maneira, encolhi-me para fugir ao ataque e virei 
a cabea para olhar a cama ao lado, a menos de um metro de mim. Estava vazia. Oh, Chris demorara-se demais.
        - Deveria eu mentir? Proteg-lo, dizendo que estava no sto? No; aquela era nossa me, que nos amava, e compreenderia.
        - Chris saiu para examinar os quartos deste andar.
        Franqueza era a melhor poltica, no era? E jamais mentamos para nossa me ou um para o outro. S para a av e, mesmo assim, apenas quando era absolutamente 
necessrio.
        - Diabo, diabo, diabo! - praguejou ela, rubra por nova onda de fria que agora era dirigida contra mim. Certamente o seu precioso primognito, a quem ela 
preferia acima dos demais, nunca a trairia sem ser impulsionado por minha influncia demonaca. Sacudiu-me como uma boneca de trapos, at
que tive a impresso de que meus olhos rolavam descontroladamente fora das rbitas.
        - S por causa disto, eu jamais, sob pretexto algum ou em qualquer ocasio especial, tornarei a permitir que voc e Chris saiam deste quarto! Ambos deram-me 
a palavra, e no a cumpriram! Agora, como poderei confiar em vocs outra vez? E julguei que podia confiar. Pensei que vocs me amavam, que jamais me atraioariam!
        - Arregalei ainda mais os olhos. Ns a tnhamos trado? Fiquei chocada por v-la agir daquela forma. Parecia-me que ela nos traa.
        - Mame, no fizemos nada de errado. Ficamos bem quietos no armrio embaixo da mesa. Muita gente chegou l e ningum percebeu nossa presena. Ficamos quietos. 
Ningum sabe que estamos aqui. E voc no pode dizer que nunca mais nos deixar sair daqui! No pode manter-nos escondidos e trancados para sempre.
        Mame encarou-me de modo estranho, agoniado, sem responder. Pensei que fosse dar-me um tapa, mas no o fez. Largou-me os ombros e deu meia-volta para sair. 
O chiffon esvoaante de seu modelo exclusivo parecia asas batendo com violncia, exalando um doce perfume floral que no combinava com a fisionomia enfurecida.
        Exatamente quando ela ia sair do quarto, parecendo disposta a procurar pessoalmente meu irmo, a porta se abriu e Chris entrou furtivamente no quarto. Fechou 
a porta com muita cautela e depois virou-se, olhando para mim. Seus lbios se abriram para falar. Foi ento que avistou nossa me e a mais estranha expresso veio-lhe 
ao rosto.
        Por algum motivo, seus olhos no se iluminaram como de costume ao verem mame.
        Movendo-se com rapidez e deciso, mame chegou at ele, ergueu a mo e desferiu-lhe uma bofetada seca e violenta no rosto! Ento, antes que Chris se recobrasse 
do choque inicial, a mo esquerda de nossa me fez o lado oposto do rosto dele sentir o peso de sua ira!
#144
        Agora, o rosto plido e atordoado de Chris exibia duas grandes marcas vermelhas. 
        - Se voc tornar a fazer algo semelhante a isso, Christopher Foxworth, eu o espancarei, e a Cathy tambm!
        O pouco de Cor que ainda restava no rosto muito plido de Chris abandonou-o por  completo, deixando apenas aquelas marcas de bofetadas na pele descolorida, 
parecendo impresses de sangue.
        Senti meu sangue descer todo para os ps; uma sensao ardente oriunda de um ponto situado atrs de minhas orelhas aumentou  medida que as foras me faltavam. 
Fitei aquela mulher que agora parecia uma desconhecida, uma pessoa que nunca tnhamos visto e que eu no me interessava por conhecer. Onde estava nossa me, que 
s costumava falar-nos com bondade e amor? Aquela mulher era a me que compreendia o sofrimento que nos causava aquele confinamento to prolongado? Estaria a casa 
provocando-lhe "coisas" - tornando-a to diferente? O fato ocorreu-me num repente... sim, todas as pequenas coisas se somavam... ela estava mudando. Mame j no
vinha visitar-nos com a mesma freqncia inicial - nem todo dia e, certamente, no duas vezes por dia, como no princpio. Oh, fiquei amedrontada, como se tudo em 
que pudssemos confiar, de quem pudssemos depender, nos fosse arrancado de sob os ps - deixando-nos apenas os brinquedos, jogos e outros presentes.
        Mame deve ter percebido algo na expresso perplexa de Chris, algo que
dissolveu sua ira violenta. Abraou meu irmo, cobrindo-lhe com uma srie de
beijos rpidos o pobre rosto marcado de vermelho, com o bigodinho pintado a lpis, como se procurasse remediar o mal que cometera. Beijou-o repetidamente, puxou-lhe 
a cabea de encontro ao busto cheio e macio, permitindo-lhe afogar-se na sensualidade de ser acalentado contra aquela pele branca e sedosa que devia excitar at
mesmo um jovem que mal chegara  puberdade.
        - Sinto muito, querido - murmurou ela, com lgrimas nos olhos e na voz. - Perdoe-me, por favor, perdoe-me. No fique to assustado. Como pode ter medo de
mim? No falei de corao a respeito das surras. Eu os amo. Vocs sabem. Eu jamais bateria em voc ou em Cathy. J bati alguma vez? Estou um pouco fora do normal
porque agora tudo est a meu favor, a nosso favor. Vocs no podem fazer algo que estrague tudo para ns. E foi esse o nico motivo pelo qual lhe bati.
        Tomando o rosto de Chris entre as palmas das mos, beijou-o em cheio nos lbios que formavam um bico devido  presso de suas mos. Os brilhantes e esmeraldas
continuavam a faiscar, faiscar... como luzes de sinalizao, significando, querendo dizer alguma coisa. Fiquei sentada, observando e sentindo-me, oh... no sei como
me sentia... estava confusa, atordoada e era muito, muito jovem. E o mundo que nos cercava era sabido e velho, muito velho.
         claro que Chris a perdoou, como eu tambm perdoei. E, naturalmente, precisvamos saber o que estava a favor dela e a nosso favor.
        - Por favor, mame, conte-nos o que . Por favor.
#145
        - Contarei depois - disse ela, terrivelmente apressada para voltar  festa antes que sua ausncia fosse notada. Mais beijos para ns dois. Ento, ocorreu-me 
que eu nunca sentira o rosto encostado na maciez de seu busto.
        - Depois, talvez amanh, eu lhes contarei tudo - disse ela,
tornando a beijar-nos afobadamente e dizendo outras coisas carinhosas para afugentar nossos temores. 
Debruou-se por cima de mim para beijar Carrie e depois foi  outra cama beijar Cory.
        - J me perdoou, Christopher?
        - Sim, mame. Eu compreendo. Devamos permanecer no quarto. Eu nunca deveria ter sado para explorar a casa.
        Ela sorriu, desejando-nos feliz Natal e prometendo voltar em breve. Em seguida, saiu, trancando a porta por fora.
        Nosso primeiro dia de Natal na priso terminara. O relgio no corredor bateu uma hora. Tnhamos um quarto cheio de presentes, um aparelho de TV, o jogo de 
xadrez que pedramos, um triciclo vermelho e outro azul, roupas novas, pesadas e quentes, muitas coisas para comermos, e Chris e eu tnhamos ido a uma magnfica 
festa - de certo modo. No obstante, algo novo surgira em nossas vidas - uma faceta do carter de nossa me que ignorvamos at ento. Por alguns rpidos instantes, 
mame se parecera exatamente com nossa av!

        Chris e eu ficamos deitados lado a lado na cama, de mos dadas, com Carrie dormindo no meu outro lado. O cheiro de Chris era diferente do meu. Pousei a cabea 
em seu peito juvenil e percebi que ele estava perdendo peso. Pude ouvir seu corao pulsando como se acompanhasse o ritmo da msica que chegava de leve at ns. 
Chris passava a mo em meus cabelos, anelando
interminavelmente uma mecha entre os dedos.
        - Chris, ser adulto  muito complicado, no ?
        - Creio que sim.
        - Sempre pensei que uma pessoa adulta fosse capaz de controlar qualquer situao, nunca tendo dvidas quanto ao que  certo ou errado. Nunca imaginei que 
os adultos ficassem confusos, como ns.
        - Se est pensando em mame, ela no pretendia dizer ou fazer o que disse e fez. Embora no tenha certeza, creio que, por algum estranho motivo, quando uma 
pessoa adulta volta a viver na casa dos pais, fica reduzida a ser novamente uma criana, dependente dos pais. Os pais de mame puxam-na para um lado e ns a puxamos 
para o outro. E, agora, surgiu aquele homem de bigode. Tambm deve estar puxando mame para o lado dele.
        - Espero que ela nunca se case outra vez! Ns precisamos mais dela que aquele homem!
     Chris ficou calado.
        - E o aparelho de TV que ela, nos trouxe, esperou at seu pai lhe dar um de presente, quando poderia t-lo comprado para ns h muitos meses, em vez de gastar 
tanto dinheiro com roupas para ela mesma. E jias! Est sempre usando novos anis, brincos, colares e pulseiras!
#146
        Muito devagar, Chris apresentou uma cuidadosa explicao para os motivos de nossa me:
        - Encare as coisas da seguinte maneira, Cathy: se mame nos desse o aparelho de TV no primeiro dia que aqui chegamos, passaramos dias inteiros sentados 
diante dele, assistindo aos programas. Nesse caso, no teramos criado um jardim no sto onde os gmeos podem brincar satisfeitos. No teramos feito nada seno 
ficarmos sentados vendo os programas da televiso. E veja o quanto aprendemos durante nossos dias to compridos, como fazer flores e animais, por exemplo. Atualmente, 
eu pinto melhor que quando cheguei aqui. E lembre-se dos livros que lemos para aperfeioar-nos mentalmente.
E voc tambm mudou, Cathy.
        - Como? Mudei como? Explique.
        Ele rolou a cabea de um lado para o outro no travesseiro, exibindo uma espcie de impotncia encabulada.
        - Est certo. No  obrigado a me dizer coisas agradveis. Todavia, antes de sair desta cama e ir para a sua, conte-me tudo o que descobriu, tudo. No omita 
nada, nem mesmo seus pensamentos. Quero que me faa sentir como se o tivesse acompanhado at l, andando ao seu lado e sentindo o que voc sentia.
        Ele virou a cabea para encarar-me de uma forma muito estranha.
        - Voc estava l, a meu lado. Eu a sentia perto de mim, segurando-me a mo, segredando-me ao ouvido. Isso me fez olhar com ainda mais ateno, a fim de voc 
poder ver o que eu via.
        A gigantesca manso onde imperava o ogre enfermo que vramos no salo intimidara Chris; percebi por sua voz.
        -  uma casa enorme, Cathy, como um hotel. Existem quartos e mais quartos, todos mobiliados e decorados com objetos bonitos e caros, mas percebe-se que nunca 
so utilizados. Contei quatorze quartos s neste andar e acho que no localizei alguns quartos menores.
        - Chris! - exclamei desapontada. - No me conte dessa maneira! Faa-me sentir como se estivesse a seu lado. Comece outra vez e conte tudo o que aconteceu 
a partir do instante em que saiu de minha viso.
        - Bem - disse ele, suspirando, como se preferisse no aceder. - Caminhei furtivamente pelo corredor desta ala e cheguei ao ponto em que ele desemboca naquela 
grande rotunda central onde nos escondemos sob a mesa perto da balaustrada. No me dei o trabalho de examinar os quartos da ala norte. Logo que cheguei a um local 
onde algum poderia avistar-me, tive que
proceder com cautela. A festa se aproximava do clmax. A barulheira e animao estavam ainda maiores e todos pareciam embriagados. Na verdade, um homem cantava uma 
tolice a respeito de querer os dois dentes da frente, que perdera em algum lugar. Soava to engraado que corri  balaustrada e espiei para o salo. Vistas de cima, 
as pessoas pareciam esquisitas, encurtadas, e pensei: "Preciso lembrar-me disso quando desenhar pessoas a partir de um ponto de vista mais elevado, a fim de que 
paream naturais". A perspectiva  o elemento mais importante numa pintura.
#147
        Se me pedissem opinio, a perspectiva era o elemento mais importante em tudo na vida.
        - Naturalmente, a pessoa que eu procurava era mame - continuou ele, ante minha insistncia. - Mas s consegui reconhecer nossos avs. O av j aparentava 
cansao e, enquanto eu espiava, uma enfermeira chegou a fim de empurrar a cadeira de rodas para fora do meu campo de visa-o. E prestei ateno, pois isso me informou 
a direo geral da biblioteca.
        - Ela usava uniforme branco?
        - Claro. Do contrrio, como poderia eu adivinhar que era enfermeira?
        - Est bem, prossiga. No omita nada.
        - Bem, logo depois que o av saiu, a av tambm se retirou e, ento, escutei vozes de pessoas que subiam uma das escadas! Voc nunca viu algum se mover 
to depressa como eu! No poderia esconder-me sob a mesa sem que me avistassem antes, de modo que me encolhi num canto onde havia uma armadura antiga em cima de 
um pedestal. Sabe que aquela armadura deve ter pertencido a um homem adulto e aposto que no serviria em mim; no obstante, tive vontade de experiment-la. E quanto 
a quem subia a escada, era mame, acompanhada por aquele mesmo homem moreno de bigode.
        - O que fizeram? Por que subiram a este andar?
        - Creio que no me viram escondido na sombra porque estavam to preocupados um com o outro. Aquele homem queria ver uma cama que mame tem no quarto dela.

        - A cama dela... ele queria ver a cama de mame? Por qu?
        -  uma cama de tipo especial, Cathy. Ele disse a mame: "Vamos, voc j se esquivou bastante tempo". Seu tom parecia provocante. E, logo em seguida, acrescentou: 
"J  tempo de me mostrar aquela fabulosa cama de cisne sobre a qual tanto ouvi falar". Aparentemente, mame estava preocupada com a possibilidade de ainda estarmos 
escondidos sob a mesa. Olhou para o mvel, demonstrando nervosismo. Mas concordou, respondendo: "Est bem, Bart, mas s podemos demorar um pouco, pois voc sabe 
que todo mundo desconfiar se desaparecermos muito tempo". Ele riu baixinho e brincou: "No, eu no sei o que todo mundo desconfiar. Diga-me o que desconfiaro 
os outros". Para mim, pareceu um desafio para deixar todo mundo pensar o que bem entendesse. Fiquei com raiva quando ouvi aquilo.
        Nesse ponto, Chris fez uma pausa e sua respirao se tornou mais rpida e forte.
        - Voc est escondendo alguma coisa - disse eu, conhecendo-o como um livro que j tivesse lido uma centena de vezes. - Est protegendo mame! Viu alguma 
coisa que no quer me contar! Ora, isso no  justo! Sabe que no dia em que viemos para c combinamos ser sempre francos e dizer toda a verdade um ao outro... agora, 
conte-me o que viu!
        - Ora essa - replicou ele, mexendo-se e virando a cabea para o outro lado, recusando-se a enfrentar meu olhar. - Que diferena podem fazer alguns beijos?
#148
        - ALGUNS beijos? - explodi. - Voc viu o homem beijar mame mais de uma vez? Que tipo de beijos? Na mo... ou beijos de verdade, boca-a-boca?
        Chris ruborizou-se e at seu peito, onde minha cabea descansava, aqueceu-se. Cheguei a perceber o fato atravs de seu pijama.
        - Foram beijos apaixonados, no foram? - insisti raivosamente, convencida mesmo sem a sua confirmao. - Ele a beijou e ela permitiu. Talvez at mesmo o 
tenha deixado tocar-lhe os seios e acariciar-lhe as ndegas, como vi papai fazer uma vez, quando no sabia que eu estava no quarto, observando tudo! Foi isso que 
voc viu, Christopher?
        - Que diferena faz? - replicou ele com voz engasgada. - Ela no pareceu importar-se com o que ele fez, embora eu tenha sentido nojo.
        Eu tambm fiquei enojada. Na         poca, mame estava viva h apenas oito meses. Contudo, s vezes oito meses podem dar a impresso de oito anos-luz 
e, afinal, que valor tinha o passado quando o presente era to emocionante e agradvel... pois, podem apostar, eu presumia que se passara entre eles muita coisa 
que Chris jamais me contaria.
        - Ora, Cathy, no sei o que voc est pensando, mas mame ordenou que ele parasse porque, se no a obedecesse, ela no lhe mostraria o quarto.

        - Puxa vida! Aposto que ele estava fazendo coisas do arco da velha!
        - Beijos - disse Chris, fitando a rvore de Natal. - Apenas beijos e algumas carcias, mas os olhos dela chegavam a brilhar. Ento, o tal Bart perguntou 
a mame se a cama de cisne pertencera a alguma cortes francesa.
        - Em nome de Deus, o que  uma cortes francesa?
        Chris pigarreou.
        -  um substantivo que procurei no dicionrio e significa uma mulher que reserva seus favores aos homens da aristocracia, ou da realeza.

        - Favores... que tipo de favores?
        - O tipo de favores pelos quais os homens ricos pagam caro - respondeu ele, tapando-me a boca Com a mo para calar-me, e continuou: - E, naturalmente, mame 
negou que existisse nesta casa uma cama dessa espcie. Declarou que uma cama com reputao pecaminosa seria queimada, por mais linda que fosse. Queimariam-na  noite, 
orando por sua redeno. A cama de cisne pertencera  sua av e quando mame era menina a coisa que mais desejava neste mundo eram os aposentos da av. Contudo, 
seus pais se recusavam a permitir que ela utilizasse os aposentos, temendo que fosse contaminada pelo esprito da av, que no fora exatamente uma santa, mas, por 
outro lado, tambm no fora uma cortes. Ento, mame riu, um tanto aguda e amargamente, e disse a Bart que seus pais a julgavam atualmente to corrompida que nada 
poderia torn-la pior do que j era. Sabe, Cathy, isso me fez mal. Mame no  corrompida, papai a amava... eram casados... e o que as pessoas casadas fazem em particular 
no  da conta de ningum.
        Prendi a respirao e no consegui solt-la. Chris j sabia tudo, absolutamente tudo!
#149
        - Bem, ento mame disse: "Apenas uma espiada, Bart, e depois voltamos  festa". Desapareceram numa ala suavemente iluminada e convidativa, o que, naturalmente, 
forneceu-me a direo geral do quarto de mame. Primeiro, espiei cuidadosamente em todas as direes, antes de sair do esconderijo. Afastei-me correndo da armadura 
e abri a primeira porta fechada que encontrei. Entrei depressa, julgando que o aposento, estando escuro, e com a porta fechada, tambm devia estar desocupado. Fechei 
a porta bem devagar e depois fiquei absolutamente imvel, s para absorver o cheiro e impresses do ambiente, como voc diz que costuma fazer. Eu levara minha lanterna 
e poderia acender o facho em qualquer direo, mas desejava saber como voc pode ser to intuitiva, alerta e desconfiada quando tudo me parece perfeitamente normal. 
E, afinal, voc tinha razo. Se as luzes estivessem acesas ou eu utilizasse a lanterna, talvez no percebesse o esquisito cheiro, nada natural, que reinava no local. 
Um cheiro que me causou inquietao e um pouco de medo. Ento, por Deus, quase ca duro de susto!
        - O que... o qu? - indaguei, empurrando a mo que me tapava a boca. - Viu algum monstro?
        - Monstro? Oh, pode apostar que vi monstros! Dzias de monstros! Pelo menos, vi suas cabeas empalhadas e penduradas nas paredes. Por toda parte ao meu redor 
brilhavam olhos amarelos, verdes, cor de topzio e de limo. Puxa, foi de arrepiar os cabelos! A luz que entrava pelas janelas era azulada, por causa da neve, e 
refletia-se nos dentes brilhantes e nas compridas presas do leo que tinha a boca escancarada e soltava um rugido silencioso. Tinha uma
basta juba castanha que lhe tornava a cabea enorme, com uma muda expresso de angstia ou fria. E, no sei por que, senti pena dele, decapitado, empalhado, pendurado 
- transformado em mero objeto de decorao quando deveria ter vivido at o final de seus dias caando livremente na savana.
        Oh, sim; eu entendia o que ele queria dizer. Minha angstia era sempre como um vulco de raiva.
        - Era um salo de trofus, Cathy; um enorme salo com muitas cabeas de animais. Havia um tigre. E um elefante com a tromba erguida. Todos os animais da 
frica e sia estavam em exibio num dos lados do salo, enquanto a caa pesada da Amrica estava na parede oposta: um urso pardo, um urso comum, um antlope, um 
leo da montanha, e assim por diante. Nenhuma ave ou peixe na coleo, como se no representassem um desafio digno do caador que decorou aquele
salo com suas vtimas. 
Uma sala sinistra, mas, mesmo assim, eu gostaria que voc a conhecesse. Precisa conhec-la!
        Oh, diabo - que me importava uma sala de trofus? Eu desejava saber a respeito das pessoas - e de seus segredos.
        - Havia uma lareira de pedra com pelo menos seis metros de largura, com uma janela em cada lado, e acima dela estava pendurado um retrato a leo, em tamanho 
natural, de um Jovem to parecido com papal que tive vontade de chorar. Mas no era o retrato de papai. Quando me aproximei, vi que o homem era muito semelhante 
a nosso pai, exceto quanto aos olhos. Usava uma roupa de caa cqui e uma camisa azul. Estava apoiado no fuzil e tinha a
#150
perna sobre um tronco cado ao solo. Conheo um pouco sobre arte, o bastante para saber que aquele retrato e uma obra-prima. O artista conseguiu realmente captar 
a alma do caador. Voc nunca viu olhos azuis to duros, frios, cruis e impiedosos. Isso me bastou para perceber que no se tratava de nosso pai, antes mesmo de 
ler a pequena placa de metal fixada  parte inferior da grande moldura dourada. Era um retrato de Malcolm Neal Foxworth, o nosso av. A data mostrava que papai tinha 
cinco anos de idade quando o retrato foi pintado. E, como voc sabe, papai tinha trs anos quando foi expulso, com sua me, Alicia, de Foxworth Hall. Naquela poca, 
ele e a me residiam em Richmond.
        - Prossiga.
        - Bem, tive muita sorte por ningum me avistar quando rondei furtivamente pelo andar, pois, efetivamente, investiguei todos os quartos. E, afinal, encontrei 
os aposentos de mame. Uma porta dupla acima de dois degraus e, quando olhei l para dentro, julguei estar vendo um palcio! Os outros quartos faziam-me esperar 
algo esplndido, mas os aposentos de mame esto mesmo alm da imaginao! E s podiam ser dela, pois havia a fotografia de papai na mesinha de cabeceira e o ambiente 
cheirava ao perfume que ela usa. No centro do quarto, sobre um tablado, a fabulosa cama de cisne! Oh! Que cama! Voc nunca viu coisa igual! Tem uma bela cabea de 
marfim, virada de perfil e parecendo pronta a enfiar-se sob uma asa meio erguida. Possui um olho vermelho e sonolento. As asas curvam-se suavemente para envolver 
uma cama quase oval. No sei como conseguem ajustar os lenis, a menos que sejam feitos sob medida. Os projetistas desenharam as penas das pontas das asas para 
funcionarem como dedos que afastam as cortinas delicadas e transparentes em
todos os tons de rosa, vermelho, violeta e roxo. E mesmo uma cama e tanto... e aquelas cortinas... ela deve sentir-se realmente como uma princesa dormindo ali. O 
tapete lils claro  tio espesso que a gente se afunda nele at os tornozelos e sobre ele existe um tapete de pele branca ao lado da cama. Os abajures de cristal, 
com mais de um metro e vinte de altura, so decorados
com ouro e prata e dois deles possuem cpulas pretas. H uma poltrona espreguiadeira de marfim, com almofadas de veludo cor-de-rosa, semelhante a algo que vemos 
nas orgias romanas. E aos ps da grande cama de cisne, prenda a respirao, pois no vai acreditar, est uma pequena cama estreita com o mesmo formato! Imagine! 
Junto aos ps da cama, no sentido  transversal. Tive que parar para imaginar um motivo pelo qual algum necessitaria de uma cama enorme e larga e uma caminha estreita 
aos ps dela. Deve existir um bom motivo alm de tirar um cochilo sem desarrumar a cama maior. Cathy, s Vendo aquela cama para acreditar!
        Eu sabia que ele vira muito mais coisas, que no mencionava. Mais do que eu veria posteriormente por mim mesma. Vi o bastante para conhecer a razo pela 
qual ele voltara ao nosso quarto para falar tanto naquela cama, sem me dizer tudo.
        - Esta casa  mais bonita que a nossa em Gladstone? - indaguei, porque para mim a nossa casa de fazenda, com oito cmodos e dois banheiros, mais um lavabo, 
era a melhor possvel.
#151
        Ele hesitou, levando algum tempo para encontrar as palavras adequadas, pois no era de falar atabalhoadamente. Naquela noite, pesava cautelosamente o que 
dizia e isso, por si, j indicava muita coisa.
        - No  uma casa bonita.  grandiosa, imensa, cheia de coisas belas, mas eu no diria que  uma casa bonita.
        Julguei entender o que ele queria dizer: bonita era mais ligado a acolhedor que grandioso, lindo e rico, alm de imenso.
        E agora nada nos restava dizer seno boa-noite - e no deixe as pulgas morderem. Beijei o rosto de Chris e o empurrei para fora da minha cama. Desta feita, 
ele no reclamou que beijinhos eram coisa de bebs, meninas - e maricas. Logo acomodou-se junto a Cory, a um metro de distncia de mim.
        No escuro, a pequena rvore de Natal viva, com sessenta centmetros de altura, brilhava com pequenas lmpadas coloridas, como as lgrimas que eu vira brilhar 
nos olhos de meu irmo.

Os Longos Inverno,
Primavera e Vero

        Nunca nossa me pronunciara palavras to verdadeiras como ao afirmar que agora possuamos uma janela atravs da qual poderamos observar o resto do mundo, 
a vida das outras pessoas. Naquele inverno, o aparelho de televiso assumiu o controle de nossas vidas. Como tantos outros - os invlidos, doentes e velhos - comamos, 
tomvamos banho e nos vestamos s para podermos observar outras pessoas viverem vidas imaginrias.
        Durante janeiro, fevereiro e a maior parte de maro, o sto permaneceu frio demais para l entrarmos. Um vapor gelado pairava no ambiente, embaando tudo 
de forma fantasmagrica - e podem apostar que era assustador. E horrvel; at mesmo Chris foi forado a admitir o fato.
        Tudo isso tornava-nos muito satisfeitos por podermos ficar no quarto mais aquecido, acomodados muito juntos, assistindo, assistindo, assistindo aos programas 
da televiso. Os gmeos adoravam a TV e jamais queriam desligar o aparelho; mesmo  noite, enquanto dormamos, desejavam que ele ficasse ligado, sabendo que os acordaria 
na manh seguinte. At mesmo os pontinhos que piscavam aps os programas da madrugada eram para os gmeos melhor que o aparelho desligado. Cory, em especial, gostava 
de acordar e ver as pequenas imagens de pessoas por detrs de mesas anunciando as ltimas notcias ou falando sobre a previso do tempo; no havia dvida de que 
as vozes dos
locutores acolhiam-no melhor para um novo dia que as janelas escuras e fechadas por cortinas.
#152
        A televiso nos formou, moldou, ensinou a soletrar e pronunciar palavras difceis. Aprendemos o quanto era importante ser limpo, no ter odores corporais, 
no deixar cera acumular-se no cho da cozinha; nunca permitir que o vento nos desmanchasse o cabelo e, Deus nos livre, ter caspa! O mundo inteiro nos desprezaria. 
Em abril, eu completaria treze anos, aproximando-me da idade da acne! Examinava a pele diariamente, a fim de ver que coisas horrveis poderiam brotar dela a qualquer 
momento. Na verdade, tomvamos os comerciais de televiso ao p da letra, acreditando em seu valor como um livro de regras que nos conduziriam com segurana atravs 
dos perigos que a vida nos reservava.
        Cada dia que passava trazia mudanas em Chris e em mim. Coisas peculiares estavam ocorrendo em nossos corpos. Nasceram cabelos onde no os tnhamos anteriormente 
- cabelos engraados, duros, cor-de-mbar, mais escuro que os de nossas cabeas. Eu no gostava deles e usava uma pina para arranc-los sempre que surgiam, mas 
eles brotavam com a facilidade de ervas daninhas: quanto mais eu os arrancava, mais eles nasciam. Certo dia, Chris encontrou-me com o brao erguido, procurando diligentemente 
pegar com a pina um nico fio de cabelo cor-de-mbar e arranc-lo impiedosamente.
        - Que diabo est fazendo? - indagou.
        - No quero ter necessidade de raspar as axilas e tambm no quero usar o mesmo creme depilador que mame usa, ele fede!
        - Quer dizer que tem arrancado os cabelos que lhe nascem no corpo, sempre que eles aparecem?
        - Claro que sim. Gosto do meu corpo limpo e harmonioso, embora voc no goste.
        - Est travando uma batalha perdida - disse ele com um sorriso malvado. - Esses cabelos devem crescer nos locais onde nascem, portanto,  melhor deix-los 
em pai e parar de pensar em manter-se infantilmente limpa e harmoniosa; comece a pensar que esses cabelos so sexy.
        - Sexy?
        Seios grandes eram sexy; no plos duros e encaracolados. Mas preferi ficar calada, pois pequenas mas duras estavam comeando a brotar-me no peito e eu 
esperava que Chris no tivesse notado. Agradava-me muito o fato
de estar comeando a crescer para a frente - quando estava sozinha, num local privado - mas no queria que ningum mais o percebesse. Tive que abandonar a v esperana, 
pois via Chris lanar freqentes olhares ao meu busto e, por mais folgadas que fossem minhas blusas ou suteres, creio que aquelas pequenas colinas atraioavam meu 
recato.                                     
        Eu comeava a viver, tendo sensaes que nunca tivera antes. Dores e anelos estranhos. Querendo algo e no sabendo o que me acordava durante a noite, pulsante,
latejante, excitada e sabendo que havia um homem ali comigo, fazendo algo que eu desejava que ele completasse e nunca completando... nunca completando... pois eu 
sempre acordava cedo demais, antes de atingir as climticas alturas s quais eu sabia que ele me elevaria - se ao menos eu
no acordasse para estragar tudo.
#153
        Ento, houve outra coisa intrigante. Era eu quem fazia a cama todas as manhs, logo depois de nos levantarmos, antes que a velha bruxa chegasse com a cesta 
de piquenique. Via sempre manchas nos lenis, mas no eram bastante grandes para indicar outro dos sonhos de Cory com o banheiro. Estavam sempre no lado que Chris 
ocupava na cama.
        - Pelo amor de Deus, Chris, espero que voc no se acostume a sonhar que vai ao banheiro enquanto ainda estiver dormindo na cama.
        Simplesmente no pude acreditar na fantstica explicao que ele deu a respeito de algo que denominava de "poluo noturna"!
        - Chris, acho que voc deve contar a mame, a fim de que ela o leve a um mdico. O que voc tem talvez seja contagioso, algo que Cory possa contrair, e ele 
j suja demais a cama sem precisar de outras complicaes.
        Ele me lanou um olhar desdenhoso, ao mesmo tempo que enrubesceu.
        - No preciso consultar um mdico - disse com a maior severidade. - J escutei meninos mais velhos conversando nas salas de repouso da escola e o que acontece 
comigo  perfeitamente normal.
        - No pode ser normal,  sujo demais para isso.
        - Hah! - zombou ele, com os olhos brilhando de riso reprimido. - Sua poca de sujar os lenis est chegando.
        - Que quer dizer com isso?
        - Pergunte a mame. J  tempo de voc saber; tenho percebido que voc est comeando a desenvolver e isto  um sinal seguro.
        Eu detestava o fato de Chris saber mais que eu a respeito de "tudo! Onde aprendera tanto - nas conversas maldosas com que os meninos matavam o tempo no banheiro 
da escola? Eu tambm escutara conversas maldosas no banheiro das meninas, mas preferia morrer a acreditar numa s palavra daquilo tudo. Era grosseiro demais!
        Os gmeos raramente usavam uma cadeira e no podiam ficar nas camas, pois isso amarrotaria as colchas e a av insistia em que tudo fosse mantido "impecvel". 
Embora gostassem das novelas da TV, continuavam a brincar, parando ocasionalmente para assistir s cenas mais interessantes. Carrie tinha aquela enorme casa de bonecas, 
com todas as miniaturas e fascnios, para mant-la entretida numa constante conversa com os objetos, a ponto de irritar-nos. Eu lhe lanava muitos olhares aborrecidos, 
esperando que ela se calasse ao menos por alguns segundos e me permitisse assistir  televiso sem aquele monlogo maante - mas nunca lhe fiz qualquer advertncia 
verbal, pois isso provocaria gritos muito piores que o perene murmrio de suas estranhas conversas.
        Enquanto Carrie mexia nas bonecas, falando pelos homens e pelas mulheres, Cory se distraa com suas inmeras caixas de brinquedos de armar. Recusava-se a 
aceitar as instrues que Chris tentava ensin-lo a cumprir, preferindo construir o que mais lhe convinha - e o que construa era sempre alguma coisa na qual ele 
pudesse bater para extrair notas musicais. Com a televiso para fazer barulho e apresentar uma interminvel variedade de cenas, a casa de bonecas e seus muitos encantos 
para agradar Carrie e os brinquedos de
#154
armar que tornavam mais felizes as horas de Cory, os gmeos conseguiam levar da melhor maneira possvel sua vida de confinamento. As crianas so muito adaptveis; 
aprendi isso observando os gmeos. Claro que reclamavam um pouco, sobretudo a respeito de duas coisas. Por que mame no nos visitava tantas vezes como antes? Aquilo 
me magoava profundamente, pois eu nada podia fazer para remediar a situao. E havia tambm o problema da comida: eles nunca gostavam dela. Queriam os sorvetes em 
casquinha que viam na TV  e os cachorros-quentes que as crianas da televiso estavam sempre comendo. Na verdade, desejavam tudo que fosse dirigido a satisfazer 
o apetite infantil por doces e brinquedos. Tinham os brinquedos, mas no recebiam doces.
     E, enquanto os gmeos engatinhavam pelo cho ou sentavam-se de pernas cruzadas, sempre fazendo seus irritantes barulhos, Chris e eu procurvamos manter nossas 
mentes concentradas nas complicadas situaes que se desenrolavam diariamente ante nossos olhos. Vamos maridos infiis enganarem esposas dedicadas, ou esposas do 
tipo megera, ou esposas por demais preocupadas com os filhos para darem aos maridos as atenes que estes necessitavam. E vice-versa. As mulheres eram capazes de 
ser to infiis quanto os homens, quer para maridos bons quer para maridos maus. Aprendemos que o amor era exatamente como uma bola de sabo, to brilhante e colorida 
num dia, desfazendo-se em pleno ar no dia seguinte. Ento, vinham as lgrimas, as fisionomias desoladas, a angstia afogada numa infinidade de xcaras de caf  
mesa da cozinha com um melhor amigo, ou amiga, que tambm tinha seus prprios problemas e complicaes. Todavia, mal um amor  terminava, logo surgia outro para lanar 
no ar aquela brilhante bola de sabo. Oh, com que Persistncia aquelas pessoas lindas se esforavam para encontrar o amor perfeito e tranc-lo num lugar seguro - 
mas nunca conseguiam.
     Uma tarde no final de maro, mame entrou no quarto com uma grande caixa sob o brao. Estvamos acostumados a v-la entrar no nosso quarto carregando muitos 
presentes, no apenas um. E o mais estranho foi que ela meneou a cabea para Chris, que pareceu entender, pois levantou-se de onde se
sentara para estudar, tomou as mozinhas de nossos gmeos e subiu com eles para o sto. Fiquei sem entender nada. Ainda fazia frio l em cima. Tratar-se-ia de algum 
segredo? Teria ela trazido um presente s para mim?
        Sentamo-nos lado a lado na cama que Carrie e eu usvamos e, antes que eu pudesse olhar o "presente" trazido especialmente para mim, mame declarou que precisvamos 
ter uma conversa "de mulher para mulher".         Ora, eu j ouvira falar de conversas "de homem para homem" nos velhos firmes da televiso e sabia que esse tipo 
especial de dilogo tinha alguma relao com crescimento e sexo, de modo que fiquei pensativa e procurei no demonstrar muito interesse, pois isso seria comportamento 
inadequado a uma moa direita e bem educada - embora, por dentro, eu estivesse morrendo de curiosidade por, afinal, tomar conhecimento de tudo.
        E pensam que ela me contou o que eu esperara tantos anos para saber? No! Enquanto eu permanecia sentada numa atitude solene, aguardando a exposio que 
revelaria todas as coisas maliciosas e pecaminosas que os meninos j nasciam conhecendo - segundo 
#155
uma certa bruxa-av -, fiquei aturdida e incrdula  medida que mame explicava como eu deveria, em breve, comear a ter corrimentos sangneos!
        No em decorrncia de algum ferimento, mas devido  maneira pela qual Deus projetara o funcionamento do organismo feminino. E, para aumentar meu espanto, 
eu no apenas sangraria uma vez por ms, a partir de agora at ser uma mulher idosa de cinqenta anos, como tambm o sangramento mensal duraria cinco dias!
        - At eu fazer cinqenta anos? - indaguei em voz fraca, sumida, com tanto medo de mame estar pilheriando s minhas custas.
        Ela sorriu suavemente, com ternura.
        - s vezes, para antes dos cinqenta anos, outras vezes continua por mais algum tempo. No existe prazo definido. No obstante, em algum ponto dessa faixa 
de idade voc pode esperar a "mudana de vida".  chamada menopausa.
        - Vai doer? - Era a coisa mais importante que eu desejava saber naquele momento.
        - Seus perodos mensais? Talvez ocorram algumas clicas, mas no sero fortes e posso afirmar, por experincia prpria e de outras mulheres que conheo, 
que quanto mais medo voc tiver, mais forte ser a dor.
        Eu sabia! Nunca vi sangue sem sentir dor - a menos que fosse o sangue de outra pessoa. E toda aquela sujeita, dores, clicas, s para que meu tero se preparasse 
para receber um "vulo fertilizado" que se transformaria num beb. Ento, ela me deu a caixa que continha tudo o que eu precisaria para "aquela poca do ms".
        - Espere, mame! - exclamei, encontrando um meio de evitar tudo aquilo. - Voc se esquece de que tenciono ser bailarina e que as bailarinas nunca devem ter 
filhos? E eu no quero ter filhos, nunca. Portanto, pode devolver tudo isso  loja e receber seu dinheiro de volta, pois no vou topar essa sujeira peridica mensal!
        Ela deu uma risadinha, abraou-me com mais fora e beijou-me o rosto.
        - Acho que me esqueci de lhe dizer alguma coisa, pois no existem meios de evitar a menstruao.  preciso aceitar a maneira pela qual a natureza altera 
o corpo de uma menina, transformando-a numa mulher. Certamente, voc no vai querer ser uma menina a vida inteira, no  mesmo?
        Titubeei, desejando profundamente ser uma mulher adulta, com todas as curvas que mame possua, e, no obstante, despreparada para o choque de tamanha sujeira 
- uma vez por ms!
        E, Cathy, por favor, no se sinta envergonhada, ou embaraada, ou temerosa de algum incmodo e trabalho, pois ter filhos  recompensa mais que suficiente 
para isso. Algum dia voc vai se apaixonar; depois de casada, desejar dar filhos a seu marido, se o amar de verdade.
        - Mame, existe alguma coisa que voc no est me contando. Se as meninas tm que passar por tudo isso para se tornarem mulheres, o que Chris ter que suportar 
para tornar-se um homem?
#156
        Ela soltou uma risadinha quase infantil e apertou o rosto contra o meu.
        - Os meninos tambm passam por alteraes, embora nenhuma delas cause sangramento. Chris em breve ter que fazer a barba, e todos os dias tambm. E existem 
determinadas outras coisas que ele ter que aprender a conseguir e controlar, com as quais voc no ter que se preocupar.
        - O qu? - perguntei, ansiosa para que o gnero masculino compartilhasse de alguns dos problemas do amadurecimento. Quando ela no respondeu, insisti: - 
Chris lhe pediu para conversar comigo, no foi?
        Ela confirmou com a cabea, respondendo que ele pedira embora ela h muito tempo tencionasse contar-me tudo; mas as ocupaes no andar inferior no lhe davam 
folga para faz-lo.
        - Chris... o que ele sofrer de doloroso?
        Ela riu, aparentemente divertida.
        - Outro dia conversaremos, Cathy. Agora, guarde suas coisas para us-las, quando for necessrio. No entre em pnico se a coisa comear quando voc estiver 
dormindo, ou danando. Eu tinha doze anos quando isso aconteceu e estava andando de bicicleta. Voltei em casa ao menos seis vezes, a fim
de trocar as calcinhas, at que minha me percebeu e arranjou tempo para explicar-me do que se tratava. Acredite se quiser, mas logo se acostumar aos perodos e 
estes no faro a mnima diferena em seu modo de vida.
        A despeito das caixas - contendo aquelas coisas detestveis que eu esperava nunca ter que usar, pois no pretendia ter filhos, a conversa com mame foi ntima 
e muito gostosa para mim.
        No obstante, quando ela chamou Chris e os gmeos do sto e passou a beijar Chris, desmanchando-lhe os cabelos louros encaracolados e brincando com ele 
de modo provocante. praticamente ignorando os gmeos, a intimidade de alguns momentos antes comeou a desaparecer. Carrie e Cory pareciam pouco  vontade na presena 
de mame. Correram para mim e subiram-me ao
colo; abraados por mim, observaram Chris ser acariciado, beijado e mimado por ela. Preocupava-me profundamente a maneira pela qual ela tratava os gmeos, como se 
nem desejasse v-los. Enquanto Chris e eu ingressamos na puberdade, a caminho de nos tornarmos adultos, os gmeos estagnaram, permanecendo na mesma.

        O inverno frio e prolongado cedeu lugar  primavera. Paulatinamente, o sto ficou mais quente. Subimos at l, todos os quatro, para retirar os flocos de 
neve de papel e substitu-los por nossas coloridas flores de primavera, alegrando o ambiente.
        Meu aniversrio foi em abril e mame no deixou de comparecer com presentes, sorvete e um bolo de confeitaria. Sentou-se para passar a tarde de domingo e 
ensinou-me a bordar com l e costurar com agulha. Assim com os materiais que me deu de presente, eu tinha mais uma maneira de encher o tempo.
#157
        Meu aniversrio foi seguido pelo dia dos gmeos - seu sexto aniversrio. Mais uma vez, mame trouxe o bolo, sorvete e muitos presentes, inclusive instrumentos 
musicais. que fizeram brilhar os olhos azuis de Cory. O menino lanou um demorado olhar de encantamento ao acordeo de brinquedo, apertou-o uma ou duas vezes, acionando 
as teclas e virando atentamente a cabea para escutar os sons emitidos. E diabos me levem se ele em breve no estava tocando uma melodia! Nenhum de ns conseguiu 
acreditar. Ento, ficamos ainda mais perplexos quando ele foi ao piano de brinquedo de Carrie e repetiu a faanha, cantando:
        - Parabns pra voc, querida Carrie. Parabns pra ns dois!
        - Cory tem bom ouvido para msica - disse mame, parecendo pensativa e nostlgica ao fitar o filho mais moo. - Ambos os meus irmos eram msicos. A pena 
 que meu pai no tinha pacincia para com as artes ou o tipo de homens que so artistas, no s msicos como tambm pintores, poetas e assim por diante, julgando-os 
fracos e efeminados. Obrigou meu irmo mais velho a trabalhar num banco, pouco se importando com o fato de o filho detestar o emprego que no lhe era adequado. Tinha 
o mesmo nome que meu pai, mas ns o chamvamos de Mal. Era um jovem muito bonito e, nos fins de semana, fugia da vida que detestava e subia as montanhas em sua motocicleta. 
Em seu retiro particular, uma cabana de troncos que ele mesmo construiu, compunha msicas. Um dia, na chuva, pegou uma curva com velocidade excessiva, saiu da estrada 
e caiu num abismo de centenas de metros. Tinha vinte e dois anos quando morreu.

        - Meu outro irmo se chamava Joel e fugiu de casa no dia do enterro de Mal. Eram muito unidos e creio que ele no conseguiu suportar a idia de substituir 
Mal e herdar o imprio comercial do pai. Recebemos um nico carto postal de Paris, no qual Joel nos contava que arranjara emprego numa orquestra que excursionava 
pela Europa. Cerca de trs semanas depois, fomos informados de que ele morrera num acidente de automvel, na Sua. Tinha dezenove anos. Caiu numa profunda ravina 
cheia de neve e at hoje seu corpo no foi encontrado.
        Oh, Deus! Fiquei muito perturbada, sentindo-me atordoada interiormente. Tantos acidentes! Dois irmos mortos e papai tambm - todos em acidentes. Meu olhar 
desolado cruzou com o de Chris, que estava muito srio. To logo nossa me partiu, fugimos para o sto, procurando conforto em nossos livros.
        - J lemos tudo isso! - desabafou Chris, profundamente desgostoso, lanando-me um olhar aborrecido.
        Eu no tinha culpa de ele ser capaz de ler um livro inteiro em poucas horas!
        - Podamos reler aquelas obras de Shakespeare. - sugeri.
        - No gosto de ler peas teatrais!
        Ora, eu gostava de ler Shakespeare, Eugene O'Neill e qualquer obra que fosse dramtica, fantasiosa e cheia de emoes tempestuosas.
#158
        - Vamos ensinar os gmeos a ler e escrever - sugeri, quase frentica para fazer algo diferente. E, daquele modo, poderamos dar aos gmeos mais uma maneira 
de se divertirem. - Fazendo isso, Chris, evitaremos que eles tenham os crebros transformados em papa de tanto olharem para aquele tubo luminoso. E tambm evitaremos 
que fiquem cegos.
        Descemos, decididos, e fomos direto aos gmeos, que assistiam a um desenho animado do Coelho Pernalonga.
        - Vamos ensinar vocs dois a ler e escrever - anunciou Chris.
        Ambos comearam a protestar com berros veementes.
        - No! - gritou Carrie. - No queremos aprender a ler e escrever! No escrevemos cartas! Queremos assisti a "Eu amo Lucy"!
        Chris agarrou Carrie e eu peguei Cory, arrastando-os literalmente at o sto. Fomos obrigados, pois era como se  tentssemos segurar duas cobras escorregadias. 
E uma delas era capaz de mugir como um touro furioso!
        Cory no falava, nem gritava, nem procurava esmurrar-me com os pequenos punhos; limitava-se a agarrar ferozmente o que lhe passasse ao alcance das mos, 
usando tambm as pernas para prender-se em mveis e outros objetos.
        Nunca dois professores amadores tiveram um corpo discente to relutante. Mas, afinal, por meio de truques, ameaas e contos de fadas, comeamos a interess-los 
pelo estudo. Talvez tenha sido piedade de ns o que logo os levou a estudar laboriosamente os livros, decorando e recitando enfadonhamente as letras do alfabeto. 
Entregamos a eles um caderno de caligrafia e um livro do primeiro ano de onde copiavam palavras.
        Como no conhecamos outras crianas da mesma idade que nossos gmeos, Chris e eu julgvamos que ambos progrediam de modo notvel. Embora mame no viesse 
visitar-nos todos os dias, como no incio - e nem mesmo dia sim, dia no -, costumava aparecer uma ou duas vezes por semana. Com que ansiedade a aguardamos para 
entregar-lhe o curto bilhete que Cory e Chris escreveram para ela aps se certificarem de que cada um tinha exatamente o mesmo nmero de palavras que o outro para 
escrever.
        Em letras de frma com pelo menos cinco centmetros de altura e muito tortas, o bilhete dizia:

        "Querida Mame,
        Ns amamos voc
        E doces tambm.
        Adeus,
        Carrie e Cory".

        Empregaram tanto esforo e diligncia na sua mensagem, sem receberem instrues minhas ou de Chris - uma mensagem redigida por eles prprios, esperando que 
mame a recebesse. E ela no recebeu.
        Cries dentrias, naturalmente.
#159
        Ento, chegou o vero. E, mais uma vez, fazia um calor terrvel, muito abafado, embora - por estranho que parea - no fosse to insuportvel quanto o vero 
anterior. Chris chegou  concluso de que nosso sangue estava mais ralo, de modo que podamos tolerar melhor o calor.
        Nosso vero foi cheio de livros. Aparentemente, mame simplesmente pegava livros nas estantes do andar inferior, sem dar importncia aos ttulos, sem querer 
saber se o assunto nos interessava ou se a leitura era adequada a mentes jovens e facilmente impressionveis como as nossas. Na verdade, no fazia diferena. Chris 
e eu lamos tudo.
        Um de nossos livros preferidos naquele vero era um romance histrico que fazia a histria ficar mais interessante que o modo como era ensinada na escola. 
Ficamos espantados ao tomar conhecimento de que, nos velhos tempos, as mulheres no iam ao hospital para terem bebs. Tinham-nos em casa, deitadas numa cama estreita, 
de modo que o mdico pudesse alcan-las com mais facilidade que numa cama larga. E, s vezes, s contavam com a assistncia de uma parteira.
        - Uma pequena cama de cisne, para ter bebs - refletiu Chris em voz alta, erguendo a cabea para fitar o espao.
        Rolei para ficar deitada de costas e sorri maliciosamente para ele. Estvamos no sto, deitados em velhos colches manchados colocados perto das janelas 
mantidas abertas para deixarem entrar a brisa suave e clida.
        - E reis e rainhas que recebiam os cortesos em suas camas, ou aposentos reais, como diziam na poca, e tinham coragem de se mostrar inteiramente despidos 
diante de todos. Voc acha que tudo o que est escrito nos livros pode ser totalmente verdadeiro?
        - Claro que no! Mas grande parte . Afinal, as pessoas no costumavam usar camisolas ou pijamas para dormir. Apenas um barrete para aquecer a cabea e o 
resto que se danasse.
        Rimos juntos, imaginando reis e rainhas que no se envergonhavam de ficar despidos diante dos seus nobres e dos dignitrios estrangeiros.
        - Naquela poca, pele nua no era pecado, era? Nos tempos medievais?
        - Creio que no - replicou Chris.
        - Pecado  o que a gente faz quando est despido, no ?
        - Creio que sim.
        Pela segunda vez, eu estava suportando o suplcio que a natureza me infligia para tornar-me mulher; na primeira vez, doeu tanto que passei o dia de cama, 
alegando sofrer dores nas juntas.
        - Voc no acha repugnante o que est acontecendo comigo... acha? - perguntei a Chris.
        Ele enfiou o rosto nos meus cabelos.
        - Cathy, no acho que qualquer coisa relacionada com o corpo humano e seu funcionamento seja repugnante ou revoltante. Creio que  o mdico que existe dentro 
de mim que fala dessa forma. Considero a sua peculiar situao da seguinte maneira: se bastam uns poucos dias por ms dessa coisa para transformar voc numa mulher 
como mame, ento vale a pena. E se lhe causa 
#160
dores e voc no gosta, lembre-se de que a dana tambm provoca dores, como voc mesma me disse. No obstante, no caso da dana voc julga que o preo que paga vale 
a pena. 
        Abracei-o com mais fora quando ele se interrompeu. Depois, acrescentou:
        - E eu tambm pago um preo por tornar-me homem. No tenho um homem com quem conversar, como voc tem mame. Estou completamente sozinho numa situao complicada, 
cheia de frustraes, e s vezes no sei para que lado me voltar ou de que maneira fugir s tentaes. Alm disso, tenho muito medo de jamais conseguir formar-me 
em medicina.
        - Chris - comecei, compreendendo logo que tropeara num poo de areia movedia. - Voc nunca tem dvidas a respeito dela?
        Vi-o ficar carrancudo e falei depressa, antes que ele pudesse replicar alguma advertncia irada:
        - No acha... esquisito... que ela nos mantenha trancados aqui durante tanto tempo? Ela tem muito dinheiro, Chris; sei que tem. Aquelas jias todas no so 
falsas como ela alega para ns. Sei que no so!
        Ele se afastara logo que eu falara "nela".
        Adorava a sua deusa de toda a perfeio feminina. Todavia, logo voltou a abraar-me, encostando o rosto em meus cabelos e falando com a voz embargada pela 
emoo:
        - s vezes, no sou O eterno otimista cego que voc me considera. s vezes, tenho tantas dvidas quanto voc a respeito do que ela faz. Todavia, lembro-me 
da poca anterior  nossa vinda para c e sinto que preciso confiar nela, acreditar nela, ser como papai foi em relao a ela. No se esquea do que ele costumava 
dizer: "Existe um bom motivo para tudo que parece estranho. E tudo sempre tende a melhorar".  por isso que me obrigo a acreditar que... ela tenha bons motivos para 
manter-nos aqui em vez de enviar-nos s escondidas para algum colgio interno. Ela sabe o que est fazendo, Cathy. E eu a amo tanto. No posso evitar. No importa 
o que ela fizer, sinto que continuarei sempre a am-la.
        Ele a amava mais que a mim, refleti com amargura.

        Agora, nossa me chegava e saa sem qualquer regularidade. Uma vez, passou uma semana inteira sem nos visitar. Quando finalmente apareceu, declarou que seu 
pai estava gravemente enfermo. Vibrei de euforia com a notcia.
        - Ele est piorando? - indaguei, sentindo uma leve pontada de remorso. Sabia que era errado desejar a morte de nosso av, mas sua morte seria nossa salvao.
        - Sim - respondeu ela solenemente. - Piorando muito. Qualquer dia, agora, Cathy. Qualquer dia. Voc no pode imaginar como est plido, nem as dores que 
sente; to logo ele se v, vocs estaro livres.
#161
        Oh, meus Deus, pensar que era to malvada a ponto de desejar que o velho morresse naquele mesmo instante! Deus me perdoe. Por outro lado, tambm no era 
direito ficarmos trancados o tempo todo; necessitvamos de ar livre, de sol quente; e ficvamos solitrios, sem travar novos conhecimentos.
        - Talvez seja a qualquer hora - disse mame, levantando-se para ir embora.
        Cantarolei ao arrumar as camas, esperando a chegada da notcia de que nosso av estava a caminho do cu - se sua riqueza valia alguma coisa - ou do inferno 
- se fosse impossvel subornar o Demnio.
        Mame surgiu  porta, com a fisionomia fatigada, enfiando apenas a cabea no quarto para dizer:
        - Ele superou a crise... Vai recuperar-se, desta vez.
        A porta se fechou e ficamos a ss com nossas esperanas desfeitas.
        Naquela noite, ajeitei os gmeos na cama, pois agora mame raramente aparecia para faz-lo. Era eu quem os beijava e escutava suas preces. E Chris tambm 
cumpria sua parte das tarefas. Os gmeos nos amavam; era fcil ler isso em seus grandes olhos azuis. Depois que adormeceram, fomos ao calendrio riscar um grande 
"X" sobre mais um dia. J estvamos outra vez em agosto. Fazia um ano inteiro que vivamos naquela priso.
 
#163
SEGUNDA PARTE

        "At o dia raiar e as sombras fugirem".
     Os Cnticos de Salomo - 2:17

#164

Crescendo e Aprendendo

        Outro ano se passou, de modo muito semelhante ao primeiro. Mame vinha com cada vez menos freqncia, mas sempre trazendo as promessas que mantinham vivas 
nossas esperanas, fazendo-nos continuar a crer que a libertao era apenas uma questo de semanas. A ltima coisa que fazamos cada noite era riscar o dia com um 
grande "X" vermelho.

        Havia agora trs calendrios riscados com aqueles X. O primeiro tinha apenas metade dos dias riscados, o segundo estava inteiramente marcado de vermelho 
e o terceiro j tinha as mesmas marcas alm da metade. E o av moribundo, agora com sessenta e oito anos de idade e sempre prestes a exalar o ltimo suspiro, continuava 
respirando enquanto espervamos num limbo. Tudo indicava que ele viveria para completar os sessenta e nove.
        s quintas-feiras os criados de Foxworth Hall iam  cidade. Era quando Chris e eu saamos sorrateiramente para o telhado escuro e nos estendamos nas telhas 
ngremes, a fim de pegarmos a luz do sol e respirarmos ar puro sob a lua e as estrelas. Embora fosse um local alto e perigoso, era o Num lugar onde duas alas se 
juntavam para formar uma esquina, podamos firmar os ps numa robusta chamin e ficar em segurana. Nossa posio no telhado nos ocultava de quem pudesse estar no 
terreno.
        Uma vez que a ira de nossa av ainda no se materializara, Chris e eu nos tornamos descuidados. Nem sempre ramos recatados no banheiro, como nem sempre 
estvamos totalmente vestidos. Era difcil viver em perene confinamento e ocultar do sexo oposto as partes ntimas do corpo.
        E, para usar de toda a franqueza, nenhum de ns se importava muito com quem via o qu.
        Deveramos importar-nos.
        Deveramos ter cautela.
        Deveramos manter viva na lembrana a imagem das costas aoitadas de mame e nunca, jamais, esquec-la. Entretanto, o dia em que ela fora surrada j nos 
parecia to distante. Uma eternidade se passara desde ento.
#165
        Ali estava eu, uma adolescente, e jamais me vira inteiramente nua, pois o espelho na porta do armrio do banheiro estava colocado num local alto demais para 
permitir uma viso perfeita. Eu nunca vira uma mulher nua, mesmo em fotografia; as pinturas e esttuas de mrmore no revelavam detalhes. Assim, esperei uma ocasio 
em que fiquei sozinha no quarto e me despi completamente diante do armrio, mirando-me no espelho da porta, examinando e admirando todo o meu corpo. Era incrvel 
que os hormnios
tivessem causado tantas alteraes! No havia dvida de que eu era mais bonita que quando ali chegara, mesmo em meu rosto, cabelos e pernas - quanto mais no corpo 
torneado em curvas. Virei-me de lado para lado, mantendo os olhos grudados no espelho enquanto assumia posies de bailarina.

        Uma sensao de arrepio na nuca preveniu-me de que havia algum por perto, observando-me. Girei subitamente nos calcanhares e apanhei Chris oculto nas profundas 
sombras do armrio que dava para a escada do sto. Descera silenciosamente at ali. H quanto tempo estaria me observando? Teria visto todas as coisas tolas e desavergonhadas 
que eu fizera? Oh, Deus, eu esperava que no!
        Chris parecia petrificado. Uma expresso estranha velava-lhe os olhos azuis, como se nunca me tivesse visto sem roupas - como j vira muitas vezes. Talvez 
quando os gmeos estavam presentes, tomando banho de sol conosco, ele mantivesse o pensamento puro e fraternal, sem me olhar de verdade.
        Baixou os olhos de meu rosto corado para os seios e, cada vez mais para baixo, at chegar aos ps e tornar a subir vagarosamente.
        Fiquei trmula, hesitante, imaginando como agir sem parecer uma tola pudica aos olhos de um irmo mais velho que sabia como zombar de mim quando desejava. 
Chris parecia-me um desconhecido, mais velho, algum que eu nunca encontrara antes. Tambm aparentava fraqueza, aturdimento, perplexiqade. Se eu me movesse para 
vestir-me, roubar-lhe-ia algo que ele tanto ansiava por ver. 
        O tempo deu a impresso de parar enquanto ele permanecia no armrio e eu continuava em frente ao espelho que lhe revelava tambm uma viso posterior, pois 
vi que seus olhos fitavam dissimuladamente a imagem ali
refletida.
        - Chris, v embora, por favor.
        Ele no deu sinal de escutar.
        Limitou-se a fitar.
        Corei da cabea aos ps, sentindo o suor brotar das axilas e uma pulsao esquisita nas veias. Era como uma criana apanhada com a mo enfiada no vidro de 
doces, culpada de um crime leve e terrivelmente temerosa de receber um severo castigo por quase nada. Todavia, os olhos de Chris, sua expresso, haviam-me despertado 
para a vida; meu corao batia feroz e  descompassadamente, cheio de temor. Por que ter medo? Era apenas Chris.
        - No - disse ele, quando peguei o vestido.
        - Voc no devia... - gaguejei, tremendo ainda mais.
#166
        - Sei que no devia, mas voc  to linda.  como se eu nunca a tivesse visto antes. Como se tornou to bela, enquanto estive aqui esse tempo todo?
        Como responder a tal indagao? S consegui olhar para ele, implorando com os olhos.
        Naquele instante, s minhas costas, uma chave girou na fechadura. Tentei enfiar rapidamente o vestido pela cabea e pux-lo para baixo antes que ela entrasse. 
Oh, Deus! No consegui encontrar as mangas. Minha cabea ficou coberta pelo vestido, com o resto do corpo exposto, inteiramente nu, e
ela estava ali - a av! Embora no pudesse v-la, eu a sentia!
        Afinal, encontrei os buracos das mangas e baixei rapidamente o vestido. Todavia, ela me vira em toda a minha beleza nua - estava escrito naqueles implacveis 
olhos cinzentos e faiscantes. Tirou os olhos de mim e fitou Chris como se fosse capaz de atravess-lo com o olhar furioso. Ele continuava no atordoamento que no 
o deixava fazer o menor gesto.
        - Ento! - exclamou ela. - Finalmente os apanhei! Tinha certeza de que os pegaria, mais cedo ou mais tarde!
        Ela nos dirigira antes a palavra. A cena era exatamente como um de meus pesadelos... despida diante da av e de Deus.

        Chris sacudiu-se da perplexidade e avanou para retorquir:
        - Apanhou-nos? Fazendo o qu? Nadar
        Nada...
                 Nada...
                        Nada...
        Uma palavra que reverberava. Aos olhos dela, framos apanhados fazendo tudo!
        - Pecadores! - sibilou ela, voltando novamente para mim os olhos cruis. No havia neles o mnimo vestgio de clemncia. - Julga-se bonita? Acha que essas
curvas novas e jovens so atraentes? Gosta desses louros cabelos que tanto escova e penteia?
        Ento, sorriu - o sorriso mais aterrador que j vi.
        Meus joelhos batiam nervosamente um contra o outro; as mos se contorciam instintivamente. Sentia-me muito vulnervel sem roupas de baixo e com o zper aberto 
nas costas. Lancei um olhar de esguelha a Chris, que avanava vagarosamente, procurando com os olhos algo que lhe servisse como arma.

        - Quantas vezes permitiu que seu irmo usasse seu corpo? - vociferou a av.
        S consegui permanecer imvel, incapaz de falar, sem entender o que ela queria dizer. 
        - Usar? Como assim?
        Os olhos dela se transformaram em meros riscos no rosto, que buscaram repentinamente Chris, surpreendendo-lhe no rosto um rubor de vergonha que demonstrava 
claramente, at mesmo para mim, que ele entendia o significado da pergunta, embora eu no compreendesse.
#167
        - Quero dizer uma coisa - declarou ele, ficando ainda mais vermelho. - No fizemos nada realmente errado.
        Agora, tinha uma voz adulta, forte e profunda.
        - Vamos, pode me fitar com esses olhos odientos e desconfiados. Acredite o que quiser, mas Cathy e eu nada fizemos de errado, pecaminoso ou malicioso!
        - Sua irm estava nua. Permitiu que voc lhe olhasse o corpo. Portanto, procederam mal.
        Dirigiu o olhar para mim, carregado de dio, antes de girar nos calcanhares e retirar-se raivosamente do quarto. Eu tremia como vara verde. Chris estava 
furioso comigo.
        - Cathy, por que se despiu neste quarto? Sabe que ela nos espiona na esperana de pegar-nos cometendo alguma falta!
        Tinha no rosto uma expresso selvagem e agitada que o fazia parecer mais velho, terrivelmente violento.
        - Ela nos castigar. O fato de haver sado sem fazer nada no quer dizer que deixar de voltar.
        Eu sabia... eu sabia. Ela ia voltar - com o chicote!
        Sonolentos e irritados, os gmeos desceram do sto. Carrie acomodou-se diante da casa de bonecas. Cory agachou-se para assistir a televiso. Pegou sua cara 
guitarra de profissional e comeou a toc-la. Chris sentou-se na cama, virado para a porta. Eu fiquei alerta, pronta para fugir quando ela voltasse. Correria para 
o banheiro, trancaria a porta... eu...
        A chave girou na fechadura. A maaneta se moveu.
        Levantei-me de um pulo, como Chris.
        - V para o banheiro, Cathy - disse ele. - E fique l dentro.
        Nossa av entrou no quarto, alta como uma rvore a trazia no um chicote, mas uma tesoura, do tipo que as mulheres utilizam para cortar tecido quando costuram: 
cromada, brilhante, comprida e parecendo muito afiada.
        - Sente-se, menina - ordenou rispidamente. - Vou cortar seus cabelos
pela raiz. Ento, talvez voc se orgulhe quando olhar para o espelho.
        Exibiu um sorriso desdenhoso e cruel ao perceber minha surpresa - o primeiro sorriso verdadeiro que eu vira em seu rosto.

        Meu maior temor! Eu preferia ser aoitada! Minha pele cicatrizaria, mas
seriam necessrios anos e mais anos para ter outra vez os lindos cabelos compridos de que eu tanto gostara e cuidara a partir da primeira vez em que meu pai afirmara 
ach-los lindos e gostar de meninas com cabelos longos. Oh, amado Deus, como podia ela adivinhar que eu sonhava quase todas as noites que ela entrava sorrateiramente 
no quarto e me tosquiava como a uma ovelha? E, s fezes, eu no sonhava apenas que ela me cortava os cabelos, como tambm me amputava os seios!
        Sempre que ela olhava na minha direo, fixava um determinado detalhe. No me via como um todo, uma pessoa inteira, mas como pedaos que lhe atiavam a ira... 
e ela destrua tudo que lhe causava raiva!
#168
        Tentei correr para o banheiro e fechar-me l dentro com a chave, mas minhas pernas de bailarina, to bem treinadas, recusavam-se a fazer o mnimo movimento. 
Fiquei paralisada pela ameaa daquela tesoura brilhante e comprida; e, acima dela... os olhos cinzentos da av faiscavam de dio, desprezo e repugnncia.
        Foi ento que Chris declarou com forte voz masculina:
        - Voc no tocar numa s mecha dos cabelos de Cathy, av! Se avanar mais um passo na direo dela, quebro-lhe a cabea com esta cadeira!
        Chris empunhava uma das cadeiras que usvamos para comer, pronto para cumprir a ameaa. Seus olhos azuis cuspiam fogo, como os olhos cinzentos da av faiscavam 
de dio.

        Ela o encarou com uma expresso devastadora, como se a ameaa de Chris fosse incua e sua fora desprezvel jamais pudesse sobrepujar a montanha de ao que 
ela representava.
        - Muito bem Como prefiram. Ofereo-lhe uma escolha, menina: a perda dos cabelos ou uma semana sem leite e comida.
        - Os gmeos nada fizeram de errado - implorei. - Chris nada fez de errado. Ele no sabia que eu estava despida quando desceu do sto. Tudo foi por minha 
culpa. Posso passar uma semana sem comida ou leite. No morrerei de fome e, alm disso, mame no permitir que faa isso comigo. Elas nos
trar comida.
        Todavia, no declarei aquilo com inteira confiana. Mame estava sumida h muito tempo. Suas visitas eram raras; eu ia sentir muita fome.
        - Seu cabelo, ou ficaro sem comida uma semana inteira - repetiu ela, empedernida e inflexvel.

        - Est agindo errado, velha - disse Chris, aproximando-se com a cadeira erguida. - Peguei Cathy de surpresa. Nada fizemos de pecaminoso. Nunca. No nos julgue 
a partir de indcios circunstanciais.
        - Seu cabelo, ou nenhum de vocs receber comida por uma semana - disse-me ela, ignorando Chris, como sempre. - E caso se tranque no banheiro ou se esconda 
no sto, nenhum de vocs comer durante duas semanas! Ou s quando voc aparecer com a cabea raspada!
        Em seguida, pregou em Chris os olhos frios e calculistas, encarando-o por um momento prolongado e cruciante.
        - Creio que ser voc quem cortar os cabelos compridos e to bem cuidados de sua irm - disse com uma sombra de sorriso, pousando a tesoura em cima da cmoda. 
- Quando eu voltar e encontrar sua irm sem cabelo, vocs quatro voltaro a comer.
        Saiu, trancou a porta por fora, deixando-nos num dilema; Chris olhava para mim e eu para ele.
        Sorriu.
        - Ora, Cathy, no passa de um blefe! Mame chegar a qualquer hora. Contaremos a ela... no haver problema. Eu jamais cortarei seu cabelo.
        Aproximou-se, passando o brao pelos meus ombros, e acrescentou:
#169
        - No foi sorte termos escondido no sto aquele pacote de bolachas e meio quilo de queijo? E ainda temos a comida de hoje. A velha bruxa no se lembrou 
do detalhe.
        Raramente comamos muito. Naquele dia, comemos ainda menos, para o caso de mame no aparecer. Economizamos metade do leite e as laranjas. O dia terminou 
sem a visita de mame. Passei a noite inteira rolando e me mexendo na cama, dormindo e acordando com freqncia. Quando adormecia, tinha pesadelos terrveis. Sonhei 
que Chris e eu estvamos numa densa floresta escura. perdidos, procurando Carrie e Cory. Chamvamos seus nomes na voz silenciosa dos sonhos. Os gmeos no respondiam. 
Em pnico, corremos para a mais profunda escurido.
        Ento, de repente, surgiu. do escuro uma casa feita com bolo de gengibre! Tambm tinha queijo e o telhado era de doces; uma alameda de glac levava  porta 
de chocolate. A cerca era feita com pirulitos de menta, os arbustos de sorvete com sete sabores diferentes. Comuniquei-me mentalmente com Chris: No!  um truque! 
No devemos entrar!
        Ele respondeu: Precisamos entrar! Temos que salvar os gmeos!
        Entramos sorrateiramente e vimos as almofadas de po-de-l, pingando manteiga derretida, e o sof era de po fresco, tambm com manteiga.
        Na cozinha, estava a bruxa para acabar com todas as bruxas! Nariz adunco, queixo proeminente, boca murcha e desdentada; sua cabea parecia um pano de cho 
feito com trapos cinzentos eriados em todas as direes.
        Segurava nossos gmeos pelos longos cabelos dourados. Estavam prestes a serem colocados num forno quente! J tinham sido cobertos com glac cor-de-rosa e 
azul; sua carne, mesmo sem ir ao forno, j se transformava em bolo de gengibre e os olhos azuis em passas escuras!
        Gritei! Comecei e no parei mais de gritar!
        A bruxa se voltou bruscamente para me encarar com os maldosos olhos cinzentos e sua boca murcha, fina como um talho de faca, escancarou-se para rir! Histericamente, 
gargalhou sem parar, enquanto Chris e eu nos encolhamos de pavor. Ela jogou a cabea para trs e a, boca escancarada exps amgdalas semelhantes a caninos - e, 
de forma espantosa, aterradora, comeou a deixar de ser a av. Metamorfoseou-se de lagarta em borboleta, enquanto ns, petrificados, s conseguamos observar... 
e daquele horror emergiu nossa me!
        Mame! Seus cabelos louros caam como longas fitas, avanando rastejantes pelo cho como serpentes para picar-nos! Anis escorregadios de seus cabelos subiam-nos 
pelas pernas, enlaando-nos, avanando para nossas gargantas... tentando estrangular-nos e silenciar-nos... para que no fssemos uma ameaa contra sua herana!
        Eu os amo, eu os amo, eu os amo, repetia ela silenciosamente.
        - Acordei. Chris continuava a dormir, como os gmeos.
        Comecei a ficar desesperada  medida que o sono aumentava, querendo envolver-me outra vez. Tentei resistir  terrvel sonolncia, ao torpor de afogamento, 
at que tornei a mergulhar profundamente em sonhos, em 
#170
horrveis pesadelos. Corri loucamente na escurido e ca numa poa de sangue. Sangue pegajoso como piche, com cheiro de piche. Peixes incrustados de brilhantes, 
com cabeas de cisne e olhos vermelhos mordiscavam-me os braos e pemas at ficarem dormentes e insensveis. E os peixes com cabeas de cisne gargalhavam, alegres 
por me verem combalida e toda ensangentada. Vejam! Vejam! Gritavam com vozes fanhosas que ecoavam prolongadamente: Voc no pode escapar!
        A manh surgiu, plida, no outro lado das pesadas cortinas que impediam a entrada da luz amarela da esperana.
        Carrie virou-se dormindo, aconchegando-se a mim.
        - Mame - murmurou. - No gosto dessa casa.
        Seus cabelos sedosos roando em meu brao davam a impresso de penugem de gansos  medida em que minhas mos e braos, ps e pernas
retornavam  sensao
normal.
        Fiquei imvel na cama enquanto Carrie se mexia, inquieta, querendo que eu a abraasse; sentia-me to dopada que no podia mover os braos. O que havia de 
errado comigo? Tinha a cabea pesada, como se estivesse cheia de pedras que pressionavam meu crebro por dentro; a dor era to grande que meu crnio parecia prestes 
a estourar! Os dedos das mos e dos ps ainda formigavam O corpo parecia de chumbo. As paredes avanavam e tornavam a recuar. No existiam linhas retas verticais.
        Tentei ver minha imagem no armrio com espelho, mas quando experimentei virar a cabea esta no obedeceu. Como sempre fazia antes de dormir, eu espalhava 
meus cabelos sobre o travesseiro, a fim de poder virar a cabea e descansar o rosto na perfumada e sedosa maciez de cabelos fortes, saudveis e bem cuidados. Era 
uma das coisas sensuais que me causava prazer: a sensao dos cabelos em meu rosto, transportando-me para doces sonhos de amor.
        Tadavia, naquela manh no havia cabelos em meu travesseiro. Onde estava meu cabelo?
        A tesoura continuava em cima da cmoda; eu podia v-la vagamente. Engolindo repetidamente para abrir caminho na garganta, soltei um grito forado, chamando 
por Chris - e no por mame. Rezei a Deus que deixasse meu irmo escutar.
        - Chris - consegui sussurrar, afinal, numa voz muito esquisita e spera.         - Estou passando mal.
        Minhas palavras fracas e sussurradas despertaram Chris, embora eu no entenda como ele as escutou. Sentou-se na cama e esfregou os olhos, sonolento.
        - O que deseja, Cathy? - indagou.
        Balbuciei algo que o fez saltar da cama e, no seu pijama azul amarrotado, os cabelos dourados em desalinho, aproximar-se de mim. Estacou bruscamente. Prendeu 
a respirao, produzindo engasgados sons de choque e horror.
        - Cathy... oh, meu Deus!
        Seu grito me provocou arrepios de medo na espinha.
        - Cathy... oh, Cathy... - gemeu ele.
#171
        Enquanto ele me fitava com olhos esbugalhados e eu tentava imaginar o
que lhe provocara tal reao, procurei levantar os braos pesados como chumbo e apalpar a cabea inchada. De algum modo, consegui levar as mos  cabea - e ento
encontrei uma voz alta para gritar! Gritar de verdade! Urrei sem cessar como uma demente, at que Chris correu para tomar-me nos braos.
        - Pare, por favor, pare - soluou ele. - Lembre-se dos gmeos... no os assuste ainda mais... por favor, Cathy, no tome a gritar. Eles j passaram por muita 
coisa e sei que voc no deseja marc-los permanentemente.  o que acontecer se voc no se acalmar. Tudo bem. Eu a livrarei disso. Prometo-lhe por minha vida que, 
ainda hoje, darei um jeito de tirar o piche de seus cabelos.
        Chris encontrou no meu brao uma pequena marca vermelha onde a av aplicara a injeo para manter-me adormecida por meio de alguma droga. E, enquanto eu 
dormia, ela despejara piche quente nos meus cabelos. Deve t-los
juntado antes de passar o piche, pois nem uma s mecha escapara da maaroca.
        Chris procurou evitar que eu me olhasse no espelho, mas empurrei-o para um lado e, boquiaberta, com os olhos arregalados, fitei a horrenda bola preta que 
era a minha cabea. Como uma grande massa de chicles de bola negro mastigado e cuspido, o piche escorria-me at mesmo pelo rosto, pintando-me as bochechas com lgrimas 
pretas!
        Ao ver aquilo, compreendi que jamais conseguiria livrar-me do piche. Nunca!
        Cory acordou primeiro, pronto para correr  janela e afastar as cortinas a fim de espiar o sol que se escondia dele. Pulou da cama e ia comear a correr 
quando me avistou.
        Seus olhos se abriram desmesuradamente. Seus lbios tremeram. Suas pequenas mos se cerraram em punhos para esfregar os olhos. Depois, tornou a olhar para 
mim com a mesma expresso de incredulidade.
        - Cathy? - conseguiu dizer. -  voc?
        - Acho que sim.
        - Por que seu cabelo est preto?
        Antes que eu pudesse responder, Carrie acordou.
        - Ooooooh! - berrou ela. - Cathy... sua cabea parece engraada!
        Grandes lgrimas lhe brilharam nos olhos e escorreram pelo rosto.
        No gosto de sua cabea assim! - gritou, soluando como se o piche estivesse no seu cabelo.
        - Acalme-se, Carrie - disse Chris no mais natural e corriqueiro tom de voz. -  apenas piche no cabelo de Cathy, e quando ela tomar um banho e lavar a cabea, 
ele voltar a ser como ontem. Enquanto ela faz isso, quero que vocs dois comam laranjas como refeio da manh e assistam  televiso. Mais tarde, faremos todos 
uma boa refeio, depois que Cathy lavar a cabea.
        No mencionou a av, temendo incutir neles um terror ainda maior que a nossa situao. Assim, os gmeos sentaram-se no cho como dois aparadores
#172
de livros que se escorassem mutuamente, descansando e comendo laranjas, distraindo-se com os desenhos animados, violncias e outras tolices da programao matinal 
de sbado.
        Chris mandou-me entrar na banheira cheia de gua quente. Mergulhei repetidamente a cabea na gua quase escaldante, enquanto Chris procurava amolecer o piche 
com xampu. O piche amoleceu, mas no se soltou para deixar-me os cabelos limpos. Os dedos de Chris se afundavam numa massa mida de gosma. Ouvi-me choramingar. Chris 
tentou - oh, pomo tentou! retirar o piche sem me arrancar o cabelo todo. E eu s conseguia pensar na tesoura - a brilhante tesoura que a av deixara em cima da cmoda.
        Ajoelhado junto  banheira, Chris finalmente conseguiu atravessar com os dedos a maaroca em minha cabea, mas quando retirou as mos, os dedos vieram cheios 
de cabelos negros e pegajosos teimosamente grudados.
        - Ter que usar a tesoura! - gritei, cansada de tudo aquilo depois de duas horas.
        No, a tesoura era o ltimo recurso. Chris argumentou que devia existir alguma soluo qumica capaz de dissolver o piche sem me estragar o cabelo. Ele possua 
um minilaboratrio de qumica bastante completo, que mame lhe dera de presente. Na caixa havia uma severa advertncia: "Isto no  um brinquedo. Esta caixa contm 
substncias qumicas perigosas e s deve ser
utilizada por profissionais".
        - Cathy - disse ele, sentando-se nos calcanhares descalos. - Vou  sala de aulas do sto, a fim de preparar uma mistura capaz de retirar o piche.
        Sorriu timidamente para mim. A luz do teto incidia sobre o buo que lhe cobria o lbio superior e eu sabia que, mais abaixo no corpo, ele tinha cabelos mais 
escuros, como eu tambm.
        - Preciso usar a privada, Cathy. Nunca fiz isso diante de voc e estou meio encabulado. Voc pode virar as costas e tapar os ouvidos com os dedos. E se voc 
urinar na gua, talvez a amnia ajude a dissolver o piche.
        Encarei-o, espantada. O dia assumia propores de pesadelo. Sentar-me em gua quente e us-la como vaso sanitrio para depois lavar o cabelo com aquilo? 
Seria verdade que eu procederia dessa forma enquanto Chris aliviava a bexiga no vaso s minhas costas? Disse comigo mesma que no, era um sonho e no a realidade. 
Carrie e Cory tambm no usariam o banheiro enquanto eu ali estivesse mergulhando a cabea em gua suja.
        Mas era bastante real. De mos dadas, Carrie e Cory vieram at a banheira e olharam espantados para mim, desejando saber por que motivo eu me demorava tanto.
        - Cathy, o que  isso na sua cabea?
        - Piche. - Por que passou piche na cabea?
        - Acho que fiz isso dormindo.
        - Onde encontrou piche?
        - No sto.
        - Por que quis passar piche no cabelo?
#173
        Eu detestava mentir! Queria dizer a Carrie quem me colocara piche na cabea, mas no devia revelar s crianas. Ela e Cory j tinham medo suficiente da velha.
        - Volte ao quarto para assistir  televiso, Carrie - repliquei, irritada com tantas perguntas e detestando ver-lhe o rosto magro e encovado e os olhos fundos.
        - Cathy, voc no gosta mais de mim?
        - Bem...
        - Gosta?
        - Claro que gosto de voc, Cory. Gosto de vocs dois, mas derramei piche no cabelo por engano e agora estou com raiva de mim mesma.
        Carrie afastou-se para ficar sentada perto de Cory. Sussurravam entre si naquela estranha linguagem que s os dois conseguiam entender. s vezes, penso que 
eram muito mais sabidos do que eu e Chris  suspeitvamos.
        Passei horas na banheira, enquanto Chris preparava uma dzia de diferentes misturas, experimentando um pouco de cada em meu cabelo. Tentou tudo, fazendo-me 
trocar a gua vrias vezes, tornando-a sempre mais quente. Murchei como uma ameixa seca  medida que ele removia, pouco a pouco, a massa gosmenta de minha cabea. 
Eventualmente, o piche saiu junto com uma enorme poro do cabelo. Todavia, eu tinha muito cabelo e podia perder boa parte dele sem que a diferena fosse notvel. 
Quando
terminamos, o dia se acabara e nem Chris nem eu tnhamos ingerido uma migalha de comida. Chris dera aos gmeos queijo e bolachas, mas no tivera tempo para comer. 
Embrulhada numa toalha, sentei-me na cama e sequei os cabelos ralos. O que restava deles era frgil e quebradio, desbotado at ficar quase cor de platina.
        - Voc bem poderia ter economizado tanto esforo - disse eu a Chris, que devorava avidamente duas bolachas com queijo. - Ela no trouxe comida, e no trar 
at que corte o cabelo todo.
        Ele me trouxe um prato com queijo e bolachas, segurando tambm um copo de gua.
        - Coma e beba. Seremos mais espertos que ela. Se ela no trouxer comida amanh, ou se mame no vier, cortarei apenas seu cabelo da frente, logo acima da 
testa. Ento, voc poder envolver a cabea numa toalha, ou leno, como se tivesse vergonha de aparecer careca diante dos outros. O cabelo logo voltar a crescer.
        Comi um pouco de queijo com bolachas, sem responder. Tomei um copo de gua da torneira do banheiro para completar minha nica refeio do dia. Ento, Chris 
escovou os cabelos fracos e descorados que tanto haviam suportado.  engraado como o destino ajeita as coisas: meu cabelo nunca brilhara tanto, nem fora to sedoso 
- e senti-me grata por ainda me restar um pouco dele. Deitei-me de costas na cama, exausta, enervada pelas emoes dilacerantes, e observei Chris que, sentado na 
cama, olhava para mim. Quando
adormeci, ele ainda estava ali, fitando-me, segurando uma mecha de meus cabelos sedosos e finos como teia de aranha.
#174
        Naquela noite, acordei e tornei a dormir repetidas vezes, inquieta, atormentada. Sentia-me impotente, furiosa, frustrada.
        Ento, avistei Chris.
        Continuava com as roupas que usara durante o dia inteiro. Puxara a poltrona mais pesada do quarto, colocando-a de encontro  porta, e cochilava sentado nela, 
segurando a tesoura comprida e afiada. Barrava o caminho, de modo que a av no poderia esgueirar-se para dentro do quarto e fazer uso da tesoura. Mesmo dormindo, 
protegia-me contra ela.
        Enquanto eu o observava, abriu os olhos, sobressaltado, como se no pretendesse dormir e deixar-me desprotegida. Na obscuridade daquele quarto trancado nossos 
olhos se encontrara e fixaram. Chris sorriu muito vagarosamente.

        - Ol.
        - Volte para a cama, Chris - solucei. - No pode ficar vigiando para sempre.
        - Posso vigiar enquanto voc dorme.
        - Ento, deixe-me ficar de sentinela. Faremos um revezamento.
        - Quem  o homem aqui, eu ou voc? Alm disso, eu como mais que voc.
        - Que tem isso a ver com o caso?
        - Voc est muito magra atualmente, e passar a noite inteira em claro a emagrecer ainda mais, enquanto eu posso perder alguns quilos sem que faa diferena.
        Ele tambm estava muito magro e seu peso diminuto no impediria que a av forasse a porta se quisesse realmente entrar no quarto. Levantei-me e fui acomodar-me 
ao lado dele, embora ele protestasse de forma galante.
        - Shhhh! - sussurrei. - Ns dois poderemos afast-la melhor e, tambm, dormir.
        Abraados, mergulhamos no sono.
        E o dia raiou... sem a presena da av... sem comida.
        Os dias de fome se arrastaram,  interminveis, cheios de sofrimento e desolao.
        O queijo e as bolachas logo acabaram, embora comssemos com a maior parcimnia possvel. Foi ento que comeamos realmente a sofrer. Chris e eu tomvamos 
apenas gua, guardando o pouco de leite que restava para os gmeos.
        Chris se aproximou de mim com a tesoura e, relutante, com lgrimas: nos olhos, cortou-me os cabelos da testa rente ao couro cabeludo. Recusei-me a olhar 
um espelho depois disso. A parte que continuou comprida eu enrolei na cabea e, por cima de tudo, coloquei um leno formando um turbante.
        Ento, ocorreu a ironia - a amarga ironia - de constatarmos que a av no vinha verificar!
        No nos trouxe comida, nem leite, nem roupas de cama limpas, nem toalhas, nem mesmo sabonetes e pasta de dentes, que acabaram. At o papel 
#175
higinico tambm terminou. Agora, eu me arrependia e ter jogado fora todos os papis finos em que nossas roupas novas e caras vinham embrulhadas. Nada nos restava 
fazer seno arrancar pginas dos livros mais velhos existentes no sto e utiliz-las no banheiro.
        Ento, o vaso sanitrio entupiu, transbordou e Cory comeou a gritar quando a sujeira extravasou e se espalhou pelo banheiro. No tnhamos desentupidor. 
Frenticos, Chris e eu tentamos imaginar uma soluo. Enquanto ele corria para apanhar um cabide de arame e estic-lo, a fim de empurrar pelo cano o que entupira 
o vaso, subi depressa ao sto para pegar roupas velhas e limpar a inundao de sujeira.
        No sei como Chris conseguiu utilizar o arame, mas o vaso voltou a funcionar normalmente. Ento, sem dizer uma palavra, Chris se ajoelhou a meu lado e, juntos, 
passamos a limpar e enxugar o cho com roupas velhas que eu pegara nos bas do sto.
        Agora, tnhamos uma poro de trapos sujos e fedorentos para encher um ba e acrescentar mais um segredo aos j existentes no sto.
        Fugimos ao horror de nossa situao evitando mencion-la. Limitvamo-nos a sair da cama de manh, lavar o rosto, escovar os dentes com gua, beber um pouco 
de gua, andar um pouco pelo quarto e depois deitar para assistir  televiso ou ler - e enfrentar uma encrenca dos diabos se a velha nos pegasse amarrotando as 
camas durante o dia. Que nos importava, agora?
        Ouvir os gmeos chorando de fome deixou-me no corao cicatrizes que trago at hoje e carregarei pelo resto da vida. E eu odiava - oh, como eu odiava! - 
aquela velha, e mame tambm, por submeter-nos quilo!
        Enquanto as horas das refeies se passavam sem termos comida, ns dormamos. Dormamos horas a fio. Adormecidos, no sentamos dor ou fome, solido ou amargura. 
Dormindo, podamos mergulhar em falsa euforia e, ao acordarmos, no ligvamos para coisa alguma.
        Houve um dia nebuloso e irreal em que estvamos deitados, os quatro, indiferentes a tudo; a nica vida que persistia estava confinada no pequeno aparelho 
de televiso colocado num canto do quarto. Aturdida e fatigada, virei a cabea sem motivo algum, apenas para fitar Chris e Cory. Continuei deitada e indiferente 
ao observar Chris pegar seu canivete e cortar o prprio pulso; em seguida, levou o pulso  boca de Cory, obrigando-o a beber o sangue, embora o menino protestasse. 
Depois, foi a vez de Carrie. Os dois gmeos, que se recusavam terminantemente a comer qualquer coisa encaroada, granulosa, muito dura ou muito mole, ou simplesmente 
"esquisita", beberam o sangue do irmo mais velho e o olharam sem compreender, mas aceitando suas instrues com olhos muito arregalados.
        Virei a cabea para o outro lado, enjoada ante o que ele tinha de fazer e cheia de admirao por ele ser capaz de faz-lo. Chris sempre era capaz de solucionar 
um problema.
        Chris veio at perto de mim, sentou-se na beira da cama e me encarou prolongadamente; ento, baixou os olhos para o corte no pulso, que j no
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sangrava com tanta abundncia. Pegou o canivete e preparou-se para fazer outro corte a fim de que eu tambm pudesse nutrir-me com seu sangue. A Detive-o, pegando 
o canivete e jogando-o para longe. Chris correu para apanh-lo e desinfet-lo com lcool, a despeito de meu juramento de que jamais provaria seu sangue e o privaria 
de foras to necessrias a nos todos. 
        - O que faremos se ela nunca mais voltar, Chris? - indaguei, aturdida. - Ela nos deixar morrer de fome.
        Referia-me  av,  claro. Havia duas semanas que no a vamos. E Chris exagerara ao dizer que tnhamos meio quilo de queijo escondido. Usvamos o queijo 
como isca para nossas ratoeiras e framos obrigados a pegar as iscas de volta quando tudo o mais acabou. Agora, fazia trs dias que no tnhamos no estmago uma 
migalha de comida e passramos quatro dias, antes disso, alimentando-nos apenas com um pouco de queijo e bolachas. E o leite que economizramos para os gmeos acabara 
h dez dias.
     - Ela no nos deixar morrer de fome - declarou Chris, deitando-se a meu lado e tomando-me em seus braos enfraquecidos. - Seramos idiotas e covardes se permitssemos 
que ela nos fizesse tal coisa. Amanh, se ela no trouxer comida e nossa me no aparecer, usaremos nossa escada de lenis de chegar ao solo.
     Com a cabea apoiada em seu peito, eu podia ouvir-lhe as batidas do corao.
     - Como pode saber o que ela vai fazer? Ela nos detesta. Quer ver-nos mortos. No diz sempre que jamais deveramos ter nascido?
     - Cathy, a velha bruxa no  tola. Logo trar comida para ns, antes que mame regresse do lugar aonde foi.
     Levantei-me para fazer um curativo em seu pulso cortado. Chris e eu devamos ter tentado a fuga duas semanas antes, quando ambos ainda tnhamos foras suficientes 
para fazer a arriscada descida. Se tentssemos agora, certamente cairamos para a morte - inda mais com os gmeos amarrados s nossas costas, para aumentar as dificuldades.
     Todavia, quando o dia seguinte amanheceu e ningum trouxe comida para ns, Chris obrigou-nos a subir para o sto. Ele e eu carregamos os gmeos, que estavam 
fracos demais para andarem sozinhos. L em cima, o ambiente era trrido. Sonolentos, os gmeos se deixaram cair no canto da sala de aulas onde os deixamos. Chris 
comeou a improvisar alas com as quais podamos amarr-los seguramente s nossas costas. No mencionamos a possibilidade de estarmos cometendo suicdio, e homicdio 
tambm, se cassemos.
        - Vamos fazer de outra maneira - disse Chris, reconsiderando. - Descerei na frente. Quando eu chegar ao cho, voc colocar Cory numa destas armaes, amarrando-o 
bem para que no consiga soltar-se, e o baixar at l. Em seguida, far o mesmo com Carrie. E descer por ltimo. Pelo amor de Deus, faa o maior esforo possvel! 
Pea a Deus que lhe d foras, no fique aptica! Sinta raiva, ira, pense em vingana. Ouvi dizer que uma grande raiva nos d uma fora sobre-humana em caso de emergncia!
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        - Deixe-me descer primeiro - repliquei debilmente. - Voc  mais forte.
        - No! Quero estar l, a fim de aparar caso algum desa depressa demais. Seus braos no tm a fora dos meus. Passarei a corda por uma chamin, de modo 
que voc no precise agentar o peso todo. Cathy, isto  realmente uma emergncia!
        Meu Deus! Eu no podia acreditar no que ele esperava que eu fizesse a seguir!
        Horrorizada, fitei os quatro camundongos mortos em nossas ratoeiras.
        - Precisamos comer esses camundongos para armazenarmos foras - declarou Chris com ar severo. - E se precisamos fazer alguma coisa, podemos faz-la!
        Carne crua? Ratos crus?
        - No - murmurei, repugnada pela viso dos pequenos animais mortos e rgidos.
        Chris tornou-se autoritrio, raivoso, declarando que eu podia fazer qualquer coisa que fosse necessria  preservao da vida dos gmeos e da minha tambm.

        - Oua Cathy: comerei os meus primeiro, depois de ir ao quarto buscar sal e pimenta E tambm preciso apanhar aquele cabide de arame para apertar bem os ns. 
Alavanca, como voc sabe. Minhas mos no esto funcionando muito bem no momento.
        Claro que no estavam. Achvamo-nos todos em tal estado de fraqueza que mal  conseguamos mover-nos.
        Chris lanou-me um rpido olhar de avaliao.
        - No duro, acho que os camundongos poderiam ficar saborosos com sal e pimenta.

        Saborosos...
        Ele decapitou os ratos e, depois, retirou-lhes a pele e as entranhas. Observei-o abrir as pequenas barrigas e puxar compridos intestinos pegajosos,
minsculos coraes e outras "entranhas" em miniatura.
        Eu teria vomitado - se tivesse algo no estmago.
        E Chris no correu para buscar sal e pimenta, ou o cabide de arame. Limitou-se a andar devagar, enquanto me confessava que no se sentia ansioso por comer 
os camundongos.
        Enquanto ele esteve ausente, meus olhos permaneceram pregados nos camundongos pelados que constituiriam nossa prxima refeio. Fechei os olhos e fiz um 
esforo de vontade para tirar a primeira dentada. Estava faminta, mas no o suficiente para gostar da perspectiva.
        Ento, pensei nos gmeos que jaziam no canto com os olhos fechados, abraados, as testas unidas; refleti que assim deveriam ter ficado no tero da me enquanto 
esperavam a hora de nascer para serem trancafiados num quarto e abandonados para morrerem de fome. Nossos pobres e doces irmos gmeos, que outrora tinham pais que 
os amavam tanto.
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        Ainda assim, restava a esperana de que os camundongos dessem a Chris e a mim foras suficientes para levar os gmeos em segurana at o solo. E de que algum 
vizinho caridoso que estivesse em casa lhes desse comida - comida para todos ns, se consegussemos sobreviver  prxima hora.
        Escutei os passos lentos de Chris, que retornava. Hesitou junto  porta, com um meio sorriso, os olhos azuis encontrando os meus... e brilhando. Com ambas 
as mos, carregava a grande cesta de piquenique que to bem conhecamos. Estava to abarrotada de comida que as tampas de madeira nem se fechavam.
        Chris retirou da cesta nossas duas garrafas trmicas: uma com sopa de legumes e outra com leite frio. Senti-me to aturdida, confusa, esperanosa. Ser que 
mame chegara e nos mandara aquilo tudo? Ento, por que no nos chamara ao quarto? Ou por que no viera procurar-nos?
        Tive mpetos de forar a comida pela garganta de Cory abaixo, a fim de poder logo encher meu estmago faminto. Ele comia to devagar! Mil e uma indagaes 
me atravessavam o crebro: Por que hoje? Por que trazer a comida hoje e no ontem, ou anteontem? Como raciocinava a velha?
     Quando, finalmente, consegui comer, estava por demais aptica para regozijar-me e desconfiada para sentir-me aliviada.
        Aps comer meio sanduche e tomar um pouco de sopa, Chris abriu um embrulho de papel aluminizado, deixando  mostra quatro roscas cobertas com acar. Ns, 
que jamais ganhvamos doces, recebamos - pela primeira vez - uma sobremesa da av. Seria o modo de pedir-nos desculpas? Qualquer que fosse sua inteno, encaramos 
o fato sob esse aspecto.
     Durante nossa semana de quase inanio, algo peculiar ocorrera entre Chris e eu. Talvez tenha sido naquele dia que passei sentada na banheira de gua quente 
enquanto ele batalhava to arduamente para remover o piche dos meus cabelos. Antes daquele dia horrvel, ramos apenas irmo e irm, representando o papel de pais 
para os gmeos. Agora, nosso relacionamento mudara. J no representvamos um papel; ramos os verdadeiros pais de Carrie e Cory. Os gmeos eram nossa obrigao, 
nossa responsabilidade, e nos dedicamos a eles de corpo e alma. E um ao outro, tambm.
        Tudo se delineara nitidamente: nossa me j no se importava com o que nos acontecesse.
        Chris no precisou dizer como se sentia ao reconhecer tal indiferena por parte dela. Seu olhar desolado revelava o suficiente. Seus movimentos desanimados, 
ainda mais. Antes, conservava a fotografia de mame perto da cama; agora, guardara-a em algum lugar. Sempre acreditara nela mais que eu; portanto, era natural que 
sofresse mais. E se sofria mais que eu, devia estar passando por uma terrvel agonia.
        Pegou-me a mo com ternura, indicando que j podamos voltar ao quarto. Descemos a escada como fantasmas plidos e sonolentos, em estado de choque, todos 
nos sentindo mal, debilitados - especialmente os gmeos. Eu duvidava que cada um deles pesasse mais que quinze quilos. Podia ver a aparncia deles e de Chris, mas 
no a minha. Olhei para o espelho alto e largo 
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acima a cmoda, esperando ver a imagem e algum fenmeno e circo, com cabelos aparados na testa e compridos nas costas - longos cabelos escorridos e desbotados. Oh... 
quando olhei para o espelho, ele no estava no lugar!
        Corri ao banheiro e encontrei o espelho do armrio quebrado! Voltei correndo ao quarto para erguer o tampo da penteadeira que Chris usava como escrivaninha... 
e o espelho que havia ali tambm fora estilhaado!
        Podamos olhar para os cacos de espelho e ver nossas imagens distorcidas. Sim, podamos ver nossos rostos em facetas separadas, como uma mosca os veria, 
com um lado do nariz mais alto que o outro. No era uma viso agradvel. Dando as costas  cmoda, coloquei a cesta de piquenique no cho, onde estava mais fresco, 
e fui deitar-me. No tinha dvidas quanto ao motivo dos espelhos quebrados e do que fora removido; eu sabia por que ela fizera aquilo. Vaidade era pecado. E, aos 
olhos dela, Chris e eu ramos pecadores da pior espcie. A fim de castigar-nos, os gmeos tambm sofreriam. Contudo, eu no atinava com a razo pela qual ela tornara 
a nos trazer comida.
        As manhs se sucederam, sempre com cestas de comida trazidas a nosso quarto. A av se recusava a olhar para ns. Mantinha os olhos desviados de ns; entrava 
e saa depressa. Eu usava na cabea um turbante improvisado com uma toalha cor-de-rosa, que revelava o cabelo cortado acima da testa. Se ela notou, no fez comentrios. 
Observvamos seus movimentos, sem indagarmos onde estava mame ou quando voltaria. Os que so castigados com facilidade logo aprendem a lio e no falam sem que 
algum lhes dirija antes a palavra. Tanto Chris como eu a fitvamos abertamente, com os olhos cheios de raiva e dio, esperando que ela se voltasse para perceber 
o que sentamos. Contudo, os olhos dela no encontravam os nossos. Ento, eu chorava para faz-la ver, para chamar-lhe a ateno sobre os gmeos, a fim de que visse 
como estavam magros e as profundas olheiras que traziam em torno dos olhos. Mas ela recusava-se a ver.

        Deitada na cama ao lado de Carrie, examinei-me interiormente e constatei que tornava as coisas piores do que deviam ser. Chris, antes o eterno otimista, 
agora se transformava aos poucos numa sombria imitao de mim. Eu O desejava de volta ao que fora antes - sorridente e animado, fazendo o pior parecer melhor.
        Estava sentado  penteadeira, com o tampo baixado para formar uma mesa, tendo  sua frente livros de medicina. Mantinha os ombros cados. No lia ou fazia 
anotaes; estava. apenas sentado ali.
        - Chris - chamei, sentando-me na cama para escovar os cabelos. - Na sua opinio, qual o percentual de adolescentes femininas no mundo inteiro que foram deitar-se 
com os cabelos limpos e brilhantes, e acordaram transformadas em bonecas de piche?
        Girando no banquinho, ele me olhou, muito surpreso por eu ter mencionado aquele dia terrvel.
        - Bem - replicou devagar -, na minha opinio, desconfio de que voc bem poderia ser a nica... um caso mpar.
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        - Ora, no tenho certeza. Lembra-se de quando asfaltaram a nossa rua? Mary Lou Baker e eu entornamos um balde daquele material e fizemos pequenas bonecas 
de piche, assim como caminhas e casas pretas. Entfo, encarregado das obras nos expulsou de l aos grito.
        - Sim - disse ele. - Lembro-me de voc chegar em casa imunda, mastigando um bocado de piche para tornar os dentes mais brancos. Tudo o que conseguiu foi 
arrancar uma obturao, Cathy.
        - Uma boa coisa a respeito deste quarto  no sermos obrigados a ir ao dentista duas vezes por ano.

        Chris me lanou um olhar esquisito, mas prossegui:
        - E outra coisa boa  dispormos de tanto tempo livre! Completaremos nosso campeonato de Monoplio. O perdedor ser obrigado a lavar na banheira todas as 
nossas roupas de baixo.
        Ele topou de imediato. Detestava debruar-se sobre a banheira, ajoelhado nos ladrilhos do cho, para lavar as suas roupas e as de Cory tambm.
        Armamos o jogo, contamos o dinheiro e procuramos pelos gmeos. Tinham sumido! Aonde poderiam ter ido, seno ao sto? Jamais iriam l sem ns e o banheiro 
estava vazio. Ento, ouvimos leves rudos atrs do aparelho de TV.

        L estavam eles, agachados no canto atrs do aparelho, aguardando que as minsculas pessoas que apareciam na pequena tela sassem pelos fundos.
        - Pensamos que mame estava l dentro - explicou Carrie.
        - Acho que vou danar no sto - declarei, dirigindo-me ao armrio embutido.
     - Cathy! E o nosso jogo do campeonato de Monoplio?
        Parei, olhando para ele.
        - Ora, voc ganharia. Esquea o campeonato.
        - Covarde! - provocou ele, como  antigamente. - Venha. Vamos jogar.
        Olhou prolongada e severamente para os gmeos, que sempre eram os nossos banqueiros no jogo.
        - E nada de roubos, desta vez - advertiu, muito srio. - Se eu pegar um de vocs passando dinheiro para Cathy quando pensarem que no estou vendo... comerei 
sozinho aquelas quatro rosquinhas!
        S passando por cima do meu cadver! As rosquinhas eram a melhor parte de nossas refeies e ficavam reservadas para a sobremesa do jantar. Joguei-me no 
cho, cruzei as pernas e ocupei-me em imaginar meios de poder comprar primeiro os melhores imveis, ferrovias e servios pblicos; compraria primeiro as casas vermelhas 
e, depois, os hotis. Mostraria a Chris quem era capaz de fazer alguma coisa melhor que ele.
        Jogamos durante horas seguidas, parando apenas para comer ou ir ao banheiro. Quando os gmeos se cansaram de atuar como banqueiros, ns mesmos contvamos 
e distribuamos o dinheiro, observando-nos mutuamente com grande ateno, a fim de verificar se havia alguma trapaa. E Chris ia sempre parar na cadeia, sendo obrigado 
a perder a vez e pagar multa, tinha
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que recolher doaes  Caixa Comunitria e pagar imposto sobre heranas... mas ainda ganhou!

        No final de agosto, Chris aproximou-se de mim certa noite e segredou-me ao ouvido:
        - Os gmeos esto dormindo e est muito quente aqui dentro. No seria formidvel se pudssemos nadar um pouco?
        - V embora... deixe-me em paz... Sabe que no podemos ir nadar.
        Naturalmente, eu ainda estava emburrada por perder sempre no jogo de Monoplio.
        Nadar - que idia idiota! Mesmo se pudssemos, eu no queria fazer coisa alguma em que ele fosse perito, como natao.
        - Alm disso, onde vamos nadar? Na banheira?
        - No lago de que mame nos falou. No fica longe daqui - sussurrou ele. - De todo modo, devamos treinar a descida pela corda que improvisamos, para a eventualidade 
de um incndio. Agora, estamos mais fortes. Podemos chegar ao solo com facilidade e no nos demoraremos muito fora daqui.
        - Os gmeos podem acordar e no nos encontraro.
        - Deixaremos um bilhete no banheiro, avisando que estamos no sto. Alm disso, eles nunca acordam antes do amanhecer, nem mesmo para irem ao banheiro.
        Argumentou e suplicou at que me deixei convencer. Subimos ao sto, samos para o telhado e Chris amarrou seguramente a corda de lenis em torno de uma 
chamin - a que ficava mais prxima aos fundos da casa. Havia oito chamins no telhado.
        Enquanto experimentava cada um dos ns, Chris deu-me instrues:

        - Utilize os ns como degraus de uma escada. Mantenha as mos logo acima do n superior. Desa devagar, sentindo com os ps o n seguinte. E lembre-se de 
manter a corda torcida entre as pernas, a fim de no escorregar e cair.
        Sorrindo confiantemente, Chris segurou a corda e avanou cautelosamente at a beira do telhado. Pela primeira vez em mais de dois anos, amos Descer ao solo.

O Sabor do Paraso

        Lenta, cautelosamente, mo a mo, p a p, Chris desceu para o solo enquanto eu, deitada de bruos, espiava pela beirada do telhado. A lua nascera e
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brilhava quando ele ergueu a mo e acenou: era o sinal para que eu iniciasse minha descida. Eu o observara com ateno, a fim de poder imit-lo. Tentei convencer-me 
de que no era diferente de andar pendurada nas cordas que havamos estendido nas vigas do sto. Os ns eram grandes e  fortes; judiciosamente, tnhamos procurado 
espa-los regularmente, a cerca de um metro e vinte de distncia um do outro. Chris me recomendara no olhar para baixo aps deixar o telhado e concentrar-me apenas 
em prender o p no n inferior antes de procurar o n seguinte com o outro p. Em menos de dez minutos eu estava no solo, de p ao lado de Chris.
        - Puxa! - exclamou ele, abraando-me. - Voc desceu melhor que eu!
        Estvamos nos jardins situados nos fundos de Foxworth Hall, onde no havia luzes nos quartos, embora nos alojamentos dos criados, em cima da enorme garagem, 
todas as janelas estivessem brilhantemente iluminadas.
        - Vai na frente, McDuff, at o lago. Se conheces o caminho - disse-lhe em voz baixa. 

        Claro que ele conhecia o caminho. Mame nos contara como ela e os irmos fugiam sorrateiramente de casa para irem nadar no lago com os amigos.
        Chris pegou-me a mo e, nas pontas dos ps, afastamo-nos da imensa manso. Era uma sensao muito estranha estarmos fora de casa, no solo, numa clida noite 
de vero. Deixando nossos irmozinhos a ss num quarto trancado. Depois de atravessarmos uma pinguela, soubemos que agora estvamos fora da propriedade dos Foxworth 
e nos sentimos alegres, quase livres. No obstante, deviamos proceder com cautela e no permitir que algum nos visse. Corremos para os bosques, na direo do lago 
de que mame nos falara.
        Eram dez horas quando samos para o telhado; s dez e meia, encontramos o pequeno lago cercado de rvores. Temamos que houvesse l outras pessoas para estragar 
tudo e obrigar-nos a voltar frustrados, mas a superfcie da gua estava lisa, sem ser perturbada por vento, banhistas ou barcos.
     Ao luar, sob um cu claro e estrelado, olhei para o lago e refleti que nunca vira uma cena to linda ou sentira no corpo uma noite ao ar livre que me causasse 
tanto encantamento.
        - Vamos nadar despidos? - perguntou Chris, olhando-me de modo estranho.

        - No. Vamos nadar com as roupas de baixo.
        O problema era que eu no possua um suti. Agora, porm, que j estvamos ali, nenhum pudor tolo me impediria de aproveitar aquela gua iluminada pelo luar.
        - ltimo l  mulher do padre! - gritei. 
        E parti, correndo, em direo a um pequeno cais. Chegando  extremidade, porm, pressenti que a gua poderia estar gelada e parei. Cautelosa, quase como 
se tivesse medo, toquei a superfcie do lago com a ponta do dedo do p - a gua estava fria como gelo! Olhei para trs e avistei Chris, que tirava o relgio do 
pulso e agora avanava velozmente para mim. To depressa que, antes mesmo que eu pudesse tomar coragem para mergulhar na gua fria, ele
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me empurrou! Ca de uma s vez, no centmetro a centmetro, como desejava!
        Estremeci ao voltar  superfcie e procurei por Chris. Avistei-o subindo
numa pedra; por um instante, sua silhueta se projetou contra o fundo mais claro do cu. Ele abriu os braos e, graciosamente, deu um lindo mergulho, com os braos 
abertos no ar. Prendi a respirao! E se a gua no tivesse profundidade suficiente? Se ele batesse no fundo, quebrando o pescoo ou a espinha?
        E ento... e ento... ele no emergiu! Oh, Deus... estava morto... afogado!
        - Chris! - gritei, soluando.
        Comecei a nadar na direo do local onde ele desaparecera na gua fria.
        De repente, fui segura pelas pernas! Gritei e afundei, puxada por Chris, que deu um forte impulso com as pernas e nos trouxe de volta  superfcie, onde 
rimos e eu lhe joguei gua no rosto para me vingar do truque sujo que ele me aplicara.
        - Isso no  melhor que ficarmos trancados naquele maldito quarto quente? - perguntou, pulando na gua como se estivesse demente, delirante, desvairado e 
louco!
        Era como se aqueles poucos momentos de liberdade lhe tivessem subido  cabea como uma bebida forte, embriagando-o! Comeou a nadar em crculos ao redor 
de mim e tentou pegar-me novamente as pernas a fim de me
puxar para baixo. Agora, porm, eu j estava prevenida contra ele. Voltou  superfcie e nadou de costas. Depois, de peito, de crawl e de lado, ao estilo indiano. 
Experimentou todos os tipos de nado.
        - Este  o crawl de costas - anunciou, fazendo uma demonstrao.
        Exibiu tcnicas que eu jamais vira antes.
        Emergiu aps um mergulho e ficou boiando perto de mim.
        - Dana, bailarina, dana... - cantou, jogando-me gua no rosto.
        Devolvi-lhe a agresso e ele continuou a cantar:
        - E faz tuas piruetas...
        Ento, abraou-me repentinamente. Rindo e gritando, lutamos como se tivssemos enlouquecido por podermos voltar a ser crianas. Oh, Chris era maravilhoso 
na gua, como um bailarino. De repente, fiquei cansada - extremamente cansada; to cansada que me sentia como um pano de cho encharcado. Chris passou o brao em 
torno de mim, ajudando-me a subir na margem.
        Deixamo-nos cair no capim e ficamos deitados de costas para conversarmos.
        - Mais uma nadada e depois voltamos aos gmeos - disse ele, estendido de costas a meu lado no suave declive.
        Fitamos ambos o cu cheio de estrelas cintilantes. A lua crescente, com uma tonalidade prata e ouro, parecia esquivar-se e brincar de esconder com as nuvens 
compridas e escuras.
        - Supondo que no consigamos voltar ao telhado?
        - Chegaremos porque temos que chegar.
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        Aquele era o meu velho e querido Chris, o eterno otimista, estendido a meu lado com o corpo molhado e brilhante, os cabelos dourados colados  testa. Seu 
nariz igual ao de papai apontado para o cu, os lbios cheios e de formato to belo que mesmo em repouso pareciam sensuais, o queixo forte e
quadrado, com uma covinha no centro, o peito que comeava a alargar-se... e aquela colina de masculinidade em desenvolvimento entre suas coxas fortes, que comeavam 
a ficar musculosas. Havia algo que me excitava nas coxas fortes e bem formadas de um homem. Virei a cabea para o outro lado, incapaz de regalar meus olhos na beleza 
de Chris sem me sentir culpada e envergonhada.
        Os pssaros tinham ninho nos galhos das rvores acima de ns e emitiam leves pios sonolentos que me faziam lembrar os gmeos, tornando-me triste e trazendo-me 
lgrimas aos olhos.
        Os vagalumes surgiam com freqncia, piscando, fazendo sinais de macho para fmea, ou vice-versa.
        - Chris, o vagalume que pisca  o macho ou a fmea?
        - No tenho certeza - replicou ele, como se no estivesse muito interessado. - Acho que ambos piscam, mas ela fica no cho fazendo sinais, enquanto o macho 
voa  sua procura.
        - Quer dizer, ento, que existem coisas sobre as quais voc no tem certeza, Dr. Sabe-tudo?
        - No vamos discutir, Cathy. Eu no sei tudo, muito pelo contrrio.
        Virou a cabea para mim; nossos olhares se encontraram e nenhum de ns parecia capaz de ver outra coisa.
        Sopros suaves da brisa comearam a brincar com meus cabelos, secando os fios grudados em meu rosto. Senti-os roar-me como leves beijinhos e senti novamente 
vontade de chorar, sem qualquer motivo alm de ser uma noite to doce, to bela, e eu estar na idade de ansiar por um romance. E a brisa sussurrava-me palavras de 
amor ao ouvido... palavras que eu temia que ningum jamais me dissesse. Ainda assim, a noite era linda sob as rvores  margem da gua que faiscava ao luar e eu 
suspirei. Tinha a impresso de que j estivera ali antes, naquele gramado junto ao lago. Oh, que estranhos pensamentos me passaram pela cabea enquanto os pssaros 
noturnos voejavam, os mosquitos zumbiam e uma coruja piava em lugar distante, levando-me de volta  primeira noite em que ali chegramos, para vivermos como fugitivos, 
escondidos de um mundo que no nos queria.
        - Chris, voc tem quase dezessete anos, a mesma idade que papai tinha quando conheceu mame.
        - E voc tem quatorze, a mesma idade que ela - replicou ele com voz rouca.
        - Acredita em amor  primeira vista?
        Chris hesitou, ruminando a pergunta... a seu modo, no ao meu.
        - No sou autoridade no assunto. Sei que, quando estava na escola, via uma pequena bonita pela primeira vez e me apaixonava imediatamente por ela. Ento, 
conversvamos e eu constatava que ela era burra; ento, no sentia
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mais nada por ela. Todavia, se a beleza fosse acompanhada por outros predicados, creio que eu poderia amar  primeira vista, embora j tenha lido em algum lugar 
que essa espcie de amor no passa de atrao fsica.
        - Acha que sou burra?
        Ele sorriu e estendeu a mo para tocar-me o cabelo.
        - Claro que no. E espero que voc no se ache burra, porque no . Cathy, o seu problema  ter talentos demais; quer ser tudo e isso  impossvel.
        - Como soube que eu tambm gostaria de ser cantora e atriz?
        Ele riu suavemente, baixinho.
        - Menina tola, voc passa noventa por cento do tempo representando e canta sozinha quando est satisfeita. Infelizmente, isso no acontece com freqncia.
        - Voc fica satisfeito com freqncia?
        - No.
        Ficamos deitados, em silncio, olhando ocasionalmente para algo que nos chamasse a ateno, como vagalumes que se encontravam no capim e se acasalavam, ou 
nuvens que passavam no cu, ou jogo de luz do luar na gua. A noite parecia encantada e fez-me pensar novamente na natureza e seus estranhos desgnios. Embora eu 
no os compreendesse bem, por que sonhava  noite com as coisas que vinha sonhando atualmente? Por que acordava pulsando, ansiando por uma satisfao que nunca conseguia 
atingir?
        Alegrava-me por ter permitido que Chris me convencesse a vir nadar. Era maravilhoso deitar-me outra vez no capim, sentindo-me fresca e limpa, e, sobretudo, 
tendo a sensao de estar viva novamente?
        - Chris - comecei cautelosamente, temendo estragar a suave beleza daquela estrelada noite de luar. - Onde voc acha que mame est?
        Ele continuou a fitar a Estrela Polar.
        - No fao a menor idia - respondeu finalmente.
        - Nem desconfia?
        - Claro que sim.
        - Qual  seu palpite?
        - Ela pode estar doente.
        - No est; mame nunca adoece.
        - Pode ter viajado a negcios, para o pai.
        - Ento, por que no nos avisou de que iria viajar e quando voltaria?
        - No sei! - retrucou ele, irritado, como se eu estivesse lhe estragando a noite e, obviamente, ele no podia saber mais que eu sobre o assunto.
        - Chris, voc ainda a ama e confia nela como antes?
        - No me faa tal pergunta! Ela  me.  tudo o que tenho. E se espera que eu fique aqui deitado escutando voc falar mal dela, est muito enganada! Onde 
quer que ela esteja esta noite, pensa em ns e vai voltar. Pode estar segura de que ela deve ter um timo motivo para ir embora e demorar-se tanto tempo.
        Eu no podia revelar a Chris o que realmente estava pensando - que ela poderia ter arranjado tempo para nos colocar a par de seus planos - pois ele sabia 
disso to bem quanto eu.
#186
        Sua voz tinha o tom rouco que s ocorria quando ele estava sentindo dor - e no do tipo fsico. Desejei corrigir o mal que lhe infligira com minhas perguntas:
        - Chris, na televiso, as moas da minha idade e os rapazes da sua... comeam a namorar. Voc saberia como agir se sasse com uma pequena?
        - Claro. Tenho assistido muito  televiso.
        - Mas assistir  diferente de fazer.
        - Ainda assim, nos d uma idia do que fazer e dizer. Alm disso, voc ainda no tem idade para namorar.
        - Agora, Sr. Crebro, permita que eu lhe diga uma coisa: na verdade, uma garota da minha idade  um ano mais velha que um rapaz da sua.
        - Voc est louca!
        - Louca? Li isso num artigo de revista escrito por uma autoridade no assunto, um doutor em psicologia - declarei, julgando que ele no poderia deixar de 
ficar impressionado. - Ele afirma que as moas amadurecem emocionalmente muito mais depressa que os rapazes.
        - O autor do tal artigo estava julgando toda a humanidade com base em sua prpria imaturidade.
        - Chris, voc acha que sabe tudo, e ningum pode saber tudo!
        Ele virou a cabea, encarou-me e franziu a testa, como costumava fazer com freqncia.
        - Tem razo - concordou amavelmente. - Sei apenas o que leio e fico perplexo como uma criana ante o que se passa em meu ntimo. Estou furioso com mame 
pelo que ela nos fez e sinto tantas coisas diferentes, mas no tenho um homem com quem conversar.
        Apoiou-se num cotovelo para olhar-me melhor. 
        - Gostaria que seu cabelo no demorasse tanto para tornar a crescer. Agora, estou arrependido de ter usado a tesoura... de todo modo, no adiantou coisa 
alguma.
        Era melhor quando ele no dizia algo que me fazia relembrar Foxworth Hall. Eu desejava apenas olhar para o cu e sentir o ar fresco da noite na pele mida. 
Meu pijama era de fina cambraia branca, bordada com botes de rosa e arrematada com rendas. Colava-se ao meu corpo como uma segunda camada de pele, da mesma forma 
que a sunga de Chris se grudava nele.
        - Vamos embora, Chris.
        Relutante, ele se ergueu e me estendeu a mo.
        - Mais um mergulho?
        - No. Vamos voltar.
        Calados, afastamo-nos do lago, caminhando lentamente atravs do bosque, absorvendo a sensao de estamos ao ar livre, pisando a terra. 
        Voltamos s nossas responsabilidades. Paramos por longo tempo ao lado da corda que tnhamos fabricado e prendido a uma chamin l no alto. Eu no pensava 
no modo pelo qual subiramos, mas tentando imaginar o que havamos ganho com aquela rpida fuga da priso  qual precisvamos voltar.
        - Sente-se diferente, Chris?
#187
        - Sim. No fizemos muito mais que andar e correr na terra, bem como nadar um pouco, mas sinto-me mais vivo e esperanoso.
        - Poderamos fugir, se quisssemos, esta noite sem esperarmos mame voltar. Podemos subir, fazer alas para carregar os gmeos e traz-los para baixo enquanto 
dormem. Podemos fugir! Ficaramos livres!
        Ele no respondeu, mas iniciou a subida para o telhado, uma mo de cada vez, mantendo a corda presa entre as pernas, elevando-se com esforo. To logo ele 
chegou ao telhado, comecei a subir, pois no confivamos na corda para sustentar o peso de duas pessoas. Era muito mais difcil subir que descer. Minhas pernas pareciam 
muito mais fortes que os braos. Ergui a mo para alcanar o n superior e levantei a perna direita. De repente, o p esquerdo
escorregou e fiquei solta no ar - pendurada apenas pelas mos enfraquecidas!
        Um leve grito me escapou dos lbios! Encontrava-me a mais de seis metros do solo!
        - Agente firme! - disse Chris do telhado. - A corda est diretamente
entre suas pernas. Tudo o que tem a fazer  fech-las depressa!
        Eu no conseguia ver o que fazia. Fui obrigada a obedecer suas instrues. Segurei a corda entre as coxas, tremendo da cabea aos ps. O medo me diminua 
as foras. Quanto mais ficava no mesmo lugar, mais medo eu sentia. Comecei a ofegar, tremendo. Ento, vieram as lgrimas... lgrimas estpidas de criana pequena!
        - Est quase ao alcance de minhas mos - disse Chris. - Mais alguns palmos e conseguirei segur-la. No se afobe, Cathy. Pense no quanto os gmeos precisam 
de voc! Tente... faa o mximo esforo!
        Precisei convencer-me a soltar uma das mos para alcanar o n superior. Repeti mil e uma vezes para mim mesma: Voc pode subir! Pode!
        Meus ps estavam escorregadios de pisar no capim - mas os de Chris tambm estavam e ele conseguira subir at o telhado. Se ele podia, eu tambm poderia.
        Aterrorizada, galguei aos poucos a corda, at chegar a um ponto em que Chris pde estender as mos e agarrar-me pelos pulsos. Uma vez segura por suas mos 
fortes, senti uma onda de alvio que me fez o sangue formigar nos ps e nas pontas dos dedos. Em poucos segundos, Chris iou-me para o telhado e me abraou com fora. 
Rimos juntos e, depois, quase choramos. Ento, engatinhamos pelo telhado ngreme, sempre segurando a corda, at chegarmos  chamin. Deixando-nos cair em nosso abrigo 
costumeiro, trememos como varas verdes.
        Oh, que ironia - contentes por estarmos de volta!

        Chris, deitado na cama, olhou para mim.
        - Cathy, por alguns momentos, quando estvamos deitados na margem do lago, tive a impresso de me encontrar no paraso. Depois, quando voc escorregou, na 
corda, julguei que tambm morreria se voc casse. No podemos repetir a faanha. Voc no tem nos braos a mesma fora que eu. Desculpe-me por ter esquecido isso.
#188
        A lmpada fraca do abajur que deixvamos durante a noite lanava uma suave luminosidade rosada no ambiente. Nossos olhares se encontraram.
        - No me arrependo de termos ido. Estou contente. Fazia tanto tempo que eu no me sentia real.
        -  assim que se sente? - indagou ele. - Eu tambm... como se me livrasse de um pesadelo que estava demorando demais.
        Tomei a ousar - era preciso.
        - Chris, onde voc acha que est nossa me? Ela vem se afastando gradativamente de ns e nunca olha de verdade para os gmeos, como se eles lhe causassem 
medo. Mas nunca demorou tanto anteriormente. J faz mais de um ms que no aparece.
        Escutei seu suspiro profundo, pesado.
        - Sinceramente, no sei, Cathy.         Simplesmente no sei. Ela no me disse nada que no tenha dito a voc, mas pode apostar que existe um bom motivo.
        - Mas que motivo poderia ter ela para ir embora sem uma explicao? : No  o mnimo que poderia ter feito, dar-nos uma explicao? 
        - No sei o que dizer.
        - Se eu tivesse filhos, nunca os abandonaria como ela nos abandona. Nunca trancaria meus filhos num quarto e os abandonaria l dentro.
        - Voc no vai ter filhos, lembra-se?
        - Chris, algum dia vou danar nos braos de um marido que me ama e, se ele realmente quiser um filho, eu talvez concorde em t-lo.
        - Claro. Eu sempre soube que voc mudaria de idia quando crescesse mais um pouco.
        - Voc acha mesmo que sou bastante bonita para que algum me ame?
        - Mais que o bastante bonita - replicou ele, parecendo embaraado.
        - Chris, lembra-se de quando mame disse que  o dinheiro que faz o mundo funcionar, no o amor? Ora, acho que ela est enganada. 
        -  mesmo? Pois pense melhor no assunto. Por que no podemos ter ambas as coisas ao mesmo tempo?
        Pensei no assunto. Pensei muito. Deitada, fitando o teto que era a minha pista de dana, ruminei idias a respeito da vida e do amor, digerindo-as bem. E 
tirei de cada livro que li uma prola de filosofia, formando com elas um rosrio de sabedoria no qual passei a acreditar pelo resto da vida. 
        O amor, quando resolvesse bater  minha porta, seria o bastante.
        E quanto ao escritor que afirmava que a fama no era suficiente, que a fama e a riqueza no eram suficientes, que a fama, a riqueza e tambm o amor... ainda 
no eram suficientes - puxa, como eu sentia pena dele!

#189
Uma Tarde Chuvosa

        Chris estava  janela, ambas as mos afastando as pesadas cortinas tipo tapearia. O cu cor-de-chumbo despejava chuva como uma lmina slida de gua. Todas 
as lmpadas de nosso quarto estavam acesas e o aparelho de televiso ligado, como de costume. Chris esperava para ver o trem que passaria por volta das quatro horas. 
Ouvamos o apito lamentoso do trem antes do
amanhecer, por volta das quatro da tarde e  noite, se estivssemos acordados. Era possvel ver, de relance, o trem que parecia de brinquedo, to distante ficava 
a linha frrea.
        Chris estava em seu mundo, e eu no meu. Sentada de pernas cruzadas na cama que Carrie compartilhava comigo, eu recortava ilustraes das revistas de decorao 
que mame trouxera para meu entretenimento antes de partir e demorar tanto a regressar. Cortava cuidadosamente cada fotografia e a colava num grande lbum. Planejava 
minha casa de sonho, onde eu viveria feliz para sempre com um marido alto, forte e moreno que me amava com exclusividade e no tinha mil e uma namoradas por fora.
        Eu j estabelecera o roteiro de minha vida: primeiro a minha carreira, depois um marido e filhos, quando estivesse disposta a abandonar o palco e dar oportunidade 
s outras. E quando tivesse a casa dos meus sonhos, instalaria uma enorme banheira de vidro verde-esmeralda sobre uma parte elevada do piso, na qual eu poderia ficar 
imersa na gua perfumada com leos de beleza durante o dia inteiro, se tivesse vontade - e ningum bateria  porta gritando-me para ter pressa! (Eu nunca tinha oportunidade 
de me demorar na banheira.) Sairia da banheira cor-de-esmeralda cheirando a perfumes florais, com a pele lisa como cetim e os poros livres para sempre do cheiro 
podre de madeira seca e velha, misturados com poeira de sto e todas as misrias de coisas velhas... a tal ponto que ns, jovens, adquiramos um cheiro de antigidade 
igual ao da velha casa.
        - Chris - disse eu, virando-me para fitar as costas de meu irmo. - Por que devemos ficar aqui indefinidamente, esperando o regresso de mame e, sobretudo, 
a morte daquele velho? Agora, que estamos fortes, por que no procuramos um meio de fugir daqui?
        Ele no respondeu, mas percebi que suas mos agarravam as cortinas com mais fora.
        - Chris... 
        - No quero falar nisso! - explodiu ele.
        - Por que est esperando o trem passar, se no pensa em fugir?
        - No estou esperando pelo trem! Estou apenas olhando para fora, nada mais!
        Chris mantinha a testa encostada na vidraa, como se desafiasse qualquer vizinho mais prximo a olhar para a janela e v-lo ali.
        - Chris, afaste-se da janela. Algum pode ver voc.
#190
        - Pouco me importa quem me veja!
        Meu primeiro impulso foi correr para ele, abra-lo, cobri-lo com milhes de beijos no rosto - os beijos que ele desejava de mame e no recebia. Eu lhe 
puxaria a cabea de encontro ao seio e o acalentaria ali, como ela costumava fazer; ento, ele voltaria a ser o alegre e sorridente otimista, que nunca passava um 
dia casmurro e raivoso como eu. Eu sabia, porm, que a mesmo que agisse exatamente como mame, no seria a mesma coisa para ele. Era ela que ele queria. Depositara 
todas as suas esperanas, sonhos e f numa nica mulher: mame.
        Havia mais de dois meses que ela desaparecera! No compreendia que, para ns, um dia naquela priso era equivalente a um ms de vida normal? No se preocupava 
conosco, nem se interessava em saber como estvamos passando? Acreditava que Chris sempre a defenderia com denodo, mesmo que ela nos abandonasse sem dar uma explicao, 
um motivo, uma desculpa? Julgava realmente que o amor, uma vez adquirido, no podia ser dilacerado por dvidas e temores, a ponto de nunca, nunca mais, se refazer?
        - Cathy - disse Chris repentinamente. - Aonde iria, se tivesse escolha?
        - Para o sul - respondi. - Para alguma praia quente e ensolarada, onde as ondas sejam suaves... no quero rebentao forte, com espuma branca... no quero 
o mar cinzento estourando nos rochedos... quero ir para um lugar onde o vento nunca sopre com fora, mas brisas amenas e clidas me
acariciem o cabelo e me rocem no rosto, enquanto ficarei deitada na areia
branca e limpa, absorvendo o sol.
        - Sim - concordou ele, tristonho e sonhador. - Parece lindo, dito  sua maneira. S que eu no me importaria com rebentao forte; eu gostaria de fazer surf 
na crista de uma onda grande. Seria como esquiar.
        Larguei a tesoura, as fotografias e o vidro de cola, deixando de lado o
lbum de ilustraes para concentrar-me totalmente em Chris, que sentia falta
de tantos esportes que adorava, permanecendo trancado num quarto, envelhecendo e tomando-se triste prematuramente. Oh, eu desejava tanto reconfort-lo, mas no sabia 
como.
        - Afaste-se da janela, Chris, por favor.
        - Deixe-me em paz! J estou cansado, enjoado deste maldito lugar! No faam isso, no faam aquilo! No falem sem que algum lhes dirija antes a palavra... 
comam essas malditas refeies todos os dias, mesmo frias e sem tempero... creio que ela faz isso de propsito, para no termos algo de que possamos gostar, nem 
mesmo a comida! Ento, penso em todo aquele dinheiro, metade deve caber a mame e metade a ns. E digo a mim mesmo: "No importa o que acontecer, vale a pena! Aquele 
velho no pode viver para sempre!"
        - Todo o dinheiro do mundo no vale os dias de vida que perdemos! - retruquei acaloradamente.
        Chris girou nos calcanhares, o rosto rubro.
#191
        - O diabo que no vale! Talvez voc consiga viver  custa do seu talento, mas eu tenho anos a fio de estudo pela frente! Sabe que papai desejava que eu fosse 
mdico e, seja de que modo for, terei o diploma de medicina! E se fugirmos daqui, jamais serei mdico, voc bem sabe disso. Diga-me o que posso fazer para ganhar 
o nosso sustento, depressa, faa uma lista dos empregos que posso arranjar sem ser lavador de pratos, bia-fria ou garom, algum deles pagar meus estudos preliminares 
e, depois, a faculdade de medicina? E, alm de sustentar-me, terei que cuidar dos gmeos e de voc, uma famlia sob medida, aos dezesseis anos de idade!
     Senti uma raiva feroz: ele no me dava crdito de ser capaz de contribuir com alguma coisa!
        - Eu tambm posso trabalhar! - repliquei furiosa. - Juntos, daremos um jeito. Chris, quando estvamos morrendo de fome, voc me trouxe quatro camundongos 
mortos e disse que Deus d s pessoas fora e capacidade
extraordinrias em situaes de grande aflio e necessidade. Pois bem, eu acredito: Ele d. Quando sairmos daqui e ficarmos por nossa prpria conta no
mundo, abriremos caminho de um ou outro jeito e voc ser mdico! Serei capaz de tudo para que voc tenha aquele maldito "Doutor" antes do nome!
        - O que pode voc fazer? - indagou ele, de um modo detestvel e irnico.
        Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu e a av apareceu! Parou sem entrar no quarto e fixou em Chris um olhar cheio de dio. E ele, teimoso e to 
relutante em cooperar quanto anteriormente, recusou-se a ser intimidado. No se afastou da janela, mas virou-se para observar novamente a
chuva.
        - Menino! - bradou ela. - Afaste-se dessa janela, imediatamente! te!
        - Meu nome no  "menino". Chamo-me Christophet. Dirija-se a mim por esse nome, ou no fale comigo, mas nunca mais me chame de "menino"!
        Ela replicou s costas dele:
        - Eu detesto esse nome! Era o nome de seu pai. Pela bondade de meu corao, advoguei a causa dele quando o pai morreu e ela ficou sem lar. Meu marido no 
o queria aqui, mas tive pena de um jovem rfo, sem meios materiais e privado de tantas coisas. Assim, insisti junto a seu av at que ele concordou em acolher sob 
nosso teto o meio-irmo mais moo. E seu pai chegou... inteligente, bonito... e aproveitou-se de nossa generosidade. Traiu-nos! Iludiu-nos! Ns o enviamos s melhores 
escolas, compramos para ele de tudo o melhor, e ele nos roubou nossa filha, sua meia-sobrinha! Ela era tudo o que nos restava naquela poca... a nica sobrevivente... 
e fugiram durante a noite para se casarem, voltando duas semanas depois, sorridentes e felizes, pedindo-nos perdo por se terem apaixonado. Naquela noite, meu marido 
sofreu o primeiro ataque cardaco. Sua me j lhes contou isso, que ela e aquele homem foram a causa da doena cardaca do pai dela? Este a expulsou desta casa, 
disse-lhe para nunca mais voltar, e caiu ao cho.
        Fez uma pausa, procurando recuperar o flego, levando  garganta uma
#192
mo enorme que faiscava de brilhantes. Chris virou-se da janela para encar-la, como eu estava fazendo. Aquelas palavras eram mais que a soma de todas as outras 
que ela nos dirigira desde que tnhamos chegado ao quarto, havia uma eternidade.
        - No somos culpados do que nossos pais fizeram - declarou Chris.
        - So culpados do que voc e sua irm fizeram!
        - O que fizemos de to pecaminoso? - Quis saber Chris. - Acha que podemos viver no mesmo quarto, ano aps ano, e no nos vermos? Voc ajudou a trancar-nos 
aqui. Voc isolou esta ala para impedir o acesso dos criados. Voc deseja apanhar-nos fazendo algo que considere errado. Voc quer que Cathy e eu provemos que sua 
opinio a respeito do casamento de nossa me est correta! Mire-se no espelho, parada a com esse vestido cinzento, dizendo-se piedosa e santa enquanto deixa criancinhas 
morrerem de fome!
        - Pare! - exclamei, aterrorizada pela expresso no rosto da av. - No diga mais nada, Chris!
        Mas ele j dissera demais. A velha bateu a porta e meu corao veio parar na garganta.
        - Vamos para o sto - disse Chris, muito calmo. - A covardona tem medo da escada. Estaremos seguros e, caso ela procure matar-nos de fome, usaremos a escada 
para descermos ao solo.
        A porta se abriu outra vez. A av entrou, avanando com uma vara de salgueiro na mo e um sinistro brilho de determinao nos olhos cinzentos. Devia manter 
a vara escondida ali perto, para poder apanh-la to depressa.
        - Corram para esconder-se no sto e passaro mais uma semana sem comida! - bradou ela, estendendo a mo para agarrar o brao de Chris. - E se voc resistir, 
aoitarei tambm sua irm e os gmeos!
        Estvamos em outubro. Em novembro, Chris completaria dezessete anos. Ainda era um menino, em comparao com a enorme corpulncia da velha. Pensou em resistir, 
mas olhou para mim e para os gmeos que choramingavam, abraados, e permitiu que a bruxa velha o arrastasse para o banheiro. Ela fechou a porta e passou a chave. 
Ordenou que ele se despisse e se debruasse sobre a banheira.
        Os gmeos correram para mim, enterrando os rostos em meu colo.
        - Obrigue-a a parar! - implorou Carrie. - No permita que ela espanque Chris!
        Chris no emitiu o menor som enquanto a vara lhe cortava a pele nua. Ouvi o barulho da vara verde de salgueiro fustigando-lhe a carne. Senti a dor de cada 
um dos golpes! Naquele ltimo ano, Chris e eu nos tornramos como uma s pessoa; ele era como a minha outra faceta, como eu gostaria de ser - forte e decidido, capaz 
de suportar os aoites sem um gemido. Odiei a velha. Sentei-me na cama e abracei os gmeos; uma onda de dio to violento cresceu dentro de mim que fiquei sem saber 
como extravaz-lo a no ser gritando. Chris sentia as varadas e eu soltava seus gritos de dor. Esperava que Deus escutasse! Esperava que os criados escutassem! Esperava 
que aquele av moribundo escutasse! 
#193
        A velha saiu do banheiro empunhando a vara. Atrs dela vinha Chris, com uma toalha amarrada na cintura. Estava plido como a morte. No consegui parar de 
gritar.
        - Cale-se! - ordenou ela, brandindo a vara diante de meus olhos. - Faa silncio, imediatamente, se no quiser apanhar tambm!
        No pude parar de gritar, nem mesmo quando ela me puxou da cama e jogou os gmeos para o lado quando tentaram proteger-me. Cory mordeu-lhe a perna, mas ela 
o jogou longe com um safano. Dominando a histeria, fui para o banheiro, onde tambm recebi ordens para despir-me. Fiquei imvel, fitando o broche de brilhantes 
que ela sempre usava e contando as pedras preciosas: dezessete. O vestido de tafet cinzento tinha finas listras vermelhas e a gola branca era de croch. Ela fixou 
o olhar nos cabelos cortados rente  testa, deixados  mostra pelo turbante improvisado, e seu rosto assumiu uma expresso de zombeteira satisfao.
        - Dispa-se, ou arranco-lhe as roupas.
        Comecei a despir-me, abrindo vagarosamente os botes da blusa. Na poca, no usava suti, embora j precisasse de um. Percebi que ela me fitou os seios e 
o estmago chato, antes de desviar os olhos, aparentemente ofendida.
        - Algum dia eu irei  forra, velha - declarei. - Chegar o dia em que a indefesa ser voc e eu terei a vara nas mos. E na cozinha haver comida que voc 
nunca chegar a provar, pois, como no se cansa de  afirmar, Deus v tudo e tem seu mtodo de fazer justia: olho por olho, dente por dente, av!
        - Nunca mais fale comigo! - bradou ela.
        Ento, sorriu, confiante de que nunca chegaria o dia em que eu controlaria seu destino. Como uma tola, eu escolhera a pior ocasio possvel para falar e 
ela no hesitou. Enquanto a vara me feria a carne tenra, os gmeos gritavam do quarto:
        - Faa ela parar, Chris! No permita que machuque Cathy!
        Ca de joelhos perto da banheira, enroscando-me bem para proteger o rosto e o seio, minhas partes mais vulnerveis. Como uma selvagem descontrolada, ela 
me espancou at que a vara se partiu. A dor me queimava como fogo. Pensei que tudo acabara quando a vara quebrou, mas a velha pegou uma vassoura de cabo comprido 
e bateu-me com ela na cabea e nos ombros. Por mais que tentasse no gritar e imitar o corajoso silncio de Chris, tive que ceder. Berrei:
        - Voc no  uma mulher!  um monstro! No  humana! Minha recompensa por isso foi uma terrvel pancada na parte lateral da cabea. Tudo escureceu.
        Voltei lentamente  realidade, com o corpo inteiro doendo e a cabea prestes a estourar. No sto, algum colocara um disco: "Rose Adiago", do bal *A Bela 
Adormecida*. Mesmo que eu viva cem anos, jamais esquecerei aquela msica e o que senti ao abrir os olhos e ver Chris debruado sobre mim, aplicando anti-sptico 
e pedaos de esparadrapo, as lgrimas escorrendo-lhe pelo rosto e pingando-me no corpo. Quando ele terminou de fazer por
#194
mim o que era possvel com o inadequado suprimento de remdios de que dispnhamos, cuidei-lhe das costas marcadas e sangrentas. Estvamos despidos, pois as roupas 
se colariam s feridas que purgavam. Eu tinha feias equimoses onde ela me atingira cruelmente com a vassoura; na cabea, um
enorme galo que Chris temia ser uma concusso.
        Acabados os curativos, deitamo-nos de lado, de frente um para o outro. Nossos olhares se cruzaram e mesclaram-se num s. Chris tocou-me o rosto na mais suave 
e amarosa carcia.
        - No nos divertimos, irmo?... No nos divertimos? - cantei parodiando a msica a respeito de Bill Bailey. - Sentiremos dor o dia inteiro... Voc faz os 
curativos e eu pago o aluguel...
        - Pare! - gritou ele, parecendo magoado e indefeso. - Sei que a culpa foi minha! Fiquei perto da janela. A velha no tinha que bater em voc, tambm!
        - No importa; mais cedo ou mais tarde ela acabaria fazendo isso. Desde o primeiro dia, ela vem planejando castigar-nos por alguma ninharia. O que me espanta 
 ela ter demorado tanto a fazer uso da vara.
        - Quando ela estava me batendo, escutei voc gritar, e eu no podia gritar. Voc o fez por mim, Cathy, e me ajudou muito; no senti minha dor, s a sua.
        Abraamo-nos com cuidado. Nossos corpos despidos se estreitaram, meus seios se achataram contra o peito dele. Ento, Chris murmurou meu nome e, puxando a 
toalha de minha cabea, soltou-me os cabelos compridos
antes de tomar minha cabea entre as mos e pux-la carinhosamente para perto de seus lbios. Era esquisito ser beijada enquanto jazia nua em seus braos... e no 
me parecia correto.
        - Pare - sussurrei, temerosa, sentindo sua masculinidade enrijecer-se de encontro a mim. - Isto  exatamente o que ela pensa que fizemos.
        Chris soltou um riso amargo antes de afastar-se, dizendo-me que eu no sabia de nada. Fazer amor era algo mais que beijar e no tnhamos feito mais que beijar-nos. 
Nunca.
        - E nunca faremos - disse eu, mas em voz fraca.
        Naquela noite, adormeci pensando no beijo de Chris, sem me lembrar das varadas ou das pancadas com a vassoura. Dentro de ns dois crescia um torvelinho de 
emoes embaralhadas. Algo que estivera adormecido bem no fundo de mim despertara e se acelerava, exatamente como Aurora dormia at que o Prncipe chegava para dar 
em seus lbios silenciosos um prolongado beijo de amante.
        Os contos de fada eram sempre assim - terminavam com um beijo e a felicidade para o resto da vida. Tinha que existir algum outro prncipe para proporcionar-me 
um final feliz.

#195
Encontrar um Amigo

        Havia algum gritando na escada do sto! Acordei sobressaltada e olhei em volta a fim de ver quem estava faltando. Cory!
        - Oh, Deus, o que aconteceu agora?
        Pulei da cama e corri na direo do armrio embutido. Ouvi Carrie acordar e juntar seus berros aos de Cory, mesmo sem saber por que motivo ele gritava. Chris 
indagou:
        - Que diabo est acontecendo aqui?
        Atravessei o armrio e galguei seis degraus. Estaquei, boquiaberta. L estava Cory, de pijama branco, berrando como um louco - e no via por que razo.
        - Faa alguma coisa! - urrava ele. - Faa alguma coisa!
        Afinal, apontou para o que lhe causava tamanha perturbao.
        Oh... No degrau estava uma ratoeira, no mesmo lugar onde a armvamos toda noite com uma isca de queijo. Mas, desta feita, o camundongo no morrera. Tentara 
ser esperto e roubar a isca com a pata dianteira, em vez de usar os dentes; a forte mola de arame prendera-lhe a patinha. O minsculo rato cinzento roa ferozmente 
a pata presa a fim de libertar-se, a despeito da dor que isso lhe devia causar.
        - Cathy, faa alguma coisa depressa! - exclamou Cory, atirando-se em meus braos. - Salve a vida dele! No deixe ele roer o p! Quero ele vivo! Quero um 
amigo! Nunca tive um mascote; voc bem sabe que nunca tive um animal de estimao! Por que voc e Chris sempre matam todos os ratinhos?
        Carrie aproximou-se pela retaguarda e comeou a esmurrar-me as costas com os pequenos punhos.
        - Voc  malvada, Cathy! Malvada! Malvada! No deixa Cory ter nada!
        Pelo que me constava, Cory tinha praticamente tudo o que o dinheiro podia comprar,  exceo de um animal de estimao, da liberdade e do ar livre. E, na 
verdade, Carrie seria capaz de assassinar-me na escada se Chris no acorresse em minha defesa e a obrigasse a abrir as mandbulas que fechara em minha perna - que, 
felizmente para mim, estava protegida por uma grossa
camisola que me chegava aos tornozelos.
        - Parem com isso! - ordenou severamente Chris.
        Curvou-se a fim de utilizar o pano de cho que apanhara s pressas para pegar um camundongo enfurecido e no ser mordido.
        - Cuide dele, Chris - implorou Cory. - Por favor, no deixe ele morrer!
        - J que voc parece desejar tanto este camundongo, Cory, farei o possvel para salvar-lhe a pata, embora esteja bastante ferida.
        Oh, quanta confuso e barulheira para salvar a vida de um camundongo, quando j havamos exterminado centenas deles. Primeiro, Chris teve que levantar cuidadosamente 
a mola da ratoeira e, quando o fez, o pequeno 
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animal furioso e ferido quase sibilou de alvio. Carrie gritou e Cory virou as
costas, soluando. Ento, o camundongo deu a impresso de desmaiar - de alvio, presumo. 
  Descemos correndo para o banheiro, onde Chris e eu limpamos o animal quase morto, enquanto Cory o segurava, embrulhado no pano de cho e Chris aconselhava a no 
apertar com muita fora.
        Estendi uma toalha limpa na bancada e coloquei sobre ela todas as medicaes disponveis.
        - Est morto! - gritou Carrie, agredindo Chris. - Voc matou a nica mascote de Cory! 
        - Esse camundongo no est morto - replicou Chris calmamente. - Agora, por favor, todos vocs fiquem calados e no se movam. Cathy, segure-o firme. Tenho 
que fazer o possvel para remediar a carne dilacerada e, depois, imobilizar a pata inteira.
        Em primeiro lugar, Chris empregou anti-sptico para limpar o ferimento, enquanto o camundongo permanecia como morto; apenas os olhos abertos me fitavam de 
modo a causar-me d. Em seguida, Chris usou gaze, que precisou cortar pela metade no sentido do comprimento a fim de adapt-la a um membro to pequeno, e cobriu-a 
com algodo. Improvisou uma tala com um palito partido pela metade, fixando-a com esparadrapo.
        - Vou cham-lo de Mickey - anunciou Cory.
        Seus olhos brilharam porque um pequeno camundongo continuaria vivo para ser sua mascote.
        - Talvez seja uma camundonga - disse Chris, lanando um rpido olhar ao ratinho para verificar.
        - No! No quero uma camundonga, quero um camundongo Mickey!
        -  mesmo um camundongo macho - confirmou Chris. - Mickey sobreviver para comer todo o nosso queijo - sentenciou o "mdico", aps
completar sua primeira cirurgia.
        Fez aquela previso parecendo - devo admitir - bastante orgulhoso de seu trabalho.
        Lavou o sangue das mos. Cory e Carrie estavam felizes como se algo maravilhoso tivesse ocorrido em suas vidas, afinal.
        - Agora, deixem-me segurar Mickey! -exclamou Cory.
        - No, Cory. Deixe que Cathy o segure por mais algum tempo. Como voc pode ver, ele se encontra em estado de choque e Cathy tem mos maiores que as suas, 
podendo aquec-lo melhor. E voc, por acidente, poderia apert-lo demais.
        Sentei-me na cadeira de balano do quarto e acalentei um camundongo cinzento cujo corao batia to depressa que dava a impresso de estar  beira de um 
colapso. Enquanto segurava o bichinho, sentindo nas mos o corpo morno e minsculo que se esforava por sobreviver, desejei que no morresse e que se transformasse 
na mascote de Cory.
        A porta se abriu e a av entrou. Nenhum de ns estava completamente vestido; na verdade, todos ns ainda usvamos roupas de dormir, sem roupes
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que ocultassem o que poderia aparecer. Estvamos descalos, com os cabelos despenteados e os rostos por lavar.
        Uma norma violada.
        Cory encolheu-se a meu lado quando a av correu o olhar penetrante pelo quarto em desordem e em total baguna (para dizer a verdade). As camas desfeitas, 
nossas roupas penduradas nas cadeiras, meias espalhadas por todo lado.
        Duas normas violadas.
        Chris estava no banheiro, lavando o rosto de Carrie e ajudando-a a vestir-se, abotoando-lhe o macaco cor-de-rosa.
        Trs normas violadas.
        Os dois saram do banheiro. Carrie com o cabelo penteado para trs num rabo-de-cavalo atado com uma fita cor-de-rosa.
        Assim que avistou a av, Carrie ficou petrificada, os olhos azuis muito esbugalhados e cheios de medo. Virou-se e procurou proteo, agarrando-se a Chris. 
Este a pegou no colo, trouxe-a at a cadeira de balano e a colocou no meu colo. Ento, foi  mesa sobre a qual estava a cesta de piquenique e comeou a retirar 
a comida que a velha nos trouxera.
        Quando Chris se aproximou, a av recuou. Chris ignorou-a, esvaziando rapidamente a cesta.
        - Cory - disse ele, encaminhando-se para o armrio embutido. - Vou ao sto procurar uma gaiola adequada. Enquanto fao isso, veja se consegue vestir-se, 
calar-se, lavar o rosto e as mos, sem o auxilio de Cathy.
        A av permaneceu calada. Continuei sentada na cadeira de balano, embalando o camundongo doente, e minhas criancinhas se sentaram comigo. Ns trs mantivemos 
os olhos fixos na velha, at que Carrie no agentou mais e escondeu o rosto em meu ombro. Seu corpinho estremecia da cabea
aos ps.
        Fiquei perturbada por ela no ralhar conosco nem falar nas camas desfeitas, no quarto desarrumado que eu procurava manter sempre em ordem - e por que no 
admoestara Chris por vestir Carrie? Por que estava ali, olhando e vendo tudo, mas no dizia uma palavra?
        Chris desceu do sto com uma gaiola e um pedao de tela de arame que, segundo informou, tornaria a gaiola mais segura.
        Suas palavras levaram a av a virar a cabea bruscamente na direo dele. Depois, ela fixou o olhar em mim e no pano de cho azul que eu tinha nas mos.
        - O que est segurando a, menina? - perguntou com voz glacial.
        - Um camundongo ferido - respondi num tom to gelado quanto o dela.
        - Pretendem manter o camundongo como mascote e coloc-lo naquela gaiola?
        - Pretendemos, sim - disse eu, fitando-a desafiadoramente, esperando que ela ousasse fazer alguma coisa. - Cory nunca teve um animal de estimao e j  
tempo de arranjarmos um para ele.
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  Ela franziu os lbios finos e seus olhos frios pousaram em Cory, que estremeceu, prestes a chorar.
        - Ora, fique com o rato - disse ela. - Uma mascote dessa espcie  adequada para voc.
        Com isso bateu a porta com fora. Chris comeou a mexer na gaiola, falando enquanto trabalhava.
        - Os arames da gaiola so muito afastados entre si para manterem Mickey preso, Cory. Portanto, precisamos forrar a gaiola com a tela, a fim de evitar que 
sua mascote fuja.

        Cory sorriu e espiou para ver se Mickey ainda vivia.
        - Est com fome. Est mexendo o focinho.
        A conquista de Mickey, o camundongo de sto, foi um grande feito. Em primeiro lugar, ele no confiava em ns, a despeito de havermos libertado sua pata 
da ratoeira. Detestava o confinamento da gaiola. Mancava, em crculos, com a incmoda tala que lhe tnhamos aplicado, procurando um meio de fugir. Cory deixou cair 
pedacinhos de queijo e po por entre as grades, para induzi-lo a comer e fortalecer-se. Mickey ignorou o queijo e o po e, no final, afastou-se o mximo possvel, 
com os olhinhos negros brilhando de medo e o corpo trmulo quando Cory abriu a porta enferrujada da gaiola
para botar l dentro uma terrina em miniatura contendo gua.
        Depois, Cory enfiou a mo pela porta e empurrou um pedao de queijo para perto do animal.
        - Queijo gostoso - disse num tom convidativo, enquanto movimentava um pedao de po na direo do trmulo camundongo, cujos bigodes sacudiam. - Po gostoso. 
Voc ficar forte e saudvel. Coma.
        Passaram-se duas semanas antes que Cory tivesse um camundongo que o adorava e se aproximava ao ouvir seu assovio. Cory escondia pedaos de comida nos bolsos 
da camisa para tentar Mickey a entrar neles. Quando usava camisa com dois bolsos, Cory escondia um pedao de queijo no bolso direito e um pedao de sanduche de 
creme de amendoim e gelia no bolso esquerdo. Mickey ficava indeciso no ombro de Cory, mexendo o nariz e sacudindo os bigodes. Logo percebemos que no tnhamos um 
camundongo gourmet, mas um guloso que desejava comer ao mesmo tempo o contedo de ambos os bolsos de Cory.
        Ento, quando chegava finalmente a uma concluso a respeito de que bolso visitar primeiro, Mickey se enfiava rapidamente no bolso que continha o sanduche, 
comia de cabea para baixo e voltava correndo ao ombro de Cory, passando por detrs do pescoo e entrando no bolso onde estava o queijo. Achvamos graa por ele 
nunca passar diretamente pelo peito de Cory, de um 
bolso para outro, mas sempre dar a volta por trs do pescoo, fazendo ccegas em Cory.
  A patinha ferida cicatrizou, mas o camundongo nunca mais voltou a andar perfeitamente e no conseguia correr com grande rapidez. Acho que era bastante inteligente 
ao deixar o queijo para depois, uma vez que podia
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segur-lo com as patas dianteiras e ro-lo quase melindrosamente, enquanto o sanduche lhe sujaria as patas.
        E podem crer que jamais existiu um camundongo que farejasse melhor a comida, onde quer que estivesse escondida.  Prazerosamente, Mickey abandonou seus amigos 
camundongos para juntar-se a seres humanos que o alimentavam to bem, mimavam-no e o embalavam para dormir, embora - por estranho que parea - Carrie nunca tivesse 
pacincia em relao a ele. Talvez fosse por Mickey encantar-se tanto pela casa de bonecas quanto a prpria Carrie. Os pequenos cmodos e escadas adequavam-se perfeitamente 
ao tamanho dele e, uma vez em liberdade, Mickey corria diretamente para a casa de bonecas. Subia por uma janela e corria pelo interior da casa; bonecos de porcelana, 
to bem equilibrados, caam para todos os lados e a mesa do salo de jantar tombava quando ele resolvia provar-lhe um pedao.
        Carrie berrava para Cory:
        - Seu Mickey est comendo toda a comida da festa! Leve-o daqui! Tire-o de minha sala de visitas!
        Cory capturava seu camundongo manco, que no conseguia ser muito ligeiro, e o aninhava de encontro ao peito.
        - Precisa aprender a comportar-se, Mickey. Nas casas grandes acontecem coisas ruins. A velha dona da casa espancar voc por qualquer coisinha sem importncia.
        Cory fazia-me rir baixinho, pois era a primeira vez que eu o ouvia fazer um comentrio pouco lisonjeito a respeito de sua querida irm gmea.
        Era muito bom Cory possuir um pequenino e amvel camundongo cinzento que mergulhava em seus bolsos para pegar os petiscos que o dono ali escondia. Era uma 
boa coisa todos ns termos algo com que ocupar nosso tempo e nossas mentes enquanto aguardvamos que mame tornasse a aparecer, pois tudo comeava a dar a impresso 
de que ela jamais retornaria ao nosso convvio.

Afinal, Mame

        Chris e eu nunca conversamos sobre o que se passara entre ns, na cama, no dia das surras. Peguei-o muitas vezes olhando para mim, mas logo que meus olhos 
se dirigiam a ele, os seus se desviavam. E vice-versa.
        Ele e eu crescamos a cada dia. Meus seios aumentavam de volume, os quadris se alargavam, a cintura diminua e o cabelo curto acima da testa se tornava mais 
comprido, anelando-se de forma atraente. Por que eu no adivinhara que ele se encresparia ao crescer, sem peso para pux-lo para baixo e deix-lo ondulado?
#200
        Quanto a Chris, seus ombros se alargavam, o peito assumia aspecto mais masculino e adulto, os braos tambm. Certa vez, apanhei-o no sto examinando aquela 
parte de seu corpo que tanto parecia encant-lo - e medindo-a!
        - Por qu? - indaguei, espantada pelo fato de que o comprimento fizesse uma diferena importante.
        Chris deu-me as costas e explicou que, uma vez, vira papai despido e agora achava que seu rgo no era bastante desenvolvido. At mesmo sua nuca estava 
ruborizada quando ele me deu tal explicao. Tentei imaginar que tamanho de suti mame usava!
        - No faa isso outra vez - murmurei. Cory tinha um rgo to minsculo, como se sentiria se tivesse visto Chris fazendo aquilo e achando que o dele no 
tinha um tamanho adequado?
        De repente, parei de polir os tampos das mesas na sala de aulas e fiquei imvel, pensando em Cory. Virei-me, a fim de olhar para ele e Carrie. Oh, Deus - 
como a proximidade excessiva nos diminui a rerspectiva! Havia dois anos e quatro meses que estvamos prisioneiros - e os gmeos continuavam quase iguais ao que eram 
antes de ali chegarmos! No h dvida de que as  cabeas tinham aumentado de tamanho e, com isso, reduzido as dimenses dos olhos que, no obstante, ainda pareciam 
extraordinariamente grandes. Estavam sentados indolentemente nos colches velhos que tnhamos puxado para perto das janelas. Tive a impresso de que borboletas me 
voavam no estmago ao estud-los objetivamente. Seus corpos pareciam frgeis talos de flores, fracos demais para suportar o peso das cabeas.
        Esperei at que adormecessem ao sol fraco e comentei baixinho com Chris:
        - Veja nossos queridinhos. No crescem. S as cabeas aumentaram de tamanho.
        Chris suspirou pesadamente, semicerrou as plpebras e aproximou-se dos gmeos, observando-os e abaixando-se para tocar-lhes a pele transparente.
        - Se ao menos pudessem sair conosco para o telhado, a fim de aproveitarem o sol e o ar puro... Cathy, por mais que eles resistam e gritem, temos que obrig-los 
a sair daqui!
        Como tolos, julgamos que se os  carregssemos para o telhado enquanto
dormiam, eles acordariam no sol, seguros em nossos braos, sentindo-se bem protegidos. Cautelosamente, Chris pegou Cory no colo e eu me abaixei para erguer o leve 
corpo de Carrie. Sorrateiramente, aproximamo-nos de uma das janelas abertas. Era quinta-feira, nosso dia de aproveitar o ar livre no telhado, enquanto os criados 
estavam na cidade. No havia risco em utilizarmos a parte dos fundos do telhado.
        Mal Chris se afastou do peitoril carregando Cory, este foi despertado
bruscamente pelo ar puro e clido. Olhou em volta e avistou-me com Carrie nos braos, na bvia inteno de lev-la para o telhado. Soltou um berro! Carrie acordou 
sobressaltada. Avistou Chris, com Cory, no telhado ngreme. Viu-me e percebeu para onde eu a levava - e emitiu um grito que poderia ser ouvido a um quilmetro de 
distncia!
#201
        Chris elevou a voz acima da berraria:
        - Vamos! Temos que fazer isso, para o bem deles!
        Os gmeos no se limitaram a gritar, mas esperneavam e nos esmurravam com os pequenos punhos dbeis! Carrie cravou-me os dentes no brao e eu tambm gritei. 
Embora pequenos, os gmeos tinham a fora de quem se sente em extremo perigo. Carrie esmurrava-me o rosto, mal me permitindo enxergar, alm de berrar ao meu ouvido! 
Apressadamente, dei meia-volta e regressei  janela da sala de aulas. Trmula e enfraquecida, depositei Carrie ao lado da mesa do professor e me apoiei no tampo 
da mesa, ofegante e fatigada, agradecendo a Deus por me ter permitido regressar em segurana. Chris devolveu Cory  irm gmea. No adiantava. For-los a sair para 
o telhado colocava em risco as vidas de todos ns.
        Os gmeos estavam furiosos. Emburrados, resistiram quando os empurramos na direo das marcas que fizramos na parede para medir-lhes a altura no primeiro 
dia que ali estivemos. Chris segurou-os na posio adequada, enquanto eu media o quanto haviam crescido.
        Fiquei perplexa, boquiaberta, sem acreditar que fosse possvel. Em todo
aquele tempo tinham crescido apenas cinco centmetros? Cinco centmetros, quando Chris e eu crescramos vrias vezes isso entre os cinco e sete anos de idade - mesmo 
levando em considerao que eram excepcionalmente pequenos ao nascerem, pois Cory pesara dois quilos e duzentos gramas e Carrie cinqenta gramas a mais que ele.
        Oh! Fui obrigada a esconder o rosto nas mos para que eles no vissem minha expresso de perplexidade e horror. Quando isso no bastou, virei-lhes as costas 
e procurei reprimir os soluos que me engasgavam a garganta.
        - J pode solt-los - consegui dizer, afinal.
        Voltei-me a tempo de v-los de relance, como dois camundongos louros, correndo para a escada em busca da amada televiso e da fuga que esta lhe oferecia 
- e do pequeno camundongo que os esperava para alegrarem o
confinamento dele.
        Chris ficou parado atrs de mim, esperando.
        - Bem, quanto eles cresceram? - indagou quando me mantive imvel e incapaz de falar.
        Enxuguei rapidamente as lgrimas antes de me voltar para ele, a fim de poder ver-lhe os olhos quando lhe desse a resposta.
        - Cinco centmetros - declarei num tom indiferente.
        Mas Chris percebeu a angstia em meu olhar.
        Aproximou-se, passando o brao em meus ombros e segurando-me a cabea contra seu peito. Ento, chorei - de verdade! Odiava mame por ter feito aquilo! Odiava-a 
de verdade! Ela sabia que as crianas so como as plantas - precisam de sol para crescer. Tremi nos braos de meu irmo tentando convencer-me de que os gmeos voltariam 
a ser lindos quando estivssemos em liberdade.  claro que sim; voltariam ao normal, recuperando os anos perdidos - e, to logo pudessem pegar sol novamente, brotariam 
como plantas... sim,  claro! Apenas os longos dias de confinamento #202
num ambiente fechado eram a causa da magreza e olheiras. E tudo podia ser remediado, no  mesmo?
        - Bem - comecei numa voz rouca e engasgada, ainda agarrando-me  nica pessoa no mundo que parecia realmente importar-se. -  o dinheiro que faz o mundo 
funcionar, ou  o amor? Se a pessoa que devia dedicar amor aos gmeos o fizesse, eu teria constatado uma diferena de quinze ou mesmo vinte centmetros, e no apenas 
cinco!

        Chris e eu descemos  nossa obscura priso a fim de almoamos. Como sempre, mandei que os gmeos fossem ao banheiro lavar as mos, pois certamente no precisavam 
de germes de camundongo para aumentar os riscos que j corriam.
        Enquanto estvamos silenciosamente  mesa, comendo nossos sanduches e tomando goles de sopa morna e de leite, assistindo televiso a uma cena em que dois 
amantes se encontravam e faziam planos para fugir e abandonar seus respectivos cnjuges, a porta de nosso quarto se abriu. Detestei a idia de afastar os olhos da 
tela e perder a seqncia da cena, mas foi o que fiz.
        E nossa me entrou alegremente, a passo ligeiro e animado. Usava um belo costume de tecido leve, Com os punhos e a gola forrados de pele macia.
        - Queridos! - exclamou, numa entusistica saudao.
        Ento, hesitou, insegura, quando nenhum de ns quatro correu para receb-la de braos abertos.
        - Aqui estou eu! No ficam felizes por ver-me? Oh, vocs nem imaginam o quanto me alegro por ver vocs todos outra vez. Senti muitas saudades, pensei em 
vocs, sonhei com vocs e lhes trouxe muitos presentes lindos, que escolhi com o maior cuidado. Esperem at v-los! E fui obrigada a ser to furtiva, como podia 
explicar que estava comprando presentes para crianas? Desejava compens-los por ter ficado ausente durante tanto tempo. E quis explicar-lhes o motivo pelo qual 
viajei, mas era por demais complicado. Alm disso, no tinha idia de quanto tempo me demoraria fora. E, embora tivessem saudades, foram bem cuidados, no  mesmo? 
No sofreram, no foi?
        Tnhamos sofrido? Sentramos apenas saudades dela? Quem era ela, afinal? Pensamentos idiotas me passavam pela cabea enquanto eu a olhava fixamente e a escutava 
explicar como quatro crianas escondidas dificultavam a vida alheia. E, muito embora eu desejasse reneg-la, rejeit-la, nunca mais permitir que voltssemos a ser 
ntimas, vacilei, desejando profundamente am-la outra vez e confiar nela.
        Chris se ergueu da cadeira e foi o primeiro a falar, numa voz que se livrara dos falsetes da puberdade e assumira um tom firme, profundo e masculino:
        - Naturalmente que estamos felizes por rev-la, mame! E sentimos muita saudade de voc! Mas errou ao afastar-se e demorar tanto tempo, a despeito de quaisquer 
complicaes.
#203
        - Christopher - disse ela, arregalando os olhos de surpresa. - Voc no parece o mesmo.
        Os olhos de mame passaram de Chris para mim e, depois, para os gmeos. Sua vivacidade murchou.
        - Christopher, aconteceu algo errado?
        - Errado? - repetiu Chris. - Mame, o que pode estar certo em vivermos trancados num nico quarto? Voc disse que no pareo mais o mesmo. Pois olhe para 
mim. Por acaso sou um menininho? Olhe para Cathy, ela ainda  uma criana? Observe melhor os gmeos; repare, em especial, no quanto eles cresceram. Depois, tome 
a olhar para mim e diga-me que eu e Cathy somos crianas que devem ser tratadas como tal, pois no conseguimos entender assuntos de adultos. Ficamos -toa, rodando 
os polegares, enquanto voc saiu pelo mundo a divertir-se. Atravs dos livros, Cathy e eu vivemos um milho de vidas...  o nosso meio substitutivo de nos sentirmos 
vivos.
        Mame fez meno de interromper, mas Chris falou mais alto que ela, impedindo-a. Lanando um olhar desdenhoso aos inmeros presentes que ela trouxera, acrescentou:
        - Ento, voc voltou com oferendas de paz, como costuma fazer quando sabe que procedeu errado. Por que insiste em pensar que seus estpidos presentes podem 
compensar o que perdemos e continuamos a perder a cada minuto? Naturalmente, antes ns ficvamos deliciados com os jogos, brinquedos e roupas que voc trazia  nossa 
priso. Agora, porm, estamos mais crescidos, presentes no so o bastante!
        - Christopher, por favor - implorou ela, olhando nervosamente para os gmeos e desviando rapidamente os olhos da direo deles. - Por favor, no fale como 
se tivesse deixado de amar-me. Eu no suportaria isso.
        - Eu a amo - foi a resposta de Chris. - Obrigo-me a continuar amando, a despeito do que voc faz. Preciso am-la. Todos ns a amamos, confiamos em voc e 
acreditamos que esteja fazendo tudo para cuidar de nossos melhores interesses. Entretanto, mame, olhe para ns e veja-nos realmente. Cathy acha, e eu tambm, que 
voc se recusa a ver o que est nos fazendo. Chega-se a ns com sorrisos, acenando-nos aos olhos e ouvidos esperanas brilhantes para o futuro, mas elas nunca se 
realizam. H muito tempo, quando nos falou pela primeira vez a respeito de seus pais e desta casa, voc afirmou que s ficaramos trancados neste quarto durante 
uma noite; depois, mudou para poucos dias. Em seguida, foi por mais algumas semanas, ento por mais alguns meses... e mais de dois anos j se passaram enquanto aguardamos 
a morte de um velho que talvez viva para sempre, a julgar pelo modo como os mdicos conseguem traz-lo de volta do tmulo. Este quarto j no est melhorando a nossa 
sade. Ser que voc no v isso? - conclui ele, quase aos gritos, o rosto juvenil muito vermelho ao atingir, afinal, o limite do autocontrole.
        Eu julgara que jamais chegaria o dia em que ele atacasse nossa me - a sua adorada me.
#204
        O tom elevado da voz de Chris deve t-lo assustado, pois ele baixou a voz e continuou de modo mais calmo, embora suas palavras tivessem o impacto de tiros:
        - Mame, quer voc herde ou no a imensa fortuna de seu pai, queremos sair deste quarto! No na prxima semana, ou amanh, mas hoje! Agora! Neste instante! 
Entregue-me a chave e ns iremos embora, para muito longe. E voc poder enviar-nos dinheiro, se quiser; nunca mais precisar mandar-nos nada, se preferir. E no 
ter que voltar a ver-nos, se esta for a sua escolha e a soluo para todos os seus problemas; sairemos de sua vida e seu pai nunca precisar saber que existimos, 
voc pode ficar, sozinha, com tudo o que ele lhe deixar como herana.
        Mame ficou branca de choque.
        Permaneci sentada na cadeira, sem terminar o almoo. Tive pena de mame e, ao mesmo tempo, senti-me trada por minha compaixo. Fechei a porta sobre ela, 
batendo-a com fora, s em pensar naquelas duas semanas em que passamos fome... quatro dias comendo queijo e bolachas, trs dias sem uma migalha de comida, tendo 
apenas gua para beber. E as surras, o piche em meus cabelos - e, sobretudo, o fato de Chris ser obrigado a cortar o prprio pulso para nutrir os gmeos com seu 
sangue.
        E Chris... o que ele dizia a ela, a maneira dura e decidida como ele falava, era obra minha.
        Creio que ela adivinhou, pois lanou-me um olhar penetrante, carregado de ressentimento.
        - No me diga mais nada Christopher.  bvio que est fora de si.
        Erguendo-me de um salto, postei-me ao lado de Chris.
        - Olhe para ns, mame! Observe nossas fisionomias saudveis e radiantes, exatamente iguais  sua. Olhe com especial ateno para seus filhos menores, os 
gmeos. No parecem debilitados, no acha? Os rostos gordos no parecem abatidos, parecem? Os cabelos no perderam o brilho, perderam? Os olhos no esto sombrios 
e fundos, esto? Quando voc olhar e reparar bem, ver o quanto cresceram, como esto vibrantes de sade, no  mesmo? Se no consegue ter pena de mim e Christopher, 
tenha ao menos piedade dos gmeos!
        - Pare! - gritou ela.
        Levantou-se de um pulo, deixando a cama onde se sentara  espera de que a rodessemos como outrora. Girou nos calcanhares, a fim de no ser obrigada a ver-nos. 
Engasgou-se com soluos, mal conseguindo falar.
        - No tm o direito de falar assim com sua me! Se no fosse por mim, estariam morrendo de fome na sarjeta!
        No conseguiu prosseguir. Virou-se de lado, lanando a Chris um olhar desolado, suplicante.
        - No fiz o melhor possvel por vocs? Em que errei? O que lhes falta? Vocs sabiam como tinha que ser at a morte de seu av. Concordaram em ficar aqui 
at ele morrer. E cumpri minha palavra. Vocs vivem num quarto aquecido e seguro. Trago-lhes de tudo o melhor; roupas, livros, jogos,
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brinquedos, as melhores roupas que o dinheiro pode comprar. Recebem boa alimentao e dispem de um aparelho de televiso.
        Ficou de frente para ns, estendendo as mos num gesto de splica, parecendo prestes a cair de joelhos, implorando-me com o olhar. 
        - Escutem, seu av est to doente que agora passa o dia inteiro de cama. Nem mesmo lhe permitem sentar-se na cadeira de rodas. Os mdicos afirmam que ele 
no pode durar alm de alguns dias ou, no mximo, algumas semanas. No dia em que ele morrer, subirei at aqui, destrancarei a porta e descerei com vocs. Terei dinheiro 
suficiente para manter vocs quatro numa universidade. Christopher cursar a faculdade de medicina e voc, Cathy, ter aulas de dana. Contratarei os melhores professores 
de msica para Cory e farei por Carrie tudo que ela desejar. Vocs querem jogar fora todos os anos que sofreram e suportaram, sem esperarem a recompensa, exatamente 
quando esto atingindo o objetivo! Lembram-se de como costumavam rir e falar das coisas que fariam quando tivessem a bno de possuir mais dinheiro do que saberiam 
como gastar? Esqueceram os planos que fizemos... a nossa casa, onde voltaramos a viver todos juntos? No joguem tudo fora perdendo a pacincia
no momento em que estamos com a vitria nas mos! Digam-me que me diverti enquanto vocs sofriam e eu admitirei que  verdade. Mas eu os recompensarei regiamente 
por isso!
        Oh, confesso que fiquei emocionada e desejei muito livrar-me da descrena. Quase consegui confiar nela outra vez, mas estremeci com a desconfiana de que 
tudo aquilo fosse mentira. Ela no nos dissera desde o incio que nosso av estava exalando o ltimo suspiro... anos e anos exalando aquele ltimo alento? Deveria 
eu gritar: Mame, no acreditamos mais em voc? Eu queria feri-la, faz-la sangrar como  havamos sangrado com nossas lgrimas, isolamento e solido - sem falar 
nos castigos corporais.
        Todavia, Chris fitou-me severamente, fazendo-me sentir envergonhada. Poderia eu ser to cavalheiresca quanto ele? Quem me dera ser capaz de ignor-lo e abrir 
a boca para gritar tudo o que a av nos infligira a troco de nada! Por algum estranho motivo, fiquei calada. Talvez desejasse evitar que os gmeos ficassem sabendo 
demais. Ou talvez esperasse que Chris contasse tudo a ela antes de mim.
        Chris fitava mame com suave compaixo, esquecendo o piche em meus cabelos, as semanas sem comer, os camundongos temperados com sal e pimenta - e as surras. 
Tremia, indeciso, os olhos atormentados por vises de esperanas e desesperos, observando nossa me comear a chorar.
        Os gmeos vieram agarrar-se furtivamente  minha saia quando mame se deixou cair numa das camas, soluando e esmurrando o travesseiro, como uma criana.
        - Oh, mas vocs so filhos desalmados e sem corao! - lamentou-se, digna de pena. - Fazem isso comigo, sua me, a nica pessoa que os ama neste mundo! A 
nica que se importa com vocs! Vim procur-los com tanta alegria, to feliz por estar novamente com vocs, querendo dar-lhes as boas notcias e compartilhar com 
vocs minha satisfao... E o que vocs fazem?
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Atacam-me violenta e injustamente! Fazem-me sentir to culpada e envergonhada quando, na realidade, tenho feito o melhor possvel, e vocs no acreditam!
        Descera ao nosso nvel, agora, chorando com o rosto enterrado no travesseiro, como eu fazia tempos atrs e Carrie continuava a fazer.
        Imediata e espontaneamente, Chris e eu nos sentimos contritos e arrependidos. Tudo o que ela dissera era a pura verdade: era a nica pessoa que nos amava, 
que se importava conosco; e nela residiam a nossa salvao, as nossas vidas, nossos futuros e nossos sonhos. Corremos para ela, Chris e eu, abraando-a como pudemos, 
implorando perdo. Os gmeos ficaram calados, apenas observando.
        - Mame, por favor, pare de chorar! No quisemos magoar voc. Estamos arrependidos, de verdade. Ficaremos. Acreditamos em voc. O av est mesmo moribundo, 
tem que morrer algum dia, no  mesmo?
        Ela continuava a chorar, inconsolvel.
        - Fale conosco, mame, por favor! Conte-nos as boas notcias. Queremos saber. Queremos repartir sua alegria. S dissemos aquelas coisas porque ficamos magoados 
quando voc foi embora sem nos dizer o motivo. Mame, por favor. Por favor, mame!
        Nossas splicas, lgrimas e angstias finalmente lhe chegaram ao consciente. De algum modo, conseguiu sentar-se e enxugar os olhos com um leno de linho 
branco cercado por uma franja de renda de cinco centmetros de largura e bordado em branco com um enorme monograma "C".
        Empurrou-nos para um lado, livrando-se de nossas mos como se estas a queimassem, e ficou em p. Agora, recusava-se a fitar nossos olhos que imploravam, 
suplicavam, pediam.
        - Abram os presentes que escolhi para vocs com tanto carinho - disse em voz entrecortada por soluos engasgados. - Ento, digam-me se no so lembrados 
e amados por mim. Ento, digam-me que no pensei em suas necessidades nem zelei pelos seus melhores interesses. Que no tentei satisfazer-lhes os mnimos desejos. 
Digam-me que sou egosta e no me importo com vocs.
        A maquilagem escura dos olhos escorria-lhe pelo rosto. O batom vermelho estava borrado. Os cabelos, que ela sempre mantinha impecavelmente penteados, estavam 
desfeitos e amassados. Ela entrara em nosso quarto como uma viso de perfeita beleza e agora parecia um manequim quebrado.
        Por que eu tinha sempre que pensar que ela era uma excelente atriz, representando um papel com todo o esforo e talento?
     Olhou para Chris, ignorando-me. E os gmeos - a julgar pela preocupao que ela demonstrava pelo bem-estar e sensibilidade deles, bem poderiam estar na Conchinchina! 
- Encomendei um novo conjunto de enciclopdias para seu prximo aniversrio, Christopher - informou com voz embargada, ainda limpando o rosto e tentando remover 
as manchas de maquilagem. - Exatamente o que voc queria: a melhor enciclopdia j publicada, encadernada em couro genuno 
#207
vermelho, gravado a ouro de vinte e quatro quilates e com lombadas de mais de um centmetro de relevo. Fui diretamente  editora, a fim de encomend-la especialmente 
para voc. Os volumes tero seu nome gravado, assim como a data, mas no sero enviados para c, a fim de evitar que algum os veja por acaso.
        Engoliu em seco, guardando o leno elegante.
        - Pensei muito para escolher o presente que mais lhe agradasse, da mesma maneira que sempre lhe dei o melhor para sua instruo.
        Chris parecia atordoado. O jogo de emoes contraditrias em seu rosto davam-lhe ao olhar uma aparncia confusa, perplexa, aturdida e at mesmo indefesa. 
Oh, Deus, como ele devia am-la, mesmo depois de tudo que ela nos fizera!
        Minhas emoes eram simples e diretas, sem a menor indeciso: eu ardia de raiva! Agora, ela trazia enciclopdias em couro genuno, gravado a ouro de vinte 
e quatro quilates! Livros assim deviam custar mais de mil dlares - talvez dois ou trs mil! Por que ela no depositava aquele dinheiro no nosso fundo de fuga? Tive 
mpetos de berrar e protestar como Carrie, mas algo nos olhos azuis de Chris me fez continuar calada. Ele sempre quisera possuir uma enciclopdia encadernada em 
couro genuno vermelho e mame a encomendara para ele; agora, o dinheiro j no tinha significado para ela. E talvez apenas talvez - o av morresse hoje ou amanh 
e ela no precisasse alugar um apartamento ou comprar uma casa.
        Mame pressentiu minhas dvidas.
        Mame ergueu a cabea numa atitude rgia e se voltou para a porta. No abrira nossos presentes e no pretendia ficar para ver nossas reaes. Por que eu 
chorava intimamente, quando a odiava? Eu no mais a amava... No mesmo.
        Depois de abrir a porta ela disse:
        - Quando vocs tiverem pensado melhor na dor que me causaram hoje e puderem tratar-me novamente com amor e respeito, eu voltarei. No antes disso.
        Assim ela chegou.
        E assim se foi.
        Assim ela chegara e partira, sem tocar em Carrie e Cory; sem beij-los nem mal falar com eles, mas lhes dirigindo um olhar. E eu sabia por que motivo: ela 
no suportava olhar e ver o que ganhar uma fortuna estava custando aos gmeos.
        Os dois pularam da mesa e correram para mim, agarrando-se  minha saia e fitando-me o rosto. Seus rostinhos estavam torturados por ansiedade e temor, estudando 
minha expresso como se tambm ficassem felizes se eu me sentisse feliz. Ajoelhei-me para dar-lhes todos os beijos e carinhos que ela
esquecera - ou se sentira incapaz de dar aos filhos a quem causara tantos males.
        - Estamos esquisitos? - indagou Carrie, preocupada, segurando-me as mos.
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        - No; claro que no. Voc e Cory esto apenas plidos, por no sarem ao sol.
        - Crescemos muito?
        - Sim, sim; claro que cresceram.
        E sorri, mesmo enquanto mentia. Simulando alegria e usando aquele sorriso falso  guisa de mscara, sentei-me no cho com os gmeos e Chris. Juntos, comeamos 
os quatro a abrir nossos presentes, como se fosse dia de Natal. Todos os presentes embrulhados com papis finos caros, ou com papel aluminizado cor de prata e de 
ouro, e amarrados com vistosos e enormes laos de cetim de todas as cores.
        Rasgar os papis, jogar fora as fitas e laos, arrancar as tampas das caixas, retirar o papel de seda... ver todas aquelas roupas lindas para cada um de 
ns. Olhar os livros novos... hurra! Examinar os novos brinquedos, os jogos, os quebra-cabeas... hurra! Oh, meu Deus, que enorme caixa com balas recobertas de acar, 
no formato de folhas!
        Ali, ante nossos olhos, estava a demonstrao da preocupao dela. Admito que ela nos conhecia bem: nossos gostos, nossos passatempos prediletos, nossos 
tamanhos para roupas. Com os presentes, pagava-nos por todos aqueles meses longos e vazios em que framos deixados aos cuidados da bruxa av, que muito gostaria 
de nos ver mortos e enterrados.
        E ela sabia que tipo de me tinha - sabia!
        Por meio de jogos, brinquedos e quebra-cabeas, procurava subornar-nos e obter nosso perdo por fazer algo que - no fundo da alma - sabia ser errado.
        Por meio de balas e doces, esperava tirar de nossas bocas, coraes e mentes o amargo da blis da solido. Era evidente que, ao seu modo de ver as coisas, 
ainda no passvamos de crianas - embora Chris j precisasse barbear-se e eu necessitasse de um suti... Ainda crianas... e ela nos manteria sempre crianas, como 
bem indicavam os ttulos dos livros que trouxera para
ns. Livros que j lera muito tempo atrs. Contos de fadas dos irmos Grimm e de Hans Christian Andersen - que conhecamos de cor. E Morro dos Ventos Uivantes e 
Jane Eyre - outra vez? Por que ela no fazia uma lista dos livros que j lramos? Dos que j tnhamos recebido?
        Consegui sorrir ao enfiar pela cabea de Carrie um novo vestido vermelho e atar-lhe no cabelo uma fita roxa. Agora, ela estava usando, como sempre desejara, 
suas cores prediletas. Calcei-lhe meias roxas e novos tnis brancos.
        - Voc est linda, Carrie.
        E, de certa maneira, estava mesmo linda de to feliz por ter roupas to brilhantes e adultas, com as cores da realeza.
        Em seguida, ajudei Cory a vestir as calas curtas de um tom vermelho brilhante e uma camisa branca com monograma vermelho bordado no bolso; o n da gravata 
ficou a cargo de Chris, que aprendera com papai havia muito tempo.
        - Agora, devo vestir voc, Christopher? - indaguei com sarcasmo.
        Ele replicou maliciosamente:
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        - Se voc quiser, fico nu para que possa me vestir.
        - No seja indecente!
        Cory tinha um novo instrumento para tocar - um banjo! Oh, Deus, como ele tanto desejava ganhar um banjo! Ela se lembrara. Os olhos de Cory faiscavam:
        - Oh, Suzana, no chore por mim,
        Pois eu vou pro Alabama,
        Tocando bandolim...
        Cory tocava a melodia e Carne cantava a letra. Era uma das msicas alegres prediletas de Cory e ele sabia toc-la na guitarra, mas no conseguia tirar dela 
o som adequado. No banjo, ficava perfeita. Deus dotara Cory de dedos mgicos para a msica.
        Deus me dotara de pensamentos malvados que me tiravam o prazer de tudo. De que adiantavam roupas lindas se ningum as via? Eu queria coisas que no vinham 
embrulhadas em papis bonitos e amarrados com fitas de cetim na caixa de um loja cara. Eu desejava coisas que o dinheiro no podia comprar. Teria ela notado meus 
cabelos cortados to rente na testa? Percebera o quanto estvamos magros? Achara-nos saudveis apesar da palidez de nossa pele fina?
        Pensamentos amargos, ruins, enquanto eu enfiava um doce na boca vida de Carrie, depois outro na de Cory e, afinal, um na minha. Olhei raivosamente para 
as lindas roupas destinadas a mim. Um belo vestido de veludo, prprio para ser usado numa festa. Um conjunto rosa e azul de camisola e pegnoir com chinelas combinando. 
Fiquei sentada, com o doce derretendo na boca, e senti o gosto azedo do n que havia na minha garganta. Enciclopdias! amos lassar o resto da vida ali dentro?
        No obstante, doce feito com acar de bordo era o meu predileto; sempre fora. Ela trouxera aquela caixa de doces para mim, para mim - e s consegui engolir 
um pedao, mesmo assim com grande dificuldade.
        Cory, Carne e Chris estavam sentados no cho, com a caixa de doces no centro do tringulo que formavam. Enfiavam um pedao atrs do outro na boca, risonhos 
e  satisfeitos.
        - Vocs deviam economizar esse doce - admoestei com amarga antipatia. - Talvez seja a ltima caixa de doces que vero durante muito, muito tempo.
        Chris olhou para mim; seus olhos azuis brilhavam de felicidade. Era fcil perceber que toda a sua f e confiana haviam sido restaurados por uma nica rpida 
visita, de mame. Por que ele no entendia que os presentes no eram mais que um disfarce, para ocultar o fato de que ela j no se importava conosco? Por que no 
percebia - como eu - que j no ramos para ela to reais quanto framos outrora? Agora, ramos apenas mais um daqueles assuntos desagradveis sobre os quais as 
pessoas evitam conversar, como os ratos no sto.
        - Fique a sentada, agindo como tola - disse Chris respingando em um sua felicidade. - Prive-se do doce enquanto ns trs satisfazemos nosso
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apetite por acar antes que os camundongos comam tudo. Cory, Carrie e eu vamos escovar os dentes enquanto voc fica a sentada, chorando, sentindo pena de si mesma 
e fazendo de conta que poder alterar nossa situao  custa de sacrificar-se. Vamos, Cathy! Chore! Faa papel de mrtir! Sofra! Bata com a cabea na parede! Grite! 
E continuaremos aqui at que o av morra e todo o doce tenha acabado h muito tempo.
        Detestei-o por zombar de mim! Levantei-me de um salto, corri para o lado oposto do quarto, virei-me de costas para eles e experimentei minhas roupas novas. 
Enfiei pela cabea, um atrs do outro, trs lindos vestidos. Abotoei-os facilmente na cintura, onde ficavam um pouco folgados. Todavia,
o zper no se fechava nas costas ao chegar  altura do busto. Despi o terceiro vestido e procurei as barbatanas do corpete. Nenhuma! Ela comprara para mim vestidos 
de menina - roupas infantis, demonstrando de forma gritante que ela se recusava a enxergar! Atirei os trs vestidos no cho e pisoteei-os, amarrotando o veludo azul 
de tal forma que nunca mais poderia ser devoldido  loja.
        E Chris continuava sentado no cho, em companhia dos gmeos, parecendo diablico e rindo com um encanto travesso e juvenil que tambm me faria rir - se eu 
permitisse.
        - Faa uma lista de compras - pilheriou. - J  tempo de comear a usar suti e parar de sacudir-se toda por a. E, uma vez que est com a mo na massa, 
tome nota de comprar tambm cinta.
        Senti mpetos de esbofetear aquele rosto sorridente! Meu abdome era uma caverna oca. E se minhas ndegas eram arredondadas e firmes, isso se devia aos exerccios 
e no  gordura!
        - Cale a boca! - berrei. - Por que preciso fazer uma lista de compras ou pedir alguma coisa a mame? Se ela realmente olhasse para mim, saberia que tipo 
de roupas que tenho e o que deveria usar! Como posso saber que tamanho de suti devo pedir? E no preciso de cinta! Voc  que precisa de uma sunga, e de ter na 
cabea um tipo de bom senso que no consta dos livros!
        Fitei-o raivosamente, satisfeita ao ver sua expresso de atordoamento.
        - Christopher! - gritei, incapaz de controlar-me. - s vezes odeio mame! E no  s isso, s vezes odeio voc tambm! s vezes, odeio todo mundo, sobretudo 
eu mesma! s vezes, gostaria de estar morta, porque seria melhor do que estar enterrada viva aqui neste quarto! No passamos de vegetais que andam, falam e esto 
apodrecendo!
        Meus pensamentos secretos tinham sido expulsos, vomitados como lixo, fazendo com que ambos os meus irmos se encolhessem, empalidecendo. E minha irmzinha 
tornou-se ainda menor, comeando a tremer. Logo que as
palavras me escaparam da boca, tive vontade de engoli-las de volta. Embora quase morta de vergonha, fui incapaz de pedir desculpas e retirar o que dissera. Girei 
nos calcanhares, correndo na direo do armrio embutido, procurando a porta alta e estreita que me levaria  escada do sto. Quando me magoava - e isso acontecia 
com freqncia - eu corria para a msica, as 
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roupas e sapatilhas de bal, nas quais eu podia girar e pular, danando para afogar meus problemas. E em algum lugar daquele mundo vermelho imaginrio onde eu piruetava 
loucamente, num esforo desvairado e desesperado para me exaurir at ficar insensvel, eu via aquele homem - sombrio e distante, meio escondido por detrs das grandes 
colunas brancas que se elevavam at o cu cor-de-prpura. Ele danava comigo um apaixonado pas-de-deux sempre afastado de mim por mais que eu procurasse aproximar-me 
e lanar-me em seus braos, onde eu me sentiria protegida e amparada... e com ele eu finalmente encontraria um lugar seguro onde viver e amar.
        De repente, a msica acabou. Vi-me de volta ao sto abafado e poeirento, no cho, com uma perna sob o corpo. Eu cara! Quando tentei levantar-me com grande 
esforo, mal consegui firmar o p no cho. Meu joelho doa tanto que lgrimas de outra espcie me saltaram aos olhos. Manquei atravs do sto, chegando  sala de 
aulas, sem me importar se danificara irremediavelmente o joelho, para o resto da vida. Escancarei uma janela e passei para o telhado escuro. Cheia de dor, desci 
lentamente o forte declive, s parando quando cheguei  beirada das calhas entupidas de folhas secas. L embaixo, bem longe, ficava o solo. Com lgrimas de dor e 
autocomiserao escorrendo pelo rosto e toldando-me a viso, fechei os olhos e - deixei-me vacilar para perder o equilbrio. Num minuto tudo estaria terminado e 
eu ficaria estendida sobre as roseiras espinhentas.
        A av e mame poderiam alegar que alguma menina desconhecida e idiota subira ao telhado e cara acidentalmente. Mame choraria ao ver-me morta e quebrada, 
estendida num caixo ainda trajando a malha e o saiote de bailarina azuis. Ento, dar-se-ia conta do que fizera, desejaria ter-me de volta, destrancaria a porta 
para libertar Chris e os gmeos, permitindo que tomassem a viver de verdade.

        Este era o lado dourado da moeda do suicdio.
        Mas tive que vir-la para ver o lado manchado de azinhavre. E se eu no morresse? Se eu casse e as roseiras me amortecessem a queda, deixando-me aleijada 
e cheia de cicatrizes pelo resto da vida?

        Por outro lado, porm, se eu realmente morresse e mame no chorasse, no sentisse tristeza ou remorso, mas apenas alegria por ver-se livre de uma peste 
como eu? Como Chris e os gmeos conseguiriam sobreviver sem que eu l estivesse para cuidar deles? Quem faria o papel de me para os gmeos,
prodigalizando-lhes a afeio que Chris era s vezes incapaz de demonstrar de modo to expansivo quanto eu? Quanto a Chris... talvez ele pensasse que no precisava 
realmente de mim, que livros e a nova enciclopdia encadernada em couro genuno vermelho gravado a ouro de vinte e quatro quilates bastassem para tomar meu lugar. 
Quando ele se formasse em medicina e passasse a usar um "Doutor" antes do nome, isto seria o suficiente para satisfaz-lo pelo resto da vida. Contudo, eu sabia que 
nada daquilo seria o bastante se eu no estivesse a seu lado. E fui salva da morte pela minha capacidade de enxergar os dois lados da moeda. 
#212
        Afastei-me cegamente da beira do telhado, sentindo-me tola e infantil, mas ainda chorando. Meu joelho doa tanto que fui obrigada a rastejar pelo telhado, 
subindo at nosso lugar especial perto da chamin, onde duas guas do telhado se encontravam para formar um canto seguro. Deitei-me de costas e fitei o cu cego 
e indiferente. Duvidei que Deus morasse l em cima; tambm duvidei que o paraso fosse l.
        Deus e o paraso estavam l embaixo, no solo, nos jardins, nas florestas, nos parques, nas praias, nos lagos, em percorrer as estradas indo para algum lugar!
        O inferno era exatamente ali, onde eu estava, perseguindo-me insistentemente, tentando derrotar-me e transformar-me no que minha av me julgava - filha do 
Demnio.
        Fiquei deitada no duro e frio telhado de ardsia at que a noite chegou e a lua apareceu, as estrelas cintilando  raivosamente para mim, como se soubessem 
o que eu realmente era. Trajava apenas uma roupa de bailarina: malha e um daqueles ridculos saiotes rendados.
        Arrepios de frio encresparam-me a pele dos braos, mas permaneci onde estava a fim de planejar a minha vingana - minha vingana contra todos os que me haviam 
transformado de boa em m, fazendo de mim o que eu passaria a ser daquele dia em diante. Convenci-me de que ainda chegaria o dia em que minha av e minha me estariam 
 minha merc... e eu brandiria o aoite, manipularia o piche e controlaria o suprimento de comida.
        Tentei pensar no que faria exatamente com elas. Qual era o castigo adequado? Deveria tranc-las, ambas, e jogar a chave fora? Mat-las de fome, como haviam 
tentado fazer comigo?
        Um leve rudo interrompeu o fluxo sombrio e tortuoso de meus pensamentos. Na escurido do incio da noite, Chris chamou baixinho o meu nome. Parecia hesitante. 
Eu no precisava dele - no precisava de ningum.
Ele me decepcionara ao no compreender e, agora, eu no necessitava dele. No mais.
        No obstante, Chris se aproximou e deitou-se a meu lado. Trouxera consigo um pesado capote de l e o estendeu sobre mim sem dizer uma palavra. Como eu, fitou 
o cu frio e sinistro. Um silncio prolongado e amedrontador pairou entre ns. Nada havia em Chris que eu realmente detestasse ou mesmo no gostasse; tive uma vontade 
imensa de me virar de lado para lhe dizer isso e agradecer-lhe ter trazido o capote para mim, mas no consegui dizer uma s palavra. Queria que ele soubesse que 
me arrependia de haver agredido verbalmente tanto ele como os gmeos, quando s Deus sabia que no precisvamos de outro inimigo alm dos que j tnhamos. Meus braos, 
tremendo sob a quentura do capote, ansiavam por abra-lo e reconfort-lo, como tantas vezes ele fizera comigo quando eu despertava de mais um pesadelo. Entretanto, 
s consegui permanecer deitada e esperar que ele compreendesse que me sentia como que amarrada em ns cegos.
        Chris era capaz de sempre acenar a bandeira branca em primeiro lugar e lhe serei sempre grata por isso. Numa voz estranha e rouca, que parecia vir de
#213
muito longe, informou que os gmeos e ele j. tinham jantado, mas minha poro estava separada.
        - E s fingimos comer o doce todo, Cathy. Ainda sobrou muito para voc.
        Doce. Ele vinha falar de doce! Ainda vivia num mundo infantil em que doce representava algo suficiente para fazer calar o choro? Eu amadurecera mais e perdera 
o entusiasmo pelos deleites infantis. Desejava o que todos os adolescentes queriam - liberdade para desenvolver-me at ficar adulta, liberdade para assumir o completo 
controle de minha vida! Embora desejasse dizer isso a Chris, minha voz secara com as lgrimas.
        - Cathy... o que voc disse... nunca mais diga coisas to feias e sem esperanas.
        - Por que no? - repliquei, engasgada. - Cada palavra que eu disse  verdadeira. S exprimi o que sinto no ntimo, desabafei o que voc mantm escondido. 
Bem, continue a esconder-se de si mesmo e constatar que todas as verdades se transformam em cidos que nos corroem interiormente!
        - Nunca desejei estar morto! - exclamou ele, com a voz rouca de quem sofre de um resfriado permanente. - Nunca mais diga isso, ou pense na morte! Claro que 
tenho dvidas e desconfianas ocultas dentro de mim, mas trato de rir, brincar, e me obrigo a acreditar, porque desejo sobreviver. Se voc se matasse, levar-me-ia 
tambm. E logo os gmeos nos seguiriam, pois quem cuidaria deles como verdadeira me? 
        Aquilo me fez rir. Foi um riso duro, metlico, feio - duplicando o riso
de minha me quando ela se sentia amarga.
        - Ora, Boneco Christopher, lembre-se de que temos uma me carinhosa e dedicada que, acima de tudo, pensa em nossas necessidades. Restaria ela para cuidar 
dos gmeos.
        Ento, Chris virou-se para mim, segurando-me pelos ombros.
        - Detesto quando voc fala assim, como ela tambm fala s vezes. Acha que no sei que voc  mais me para Cory e Carrie do que ela tem sido? Acha que no 
percebi que os gmeos se limitaram a olh-la como se fosse uma desconhecida? Cathy, no sou  estpido nem cego. Sei que mame cuida de si primeiro e pensa em ns 
depois.
        A velha lua estava no cu para iluminar-lhe as lgrimas. Sua voz em meu ouvido soara spera, abafada, vindo do fundo de seu ntimo.
        Chris dissera tudo aquilo sem amargura, apenas com tristeza - da forma direta e sem emoo que os mdicos empregam para informar um paciente de que est 
desenganado.
        Ento, a sensao me engolfou como uma onda cataclsmica: eu amava Chris - e ele era meu irmo! Ele me completava, dava-me o que me faltava, proporcionando-me 
estabilidade quando eu tinha mpetos de me entregar ao frenesi e ao desvario. Que modo perfeito de me vingar de mame e dos avs! Deus no veria - fechara os olhos 
a tudo no dia em que Cristo foi crucificado. Mas papai estava l em cima, observando-nos, e encolhi-me de vergonha.
        - Olhe para mim, Cathy. Por favor, olhe para mim.
#214
        - Eu no falei srio, Chris; no duro que no falei srio. Voc sabe como sou melodramtica, desejo viver, tanto quanto qualquer pessoa, mas tenho muito medo 
de que algo nos acontea, o tempo todo trancados. Por isso digo coisas horrveis s para sacudir voc e obrig-lo a enxergar. Oh, Chris, morro de vontade de estar 
cercada de gente. Quero ver novas caras, novos ambientes. Morro de medo pelos gmeos. Quero sair para fazer compras, montar a cavalo, fazer tudo o que somos impedidos 
de fazer aqui.
        Na escurido, deitados no telhado ngreme, procuramo-nos instintivamente. Abraamo-nos como se fssemos uma s pessoa, nossos coraes batendo com fora 
um de encontro ao outro. No choramos, no rimos. J no havamos chorado um oceano de lgrimas? E de nada adiantara. J no havamos rezado um milho de oraes 
e aguardando em vo o auxlio que no se materializava? E se as lgrimas no adiantavam e nossas preces no eram escutadas, como poderamos chegar at Deus e obrig-lo 
a fazer algo por ns?
        - Chris, eu j disse uma vez e vou dizer novamente: precisamos tomar a iniciativa. Papai no dizia sempre que Deus ajuda a quem cedo madruga?
        Com o rosto colado ao meu, ele refletiu durante longo tempo.
        - Pensarei no assunto, embora, como disse mame, talvez herdemos todo aquele dinheiro a qualquer momento.

A Surpresa de Nossa Me

        A cada dia dos dez que se passaram antes da visita seguinte de mame, Chris e eu especulvamos horas a fio a respeito do motivo pelo que ela viajara para 
a Europa, demorando-se tanto tempo e, sobretudo - qual era a grande novidade que ela reservava para ns?
        Consideramos aqueles dez dias como mais uma forma de punio. Pois era mesmo uma punio, um castigo, sabermos que ela estava na mesma casa e, apesar disso, 
era capaz de ignorar-nos e deixar-nos trancados, como se fssemos mesmo camundongos do sto.
        Portanto, quando ela finalmente apareceu, aps todo aquele tempo, estvamos completamente castigados e muito temerosos de que ela jamais tornasse a aparecer 
caso Chris e eu mostrssemos mais alguma hostilidade ou repetssemos nossas exigncias no sentido de sermos libertados. Permanecemos calados e tmidos, resignados 
com nosso destino. O que faramos se ela nunca mais voltasse? No podamos fugir utilizando a "escada" feita de lenis rasgados - no quando os gmeos ficavam histricos 
com o simples fato de sarem para o telhado.
#215
        Assim sendo, sorrimos para mame e no dissemos uma s palavra de queixa. No lhe perguntamos qual o motivo que a levara a castigar-nos mais uma vez ao manter-se 
afastada durante dez dias, quando j ficara ausente durante meses. Aceitamos o que ela estivesse disposta a dar-nos. Fomos obedientes, como ela afirmara ter aprendido 
em relao a seu pai; portamo-nos como seus filhos disciplinados, obedientes e passivos. E, o que  mais, ela gostou de ns assim. Voltamos a ser seus "queridos" 
carinhosos e ternos.
        J que nos mostramos to bem comportados, carinhosos e a aprovamos de forma to respeitosa e aparentemente confiante, ela decidiu que o momento era propcio 
para soltar a sua bomba.
        - Queridos, alegrem-se por mim! Estou to feliz!
        Riu e rodou sobre si mesma, abraando-se pelo busto, amando seu prprio corpo - ou, pelo menos, essa foi minha impresso.
        - Adivinhem o que aconteceu... Vamos, adivinhem!
        Chris e eu nos entreolhamos.
        - Nosso av morreu - disse Chris cautelosamente, enquanto meu corao dava cambalhotas, preparando-se para pular de verdade se ela confirmasse a boa nova.
        - No! - replicou ela bruscamente, como se sua felicidade houvesse diminudo.
        - Foi levado para o hospital - arrisquei como segundo palpite.
        - No. Na realidade, agora j no odeio meu pai, de modo que no viria aqui para dizer a vocs que me alegro com a sua morte.
        - Ento, por que no nos d logo a boa notcia? - indaguei com indiferena. - Nunca seremos capazes de adivinhar. Agora, no conhecemos bem a vida que voc 
leva.
        Ela ignorou minha insinuao e prosseguiu alegremente:
        - O motivo pelo qual passei tanto tempo afastada e que foi to difcil explicar a vocs... casei-me com um homem maravilhoso, um advogado de nome Bart Winslow. 
Vocs gostaro dele. E ele vai adorar vocs todos.  bonito, alto, atltico e tem cabelos escuros. E adora esquiar, como voc, Christopher. Joga tnis e  inteligente, 
como voc, querido.
        Naturalmente, ela olhava para Chris.
        -  encantador e todos gostam dele, inclusive meu pai. Fomos passar nossa lua-de-mel na Europa e os presentes que eu lhes trouxe foram comprados na Inglaterra, 
Frana, Espanha ou Itlia.
        E continuou a falar, interminavelmente, sobre o novo marido. Chris e eu permanecemos calados.
        Desde a festa de Natal; Chris e eu comentramos muitas vezes as nossas
suspeitas. Por mais jovens que fssemos na ocasio da festa, tnhamos discernimento bastante para compreender que uma mulher jovem, bela e to necessitada de um 
homem como mame no deveria continuar viva durante muito tempo. No obstante, haviam-se passado quase dois anos sem um casamento,
o que nos dera motivo para pensar que o homem bonito de cabelos escuros e
basto bigode no era importante para mame - apenas um namorico passageiro, mais um 
#216
dentre muitos pretendentes. E, no fundo de nossos coraes ingnuos e tolos, convencemo-nos de que ela seria para sempre fiel e devotada  lembrana de nosso falecido 
pai - nosso pai louro de olhos azuis, belo como um deus grego, a quem ela amara to desvairadamente a ponto de fazer o que fizera: casar-se com um parente to prximo.
        Fechei os olhos e procurei no escutar sua detestada voz, que nos anunciava o fato de que outro homem tomara o lugar de papai. Agora, ela era esposa de outro 
homem, um tipo de homem totalmente diferente, que estava em sua cama e dormia com ela, e passaramos a v-la ainda menos. Oh, meu bom Deus, quanto tempo ainda ia 
durar aquilo?
        A notcia e o tom da voz dela fizeram nascer em meu peito um pequeno pssaro cinzento - o pnico - que se debatia desesperadamente na gaiola de minhas costelas... 
querendo sair, sair, sair!
        - Por favor - implorou mame, enquanto seus sorrisos e risadas, alegria e felicidade, lutavam por sobreviver na atmosfera estril e desolada de nossa reao 
 notcia. - Tentem compreender e sentir alegria por mim. Vocs sabem que eu amava seu pai, mas ele se foi e h muito tempo; eu precisava amar algum e necessitava 
de algum que me amasse.
        Vi Chris abrir a boca para dizer que a amava, que ns todos a amvamos; entretanto, ele comprimiu os lbios, compreendendo - como eu - que a espcie de amor 
a que ela se referia no era o dos filhos. E eu no a amava mais. Nem mesmo tinha certeza de gostar dela, agora. Contudo, consegui sorrir, simular, pronunciar as 
palavras para que os gmeos no se assustassem com a expresso de meu rosto:
        - Sim, mame, alegro-me por voc.  bom saber que encontrou algum para am-la outra vez. 
        - Ele est apaixonado por mim h muito tempo, Cathy - prosseguiu ela rapidamente, encorajada e sorrindo confiantemente. - Embora estivesse firmemente decidido 
a continuar solteiro. E no foi fcil convenc-lo de que precisava de uma esposa. E seu av nunca desejou que eu me casasse pela segunda vez, como outra punio 
pelo mal que cometi ao casar-me com o pai de vocs. Mas ele gosta de Bart e, depois que insisti muito, ele permitiu que eu me casasse com Bart e continuasse a ser 
sua herdeira.
        Fez uma pausa para morder o lbio inferior. Depois, engoliu em seco, nervosa. Os dedos ornados de anis subiram ao pescoo para brincar com o colar de prolas 
verdadeiras que ela usava, traindo assim todos os trejeitos de uma mulher angustiada que, apesar de tudo, ainda conseguia sorrir.
        - Naturalmente, no amo Bart tanto quanto amava o pai de vocs.
     Hah! Com que voz fraca declarou isso! Seus olhos faiscantes e a pele radiante revelavam um amor to grande como ela nunca sentira antes. Suspirei. Pobre papai.
        - Os presentes que voc nos trouxe, mame... nem todos eles vieram da Europa ou das Ilhas Britnicas. Aquela caixa de doces veio de Vermont. Vocs tambm 
estiveram em Vermont? Ele  de l? 
#217
        O riso foi vibrante de prazer, desinibido e at mesmo um pouco sensual, como se Vermont tivesse grande significao para ela.
        - No, Bart no  de Vermont, Cathy. Mas tem uma irm que mora l e passamos um fim de semana com ela antes de viajarmos para a Europa. Foi l que comprei 
o doce, pois sei como voc gosta dele. Bart tem duas outras irms que moram no Sul. Ele  de uma pequena cidade da Carolina do Sul... Greenglena, Grenglenna, ou 
algo semelhante. Mas passou tanto tempo na Nova Inglaterra, onde se formou na Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, que fala mais como nortista que como 
sulista. Vermont  to lindo no outono; cheguei a perder o flego, de verdade. Naturalmente, quando as pessoas esto em lua-de-mel, no desejam a companhia de terceiros. 
Por isso, fizemos uma visita rpida  irm de Bart e sua famlia, e passamos algum tempo no litoral.
        Lanou um rpido olhar de esguelha aos gmeos e logo o colar de prolas foi torcido a ponto de parecer prestes a arrebentar. Aparentemente, os colares feitos 
com prolas verdadeiras so mais fortes que os de imitao.
        - Gostou dos barquinhos que eu lhe trouxe, Cory?
        - Sim, senhora - replicou o menino de modo muito educado, continuando a encar-la com os olhos grandes e rodeados por sombrias olheiras, como se ela fosse 
uma desconhecida.
        - Carrie, querida... as bonequinhas, eu as comprei para voc na Inglaterra, a fim de aumentar sua coleo. Tentei encontrar outro bero, mas parece que j 
no fabricam mais beros para casas de bonecas.
        - Tudo bem, mame - disse Carrie, fitando o cho. - Chris e Cathy fizeram para mim um bero de papelo e gosto muito dele.
        Oh, Deus, ser que ela no via?
        - Seu marido sabe a respeito de ns? - indaguei, muito sria.
        Chris fitou-me raivosamente por ter feito a pergunta, parecendo dizer-me  silenciosamente que, naturalmente, nossa me no era falsa e nem deixaria de contar 
ao novo marido que tinha quatro filhos escondidos - que algum considerava
filhos do Demnio.
        Mais uma vez, as sombras toldaram a felicidade de mame. Mais uma vez, eu fizera uma pergunta inadequada.
        - Ainda no, Cathy. Todavia, logo que papai morrer eu falarei com Bart a respeito de vocs quatro. Explicarei nos mnimos detalhes. Ele entender;  bondoso 
e delicado. Vocs gostaro dele.
        Ela j dissera isto mais de uma vez. E eis ali mais uma coisa que teria que esperar pela morte do velho.
        - Cathy, pare de me olhar assim! Eu no podia contar a Bart antes do casamento! Ele  o advogado de seu av. Eu no podia permitir que tomasse conhecimento 
de meus filhos. Ainda no. S depois que o testamento for lido e o dinheiro esteja em meu nome.
        Eu tinha na ponta da lngua as palavras para dizer que um homem tinha o direito de saber que sua futura esposa tinha quatro
filhos do primeiro casamento. 
Oh, como eu desejava dizer isso! Mas Chris me olhava ferozmente e 
#218
os gmeos estavam muito juntos, encolhidos, os grandes olhos azuis fixados no aparelho de televiso. E eu no sabia se devia falar ou ficar calada. Pelo menos, quando 
se fica calado no se adquire novos inimigos. Alm disso, talvez mame tivesse razo. Oh, Deus, permita que ela esteja certa. Deixe que minha f seja renovada: Deixe-me 
acreditar que ela no  bonita apenas por fora, mas por dentro tambm. 
        Deus no estendeu o brao para pousar em meu ombro a mo clida e reconfortante. Permaneci sentada e calada, compreendendo que minhas suspeitas esticavam 
ao mximo a corda entre ns.

        Amor. Com que freqncia essa palavra aparecia nos livros. Insistentemente. Quando a pessoa tinha riqueza, sade, beleza, talento... no tinha nada se no 
tivesse amor. O amor transformava tudo o que era comum em algo maravilhoso, poderoso, embriagador, encantador.
        Esse era o caminho seguido pelos meus pensamentos num dia de incio do inverno, quando a chuva fustigava o telhado e os gmeos, sentados no cho do quarto, 
assistiam  televiso. Chris e eu estvamos no sto, deitados lado a lado nos velhos colches colocados perto das janelas da sala de aulas, lendo juntos um dos 
livros antigos que mame trouxera da grande biblioteca no andar trreo da manso. Em breve o sto estaria frio como um inverno polar,
de modo que passvamos l o maior tempo possvel enquanto a temperatura
ainda permitia. Chris gostava de correr os olhos pela pgina e logo virar para
a seguinte. Eu preferia reler as frases mais bonitas, s vezes voltando atrs para tornar a l-las. Discutamos incessantemente a esse respeito.

     - Leia mais depressa, Cathy! Voc tenta absorver as palavras.
        Hoje ele se mostrava paciente. Virou-se de costas e fitou o teto enquanto eu lia devagar, procurando e demorando-me nas frases belas e bem redigidas, absorvendo 
a sensao da era vitoriana, em que as pessoas usavam roupas to lindas, falavam de modo to elegante e encaravam o amor de forma to
profunda. Desde o primeiro pargrafo, a estria nos cativara com seu encanto
mstico e romntico. Cada pgina tecia vagarosa e elaboradamente um complicado entrecho envolvendo dois enamorados chamados Lily e Raymond, que se viam obrigados 
a sobrepujar obstculos monumentais para encontrarem e alcanarem o mgico lugar onde todos os sonhos se transformam em realidade. Oh, Deus, como eu desejava encontrar 
aquele lugar! Ento, descobri a tragdia da vida deles. Durante todo o tempo eles haviam pisado sobre a mgica grama cor de prpura... Imaginem! Todo o tempo naquele 
lugar mgico e nunca tinham baixado o olhar para constatar isso. Eu detestava finais infelizes! Fechei raivosamente o detestvel livro e o joguei contra a parede.
     -  a estria mais estpida, tola, ridcula! - exclamei furiosa para Chris, como se este fosse o autor do livro. - No importa quem eu amar, aprenderei a perdoar 
e esquecer! - prossegui, gritando acima do barulho da tempestade que rugia l fora, eu e a intemprie pulsando no mesmo ritmo crescente. - Ora, por que no poderia 
ser escrito de modo diferente? Como
#219
 possvel duas pessoas inteligentes flutuarem com a cabea nas nuvens, sem
entenderem que ignorar a realidade sempre pode trazer m sorte? Nunca, nunca serei como Lily! Nem como Raymond! Tolos idealistas, que no tm o bom senso suficiente 
para olharem ocasionalmente o cho onde pisam!
        Meu irmo pareceu divertir-se com o fato de eu levar to a srio uma estria de fico. Depois, reconsiderando, olhou pensativamente a chuva torrencial que 
caa l fora.
        - Talvez os enamorados no devem olhar para o cho. &se tipo de estria  narrado atravs de smbolos: a terra representa a realidade, e a realidade representa 
frustraes, molstias fortuitas, morte, homicdio, e todas as outras espcies de tragdias. Os enamorados devem olhar para o cu, pois l em cima as belas iluses 
no podem ser destroadas.
        Carrancuda, amuada, encarei-o pensativamente.
        - Quando eu me apaixonar, erguerei uma montanha que tocar o cu - comecei. - Ento, o meu amado e eu teremos o melhor que existe em ambos os mundos: a firme 
realidade sob nossos ps, a cabea nas nuvens a fim de
mantermos intactas todas as nossas iluses. E a grama cor-de-prpura crescer por todos os lados, chegando-nos  altura dos olhos.
        Chris riu, abraou-me e beijou-me de leve, com ternura, os olhos muito suaves e carinhosos no ambiente turvo e frio do sto.
        - Oh, sim, a minha Cathy seria capaz disso: manter todas as suas fantasiosas iluses, danando na grama cor-de-prpura da altura de seus olhos, usando roupas 
feitas com nuvens. Saltaria, fazendo piruetas, at que seu desajeitado amante tambm aprendesse a danar com tanta graa quanto ela.
        Vendo-me colocada em areia movedia, pulei depressa para terreno mais firme:
        - Contudo,  uma estria bonita, a seu modo peculiar. Fico muito triste por Lily e Raymond terem que levar vidas separadas, quando poderia ter sido de outro 
modo. Quando Lily contou a Raymond toda a verdade, afirmando que fora virtualmente violentada por aquele homem horrvel, Raymond no devia acus-la de seduzi-lo! 
Ningum em seu juzo perfeito pensaria em seduzir um homem que tivesse oito filhos.
        - Oh, Cathy, s vezes voc  mesmo demais!
        A voz de Chris pareceu-me mais profunda que de costume ao dizer isso. Seu olhar delicado passeou-me vagarosamente pelo rosto, demorando-se nos lbios depois 
descendo para o busto e as pernas vestidas com a malha branca de bailarina. Sobre a malha eu usava uma saia curta de l e um suter tambm de l. Ento, o olhar 
de Chris tornou a subir, at se encontrar com meus olhos surpresos. Corou quando continuei a encar-lo e, pela segunda vez naquele dia, desviou o rosto para o lado. 
Eu estava bastante prxima dele para ouvir-lhe o corao bater cada vez mais depressa. E, de repente, as batidas de meu corao tambm se aceleraram, entrando no 
mesmo ritmo que o dele. Chris lanou-me um olhar de esguelha. Nossos olhos se encontraram. Encaramo-nos. Ele riu nervosamente, tantando disfarar, fingindo que nada 
daquilo poderia ser srio.
#220
        - Voc estava certa no incio, Cathy. Uma estria estpida, tola. Ridcula! S gente louca morreria por causa de amor. Aposto cem contra um que essa besteira 
romntica foi escrita por uma mulher!
        Pouco antes eu desprezara o autor por ter escrito um final to infeliz, mas apressei-me em fazer sua defesa:
        - T. M. Ellis bem poderia ser um homem! Embora eu duvide que qualquer escritora do sculo dezenove conseguisse publicar seus livros a menos que usasse iniciais 
ou um pseudnimo masculino. Por que todos os homens julgam que aquilo que  escrito pelas mulheres  banalidade, besteira, ou no passa de lixo imprestvel! Os homens 
no tm idias romnticas? No sonham com encontrar o amor perfeito? E, na minha opinio, Raymond era muito mais estpido que Lily!
        - No me pergunte como so os homens! - esbravejou Chris com tanta amargura que chegou a parecer fora de si. Prosseguiu raivosamente: - Aqui em cima, vivendo 
como vivemos, como conseguirei saber algum dia o que um homem costuma sentir? Aqui em cima, sou proibido de ter idias romnticas. Tudo se limita a no fazer isto, 
no fazer aquilo, manter os olhos afastados, no ver o que desfila  minha frente, exibindo-se, fazer de conta que sou apenas um irmo desprovido de sentimentos 
e de emoes que no sejam infantis. Tenho a impresso de que algumas moas estpidas pensam que um futuro mdico no tem sexualidade!
        Estendi a mo para tocar-lhe o brao.
        - Chris - murmurei, quase chorando. - Acho que sei exatamente o que voc precisa para senti-se homem.
        - Sim - replicou ele, irritado. - E o que voc pode fazer a respeito?
        Agora, nem mesmo olhava para mim. Em vez disso, fixou o olhar no teto. Eu sofria por ele. Sabia o que o deprimia; Chris abria mo de seu sonho por minha 
causa, a fim de poder ser como eu e pouco se importar com o fato de herdarmos ou no uma fortuna. E para ser como eu, tinha que se tornar azedo, amargo, detestar 
todo mundo e desconfiar das motivaes ocultas das outras pessoas.
        Hesitante, estiquei o brao para acariciar-lhe os cabelos.
        - Um corte de cabelo,  o que voc precisa. Seu cabelo est bonito e comprido demais. Para sentir-se homem, tem que us-lo mais curto. No momento, ele est 
parecido com o meu.
        - E quem lhe disse que seu cabelo  bonito? - perguntou ele, com voz muito tensa. - Talvez fosse bonito antigamente, antes do piche.
        No duro? Pois eu me lembrava perfeitamente das inmeras ocasies em que seu olhar dizia que meus cabelos eram mais que simplesmente bonitos. E lembrava-me, 
tambm, de sua expresso ao pegar a tesoura para cortar os cabelos to delicados e quebradios de minha testa. Cortou-os com tanta relutncia que parecia estar amputando 
os prprios dedos e no apenas cabelos indolores. Ento, um dia eu o surpreendera sentado ao sol que penetrava pela janela do sto, manuseando compridas mechas 
do cabelo que cortara. Cheirou-as, passou-as no rosto, 
#221
depois nos lbios, e guardou-as numa caixa que escondia sob o travesseiro.
        - No foi fcil para mim forar uma risada para iludi-lo e no revelar que
o vira fazer aquilo.
        - Oh, Christopher, seus olhos azuis so deveras expressivos. Quando escaparmos dessa priso e estivermos livres no mundo, terei pena de todas as garotas 
que se apaixonaro por voc. Em especial, terei pena de sua esposa, com um marido to belo para encantar as clientes e induzi-las a namor-lo. Se eu
fosse sua esposa, seria capaz de mat-lo se soubesse que cometeu uma nica infidelidade conjugal! Eu o amaria tanto, sentiria tanto cime... Seria at mesmo capaz 
de obrig-lo a aposentar-se da medicina aos trinta e cinco anos de idade.
        - Eu nunca disse que seu cabelo era bonito - replicou ele com rispidez,
ignorando tudo que eu dissera.
        Acariciei-lhe o rosto bem de leve, sentindo os fios que precisavam ser
raspados.
        - No se mexa da; vou buscar a tesoura. Sabe, faz muito tempo que no lhe corto o cabelo.
        Por que me incomodar de cortar os cabelos de meus irmos quando a nossa aparncia no influa no tipo de vida que levvamos? Carrie e eu no aparvamos o 
cabelo desde que ali chegramos. S os cabelos de minha testa foram cortados como sinal de submisso a uma velha malvada e impiedosa.
        Enquanto corria para buscar a tesoura, refleti como era esquisito que, embora nenhuma de nossas plantas crescessem, nossos cabelos cresciam depressa e com 
abundncia. Parecia que em todos os contos de fadas que eu j lera as donzelas em perigo eram sempre louras, de cabelos compridos. Alguma morena j fora aprisionada 
numa torre - se um sto pudesse ser considerado uma torre?
        Chris sentou-se no cho. Ajoelhei-me atrs dele. Embora os cabelos lhe cassem at abaixo dos ombros, ele no queria que eu os aparasse muito.
        - Agora, devagar com essa tesoura - advertiu ele nervosamente. - No corte demais de uma s vez. Sentir-me msculo de uma hora para outra nesse sto, numa 
tarde chuvosa, pode ser perigoso - pilheriou sorrindo.
        Ento, soltou uma gostosa risada, exibindo dentes regulares, alvos e brilhantes. Eu conseguira traz-lo de volta ao normal.
        Imitando os barbeiros, prendi-lhe os cabelos com um pente e aparei-os, no me atrevendo a cortar mais que alguns milmetros de cada vez. Tinha uma imagem 
mental de como queria que ele ficasse - como algum que eu admirava muito.
        Quando terminei o servio, escovei os pedaos de cabelos brilhantes que lhe haviam cado nos ombros e recuei para constatar que meu trabalho no fora nada 
mau.
        - Pronto! - exclamei triunfante, satisfeita por ter dominado o que me
parecia uma arte difcil. - Voc no s est extremamente bonito, como tambm 
#222
excepcionalmente msculo! Embora tenha sido sempre muito msculo,  uma pena que no tivesse conscincia do fato.
        Entreguei-lhe o espelho de prata com meu monograma gravado nas costas. O espelho representava um tero do conjunto de prata verdadeira que mame me dera 
como presente de aniversrio: escova, pente e espelho - todos trs cuidadosamente escondidos, para impedir que a av tomasse conhecimento de que eu possua valiosos 
objetos de vaidade e orgulho.
        - Meu Deus! Voc me deixou parecido com um Prncipe Valente louro! De incio, no gostei, mas agora estou vendo que mudou um pouco o corte, de modo a no 
ficar to quadrado. Fez o penteado em curva, para realar-me o rosto. Muito obrigado, Catherine. Eu no imaginava que fosse to hbil cabeleireira.
        - Tenho muitos predicados que voc ignora.
        - Comeo a desconfiar.
        - E o Prncipe Valente devia ter a sorte de se parecer com meu irmo msculo, bonito e louro - brinquei, sem deixar de admirar minha obra de arte.
        Oh, Deus, algum dia Chris partiria os coraes femininos!
        Ele colocou o espelho de lado, num gesto muito natural; antes que eu lhe adivinhasse a inteno, saltou sobre mim como um gato! Lutou comigo, arrastando-me 
de volta ao cho e, ao mesmo tempo, procurando agarrar a tesoura! Arrancou-a de minha mo e, depois, segurou um punhado do meu cabelo!
        - Agora, minha bela, vamos verificar se no serei capaz de fazer o mesmo por voc!
        Gritei, aterrorizada!
        Empurrei-o, jogando-o para trs, e me levantei de um pulo. Ningum iria cortar um milmetro sequer de meu cabelo! Talvez ele agora estivesse liso e fino 
demais, talvez no fosse to sensacional como antes, mas era todo o cabelo que eu possua e, mesmo agora, mais bonito que o da maioria das jovens. Fugi, correndo, 
da sala de aulas. Passei pela porta que se abria para o imenso sto, esgueirando-me por detrs de colunas, rodeando bas velhos, saltando mesinhas, pulando sobre 
poltronas e sofs cobertos com capas de pano. As flores de papel balanavam loucamente quando eu passava correndo e Chris me perseguia. As chamas das velas grossas 
e curtas que mantnhamos acesas durante o dia para alegrar e aquecer o vasto espao frio e sombrio bruxuleavam  nossa passagem, quase se apagando.
        E, por mais depressa que eu corresse, por mais astcia que empregasse nas minhas esquivas, no conseguia livrar-me do perseguidor! Olhei por cima do ombro 
e nem consegui reconhecer-lhe o rosto - o que me amedrontou ainda mais. Estirando-se para diante, ele tentou agarrar os cabelos longos que esvoaavam s minhas costas 
- parecendo muito decidido a cort-los! 
        Chris passara a detestar-me? Por que gastara um dia inteiro tentando devotadamente salvar-me os cabelos? Apenas para ceifar minha beleza por mero divertimento?
#223
        Corri de volta na direo da sala de aulas, planejando chegar l antes dele. Ento, fecharia a porta com fora, passando-lhe a chave; Chris voltaria ao normal 
e entenderia o absurdo da situao.
        Talvez ele tenha pressentido minha inteno e dado mais velocidade s
pernas compridas - pulou para a frente e agarrou minhas longas madeixas louras, fazendo-me gritar quando tropecei e ca de bruos!
        No ca sozinha: Chris tambm caiu - em cima de mim! Uma dor aguda penetrou-me o flanco! Berrei novamente - desta vez, no de terror mas de choque.
        Chris estava em cima de mim, com as mos apoiadas no cho, olhando-me com o rosto muito branco e amedrontado.
        - Machucou-se? Oh, Deus! Voc est bem, Cathy?
        Eu estava bem? Movendo a cabea, fitei o fluxo de sangue que me manchava rapidamente o suter. Chris tambm viu. Seus olhos azuis ficaram vidrados, desvairados, 
consternados. Com dedos trmulos, comeou a desabotoar a
frente do agasalho, a fim de abri-lo e examinar o ferimento.
        - Oh, Deus... - sussurrou, antes de exalar um suspiro de alvio. - Puxa vida! Graas a Deus... Tive muito medo de que fosse um furo. Uma penetrao profunda 
seria grave, mas  apenas um corte comprido, Cathy.  feio e sangra muito. No mova um msculo! Fique onde est enquanto vou ao banheiro buscar remdios e curativos.
        Primeiro, beijou-me no rosto e, em seguida, correu como um louco na direo da escada. Eu poderia ter ido com ele e poupado tempo, mas os gmeos estavam 
no quarto e veriam o sangue. Bastaria isso para que comeassem a berrar.
        Chris voltou correndo, em poucos minutos, com o nosso estojo de pronto-socorro. Deixou-se cair de joelhos ao meu lado, com as mos ainda midas da lavagem 
rpida que fizera no banheiro, apressado demais para enxug-las direito.
        Fiquei fascinada ao constatar que ele sabia exatamente o que fazer. Em primeiro lugar, dobrou uma toalha grossa e usou-a para comprimir o comprido talho. 
Parecendo muito srio e compenetrado, apoiou-se sobre a compressa, verificando a intervalos freqentes se o sangue estancara. Quando isto aconteceu, Chris aplicou 
no corte um anti-sptico que ardia como fogo e doa mais que o ferimento.
        - Sei que arde, Cathy... mas no posso evitar... tenho que usar isto para no haver infeco. Gostaria de ter materiais de sutura, mas talvez a cicatriz 
no seja permanente; rezo para que no seja. Seria to bom que as pessoas pudessem atravessar a vida inteira sem sofrerem cortes no invlucro perfeito que trazem 
de nascena. E aqui estou eu, o primeiro a causar uma cicatriz em sua pele. Se voc tivesse morrido por minha causa, o que poderia acontecer se a tesoura estivesse 
num ngulo diferente, eu tambm desejaria morrer.
        Terminara de fazer o papel de mdico e enrolava meticulosamente o restante da gaze antes de tornar a embrulh-la no papel azul e guard-la de volta no estojo. 
Guardou tambm o esparadrapo e fechou a tampa da caixa.
#224
        Debruado sobre mim, com o rosto acima do meu, seus olhos pareciam muito inquisitivos, preocupados, intensos. Olhos azuis, iguais aos de toda a famlia. 
Entretanto, naquele dia chuvoso, captavam as cores das flores de papel, transformando-se em duas lmpidas poas iridescentes. Senti um n na garganta, imaginando 
onde estaria o menino que eu conhecera, onde estaria meu irmo - e quem seria aquele jovem de barba loura que me fitava nos olhos de modo to prolongado. Bastava 
aquele olhar para que eu mergulhasse numa espcie de encantamento. E maior que qualquer dor ou sofrimento pelos quais eu passara antes - ou passaria depois - foi 
a dor que me causou o sofrimento que divisei nas cores caleidoscpicas dos olhos torturados de meu irmo.
        - Chris - murmurei, sentindo-me irreal, -  No me olhe assim. A culpa no foi sua.
        Peguei-lhe o rosto entre as palmas das mos e puxei-o de encontro ao seio, como vira mame fazer outrora.
        -  apenas um arranho que no di (embora doesse terrivelmente). E sei que voc no fez de propsito.
        Ele replicou com voz rouca, engasgada:
        - Por que voc correu? Persegui-a porque correu. E estava apenas brincando. Seria incapaz de cortar um s fio de seus cabelos; foi s uma brincadeira. E 
voc estava enganada ao dizer que achava seu cabelo bonito.  muito mais que bonito. Acho que voc tem os cabelos mais lindos do mundo.
        Senti uma punhalada no corao quando ele ergueu um pouco a cabea, a fim de espalhar-me os cabelos, formando um leque que cobria o seio desnudo. Percebi 
que aspirava profundamente o meu cheiro. Permanecemos deitados em silncio, escutando a chuva de inverno fustigar o telhado pouco acima de nossas cabeas. Silncio 
profundo ao redor de ns. Sempre o silncio. As vozes da natureza eram as nicas que nos chegavam at o sto. E a natureza
raramente falava num tom suave e amistoso.
        A chuva no telhado foi diminuindo gradativamente at que o sol apareceu para incidir sobre nossos cabelos arrancando-lhes reflexos semelhantes a longos e 
faiscantes fios de brilhantes.
        - Veja - disse eu a Chris. - Uma das tbuas do postigo da janela do oeste caiu.
        - timo - disse ele, parecendo sonolento e satisfeito. - Agora, teremos sol onde no tnhamos antes.
        Ento, acrescentou num sussurro:
        - Estou pensando em Raymond e Lily; na busca que empreenderam pelo lugar onde crescia a grama cor-de-prpura, onde todos os sonhos se tornam realidade.
        -  mesmo? Sob certo aspecto, eu estava pensando na mesma coisa repliquei, tambm num sussurro.
        Torci incessantemente em volta do polegar uma mecha de seus cabelos louros, simulando no perceber que uma de suas mos acariciava-me o seio que no ficara 
oculto sob sua cabea. Uma vez que no protestei, ele se atreveu a beijar o bico do seio. Sobressaltei-me, espantada, sem saber por que razo aquilo me proporcionava 
uma 
#225
sensao to estranha, extraordinariamente
excitante. O que era um bico de seio seno um montinho mais escuro na pele?
        - Posso imaginar Raymond beijando Lily onde voc me beijou - disse eu, sem flego, querendo que ele parasse e, ao mesmo tempo, desejando que continuasse. 
- Mas no consigo imagin-los fazendo o que vem em seguida.
        Palavras capazes de me fazerem a cabea explodir. As palavras exatamente adequadas a faz-lo fitar-me intensamente, com luzes estranhas faiscando nos olhos 
que pareciam mudar constantemente de cor.
        - Cathy, sabe o que vem em seguida?
        Senti o rosto esquentar.
        - Sim; sei mais ou menos. Voc sabe?
     Ele deu uma risadinha seca, como se costuma ler nos romances.
        - Claro que sei. No meu primeiro dia de escola, fui informado no banheiro dos meninos. Os mais velhos no sabiam falar de outra coisa. Escreviam nas paredes 
palavres cujo significado eu desconhecia. Mas logo recebi explicaes detalhadas. Garotas, beisebol, garotas, futebol, garotas, garotas, garotas. S sabiam conversar 
sobre garotas e as diferenas que existiam entre elas e ns.  um assunto fascinante para a maioria dos rapazes e, suponho, dos homens tambm.
        - Mas no  fascinante para voc?
        - Para mim? No penso em garotas ou sexo, embora preferisse que voc no fosse to malditamente linda! E tambm ajudaria se voc no estivesse sempre to 
perto de mim, to disponvel.
        - Ento, voc pensa em mim? Acha que sou bonita?
        Um gemido abafado escapou-lhe dos lbios - mais como um lamento. Sentou-se num arranco, fitando o que meu suter aberto deixava  mostra, pois o leque formado 
com meus cabelos se desfizera. Se eu no tivesse cortado a parte superior da malha de bal, ele no estaria vendo tanta coisa, mas eu
fora obrigada a cortar o corpete justo demais para mim.
        Com dedos trmulos e desajeitados, Chris abotoou a frente do agasalho, mantendo os olhos desviados dos meus.
        - Meta definitivamente uma coisa na cabea, Cathy:  claro que voc  bonita, mas irmos no consideram as irms como garotas, nem sentem por elas qualquer 
tipo de emoo que no seja tolerncia e afeio fraternal, e, s vezes, dio.
        - Quero que um raio me fulmine neste instante se voc sentir dio por mim, Christopher.
        - Ele ergueu as mos para cobrir o rosto, escondendo-se. Quando baixou a proteo, estava sorrindo, alegre. Pigarreou e disse:
        - Vamos. J  tempo de descermos para junto dos gmeos, antes que eles derretam os olhos de tanto fitarem aquele tubo luminoso.
        Senti dor ao levantar-me, embora Chris me amparasse. Abracei-me a ele, com o rosto colado em seu peito. Embora de tentasse afastar-me imediatamente, agarrei-me 
com mais fora.
        - Chris... o que fizemos h pouco... foi pecado?
#226
        Ele tornou a pigarrear.
        - Se voc pensar assim, ento foi.

        Que espcie de resposta era aquela? Se os pensamentos sobre pecado ficassem de lado, aqueles momentos no cho, quando ele me tocara to carinhosamente com 
dedos e lbios mgicos e excitantes, foram os melhores que passei desde que chegramos  abominvel manso. Ergui os olhos para verificar o que ele estava pensando 
e vi nos dele aquela estranha expresso. Paradoxalmente, Chris parecia mais feliz e mais triste, mais maduro e mais jovem, mais sbio... ou apenas sentia-se agora 
um homem? Se fosse isso., eu me alegrava, pouco importando se o que fizramos era ou no pecaminoso.
        De mos dadas, descemos para o quarto a fim de nos juntamos aos gmeos. Cory dedilhava o banjo, com o olhar grudado na televiso. Ento, pegou a guitarra 
e comeou a tocar uma de suas composies. O banjo servia apenas para msicas alegres, que mexiam com os ps da gente. A melodia de Cory era como a chuva no telhado: 
prolongada, triste e montona. Carrie cantava a letra simples que ele tambm compusera:

        Vou ver o sol,
        Vou encontrar meu lar,
        Vou sentir o vento, 
        Vou tornar a ver o sol.

        Sentei-me no cho, perto de Cory, e tirei-lhe a guitarra das mos, pois tambm sabia tocar um pouco. Ele me ensinara - alis, ensinara a todos ns. E cantei 
para ele a triste cano de Dorothy no filme *O Mgico de Oz* - um filme que os gmeos adoravam toda vez que era exibido na televiso. Quando terminei de cantar 
sobre os pssaros que voavam acima do arco-ris, Cory indagou:
        - No gosta de minha cano, Cathy? -
        - Pode apostar que gosto de sua cano, mas  muito triste. Que tal escrever uma letra alegre, com um pouco de esperana?
        O pequeno camundongo estava enfiado no bolso da camisa de Cory, apenas o rabo do lado de fora, catando migalhas de po que restavam no fundo. Afinal, Mickey 
torceu o corpo e a cabea apareceu. Depois, parte do corpo. O ratinho segurava delicadamente nas patas dianteiras um pedao de po e comeou a ro-lo. A expresso 
do rosto de Cory quando ele baixou a cabea para fitar seu primeiro animalzinho de estimao comoveu-me to profundamente que desviei o rosto para no chorar.
        - Cathy, voc sabe que mame nunca disse nada a respeito da minha mascote?
        - No reparou em Mickey, Gory.
        - Por que no reparou?
        Suspirei, sem saber ao certo quem ou o que minha me era agora, seno uma desconhecida a quem ns amramos no passado. 
#227
Uma coisa eu aprendera: no  s a morte que nos rouba as pessoas que amamos e de quem necessitamos.
        - Mame tem um novo marido - disse Chris num tom animado. - Quando a pessoa est apaixonada s repara em sua prpria felicidade, mas no na dos outros. Em 
breve ela notar que voc tem um amigo.
        Carrie olhava para o meu agasalho.
        - Cathy, o que  isso no seu suter?
        - Tinta - respondi sem a menor hesitao. - Chris estava tentando ensinar-me a pintar e ficou zangado quando meu quadro ficou mais bonito do que todos os 
que ele fez at hoje. Por isso, pegou uma tigelinha com tinta vermelha e jogou em mim.
        Meu irmo mais velho limitou-se a continuar sentado e calado, com a mais esquisita expresso no rosto.
        - Chris, Cathy pinta melhor que voc?
        - Se ela diz isso, deve ser verdade.
        - Onde est o quadro dela?
        - No sto.
        - Quero ver.
        - Ento, levante-se e suba para v-lo. Estou cansado. Quero assistir  televiso enquanto Cory prepara o jantar.
        Lanou-me um rpido olhar de esguelha.
        - Minha querida irm, por uma simples questo de convenincia, importa-se de vestir um agasalho limpo antes de nos sentarmos  mesa para jantar? A tinta 
vermelha tem algo que me provoca uma sensao de remorso.
        - Parece sangue - declarou Cory .- Est duro como sangue quando a gente no lava.
        - Tinta de cartazes - replicou Chris, enquanto me levantei para ir ao banheiro vestir um suter vrios nmeros maior que meu tamanho. - As tintas de cartazes 
endurecem.
        Satisfeito com a explicao, Cory comeou a contar a Chris que este perdera os dinossauros na televiso.
        - So maiores que essa casa, Chris! Saram da gua e engoliram o bote com os dois homens! Eu sabia que voc ficaria triste por perder o programa!
        - Sim - confirmou Chris com ar sonhador. - Eu gostaria muito de ter assistido.
        Naquela noite, senti-me estranhamente nervosa e inquieta; meus pensamentos sempre voltavam  maneira como Chris me olhara no sto.
        Ento, compreendi qual era o segredo que eu procurara durante tanto tempo - o interruptor secreto que ligava o amor... fsico, o desejo sexual. No era apenas 
a simples viso de corpos despidos, pois muitas vezes eu dera banho em Cory e vira Chris nu, sem sentir qualquer excitao especial pelo fato de eles terem algo 
diferente do que Carrie e eu tnhamos. A nudez nada significava.
        Eram os olhos. O segredo do amor estava nos olhos, na maneira de uma pessoa olhar para outra, no modo como os olhos comunicavam e falavam enquanto os lbios 
ficavam imveis.
#228
Os olhos de Chris tinham-me dito mais do que dez mil palavras conseguiriam dizer.
        E no era apenas a maneira pela qual ele me tocara, com carinho e ternura; era o modo como ele me tocava enquanto me olhava daquele jeito - por isso a av 
estabelecera a norma de no olharmos para pessoas do sexo oposto. Oh, imaginar que a velha bruxa conhecia o segredo do amor! Ela jamais poderia ter amado - no, 
no ela, com seu corao de ferro e espinha de ao... Seus olhos nunca poderiam ter sido suaves.
        Ento,  medida que refletia mais profundamente sobre o assunto, constatei que era o que existia por detrs dos olhos, no crebro, desejando agradar, satisfazer, 
fazer feliz, dar prazer e afastar a solido de nunca ter algum que nos compreenda como desejamos ser compreendidos.
        O pecado nada tinha a ver com o amor, o verdadeiro amor. Virei a cabea e percebi que Chris tambm estava acordado, encolhido de lado, olhando para mim. 
Sorriu com a maior doura e tive vontade de chorar por ele - e por mim.

        Nossa me no nos visitou naquele dia, como no nos visitara na vspera, mas encontramos um meio de alegrar-nos tocando os instrumentos de Cory e cantando 
juntos. A despeito da ausncia de uma me que se tornara muito, muito negligente, fomos para a cama mais esperanosos naquela noite. Cantarmos canes alegres durante 
vrias horas convencera-nos todos de que o sol, o amor, o lar e a felicidade estavam logo depois da prxima esquina e nossos longos dias de jornada atravs de uma 
floresta densa e escura estavam quase terminando.

        Algo escuro e aterrador se insinuou em meus sonhos alegres. Formas corriqueiras assumiam propores monstruosas. Com os olhos fechados, vi a av entrar sorrateiramente 
no quarto e, julgando-me adormecida, raspar-me completamente a cabea! Gritei, mas ela no me ouviu - ningum me escutou. Ela pegou uma comprida faca brilhante e 
amputou-me os seios, enfiando-os na boca de Chris. E ainda havia mais. Debati-me, esperneei e choraminguei, acordando Chris. Os gmeos continuavam a dormir Como 
se j estivessem mortos e enterrados. Sonolento, Chris se aproximou troperando e sentou-se na beira da cama. Tateando  procura de minha mo, indagou:
        - Outro pesadelo, Cathy? 
        Nooo! No se tratava de um pesadelo comum! Era uma previso, de natureza psquica, esprita. Eu a sentia na medula dos ossos - algo terrvel estava por 
acontecer. Debilitada e trmula, contei a Chris o que a av me fizera.
        - E isso no  tudo. Foi mame quem entrou com uma faca e me arrancou o corao! Estava toda enfeitada com jias de brilhantes!
     - Cathy, sonhos nada significam.
#229
        - Significam, sim!
        Relatei a meu irmo outros sonhos e outros pesadelos. Ele escutava, sorria, comentava que devia ser maravilhoso ter noites como filmes de cinema - mas no 
era assim. Num cinema, a pessoa senta e olha para uma grande tela, sabendo que est apenas assistindo a uma estria que outra pessoa escreveu. Nos sonhos, eu participava. 
Fazia parte do sonho, sentindo, sofrendo, e - sinto dizer - muito raramente gostando.
        J que estava to acostumado a mim e minhas manias estranhas, por que Chris sentava-se imvel como uma esttua de mrmore, como se aquele meu ltimo sonho 
o afetasse mais que qualquer um dos anteriores? Tambm estivera sonhando?
        - Cathy, sob minha palavra de honra, vamos fugir desta casa! Fugiremos os quatro! Voc me convenceu. Seus sonhos devem ter algum significado, do contrrio 
no se repetiriam com tanta insistncia. Est provado que as mulheres so mais intuitivas que os homens. O subconsciente trabalha durante a noite. No mais aguardaremos 
que mame herde a fortuna de um av que
continua vivendo indefinidamente e se recusa a morrer. Juntos, voc e eu encontraremos um meio de fugirmos. A partir desse instante, juro por minha vida, confiaremos 
apenas em ns dois... e nos seus sonhos.

        Pela maneira intensa como fez a declarao, percebi que meu irmo no estava zombando de mim nem se divertindo - falava srio! Fiquei to aliviada que tive 
vontade de gritar. amos fugir. Afinal, aquela casa no conseguiria derrotar-nos!
        Na obscuridade e frio daquele quarto sombrio e abarrotado, meu irmo me olhou nos olhos. Talvez me visse como eu o estava vendo, parecendo maior que o tamanho 
normal, mais delicado que um sonho. Inclinou lentamente a cabea sobre a minha e beijou-me em cheio nos lbios, como se procurasse selar seu juramento com algo forte 
e significativo. Foi um beijo to demorado e peculiar que me senti cair, cair, cair - quando j estava deitada!

        A coisa de que mais necessitvamos era uma chave da porta de nosso quarto. Sabamos que era a chave-mestre, servindo para todos os outros aposentos da casa. 
No podamos utilizar a escada de lenis por causa dos gmeos e ambos sabamos que nossa av jamais seria to descuidada a ponto de largar a chave ao nosso alcance. 
Ela nunca procedia assim; costumava abrir a porta e guardar imediatamente a chave no bolso do vestido. Seus detestveis vestidos cinzentos sempre tinham bolsos.
        Nossa me, por sua vez, era descuidada, esquecida e indiferente. E no gostava de ter nas roupas bolsos que prejudicassem sua elegante silhueta. Passamos 
a contar com ela.
        E por que haveria ela de temer algo por parte de ns - os passivos, os obedientes, os silenciosos? Seus cativos "queridinhos" exclusivos, que jamais cresceriam 
e representariam uma ameaa. Ela estava feliz, apaixonada; seus olhos brilhavam e ela ria com muita freqncia. Era to pouco observadora
#230
que nos dava vontade de gritar para obrig-la a ver as coisas - ver os gmeos to quietos e com aparncia to doentia! Ela nunca mencionou o camundongo - por que
no enxergava a mascote? Mickey ficava no ombro de Cory, mordiscando-lhe a orelha, e nossa me nunca disse uma palavra a respeito - nem mesmo quando as lgrimas
escorriam livremente pelo rosto de Cory porque ela no O elogiava por conquistar o afeto de um ratinho muito teimoso que teria ido embora no incio, se pudesse.
        Ela vinha, generosa, duas ou trs vezes por ms, sempre trazendo presentes que lhe serviam de alvio, embora no nos mitigassem as aflies. Entrava graciosamente
para sentar-se durante algum tempo, usando roupas caras e elegantes, forradas de peles e enfeitada com jias valiosas.
        Acomodava-se em seu trono como uma rainha e distribua caixas de tintas para Chris, sapatilhas de bal para mim e roupas sensacionais para todos ns - apropriadas
para usarmos no sto, pois l em cima pouca importncia fazia o fato de que elas raramente nos serviam, sendo grandes ou pequenas demais; nossos sapatos s vezes
eram confortveis, s vezes no; e eu ainda aguardava o suti que ela continuava a prometer mas sempre esquecia de trazer.
        - Vou-lhe trazer uma dzia, ou mais - declarava com um sorriso benevolente. - De todos os tamanhos e todas as cores, para que voc experimente todos eles
e escolha os que lhe agradarem mais e lhe servirem melhor. Os outros, eu darei s empregadas.
        E no parava de tagarelar animadamente, sempre fiel  sua falsa fachada, simulando que ainda ramos importantes em sua vida.
        Eu me sentava, fixava O olhar em seu rosto e esperava que ela perguntasse pela sade dos gmeos. Esquecera-se de que Cory sofria de febre alrgica que lhe
provocava uma coriza constante e s vezes ficava com o nariz to congestionado que s conseguia respirar pela boca? Ela sabia que ele precisava to. Amar injees
antialrgicas uma vez por ms e j se haviam passado anos desde que tomara a ltima. No se magoava ao ver Cory e Carrie agarrados s minhas saias, como se fosse
eu quem os dera  luz? Nada conseguia chegar ao seu consciente para faz-la ver que havia algo errado?
        Se chegava, ela no dava o menor indcio de ver-nos seno como perfeitamente normais, embora eu me desse o trabalho de relatar todas as nossas pequenas molstias:
vomitvamos com freqncia, sentamos dores de cabea, cibras no estmago e, s vezes, ficvamos sem energia.
        - Guardem a comida no sto, onde faz mais frio - replicava ela sem hesitao.
        Tinha a coragem de falar-nos de festas, concertos, teatros, cinemas, bailes e das viagens que fazia com o seu "Bart".
        - Bart e eu vamos fazer compras em Nova York - anunciava. - Digam-me o que desejam que eu traga. Faam uma lista.
        - Mame, depois de fazer as compras de Natal em Nova York, aonde voc ir? - indaguei, tendo a cautela de no olhar para a chave que ela largara com tanta
displicncia em cima da cmoda.
#231        
        Ela riu, gostando da pergunta, e cruzou as mos alvas e esguias antes de iniciar um relatrio do que planejava fazer nos dias enfadonhos que se seguiam s
festas natalinas.
        - Uma viagem pelo Sul, talvez um cruzeiro, ou mais ou menos um ms na Flrida. E sua av estar aqui para cuidar bem de vocs.
        Enquanto ela continuava a tagarelar interminavelmente, Chris aproximou-se furtivamente e guardou a chave no bolso das calas. Depois, pediu licena e foi 
calmamente para o banheiro. Nem precisava preocupar-se; ela no notou sua ausncia. Estava cumprindo uma obrigao: visitar os filhos - e, graas a Deus, escolhera 
a cadeira certa para sentar-se. Eu sabia que Chris, no banheiro, apertava a chave contra uma barra de sabo que ali mantinha especialmente preparada para tirar um 
molde da chave: mais uma das muitas coisas que havamos aprendido ao assistirmos  televiso por horas e horas a fio.

        Depois que nossa me saiu, Chris pegou o pedao de madeira que escolhera previamente e comeou imediatamente a esculpir com o canivete uma tosca chave de 
madeira. Embora dispusssemos de metal  vontade nas trancas dos velhos bas, no tnhamos instrumentos adequados para cort-lo e dar-lhe forma. Chris trabalhou 
como um escravo, por muitas horas, esculpindo meticulosamente a chave, comparando-a freqentemente com a impresso que ficara gravada no sabo agora endurecido. 
Chris selecionara propositadamente uma madeira muito dura, temendo que madeira mais macia pudesse partir-se na fechadura e denunciar nosso plano de fuga. Precisou 
de trs dias de trabalho rduo e cuidadoso antes de conseguir que a chave funcionasse.
        Que euforia, a nossa! Abraamo-nos, danando pelo quarto, rindo, beijando-nos, quase chorando. Os gmeos nos observavam, perplexos por nos verem to cheios 
de jbilo devido a uma simples chavinha.
        Tnhamos uma chave. Podamos abrir a porta de nossa priso. Todavia, por estranho que parea, no havamos planejado nosso futuro alm da porta aberta.
        - Dinheiro. Precisamos ter dinheiro - argumentou Chris, estacando no meio do nosso bailado triunfal. - Com muito dinheiro todas as portas se abriro e poderemos 
viajar por todas as estradas.
        - Mas onde conseguiremos dinheiro? - indaguei, franzindo a testa e sentindo-me infeliz.
        Refleti que ele arranjara outra desculpa para adiarmos a fuga.
        - No h outro jeito seno roubarmos de mame, do marido dela e da av.
        Fez a declarao de modo muito tranqilo, como se o roubo fosse uma profisso tranqila e honrosa. E talvez fosse, em caso de necessidade premente. Ainda 
.
        - Se formos apanhados, seremos todos aoitados, inclusive os gmeos - ponderei, lanando um olhar aos rostos amedrontados de nossos irmos menores. - E quando 
mame 
#232
viajar com o marido, ela poder tentar matar-nos de fome mais uma vez. S Deus sabe o que ela  capaz de fazer.
        Chris deixou-se cair no banquinho da penteadeira. Apoiou o queixo nas mos com ar pensativo e refletiu durante alguns minutos. 

        - Uma coisa  certa: no quero que voc e os gmeos sejam castigados. Portanto, eu farei os roubos e assumirei toda a culpa se for apanhado. Mas no serei 
apanhado;  arriscado demais roubar alguma coisa daquela velha - ela  muito observadora. No h dvida de que sabe, at o
ltimo centavo, quanto dinheiro tem na 
bolsa. Mame jamais conta o dinheiro. Lembra-se de como papai costumava reclamar disso? - comentou, sorrindo para reconfortar-me. - Serei exatamente como Robin Hood, 
roubando dos ricos para dar aos pobres e necessitados, ns! E s nas noites em que mame nos disser que sair com o marido.
        - Voc quer dizer: quando ela nos avisar - corrigi. - E sempre podemos olhar pela janela, nos dias em que ela no vier aqui.
        Quando nos atrevamos a espiar pela janela, tnhamos uma boa viso da alameda curva de acesso  casa, que nos permitiria controlar as chegadas e partidas 
dos automveis.
        Em breve mame nos anunciou que ia a uma festa.
        - Bart no liga muito para a vida social; prefere ficar em casa. Mas eu detesto essa casa. Ento, ele pergunta por que no vamos morar em nossa prpria casa, 
e o que posso responder?
        O que podia ela responder? Querido, tenho um segredo a lhe contar: tenho quatro filhos escondidos l em cima, nos confins da ala norte.

        Foi bastante fcil para Chris encontrar dinheiro no quarto luxuoso e esplndido de sua me. Ela no tinha o menor cuidado do dinheiro. At mesmo Chris ficou 
chocado ao constatar com que displicncia notas de dez e vinte dlares eram largadas em cima da penteadeira e da cmoda. Franziu a testa, desconfiado. Ela no afirmava 
estar economizando dinheiro para o dia em que sairamos da nossa priso... apesar de agora ter um novo marido? Mais notas em suas muitas bolsas e carteiras. Chris 
encontrou trocados nos bolsos das calas do marido. No, ele no era to descuidado com o dinheiro dele. Todavia, quando Chris procurou embaixo das almofadas da 
poltrona, encontrou mais de uma dzia de moedas. Sentia-se como um ladro, um intruso indesejvel no quarto de sua me. Viu as roupas lindas, as chinelas forradas 
de cetim, os ngligs com golas e punhos de pele ou plumas de marabu, fazendo com que sua confiana nela diminusse ainda mais.

        Naquele inverno, Chris visitou repetidamente o quarto da me, tornando-se cada vez mais descuidado, j que era to fcil roubar. Voltava para perto de mim 
cheio de jbilo, mas, ao mesmo tempo, parecendo triste. Nosso tesouro escondido aumentava dia a dia - que motivo havia para tristeza?
        - Venha comigo na prxima vez - replicou ele,  guisa de explicao. - Veja por si mesma.
#233
        Agora, eu podia ir com a conscincia tranqila, sabendo que os gmeos no acordariam para se verem sozinhos. Dormiam to profundamente que at mesmo de manh 
acordavam de olhos inchados, preguiosos, relutando em voltar  realidade. s vezes, eu sentia medo ao v-los adormecidos. Duas bonecas que no cresciam, to mergulhados 
no esquecimento que mais pareci uma morte parcial que um repouso noturno normal.
        Ir embora, fugir; a primavera estava chegando e precisvamos partir antes que fosse tarde demais. Uma voz interior, intuitiva, repetia-me constantemente 
tal advertncia. Chris riu quando lhe contei.
        - Cathy, voc e suas idias! Precisamos de dinheiro; no mnimo, quinhentos dlares. Para que tanta pressa? Agora, temos comida e no somos surrados; ela 
no diz uma palavra, at mesmo quando nos encontra semidespidos.
        Por que a av deixara de castigar-nos? No havamos contado a mame os outros castigos que ela nos aplicara, os pecados que cometera contra ns - pois, para 
mim, eram pecados que jamais teriam qualquer justificativa. No obstante, a velha passara a controlar a mo. Trazia-nos diariamente a cesta de piquenique, cheia 
at a borda de sanduches, sopas mornas em garrafas trmicas, leite e - sempre - quatro rosquinhas cobertas de acar. Por que no variava o nosso cardpio e trazia 
biscoitos, bolinhos e fatias de torta?
        - Vamos - apressou-me Chris, puxando-me ao longo dos corredores to escuros e sinistros. - Demorar-nos num s lugar  perigoso. Daremos uma espiada no salo 
de trofus e depois correremos ao quarto de mame.
        Na verdade, bastou-me um rpido olhar ao salo de trofus. Detestei - cheguei a odiar aquele retrato a leo acima da lareira de pedra; to parecido com papai 
e, ao mesmo tempo, to diferente. Um homem to cruel e desalmado como Malcolm Foxworth no tinha direito de ser bonito, mesmo quando jovem. Aqueles frios olhos azuis 
deveriam corromper-lhe o resto do corpo com lceras e chagas. Vi todas aquelas cabeas empalhadas de animais e as peles de tigre e urso no cho. Refleti que era 
bem ao feitio do velho desejar um salo como aquele.
        Se Chris permitisse, eu teria entrado em todos os quartos. Mas ele insistiu em ignorar as portas fechadas, deixando-nos apenas dar uma rpida espiada para 
dentro de uns poucos quartos.
        - Intrometida! - ralhou num sussurro. - No h nada de interessante a dentro.
        Tinha razo. Tinha razo em muitas coisas. Naquela noite, compreendi o que Chris quisera dizer ao comentar que aquela casa era grandiosa e rica, mas nada 
tinha de bonita ou acolhedora. No obstante, fiquei deveras impressionada. Nossa casa de Gladstone parecia minscula em comparao.
        Depois de percorrermos silenciosamente muitos corredores compridos e mal iluminados, chegamos finalmente ao grandioso apartamento de nossa me. Naturalmente, 
Chris descrevera em detalhes a grande cama em forma de cisne, com a cama menor atravessada aos ps - mas escutar no era ver! No se tratava de um quarto, mas de 
um aposento digno de uma rainha ou princesa! Perdi o flego. Louvado seja Deus! Mal consegui acreditar em tamanho esplendor e 
#234
opulncia! Estonteada, corri de um lugar para outro, deslumbrada ao tocar as paredes forradas de damasco, de cor-de-morango mais viva em contraste com o lils do 
tapete de cinco centmetros de espessura. Apalpei a macia colcha de pele e atirei-me na cama, rolando sobre ela. Toquei o fino cortinado da cama e as cortinas mais 
pesadas, feitas de veludo vermelho. Pulei da cama e observei, admirada, o maravilhoso cisne que parecia manter o olho vermelho, sonolento mas vigilante, fixo em 
mim.
        Ento, recuei, no gostando de uma cama onde mame dormia com um homem que no era nosso pai. Entrei no enorme closet, tendo a impresso de flutuar entre 
roupas sadas de um sonho de riqueza, que eu jamais possuiria
- exceto em sonhos. Ela possua mais roupas que uma loja de departamentos. Alm de sapatos, chapus e bolsas. Quatro casacos de pele longos, trs estolas de pele, 
uma pelerine de arminho branco, outra de marta escura, alm de chapus e gorros de pele de diferentes feitios e animais, e um casaco de leopardo com l verde entre 
os arremates de pele. Ngligs, camisolas, conjuntos de pegnoir, de babados, bufantes, enfeitados com fitas, plumas, peles, feitos de veludo, cetim, chiffon, combinaes 
- meu Deus! Ela teria que viver mil anos para usar apenas uma vez cada uma daquelas roupas!
        O que mais me chamava a ateno, eu tirava do closet e levava ao quarto de vestir dourado que Chris me mostrara. Dei uma espiada no banheiro forrado de espelhos, 
com plantas naturais e dois vasos - um sem tampa (hoje em dia, sei que um deles era o bid). O banheiro ficava num box  parte,
        - Tudo isso  novo - explicou Chris. - Quando estive aqui pela primeira vez... na festa de Natal, voc sabe... no era to... bem, no era to opulento como 
agora.
        Girei nos calcanhares para encar-lo raivosamente, achando que sempre fora assim e ele no me contara. Protegera deliberadamente a me, no querendo que 
eu soubesse a respeito de todas aquelas roupas e peles, alm da fabulosa quantidade de jias que ela escondia num compartimento secreto da comprida penteadeira. 
No, Chris no mentira - simplesmente omitira. Estava evidente em seus olhos esquivos e no rosto corado, bem como na maneira apressada com que se retirou para fugir 
s minhas indagaes - no era de espantar que ela no quisesse dormir no nosso quarto!
        Fiquei no quarto de vestir, experimentando roupas retiradas do vasto
closet de mame. Pela primeira vez na vida, calcei meias de nylon e minhas pernas ficaram celestiais - divinas! No era surpresa que as mulheres gostassem daquilo! 
Em seguida, experimentei pela primeira vez um suti que, para meu desgosto, era grande demais para mim. Enchi-o com papel de seda, at ficar firme e protuberante. 
Em seguida, sandlias prateadas, tambm muito grandes. Coroei meu esplendor com um vestido preto muito decotado na frente para mostrar aquilo que eu no possua 
em tamanho adequado.
        Ento, chegou a parte divertida - o que eu costumava fazer quando criana, sempre que surgia uma oportunidade. Sentei-me  penteadeira de mame e comecei 
a aplicar seus cosmticos com mo bastante liberal. Ela possua caminhes de cosmticos. Usei de tudo no rosto: base, ruge, p de arroz,
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sombras, batom. Depois, puxei os cabelos para cima, de uma forma que considerei sexy e elegante, prendendo-os com grampos. Em seguida, peguei jias. E, finalmente, 
perfume - em grande quantidade.
        Vacilando desajeitadamente nos altos, fui procurar Chris.
        - Que tal? - perguntei com ar provocante, sorrindo e piscando os clios lambuzados.
        Na verdade, esperava elogios. Os espelhos j no me tinham dito que eu estava sensacional?
        Chris revistava cuidadosamente uma gaveta, recolocando tudo no exato lugar onde encontrara, mas olhou por cima do ombro. Seus olhos se arregalaram de espanto 
e seu rosto ficou carrancudo, enquanto eu balanava para a frente, para trs e para os lados, procurando equilibrar-me sobre os saltos de dez centmetros, e continuava 
a piscar os clios. Talvez no soubesse colocar direito os clios postios, pois tinha a impresso de estar vendo tudo por entre pernas de aranha.
        - Que tal? - comeou ele, sarcstico. - Deixe-me dizer exatamente: voc est parecendo uma prostituta de rua,  isso a!
        Deu-me as costas com repugnncia, como se no suportasse mais olhar para mim.
        - Uma prostituta adolescente,  isso a! Agora, v lavar  cara e recolocar tudo onde encontrou! E trate de limpar a penteadeira!
        Caminhei, com dificuldade, at o espelho comprido mais prximo. Tinha dobradias em ambas as partes laterais, de modo que mame podia ajust-las e mirar-se 
de todos os ngulos. Diante daqueles trs espelhos to reveladores, pude ver-me sob uma nova perspectiva - e era um espelho realmente fascinante; fechava-se como 
um livro com folhas de trs pginas, transformando-se num painel com uma linda paisagem buclica francesa.
        Virando-me e contorcendo-me, examinei detalhadamente minha aparncia. No era assim que mame ficava naquele mesmo vestido. Qual fora o meu erro?  bem verdade 
que ela no usava tantas pulseiras ao mesmo tempo, nem trs colares diferentes, alm de longos pingentes de brilhantes que lhe roassem os ombros e uma tiara; sem 
mencionar dois ou trs anis em cada dedo,
inclusive os polegares!
        Oh, mas eu estava realmente ofuscante. E meus seios protuberantes eram absolutamente magnficos! A bem da verdade, fui forada a admitir que exagerara.
        Tirei as dezessete pulseiras, os vinte e seis anis, os colares, a tiara e o vestido de gala preto, de gaze, que no ficava to elegante em mim como em mame, 
quando ela o usava com um simples colar de prolas. Oh, mas as peles... ningum conseguia deixar de sentir-se bela usando peles como aquelas!
        - Depressa, Cathy. Deixe isso de lado e venha ajudar-me a procurar.
        - Chris, eu adoraria tomar um banho na banheira de mrmore negro.
        - Deus do cu! No dispomos de tempo para isso! 
        Despi as roupas de mame, o suti de renda preta, as meias de nylon e as sandlias prateadas. Vesti minhas prprias roupas. Depois, pensando 
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melhor, tirei um simples suti branco da gaveta onde existiam tantos e o escondi dentro da blusa. Chris no precisava de minha ajuda; j estivera ali tantas vezes 
que podia encontrar dinheiro sem meu auxlio. Eu desejava saber o que havia dentro de cada gaveta, mas tinha que agir depressa. Abri uma pequena gaveta da mesinha 
de cabeceira de mame, esperando encontrar creme de limpeza e lenos de papel, mas nada de valor que as criadas pudessem roubar. E l estava o creme de limpeza na 
gaveta, junto com lenos de papel e dois livros para distra-la quando estivesse sem sono. (Haveria noites em que ela se mexia nervosamente na cama, sem conseguir 
adormecer porque pensava em ns?) Sob a duas brochuras estava um pesado livro grosso, encadernado com uma capa colorida. Como Criar Seus Prprios Desenhos de Bordar. 
Ora, eis um ttulo capaz de causar-me espcie. Mame me ensinara alguns pontos de bordado e de croch em meu primeiro aniversrio naquele quarto que nos servia de 
priso. Seria interessante eu aprender a desenhar meus prprios bordados.
        Peguei o livro e comecei a folhe-lo a esmo. Atrs de mim, Chris produzia leves rudos ao abrir e fechar gavetas, movimentando-se a passos macios. Eu esperava 
encontrar desenhos de flores - tudo, menos o que vi naquelas pginas. Calada, com os olhos esbugalhados, dominada por atordoado fascnio, olhei para as fotografias 
coloridas. Fotos incrveis de homens e mulheres despidos fazendo... as pessoas faziam realmente coisas assim? Aquilo era fazer amor?
        Chris no fora o nico a escutar estrias sussurradas, acompanhadas por muitas risadinhas das meninas mais velhas que se reuniam em grupos no banheiro da 
escola. Ora, eu acreditava que o amor devia ser feito como coisa sagrada, digna de respeito, na mais completa privacidade, comas portas trancadas. Aquele livro exibia 
fotos de muitos casais num s quarto, todos nus,
todos se penetrando de alguma forma. Contra minha vontade - ou assim preferi pensar - minha mo virava cada pgina e eu ficava cada vez mais incrdula! Tantas maneiras 
de fazer aquilo! Tantas posies! Meu Deus, era aquilo que os enamorados Raymond e Lily tinham em mente desde a primeira pgina daquele romance vitoriano? Ergui 
a cabea e fitei o espao, sem enxergar. Desde o incio de nossas vidas, estvamos todos destinados quilo?
        Chris me chamou, informando que j coletara dinheiro suficiente. No podia roubar muito de uma s vez, para que no percebessem. Estava levando apenas umas 
poucas notas de cinco, muitas de um dlar e todas as moedas que achara Sob as almofadas.
        - O que h com voc, Cathy? Ficou surda? Vamos!
        No pude mover-me. No podia sair; no podia fechar aquele livro sem olh-lo da primeira  ltima pgina. J que eu estava to embevecida e incapaz de responder, 
ele se aproximou para espiar por cima do meu ombro e verificar o que me mantinha to hipnotizada. Escutei-o prender bruscamente a respirao. Depois de uma eternidade, 
tornou a solt-la num leve assovio. No disse uma s palavra at que cheguei ao final e fechei o livro. Ento, Chris o pegou de minhas mos e comeou da primeira 
pgina, examinando cada uma das pginas que deixara de ver. Fiquei a seu lado, vendo tudo outra vez. Havia texto,
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em tipo pequeno, nas pginas opostas s fotos de pgina inteira. Mas as fotos no precisavam de explicao - pelo menos, no para mim.
        Chris fechou o livro. Lancei-lhe um olhar rpido. Parecia aturdido. Devolvi o livro  gaveta, colocando as brochuras por cima, exatamente como as encontrara. 
Chris tomou-me a mo, puxando-me na direo da porta. Torna-mos a percorrer em silncio os longos corredores escuros que levavam de volta  ala norte. Agora, eu 
compreendia muito bem por que motivo a bruxa av fizera questo que Chris e eu dormssemos em camas separadas, pois aquele irresistvel apelo da carne era to forte, 
to exigente e to excitante que podia levar as pessoas a agirem mais como demnios que como santos. Debrucei-me sobre Carrie, fitando-lhe o rosto adormecido que, 
no sono, recuperava a inocncia e infantilidade que a abandonavam quando acordada. Parecia um pequeno querubim, deitada de lado, encolhida, o rosto corado, o cabelo 
mido e encaracolado na nuca e na testa. Beijei-a e seu rosto me pareceu quente. Ento, fui at Cory para tocar-lhe os cabelos crespos e macios, beijando seu rostinho 
vermelho. Crianas como os gmeos eram feitas de uma parte do que eu vira naquele livro de fotografias, de modo que nem tudo podia ser pecaminoso, do contrrio Deus 
no teria feito o homem e a mulher como eles eram. No obstante, sentia-me to perturbada, to insegura e, no fundo, to aturdida e chocada, mas...
        Fechei os olhos e rezei silenciosamente: Deus, mantenha os gmeos em segurana e saudveis at que estejamos longe daqui... permita que vivam at chegarem 
a um lugar ensolarado e belo, onde no existam portas trancadas... por favor.
        - Pode usar o banheiro primeiro - disse Chris, sentando-se no seu lado da cama, de costas para mim, com a cabea baixa.
        Era a sua vez de tomar banho primeiro.
        Como se dominada por uma espcie de feitio, fui ao banheiro, fiz o que tinha de fazer e voltei ao quarto usando minha camisola mais quente e recatada. Limpara 
toda a maquilagem do rosto. Meu cabelo recm-lavado ainda estava ligeiramente mido e sentei-me na beira da cama para escov-lo at ficar ondulado e brilhante.
        Chris se ergueu silenciosamente e entrou no banheiro sem olhar para mim. Quando saiu, muito depois, e eu ainda estava escovando o cabelo, evitou olhar-me. 
Nem eu queria que ele me olhasse.
        Uma das normas estabelecidas pela av obrigava-nos a nos ajoelharmos junto  cama todas as noites para fazer nossas preces. Apesar disso, naquela noite nenhum 
de ns se ajoelhou. Muitas vezes, eu ficava de joelhos ao lado da cama, com as mos postas sob o queixo, e no sabia o que pedir a Deus,
pois j fizera tantas oraes e nenhuma delas fora atendida. Limitava a permanecer ajoelhada, com a mente vazia e o corao desolado, mas o corpo e os nervos sentiam 
tudo e berravam o que eu no tinha coragem de pensar muito menos dizer.
        Estendi-me de costas ao lado de Carrie, sentindo-me imunda e mudada por aquele pesado livro que eu desejava ver de nodo - e, se pudesse, ler todo
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o texto. Talvez fosse o mais correto recolocar o livro na gaveta logo que percebi do que se tratava - e, sem dvida, deveria t-lo fechado quando Chris veio espiar 
por cima do meu ombro. Eu j sabia que no era uma santa, ou um anjo, ou uma pudica puritana; sentia na medula dos ossos que algum dia, num futuro bem prximo, teria 
necessidade de saber tudo a respeito das maneiras de utilizarmos os corpos nos atos do amor.
        Devagar, muito devagar, virei a cabea para espiar atravs da rsea obscuridade do quarto e ver o que Chris estava fazendo.
        Ele estava deitado de lado, sob as cobertas, olhando para mim. Seus olhos refletiam alguma luz que penetrava atravs das pesadas cortinas, pois o brilho 
que neles havia nada tinha de cor-de-rosa.
        - Voc est bem? - indagou.
        - Sim, estou sobrevivendo.
        Ento, dei-lhe boa-noite numa voz que nem parecia a minha.
        - Boa-noite, Cathy - replicou ele, tambm em voz estranha.

Meu Padrasto

        Naquela primavera, Chris adoeceu. Parecia esverdeado em volta da boca e vomitava a cada poucos minutos, cambaleando de volta do banheiro para deixar-se cair 
molemente na cama. Queria estudar um compndio de anatomia, mas jogou o livro para o lado, irritando-se consigo mesmo.
        - Deve ter sido alguma coisa que comi - resmungou.
        - Chris, no quero deixar voc sozinho - declarei, parando junto  porta e preparando-me para enfiar a chave de madeira na fechadura.
        - Escute aqui, Cathy! - berrou ele. - J  tempo de voc aprender a cuidar-se sozinha! No precisa de mim a seu lado cada segundo do dia! Esse foi o problema 
de mame: pensar que sempre precisava de um homem no qual se apoiar. Apoie-se sozinha, Cathy, sempre!
        O medo me encheu o corao, transbordando no olhar. Chris percebeu e acrescentou num tom mais suave:
        - Estou bem, no duro. Posso cuidar-me sozinho. Precisamos do dinheiro, Cathy. Portanto, v sozinha. Talvez no tenhamos outra oportunidade.
        Corri de volta  cama de Chris, ajoelhando-me e apertando o rosto contra seu peito coberto pelo pijama. Ele me acariciou os cabelos com grande ternura.
        - Vou sobreviver, Cathy, no duro. No estou to mal que voc precise chorar por mim. Mas tem que entender uma coisa: no importa o que acontea a um de ns, 
o que ficar tem que tirar os gmeos daqui.
        - No fale assim! - protestei.
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        S pensar que ele pudesse morrer deixava-me doente. Enquanto permanecia ajoelhada, fitando meu irmo, ocorreu-me que ficvamos doentes - um ou outro - com 
grande freqncia.
        - Cathy, quero que voc v imediatamente. Levante-se. Faa um esforo. E quando estiver l, pegue apenas as notas de cinco e de um dlar. Deixe de lado as 
maiores. Mas apanhe tambm todas as moedas que nosso padrasto deixa cair dos bolsos. E ele guarda no fundo do armrio uma lata cheia de moedas. Pegue um punhado 
delas.
        Chris parecia mais magro e plido. Beijei-lhe rapidamente o rosto, detestando ser obrigada a sair quando ele estava passando to mal. Lanando um olhar aos 
gmeos adormecidos, recuei na direo da porta, segurando a chave de madeira.
        - Eu o amo, Christopher - declarei em tom brincalho antes de abrir a porta.
        - Eu tambm a amo, Catherine - replicou meu irmo. - Boa caada.
        Soprei-lhe um beijo e sa, trancando a porta. Estaria bastante segura roubando o quarto de mame, pois naquela mesma tarde ela nos dissera que iria com o 
marido a uma festa na casa de um dos vizinhos mais prximos. Ao percorrer furtiva e silenciosamente os corredores, colando-me s paredes e escolhendo os locais mais 
sombrios, disse com meus botes que eu pegaria ao menos uma nota de vinte e outra de dez. Correria o risco de algum notar. Talvez at mesmo tirasse algumas das 
jias de mame. Jias podiam ser empenhadas e serviam-nos tanto quanto dinheiro. Talvez at mais.
        Firmemente decidida, no perdi tempo examinando o salo dos trofus. Fui direto ao quarto de mame, no esperando encontrar a av, que se recolhia cedo, 
s nove. J eram dez horas.
        Cheia de bravura e determinao, entrei pela porta dupla do apartamento, fechando-a silenciosamente s minhas costas. Uma luz fraca estava acesa. Mame quase 
sempre deixava luzes acesas no quarto - s vezes, todas elas, segundo informava Chris. O que importaria a ela a despesa com eletricidade?
        Hesitante e insegura, parei junto  porta e olhei em volta. Ento, congelei-me de pavor.
        Ali numa poltrona, com as pernas compridas esticadas diante do corpo e cruzadas nos tornozelos, estava o novo marido de mame! Eu estava bem em frente a 
ele, usando uma transparente camisola azul, muito curta, embora eu tambm tivesse vestido as calcinhas do conjunto. Meu corao disparou loucamente enquanto eu esperava 
que o homem soltasse um berro, querendo saber quem eu era e que diabo fazia em seu quarto sem ter sido convidada!
        Mas ele no abriu a boca.
        Trajava um smoking preto e a camisa de peito duro era cor-de-rosa, com babados pespontados de preto. No berrou nem fez perguntas porque estava cochilando. 
Quase me virei e tomei a sair, de tanto medo que ele acordasse e me visse.
        Todavia, a curiosidade sobrepujou meus temores. Nas pontas dos ps, avancei sorrateiramente a fim de espi-lo melhor. Atrevi-me a ficar to perto
#240
dele, ao lado da poltrona, que poderia estender a mo e toc-lo, se quisesse.
Bastante prxima para enfiar-lhe os dedos no bolso e tirar dinheiro, se preferisse. Mas no o fiz.
        Roubo era a ltima coisa que eu tinha em mente ao fitar o belo rosto adormecido. Espantei-me com o que a proximidade me revelava a respeito do amado Bart 
de mame. Eu o avistara a distncia em vrias  ocasies: primeiro, na festa de Natal, depois, quando ele estava perto da escada, segurando um casaco para mame vestir. 
Ele a beijara na nuca e atrs da orelha, murmurando algo que a fez sorrir; abraou-a com muita ternura contra o peito antes
de sarem juntos.
        Sim, sim; eu j o vira, j escutara tanto falar dele, sabia onde moravam suas irms, onde ele nascera e as escolas que freqentara, mas nada me havia preparado 
para o que agora se revelava com tamanha nitidez.
        Mame... como voc foi capaz disso? Devia envergonhar-se! Esse homem  mais jovem que voc - anos mais moo!
        Por que ela no nos contara?
        Um segredo. Como ela sabia guardar bem segredos to importantes! E no era de espantar que o adorasse, idolatrasse - pois ele era o tipo de homem que qualquer 
mulher desejaria. Bastava olh-lo naquela posio to natural, estendido com elegncia na poltrona, para adivinhar que era ao mesmo
tempo terno e apaixonado ao fazer amor com ela.

        Eu queria odiar o homem adormecido na poltrona, mas, no sei por que motivo, simplesmente no consegui. Mesmo adormecido ele me atraa, fazendo-me bater 
mais depressa o corao.
        Bartholomew Winslow, sorrindo inocentemente no sono, correspondendo inconscientemente  minha admirao. Um advogado, um daqueles homens que sabia tudo - 
como os mdicos - como Chris. Sem dvida estava experimentando algo excepcionalmente agradvel. O que se passava por detrs - daquelas plpebras cerradas? Tentei 
adivinhar, tambm, se tinha olhos azuis - ou castanhos. O rosto era comprido e fino, o corpo esbelto, duro, musculoso. A cova em sentido vertical no queixo parecia 
brincar de esconder ao variar de formato com os vagos sorrisos sonolentos.

        Usava uma larga aliana trabalhada em relevo, naturalmente o par da que mame tinha no dedo. No dedo indicador da mo direita, trazia um grande anel de brilhante 
com lapidao quadrada que faiscava apesar da pouca luminosidade reinante no quarto. No dedo mnimo, um anel do grmio acadmico da universidade. Os dedos longos 
tinham unhas quadradas, bem aparadas e polidas at brilharem como as minhas. Lembrei-me de que mame costumava polir as unhas de papai enquanto ambos se provocavam 
com os olhos.
        Ele era alto... isso eu j sabia. E de tanta coisa que me agradava nele, o que mais me intrigou foram os lbios cheios e sensuais sob o bigode. Uma boca 
de formato to lindo - a lbios sensuais que deviam beijar minha me... em toda parte. Aquele livro de prazeres sexuais educara-me bem quanto ao que os adultos davam 
ou recebiam quando despidos.
#241
        Fui repentinamente dominada pelo impulso de beij-lo - s para verificar se o bigode provocava ccegas. E para verificar, tambm, como seria o beijo de um 
desconhecido que no fosse meu parente consangneo.
        Aquele no era proibido. No seria pecado estender a mo hesitante para acariciar-lhe bem de leve o rosto escanhoado, desafiando-o suavemente a despertar.
        Mas ele continuava adormecido.

        Debrucei-me sobre ele e colei muito de leve meus lbios nos seus. Ento, afastei-me depressa, o corao pulsando como uma espcie de medo paralisante. Eu 
quase desejava que ele acordasse, mas ainda estava temerosa e assustada. Era por demais jovem e insegura do que possua para acreditar que ele acorresse em minha 
defesa quanto tinha uma mulher como mame loucamente apaixonada por ele. Se eu lhe pegasse o brao e o acordasse, ele permaneceria calmamente sentado a escutar minha 
estria a respeito de quatro crianas seqestradas e prisioneiras num quarto solitrio e isolado, ano aps ano, aguardando com impacincia a morte do av? Compreenderia, 
teria piedade de ns e obrigaria mame a libertar-nos e abrir mo das esperanas de herdar aquela imensa fortuna?
        Minhas mos se ergueram nervosamente  garganta, como faziam as de mame quando ela se via num dilema, sem saber que direo tomar. Meu instinto berrava: 
Acorde-o! Minhas desconfianas murmuravam astuciosamente: Fique calada, no o deixe saber; ele no vai querer quatro filhos que no gerou... Vai detest-los por 
evitarem que a esposa herde toda a riqueza e os prazeres que o dinheiro pode comprar.

        Olhei para ele, to jovem e belo. Embora nossa me fosse excepcionalmente bela e estivesse prestes a tornar-se uma das mulheres mais ricas do mundo, ele 
poderia ter escolhido algum mais jovem que ela. Uma virgem imaculada, que nunca tivesse amado outro homem, nem dormido com algum.
        Ento, minha indeciso se desfez. A resposta era muito simples: o que eram quatro filhos indesejveis em comparao com uma fortuna incalculvel?
        Nada. Mame j me ensinara isso. E uma virgem o entediaria.
        Oh, era injusto! Um jogo desleal! Nossa me tinha tudo! Liberdade de ir e vir  vontade! Liberdade para gastar abundantemente e fazer compras nas
melhores e mais caras lojas do mundo! Tinha at mesmo o dinheiro suficiente para comprar um homem muito mais jovem a quem amar e com quem dormir. E o que tnhamos 
Chris e eu seno sonhos desfeitos, promessas quebradas e interminveis frustraes?
        E o que tinham os gmeos seno uma casa de bonecas, um camundongo de estimao e uma sade cada vez mais precria?

        Voltei ao tristonho quarto trancado com lgrimas nos olhos, levando no peito desesperana que me pesava como pedra.
#242
Encontrei Chris adormecido, com o compndio de anatomia emborcado sobre o peito. Marquei cuidadosamente a pgina, fechei o livro e o coloquei de lado.
        Ento, deitei-me ao lado de Chris, abraando-o, e as lgrimas silenciosas me escorreram pelo rosto, molhando-lhe o pijama.
        - Cathy - disse ele, acordando e voltando sonolentamente  realidade. - O que houve? Est chorando? Algum viu voc?
        No consegui encar-lo e, por algum motivo inexplicvel, tambm no pude relatar o que acontecera. No consegui pronunciar as palavras que lhe diriam que 
eu encontrara o novo marido de mame cochilando no quarto dela. E muito menos pude contar-lhe que eu fora to infantilmente romntica a ponto de beij-lo enquanto 
ele dormia.
        - E no encontrou uma s moedinha? - indagou ele, incrdulo.
        - Nenhuma - sussurrei em resposta, tentando ocultar o rosto de seu olhar.
        Todavia, Chris colocou a mo sob meu queixo, obrigando-me a virar a cabea para que ele pudesse ver no fundo de meus olhos. Oh, por que tnhamos que conhecer-nos 
to bem? Continuou a fitar-me, enquanto eu procurava manter o olhar inexpressivo - mas no adiantou. Tudo o que consegui fazer foi fechar os olhos e agarrar-me ainda 
mais a ele, que enfiou o rosto em meus cabelos e me acariciou reconfortantemente as costas.
        - Est bem. No chore. Voc no sabe onde procurar, como eu sei.
        Eu tinha que sair dali, tinha que fugir; e quando fugisse levaria tudo aquilo comigo, no importa aonde fosse ou com quem eu terminasse.
        - Agora, pode voltar  sua cama - disse Chris, com aquela voz rouca. - A av pode abrir a porta e surpreender-nos, voc sabe.
        - Chris, voc no tornou a vomitar depois que sa, no ?
        - No. Estou melhor. Agora, v, Cathy. Saia daqui.
        - Est mesmo melhor? Ou  s da boca para fora?
        - No acabei de dizer que estou melhor?
        - Boa-noite, Christopher - repliquei, beijando-lhe o rosto antes de sair de sua cama e ir para a minha, acomodando-me junto a Carrie.
        - Boa-noite, Catherine. Voc  uma tima irm para mim e me para os gmeos... mas  pssima mentirosa e pior ladra!

        Cada incurso de Chris no quarto de mame aumentava nosso tesouro escondido. Estvamos demorando muito a atingir nossa meta de quinhentos dlares. Agora, 
o vero tornara a chegar. Eu tinha quinze anos e os gmeos haviam completado oito h pouco tempo. Em breve, agosto marcaria nosso terceiro ano de confinamento. Precisvamos 
fugir antes do prximo inverno. Olhei para Cory, que comia desanimadamente os gros de feijo fradinho porque eram "feijo de sorte". Na primeira vez, um Ano Novo, 
ele se recusara com-lo porque no queria "olhinhos" espiando em suas entranhas. Agora, comia-os porque cada gro representava um dia de felicidade -conforme conseguramos 
convenc-lo. Chris e eu tnhamos que inventar estrias desse tipo
#243
do contrrio Cory no comia coisa alguma exceto as rosquinhas. Terminando a refeio, Cory sentou-se no cho, dedilhando o banjo, com o olhar fixo num tolo desenho 
animado. Carrie, sentada a seu lado, o mais perto possvel dele, observava o rosto do irmo e no a televiso.
        - Cathy - disse-me ela no seu gorjeio de costume, - Cory no est passando bem.
        - Como voc sabe?
        - Eu sei.
        - Ele disse que est doente?
        - No precisa dizer.
        - E como est voc?
        - Como sempre.
        - E como  isso?
        - No sei.
        Oh, sim! Precisvamos fugir - e depressa!
        Mais tarde, acomodei os gmeos numa das camas. Depois que ambos adormecessem, eu pegaria Carrie no colo e a passaria para a nossa cama, mas, por enquanto, 
era mais reconfortante para Cory pegar no sono com a irm a seu lado.
        - No gosto desse lenol cor-de-rosa - declarou Carrie, dirigindo-me uma carranca. - Todos ns gostamos de lenis brancos. Onde esto nossos lenis brancos?
        Oh, triste dia em que Chris e eu transformamos o branco na mais segura
de todas as cores! Margaridas desenhadas a giz branco no cho do sto afugentavam os demnios malvados, os monstros e todas as outras coisas que os gmeos temiam 
que os pegassem se no houvesse por perto algo branco para proteg-los. Lenis e fronhas de outras cores, ou mesmo estampados, no eram tolerados... os pequenos 
pedaos coloridos do estampado proporcionavam aos demnios menores um buraco atravs do qual podiam enfiar os rabos  bifurcados, ou espiar com um olho malvolo, 
ou picar com uma pequena lana! Rituais, fetiches, hbitos, normas - oh, Deus! - ns os tnhamos aos milhes! S para ficarmos seguros.
        - Cathy, por que mame gosta tanto de vestidos pretos? - quis saber Carrie, esperando enquanto eu retirava os lenis cor-de-rosa para substitu-los por 
brancos.
        - Mame  loura e tem a pele muito clara; o preto a toma ainda mais loura e excepcionalmente bonita.
        - Ela no tem medo de preto?
        - No.
        - Que idade a gente precisa ter para o preto parar de nos morder com dentes compridos?
        - Idade suficiente para saber que essa pergunta  absolutamente tola.
        - Mas todas as sombras pretas no sto tm dentes brilhantes e afiados - disse Cory, recuando para evitar que os lenis cor-de-rosa lhe roassem na pele.
#244
        - Agora, ouam - disse eu, vendo os olhos risonhos de Chris observarem tudo,  espera da preciosidade que eu sem dvida inventaria naquele momento. - As 
sombras pretas no tm dentes brilhantes e afiados a menos que nossa pele seja verde, que nossos olhos sejam vermelhos, que nossos cabelos sejam roxos, e que tenhamos 
trs orelhas em vez de duas. S ento o preto constitui uma ameaa.
        Reconfortados, os gmeos se enfiaram sob os lenis e cobertas brancos, adormecendo depressa. Ento, tive tempo para tomar banho, lavar o cabelo e vestir 
um baby doll transparente. Corri ao sto para escancarar uma janela, na esperana de pegar uma brisa que refrescasse o ambiente e me desse
vontade de danar, em vez de murchar. Por que o vento s entrava em pleno inverno? Por que no agora, quando mais necessitvamos dele?

        Chris e eu compartilhvamos nossos pensamentos, aspiraes, dvidas e temores. Se eu tivesse pequenos problemas, ele era o meu mdico. Felizmente, meu problemas 
eram de pouca importncia: apenas aquelas clicas mensais, que nunca vinham no perodo certo e que ele, como meu mdico amador, afirmava que era de se esperar. J 
que era de natureza quixtica, toda a minha mquina interna devia acompanhar meu comportamento.
        Assim, agora posso escrever a respeito de Chris e do que ocorreu numa noite de setembro, quando eu estava no sto e ele descera para roubar, como se tivesse 
presenciado tudo, pois ele descreveu posteriormente - depois que o choque inicial de algo totalmente inesperado diminuiu um pouco - todos os detalhes daquela sua 
incurso ao grandioso conjunto de luxuosos aposentos de nossa me.
        Chris contou-me que aquele livro na gaveta da mesinha de cabeceira sempre o atraa; chamava-o, iludia-o, e viria mais tarde a naufrag-lo - e a mim tambm. 
To logo ele encontrava sua cota de dinheiro - o bastante, mas no demais - dirigia-se  cama e  mesinha, como que magnetizado.
        Enquanto ele contava, eu me indagava: "Por que ele precisa estar sempre olhando o livro, quando eu tenho gravado na mente cada detalhe daquelas pginas?"
        A respeito daquela noite, Chris relatou:
        - E l estava eu, lendo algumas pginas de texto e pensando a respeito de certo e errado, da natureza e seus estranhos desgnios, das circunstncias de nossa 
vida aqui em cima. Pensei em voc e em mim, pois estes deveriam ser nossos anos de florescimento, e eu era obrigado a sentir vergonha e remorso de estar crescendo 
e de desejar o que os outros rapazes da minha idade aproveitam das garotas que se prestam a isso. E quando l estava, folheando o livro e ardendo interiormente com 
tantas frustraes, desejando que voc jamais tivesse encontrado aquele livro, cujo ttulo banal nunca me chamara a ateno, escutei vozes que se aproximavam pelo 
corredor. Voc sabe quem era: nossa me e o marido, voltando ao quarto. Enfiei depressa o livro na gaveta, coloquei sobre ele as duas brochuras que ningum terminaria 
de ler, pois os marcadores
#245
estavam sempre nas mesmas pginas. Em seguida, corri para o closet de mame, voc sabe, o maior, que fica mais perto da cama, e me agachei l no fundo, perto das 
prateleiras dos sapatos, escondido por detrs dos longos vestidos de gala. Julguei que se ela entrasse no me veria. E duvidei que entrasse. Mas nem cheguei a me 
sentir em segurana, pois logo me lembrei de que esquecera a porta aberta. Foi ento que ouvi a voz de nossa me, quando ela entrou no quarto e acendeu a luz, dizendo: 
"Realmente, Bart,  muito descuido de sua parte esquecer tantas vezes a carteira". E ele respondeu: "No posso evitar esquec-la, pois nunca est no lugar onde a 
deixo". Escutei-o mexer nas coisas, abrindo e fechando gavetas. Ento, explicou: "Tenho certeza de que a deixei nessa cala... e no vou a parte alguma sem minha 
carteira de motorista". Mame comentou: "Do modo como voc dirige, no posso culp-lo. Mas chegaremos atrasados novamente. Por mais depressa que voc dirija, ainda 
perderemos o primeiro ato". - "Ei!", exclamou o marido dela. Sua voz expressava surpresa e gemi interiormente ao me lembrar do que fizera. "Aqui est a carteira, 
em cima da cmoda. No me lembro de t-la deixado aqui. Sou capaz de jurar que estava no bolso das calas".
        Chris explicou:
        - Na verdade, ele tinha escondido a carteira numa gaveta da cmoda, debaixo das camisas. Quando a encontrei, retirei algumas notas de pequeno valor e a deixei 
em cima da cmoda para ir olhar aquele livro. Ento, mame disse, como se perdesse a pacincia com ele: "Francamente, Bart!" - E ele
replicou: "Vamos sair dessa casa, Corrine. Creio que as empregadas andam nos roubando. Tenho sentido falta de dinheiro e voc tambm. Por exemplo: sei que tinha 
quatro notas de cinco dlares. Agora, tenho apenas trs". Tomei a gemer por dentro. Pensei que ele tivesse tanto dinheiro que nunca se desse o trabalho de cont-lo. 
E o fato de mame saber quanto dinheiro tinha na bolsa foi realmente chocante para mim. "Que diferena faz uma nota de cinco dlares?", quis saber nossa me, bem 
a seu feitio, pouco se importando com dinheiro, como no tempo de papai. E acrescentou que os empregados eram mal remunerados e ela no os culpava por se apoderarem 
do que era deixado to oportunamente ao seu alcance, "praticamente convidando-os a roubar".
O marido retrucou: "Minha querida esposa, o dinheiro pode ser fcil para voc, mas sempre tive que dar duro para ganhar o meu e no admito que me roubem um centavo. 
Alm disso, no posso dizer que o dia comea bem para mim quando vejo a sinistra cara de sua me no outro lado da mesa todas as manhs". Sabe, eu nunca tinha pensado 
no que ele poderia sentir a respeito da bruxa velha. Aparentemente, sente o mesmo que ns. Ento, mame se irritou um pouco e disse: "No vamos comear tudo isso 
outra vez". Sua voz tinha um tom spero; nem parecia dela, Cathy. Nunca me ocorreu antes que ela falasse conosco num tom e com as outras pessoas noutro. Depois, 
acrescentou: "Voc sabe que no podemos sair dessa casa - ainda no. Portanto, se vamos ao teatro  melhor irmos logo; j estamos atrasados". Foi ento que nosso 
padrasto declarou que preferia no ir, j que iam perder o primeiro ato, pois isso estragaria a pea inteira. Alm disso, ele achava que poderiam encontrar 
#246
algo mais interessante para fazer que ficarem sentados numa platia. Percebi que ele estava sugerindo que poderiam ir para a cama fazer um pouco de amor. Se pensa 
que isso no me deixou repugnado, ento voc no me conhece bem. Eu preferia morrer a ficar ali enquanto aquilo acontecia. Entretanto, nossa me  capaz de mostrar 
muita voluntariedade - o que me surpreendeu. Ela mudou, Cathy; est muito diferente do que era com papai. Agora, quem manda  ela e homem algum pode lhe dizer o 
que deve fazer. E ela disse ao marido: "Como na ltima vez? Ora, foi realmente embaraoso, Bart! Voc voltou para buscar a carteira, jurando-me que no se demoraria, 
e acabou adormecendo - e deixando-me sozinha na festa, sem um acompanhante!" Foi quando nosso padrasto deu a impresso de irritar-se tanto com as palavras quanto 
com o tom de nossa me. Foi o que julguei - e voc sabe que  possvel perceber muita coisa pela voz das pessoas, mesmo quando no lhes vemos as fisionomias e expresses 
faciais. "Oh, como voc deve ter sofrido!", replicou ele, parecendo sarcstico. Mas aquilo logo passou, pois ele parece um sujeito jovial. "Quanto a mim, tive o 
mais lindo sonho e voltaria sempre se tivesse certeza de que uma bela jovem de longos cabelos dourados entraria furtivamente no quarto para me beijar enquanto eu 
cochilasse. Oh, ela era linda e me olhou com tanto desejo, mas quando abri os olhos j tinha desaparecido e julguei que s podia ser um sonho". O que ele disse deixou-me 
estarrecido, Cathy - foi voc, no foi? Como pde ser to atrevida e indiscreta? Fiquei to furioso com voc que seria capaz de explodir se a mnima coisa acionasse 
o detonador. Voc acha que  a nica que sente tenso, no acha? Acha que  a nica que tem frustraes, dvidas, suspeitas e temores. Bem, console-se por saber 
que tambm tenho - graas a voc. E tive raiva de voc. Uma raiva como nunca senti antes. Ento, mame disse asperamente ao marido: "Oh, Deus! J estou cansada de 
ouvir voc falar dessa garota e do beijo que ela lhe deu. Ora, ouvindo voc falar,  de se pensar que nunca foi beijado antes!"
Pensei que fossem discutir e brigar ali mesmo, mas mame mudou o tom de voz, mostrando-se carinhosa e apaixonada, como costumava fazer com papai. Entretanto, isso 
provou que ela estava mais disposta a deixar esta casa que o marido, pois este seria capaz de utilizar a cama de cisne naquele mesmo momento. Mame disse. "Venha, 
Bart. Passaremos a noite num hotel e voc no
ter que ver a cara de minha me amanh de manh". E isso acabou com minha preocupao de encontrar um meio de fugir do quarto enquanto eles usassem a cama de cisne 
- pois no pretendia ficar ali para escutar ou espiar o que fariam.
        Tudo isso se passou enquanto eu estava no sto, sentada no peitoril de uma janela, aguardando o regresso de Chris. Pensava na caixa de msica de prata que 
papai me dera e desejava t-la de volta. No sabia, ento, que o episdio no quarto de mame teria repercusses.
        Um rangido atrs de mim! Um passo macio na madeira apodrecida! Sobressaltei-me, assustada, amedrontada, virando-me e esperando deparar com... s Deus sabe 
o qu! Ento, suspirei aliviada, pois era Chris quem estava parado no escuro, olhando silenciosamente para mim. Por qu? 
#247
Estava mais bonita que de costume? Seria o luar, brilhando atravs de minhas roupas  transparentes?
        Todas as dvidas esparsas se dissiparam quando ele disse em voz spera e baixa:
        - Voc est linda, sentada assim.
        Pigarreou para livrar-se do sapo que parecia haver em sua garganta.
        - O luar lhe desenha a silhueta em azul-prateado e posso ver as formas de seu corpo sob as roupas.
        Ento, assustadoramente, agarrou-me pelos ombros, apertando os dedos com muita fora! Doeu.
        - Maldita seja, Cathy! Voc beijou aquele homem! Ele poderia acordar, ver voc e exigir que se identificasse! E no pensar que voc fosse apenas parte de 
um sonho!
        Ele agia de modo estranho e eu sentia um medo inexplicvel.
        - Como sabe o que eu fiz? Voc no esteve l naquela noite; ficou na cama.
        Ele me sacudiu novamente, com os olhos faiscando de fria. Mais uma vez, pareceu-me um estranho.
        - Ele viu voc, Cathy, no estava dormindo! 
        - Ele me viu! - exclamei, incrdula; era impossvel. Impossvel!
        - Sim! - berrou meu irmo, Chris, que costumava controlar to bem as emoes. - Ele pensa que voc foi parte de um sonho! Mas no compreende que mame pode 
adivinhar quem foi, simplesmente somando dois e dois, como eu somei? Ao diabo com voc e suas idias romnticas! Agora, eles sabem a respeito de ns! No deixaro 
dinheiro espalhado, como antes. Ambos esto contando o dinheiro e ns no temos o suficiente,
ainda no!
        Tirou-me do peitoril com um arranco! Parecia bastante desvairado e furioso para esbofetear-me - e nunca antes, em toda a vida, ele me encostara a mo, embora 
eu lhe tivesse dado motivos mais que suficientes para isso quando era menor. Entretanto, sacudiu-me at que meus olhos deram a impresso de saltar nas rbitas, at 
que fiquei tonta e exclamei:
        - Pare! Mame sabe que no podemos passar por uma porta trancada!
        Aquele no era Chris... era algum que eu nunca vira antes... um selvagem, primitivo.
        Gritou algo como:
        - Voc  minha, Cathy! Minha! Ser sempre minha! No importa quem surgir em seu futuro, voc sempre me pertencer! Eu tornarei voc minha... esta noite... 
agora!
        No acreditei - no podia ser Chris!
        Eu no compreendia bem o que ele tinha em mente nem creio que ele soubesse realmente o que dizia - dando crdito ao que afirmou depois -, mas a paixo tem 
o dom de assumir o controle.
        Camos ambos no cho. Tentei afast-lo. Lutamos, rolando pelo assoalho, contorcendo-nos em silncio, num combate frentico da fora dele contra a minha.
#248
        No foi uma batalha demorada.
        Eu tinha as pernas fortes de bailariana, ele possua os bceps, o maior peso e altura... e estava multo mais decidido que eu a utilizar algo quente, inchado 
e exigente - a tal ponto que perdeu todo o raciocnio e sanidade.
        E eu o amava. Queria o que ele queria, certo ou errado - j que ele desejava tanto.
        No sei como, terminamos sobre aquele velho colcho - sujo, fedorento e manchado, que certamente conhecera outros amantes antes daquela noite. E foi onde 
Chris me possuiu, forando para dentro de mim aquele seu rgo masculino rgido e inchado, que  necessitava de satisfao. Penetrou-me na carne contrada e relutante, 
que foi rasgada e sangrou.
     Agora, tnhamos feito aquilo que ambos jurramos jamais fazer.
     Agora, estvamos condenados por toda a eternidade, condenados a sermos assados para sempre, nus e pendurados de cabea para baixo sobre as chamas eternas do 
inferno. Pecadores, exatamente como a av previra h tanto tempo.
        Agora, eu tinha todas as respostas.
        Agora, talvez houvesse um beb. Um filho para obrigar-nos a pagar em vida, sem esperar pelo inferno e pelo fogo eterno que nos estava destinado.
        Afastamo-nos um do outro, fitando-nos, nossos rostos aturdidos e plidos de choque, mal conseguindo falar ao nos vestirmos.
        Chris nem precisava dizer que se arrependia... estava escrito nele... no modo como tremia, em suas mos trmulas que tanto vacilavam e se atrapalhavam ao 
abotoarem a roupa.

        Mais tarde, samos para o telhado.
        Compridas tiras de nuvens eram sopradas pelo vento e passavam de encontro  lua cheia, que dava a impresso de esquivar-se, esconder-se e tornar a aparecer 
no cu. E no telhado, numa noite feita para os amantes, choramos nos braos um do outro. Chris no tencionara fazer aquilo. E eu no tencionara permiti-lo. O medo 
do beb que poderia resultar de um nico beijo em lbios cobertos por um bigode subia-me  garganta, hesitando na ponta da lngua. Era meu maior receio. Mais que 
o inferno ou a ira divina, eu temia dar  luz uma criana monstruosa, deformada, imbecil. Contudo, como poderia tocar no assunto? Chris j sofria bastante. Entretanto, 
seus pensamentos eram mais abalizados que os meus.
        - Todas as probabilidades so contrrias a um beb - declarou fervorosamente. - Apenas uma vez, no haver concepo. Juro que no se repetir, em hiptese 
alguma!
        Ento, puxou-me com tanta fora de encontro a ele que me fez doer as costelas.
        - No me odeie, Cathy. Por favor, no me odeie. Juro por Deus que no pretendia violent-la. Houve muitas vezes em que no   senti tentado, mas
#249
sempre consegui dominar-me. Saa do quarto, ia para o banheiro, subia ao sto ou enfiava o nariz num livro, at voltar ao normal.
        Abracei-o com a maior fora possvel.
        - Eu no odeio voc, Chris - murmurei, apertando a cabea contra seu peito. - Voc no me violentou. Eu poderia impedi-lo, se realmente quisesse. Tudo o 
que precisava fazer era dar-lhe uma joelhada, como voc mesmo me ensinou. A culpa tambm foi minha.
        Oh, sim, a culpa tambm fora minha. Deveria ter juzo bastante para no beijar o jovem e belo marido de mame. No deveria usar roupas curtas e transparentes 
perto de um irmo que sentia todas as fortes necessidades fsicas masculinas, e era to frustrado por tudo e por todos. Eu jogara, brincara com suas necessidades, 
testando minha feminilidade, sentindo meus prprios anseios ardentes de satisfao.
        Era um tipo peculiar de noite, como se Deus a tivesse planejado muito tempo antes; aquela noite era nosso destino, certo ou errado. Era escurido rompida 
por uma lua muito cheia e brilhante, as estrelas parecendo conversar entre si com cintilaes em cdigo Morse... o destino cumprido...
        O vento farfalhava nas folhas, produzindo uma estranha msica melanclica e sem melodia que, no obstante, ainda era msica. Como poderia algo to humano 
e cheio de amor ser feio e sujo numa noite to bela?
        Talvez nos demorssemos demais no telhado.
        A ardsia era fria, dura e spera. Estvamos no incio de setembro. As folhas j comeavam a cair e dentro em breve sentiramos a mo gelada do inverno. 
Um calor infernal no sto. No telhado, comeava a fazer frio, muito frio.
        Chris e eu nos aconchegamos mais, agarrando-nos mutuamente em busca de segurana e calor. Jovens amantes pecaminosos da pior espcie. Tnhamos cado quilmetros 
em nossa prpria estima, derrotados por anseios tensos demais pela proximidade constante. Ultrapassramos apenas uma vez a conta da brincadeira com o destino e nossos 
temperamentos sensuais... e na poca eu nem sabia que era sensual, muito menos que ele o era. Julgava que fosse apenas a msica bonita que me fazia doer o corao 
e provocava a estranha sensao de apetite em meu ventre; no imaginava tratar-se de algo muito mais tangvel.
        Como se partilhssemos o mesmo corao, martelvamos um terrvel ritmo de autoflagelao pelo que fizramos.
        Uma brisa mais fria ergueu uma folha morta at o telhado e soprou-a alegremente pelo ar at prender-se em meu cabelo. Ela estalou, seca e quebradia, quando 
Chris a pegou para fit-la como se sua prpria vida dependesse de conhecer o segredo daquela folha morta e aprender a ser soprado pelo vento. Uma folha seca - sem 
braos, pernas ou asas... mas capaz de voar depois de morta.
        - Cathy - disse ele numa voz seca que se assemelhava ao estalar da folha morta. - Agora, temos exatamente trezentos e noventa e seis dlares e quarenta e 
quatro centavos. A neve no demorar muito a comear a cair.
#250
No possumos roupas de inverno ou botas adequadas, e os gmeos esto de tal forma debilitados que se resfriam com facilidade e podem passar de um resfriado para 
uma pneumonia. Acordo  noite preocupado com eles e j vi voc acordada olhando para Carrie, de modo que tambm deve estar preocupada. Duvido muito que, de agora 
em diante, encontremos dinheiro espalhado no quarto de mame. Desconfiam que uma das empregadas esteja roubando, ou desconfiavam, pois  possvel que mame j suspeite 
de que foi voc... No sei... Espero que no... No importa o que eles possam pensar, na prxima vez que descer eu serei forado a roubar as jias dela. Farei uma 
limpeza: apanharei tudo de uma vez - e fugiremos em seguida. To logo estivermos bastante longe daqui, levaremos os gmeos a um mdico e teremos dinheiro suficiente 
para pagar as contas.
        Levar as jias - o que eu implorara a ele o tempo todo! Afinal, Chris concordava em roubar os prmios que mame tanto lutara para conseguir. E, nesse processo, 
ela nos perderia tambm, Mas importar-se-ia com isso?
        Uma velha coruja, que talvez fosse a mesma que nos saudara na parada do trem na primeira noite que ali chegramos, piou a distncia, parecendo um fantasma. 
Enquanto observvamos, nesgas finas e vagarosas de nvoa cinzenta comearam a subir do solo mido, condensadas pelo repentino frio da noite. O nevoeiro engrossou, 
subindo at o telhado... engolfando-nos como um mar
turvo em ondas revoltas.
        E a nica coisa que conseguamos ver por entre as nuvens cinzentas, midas e frias era o nico e grande olho de Deus - brilhando l em cima, na lua.

        Acordei antes do alvorecer. Olhei para onde Cory e Chris dormiam. No momento em que abri os olhos sonolentos e virei a cabea, senti que Chris tambm estava 
acordado, havia algum tempo. Ele j me fitava e lgrimas brilhantes faiscavam no azul de seus olhos, rolando para pingarem no travesseiro. Batizei-as  medida que 
escorriam: vergonha, remorso, culpa.
        - Eu o amo, Christopher. No precisa chorar. Se voc puder esquecer, eu tambm poderei. E nada existe a perdoar.
        Ele meneou a cabea, sem falar. Mas eu o conhecia bem, at a medula dos ossos. Conhecia seus pensamentos, seus sentimentos, e todos os modos de ferir-lhe 
fatalmente o ego. Sabia que, por meu intermdio, ele se vingara da mulher que lhe trara a confiana, a f e o amor. Bastava-me olhar no espelho de prata com o monograma 
C.L.F. nas costas para ver o rosto de minha me como era quando ela tinha a minha idade.
        Portanto, acontecera - exatamente conforme a av previra. Filhos do Demnio. Criados por sementes ruins plantadas no solo errado, brotando novas plantas 
que repetiam os erros e pecados dos pais.
        E das mes.

#251
Pintem Todos os Dias de Azul,
Mas Reservem um Para o Negro

        amos fugir. A qualquer dia. To logo mame nos dissesse que pretendia sair  noite, seria despojada de todas as suas posses valiosas e transportveis. No 
voltaramos a Gladstone, pois l o inverno durava at maio. Iramos a Sarasota, onde vivia o pessoal de circo, que tinha fama de ser bondoso para com as pessoas 
desamparadas. Uma vez que Chris e eu nos acostumramos a lugares altos, como o telhado e as cordas estendidas nas vigas do sto, sugeri a Chris em tom de brincadeira:
        - Que tal sermos trapezistas?
        Ele sorriu, achando a idia ridcula - apenas no incio, pois logo passou a consider-la uma inspirao.
        - Puxa! Voc ficaria sensacional numa malha cintilante cor-de-rosa, Cathy!
        E comeou a cantar:
        - Ela voa pelos ares como um pssaro,
A corajosa e bela jovem
        Do trapzio voador...
        Cory levantou bruscamente a cabea loura, com os olhos azuis esbugalhados de pavor.
        - No!
        Carrie declarou no seu tom mais prtico:
        - Seus planos no nos agradam. No queremos que vocs caiam do trapzio.
        - Jamais camos - declarou Chris. - Cathy e eu formamos uma dupla imbatvel.
        Olhei para ele, relembrando aquela noite na sala de aulas e depois no telhado, quando ele sussurrara: "Nunca amarei ningum seno voc, Cathy. Tenho certeza... 
uma sensao... s ns dois, para sempre".
        Eu rira com naturalidade:
        - No seja tolo; sabe que no me ama essa maneira. E no precisa sentir remorso ou vergonha. A culpa tambm foi minha. Alm disso, podemos fazer de conta 
que nunca aconteceu e tomar providncias para que nunca mais torne a acontecer.
        - Mas,Cathy...
        - Se existissem outras pessoas para voc e para mim, ns nunca, nunca nos sentiramos assim.
        - Mas quero sentir-me assim em relao a voc e j  tarde demais para eu amar ou confiar em outra pessoa.
  Como eu me sentia velha, olhando para Chris e os gmeos, fazendo planos para todos ns, falando com tanta confiana em abrirmos caminho no futuro.
#252
Apenas um artifcio para consolar os gmeos e pacific-los, quando eu
sabia que seramos obrigados a fazer de tudo  qualquer coisa para ganharmos nosso sustento.
     Setembro passou e outubro chegou. Em breve a neve comearia a cair.
        - Esta noite - disse Chris depois que mame saiu do nosso quarto, despedindo-se apressadamente e no parando  porta para um ltimo olhar.
        Agora, ela mal conseguia ver-nos.
        Enfiamos uma fronha na outra, para refor-la. Naquele saco, Chris meteria as preciosas jias de mame. Eu j arrumara nossas duas malas, que estavam escondidas 
no sto, onde mame nunca ia atualmente.
     No final da tarde, Cory comeou a vomitar repetidamente. No armrio de remdios, tnhamos medicaes caseiras para problemas digestivos.
     Nada do que demos a Cory serviu para aliviar os terrveis vmitos que o tornavam plido e trmulo, fazendo-o chorar. Ento, ele me abraou o pescoo, murmurando:
     - Mame, no me sinto bem.
     - O que posso fazer para que se sinta melhor Cory? - indaguei, sentindo-me to jovem e inexperiente.
     - Mickey - sussurrou ele debilmente. - Quero que Mickey durma comigo.
     - Mas voc pode rolar na cama e esmag-lo. No quer que ele morra, quer?
     - No - disse ele, apavorado com a idia.
     Ento, os terrveis vmitos recomearam e ele ficou gelado em meus braos, os cabelos grudados na testa mida de suor frio, os olhos vagos pousados no meu rosto 
enquanto ele chamava repetidamente pela me:
     - Mame, mame, sinto dor nos ossos.
     - Est tudo bem - assegurei, pegando-o no colo para lev-lo de volta  cama, onde poderia trocar-lhe o pijama sujo de vmito. Como ele podia vomitar outra vez 
se nada mais lhe restava no estmago?
     - No se preocupe. Chris vai ajudar voc.
     Deitei-me a seu lado, abraando o corpinho trmulo e debilitado.
     Chris estava sentado  escrivaninha improvisada, consultando livros de
medicina, procurando usar os sintomas de Cory para diagnosticar a misteriosa
molstia que atacava cada um de ns de tempos em tempos. Embora j tivesse
quase dezoito anos, ainda estava muito longe de ser mdico.
     - No vo embora deixando Carrie e eu para trs - implorou Cory.
     Mais tarde, exclamou bem alto:
     - No v embora, Chris! Fique aqui!
     O que queria ele dizer? No queria que fugssemos? Ou referia-se a ir novamente ao quarto de mame para roubar? Por que Chris e eu sempre julgvamos que os 
gmeos nunca davam muita ateno s nossas conversas? Era
evidente que Cory e Carrie sabiam que jamais fugiramos sem os levarmos conosco; preferamos morrer antes de fazer tal coisa.
#253
     Uma coisinha sombria, toda vestida de branco, aproximou-se da cama e fixou os grandes olhos azuis lacrimosos no seu irmo gmeo. Tinha menos de um metro de 
altura. Era velha e jovem, como uma tenra plantinha mantida numa estufa aquecida, raqutica e murcha.
     - Permitem-me - comeou ela, muito educadamente (como tentvamos ensinar-lhe; ela se recusava terminantemente a empregar a gramtica que lhe ensinvamos, mas 
tentou o melhor possvel naquela noite das noites) - dormir com Cory? Nada faremos de errado, pecaminoso ou malvado. Quero apenas estar perto dele.
     Que a av chegasse e fizesse o pior possvel! Colocamos Carrie ao lado
de Cory. Depois, Chris e eu sentamo-nos em lados opostos da enorme cama e observamos Cory debater-se, inquieto, arquejando para respirar e gritando em seu delrio. 
Queria o camundongo, queria o pai, queria a me, queria Chris e queria a mim. As lgrimas umedeciam a gola de minha camisola e, ao erguer os olhos, percebi que tambm 
escorriam pelo rosto de Chris.
     - Carrie... Carrie... Onde est Carrie? - repetia Cory, muito depois que a irm j adormecera.
     Os dois rostinhos abatidos estavam a apenas poucos centmetros um do outro e ele olhava diretamente para Carrie, mas mesmo assim no conseguia. enxerg-la. 
Quando eu desviava os olhos para olhar Carrie, ela no me parecia em melhor estado de sade que ele.
     Castigo, pensei. Deus castigava Chris e eu pelo que havamos feito. A av nos prevenira... admoestara-nos diariamente, at o dia em que fomos surrados.
     Chris passou a noite inteira lendo um livro de medicina aps outro, enquanto eu me levantei e passei a andar pelo quarto.
     - Intoxicao alimentar - disse Chris afinal, erguendo os olhos vermelhos de sangue. - O leite... devia estar azedo.
     - No tinha gosto nem cheiro de azedo - murmurei em resposta.
     Eu sempre tinha o cuidado de cheirar e provar tudo antes de dar aos gmeos ou a Chris. No sei por que, achava que meu paladar era mais aguado que o de Chris; 
este gostava e comia de tudo, at mesmo manteiga ranosa.
     - O hamburger, ento. Achei O gosto esquisito.
     - Para mim, o gosto estava bom.
     E para ele tambm devia estar, pois comera metade do hamburger de Carrie e todo o de Cory. Este no quisera comer nada durante O dia inteiro.
     - Cathy, percebi que voc tambm quase no comeu o dia todo. Est quase to magra quanto os gmeos. Ela nos traz comida suficiente. Voc no tem necessidade 
de se privar da alimentao.
     Sempre que me sentia nervosa, ou frustrada, ou preocupada - e agora estava sentindo as trs coisas - eu comeava exerccios de bal. Apoiei-me de leve na cmoda, 
que me servia de barra, e comecei a me aquecer fazendo plis.
     - Precisava fazer isso, Cathy? J est que  s pele e osso. E no comeu hoje. Tambm est doente?
#254
     - Cory adora as rosquinhas e elas so a nica coisa que tenho vontade de comer. Como ele precisa delas mais que eu...
     A noite se arrastava. Chris voltou aos livros de medicina. Dei gua a Cory e ele a vomitou imediatamente. Lavei-lhe o rosto com gua fria uma dzia de vezes 
e troquei-lhe trs vezes o pijama. Carne continuava a dormir profundamente.
     Alvorada.
     O sol nasceu e ainda tentvamos descobrir o que havia de errado com Cory, quando a av chegou com a cesta de piquenique contendo a comida daquele dia. Sem dizer 
uma palavra, trancou a porta, guardou a chave no bolso - 
do vestido e avanou at a mesinha de jogo. Tirou da cesta a grande garrafa trmica de leite, as garrafas menores com sopa, os embrulhos de papel aluminizado contendo 
sanduches, galinha frita, salada de batatas e - por ltimo - o embrulho com quatro rosquinhas cobertas com acar. Virou-se para sair.
     - Av - disse eu, hesitante.
     Ela no olhara para Cory .Nem mesmo o vira.
     - No me dirigi a voc - replicou friamente. - Espere at que eu o faa.
     - No posso esperar - declarei, sentindo a raiva crescer dentro de mim.
     Levantei-me da cama de Cory e avancei para a velha.
     - Cory est doente! Passou o dia de ontem e esta noite inteira vomitando. Precisa de um mdico e da me dele.
     Ela no olhou para mim nem para Cory. Saiu rigidamente do quarto e trancou a porta por fora. Nenhuma palavra de conforto. Nenhuma confirmao de que nossa me 
seria informada da situao.
     - Destrancarei a porta e irei procurar mame - declarou Chris, ainda usando as mesmas roupas da vspera, que no despira para deitar-se.
     - Ento, elas descobriro que temos uma chave.
     - Ento, elas descobriro.
     Naquele instante, a porta se abriu outra vez e mame entrou, seguida de perto pela av. Debruaram-se juntas sobre Cory, tocando-lhe o rosto frio e mido, e 
trocando um olhar. Foram para um canto, onde  conversaram em segredo, como se tramassem alguma coisa, lanando olhares ocasionais na direo de Cory, que jazia sobre 
a cama como  espera da morte. Apenas seu peito se movimentava espasmodicamente. Sons engasgados escapavam-lhe da garganta. Fui at l enxugar as gotculas que se 
acumulavam em sua testa. Esquisito como ele podia estar to frio e, ao mesmo tempo, transpirar.
     A respirao ruidosa e irregular de Cory era o nico som audvel no quarto.
     E l estava mame - sem fazer nada! Incapaz de tomar uma deciso! Ainda temerosa de permitir que algum soubesse da existncia dos filhos, pois estes no deveriam 
existir!
     - Por que ficam a segredando? - berrei. - Que outra escolha vocs tm a no ser levarem Cory para um hospital e o entregarem aos cuidados do melhor mdico 
disponvel?
#255
     Olharam-me com raiva - ambas. Plida, trmula, com uma expresso sinistra, mame fixou em mim seus olhos azuis. Ento, desviou-os ansiosamente na direo de 
Cory. O que ela viu na cama provocou-lhe um tremor nos lbios e nas mos, bem como um tique nervoso no rosto. Piscou repetidamente, como se tentasse reprimir lgrimas.
     Vigiei atentamente os menores sinais que trassem seus pensamentos calculistas. Ela avaliava os riscos de Cory ser descoberto e faz-la perder a herana... 
pois aquele velho moribundo tinha que morrer um dia, no tinha? No poderia sobreviver para sempre!
     Gritei:
     - O que h com voc, mame? Vai ficar a parada, pensando em si e no dinheiro, enquanto seu filho agoniza e morre naquela cama? Tem que tratar dele! No lhe 
importa o que acontecer com ele? J esqueceu que  me dele? Se no esqueceu, maldita seja, trate de agir como me! Pare de hesitar! Ele
necessita de ateno agora, no amanh!
     O rosto de minha me ficou rubro de clera. Tornou a olhar para mim.
     - Voc! - exclamou, cuspindo as palavras. - Sempre voc!
     Ergueu a mo pesada de anis e esbofeteou-me o rosto! Duas vezes.
     Era a primeira vez na vida que ela me batia no rosto - e por um motivo como aquele! Ultrajada, sem pensar direito, revidei - com a mesma fora!
     A av, se manteve ao largo, observando. Maldosa satisfao contraiu-lhe a boca fina e feia numa linha retorcida.
     Chris correu para segurar-me os braos quando eu ia esbofetear mame mais uma vez.
     - Cathy, agindo assim voc no est ajudando Cory. Acalme-se. Mame far o que deve fazer.
     Foi bom Chris ter-me segurado os braos, pois eu queria esbofete-la novamente e obrig-la a ver o que estava fazendo!
     O rosto de meu pai surgiu de relance aos meus olhos. Tinha a testa franzida, dizendo-me silenciosamente que eu sempre deveria ter respeito pela mulher que me 
trouxera ao mundo. Compreendi que ele pensaria assim; no desejaria que eu a agredisse.
     - Que Deus a condene ao inferno, Corrine Foxworth, se voc no levar seu filho para um hospital! - berrei a plenos pulmes. - Julga que pode nos fazer o que 
bem entende e ningum descobrir jamais! Pois pode jogar no lixo essa iluso de segurana, porque juro que encontrarei um meio de vingana, mesmo que isso me tome 
o resto da vida! Farei voc pagar bem caro, muito caro mesmo, se no tomar uma providncia imediata para salvar a vida de Cory! Vamos, olhe para mim com raiva, chore 
e suplique, fale no dinheiro e nas coisas que ele pode comprar. Mas o dinheiro no pode comprar de volta a vida de uma criana morta! E se Cory morrer, no pense 
que deixarei de encontrar um modo de dizer a seu marido que voc mantm quatro filhos escondidos num quarto trancado, dando-lhes como playground o sto... e prendendo-os 
l por anos e anos a fio! Ento, veja se ele continuar a am-la! 
#256
Observe bem o rosto dele e veja quanto respeito e admirao ele passar a ter por voc.
     Ela pestanejou, mas continuou a fixar em mim aquele olhar mortfero. Prossegui:
     - Alm disso, procurarei nosso av e lhe contarei tudo! - berrei ainda mais alto. - Voc no herdar um s tosto furado, e eu ficarei feliz, feliz, feliz! 
     A julgar pela expresso de seu rosto, ela seria capaz de matar-me. Todavia, por estranho que possa parecer, foi a velha bruxa que interps tranqilamente:
     - A menina est com a razo, Corrine. A criana precisa ir para um hospital.
     
     Voltaram  noite. As duas. Depois que os criados se retiraram para os alojamentos sobre a enorme garagem. Ambas embrulhadas em pesados capotes, pois, de uma 
hora para outra, fazia um frio intenso. O cu ficara cinzento, esfriando com um inverno precoce que prometia neve. As duas puxaram Cory
de meus braos, envolveram-no numa manta verde, e foi mame quem o pegou no colo. Carrie soltou um grito de angstia.
     - No levem Cory embora! - berrou ela. - No levem! No...
     Atirou-se em meus braos, chorando, implorando que eu as detivesse, impedindo que levassem embora o gmeo do qual ela nunca se separara antes.
     Fitei-lhe o rostinho plido e molhado de lgrimas.
     - Cory pode ir - declarei, enfrentando o olhar de minha me. - Porque eu tambm irei. Ficarei com Cory enquanto ele permanecer no hospital. Quando as enfermeiras 
estiverem ocupadas demais para cuidar dele, eu estarei
l. Isso far com que se recupere mais depressa e Carrie se sentir melhor sabendo que estou com ele.
     Eu dizia a verdade. Eu sabia que Cory melhoraria mais depressa comigo a seu lado. Agora, a me dele era eu - no ela. Cory j no a amava; era de mim que ele 
necessitava, era a mim que ele queria. As crianas so muito sbias, sob o ponto de vista da intuio; sabem quem as ama de verdade e quem apenas finge am-las.
     - Cathy tem razo, mame - interps Chris, fitando-a diretamente nos olhos sem qualquer sinal de afeto. - Cory precisa de Cathy. Por favor, deixem que ela o 
acompanhe, pois sua presena o ajudar a recuperar-se mais depressa. Alm disso, ela pode descrever os sintomas aos mdicos melhor que vocs.

     O olhar vago e vidrado de mame procurou Chris, como se lutasse por entender o significado de suas palavras. Admito que ela parecia angustiada. Seu olhar passou 
de Chris para mim, em seguida para sua me, depois para Carrie e, afinal, voltou a Cory.
     - Mame - disse Chris, com mais firmeza. - Deixe Cathy ir com vocs. Posso cuidar de Carrie, se  isso que a preocupa.
      claro que no me deixaram ir.
#257
     Nossa me carregou Cory para o corredor. A cabea do menino estava cada para trs, o cabelo da testa balanando no mesmo ritmo que os passos dela, o corpo 
envolto numa manta verde, da mesma tonalidade que a grama
primaveril.
     A av dirigiu-me um sorriso cruel de triunfo e zombaria, depois fechou e trancou a porta.
     Deixaram Carrie desamparada, berrando, com as lgrimas escorrendo pelo rosto. Seus pequenos punhos me esmurravam como se a culpa me coubesse.
     - Cathy, tambm quero ir! Obrigue elas a me deixarem ir! Cory no quer ir aonde eu no vou... e esqueceu a guitarra!
     Ento, toda a sua raiva se dissipou e ela caiu nos meus braos, soluando.
     - Por que, Cathy? Por qu?
      Porqu?
     Era a maior indagao de nossas vidas.
     Aquele foi, sem comparao, o pior e mais longo de nossos dias. Tnhamos pecado e Deus no tardara em aplicar o castigo. Mantinha-se vigilante quanto a ns, 
como se soubesse desde o incio que nos mostraramos indignos, mais cedo ou mais tarde - exatamente com a av j sabia.
     Foi como no princpio, antes que o aparelho de televiso viesse ocupar a maior parte de nosso tempo. Passamos o dia inteiro sentados em silncio, sem ligar 
a televiso, apenas aguardando notcias de Cory.
     Chris sentou-se na cadeira de balano e estendeu os braos para ns. Carrie e eu nos sentamos em seu colo e ele balanou  vagarosamente a cadeira para frente 
e para trs, para frente e para trs, fazendo ranger as tbuas do assoalho.
     No sei por que as pernas de Chris no ficaram dormentes de tanto tempo que passamos sentadas em seu colo. Ento, levantei-me para limpar a gaiola de Mickey, 
dar-lhe comida e gua. Segurei-o, fazendo-lhe carinho e dizendo-lhe que seu dono logo estaria de volta. Creio que o camundongo percebia que alguma coisa estava errada, 
pois, ao contrrio do costume, no brincou alegremente na gaiola e, apesar de eu ter deixado a porta aberta, no saiu para passear pelo quarto nem entrou na casa 
de bonecas de Carrie, que tanto o encantava.
     Arrumei a mesa para as refeies, que mal beliscamos. Depois de terminada a ltima refeio do dia, o quarto arrumado, tomamos banho e nos preparamos para dormir. 
Ns trs nos ajoelhamos em fila ao lado da cama de Cory e fizemos nossas preces a Deus, pedindo que Cory ficasse bom depressa e voltasse para ns. Se rezamos por 
alguma outra coisa, no me lembro.
     Dormimos, ou tentamos dormir, os trs na mesma cama, Carrie entre Chris e eu. Nunca mais algo indecente se passaria entre ns... nunca, nunca mais.
      Deus, por favor, no castigue Cory como um meio de vingana contra Chris e eu, para fazer-nos sofrer, pois j estamos sofrendo e no pretendamos fazer o que 
fizemos. 
#258
      Realmente no pretendamos. Aconteceu por acontecer, e foi uma vez s... e no deu prazer algum. Realmente, nenhum prazer.

     Um novo dia amanheceu, feio, cinzento, ameaador. Alm das cortinas fechadas, comeava a vida para os que viviam livres e que no conseguamos ver. Arrastamo-nos 
de volta  realidade, andando a esmo pelo quarto, tentando encher o tempo, procurando comer e alegrar Mickey, que parecia to tristonho sem o menino que deixava 
trilhas de migalhas de po para ele seguir.
     Troquei as capas dos colches com o auxilio de Chris, pois era muito difcil enfiar um colcho enorme na capa acolchoada - o que precisava ser feito com freqncia 
devido  incontinncia urinria de Cory. Depois, Chris e eu fizemos as camas com lenis limpos e estendemos as colchas. Arrumamos o quarto, enquanto Carrie ficava 
sentada na cadeira de balano, fitando o espao.
     Por volta das dez, nada nos restava fazer seno ficarmos sentados na cama mais prxima  porta do corredor, com os olhos pregados na maaneta, querendo que 
ela girasse para dar passagem a mame, que nos traria notcias de Cory.
     Pouco depois, mame entrou com os olhos vermelhos e inchados de chorar. Atrs dela vinha a av de olhos de ao, alta, severa, sem sinal de lgrimas.
     Nossa me vacilou junto  porta, como se suas pernas fossem ceder e deix-la cair. Chris e eu nos erguemos de um salto, mas Carrie limitou-se a fit-la com 
os olhos vazios de qualquer expresso.
     - Levei Cory a um hospital que fica a quilmetros daqui; o mais prximo, na verdade - explicou nossa me numa voz tensa e rouca, que se embargava a intervalos. 
- Registrei-o sob nome falso, explicando que era meu sobrinho e estava sob minha guarda.
     Mentiras! Sempre mentiras!
     - Mame, como est ele? - indaguei impaciente.
     Seus olhos azuis, vidrados, voltaram-se em nossa direo; olhos vazios, que olhavam vagamente; olhos perdidos,  procura de algo que se fora para sempre - talvez 
a humanidade dela. 
     - Cory teve pneumonia - recitou nossa me. - Os mdicos fizeram todo o possvel... mas era... tarde... tarde demais.
     Teve pneumonia?
     Fizeram o possvel?
     Era tarde demais?
     S pretritos!
     Cory estava morto! Nunca mais o veramos!
     Chris declarou-me mais tarde que a notcia o atingiu como um pontap na virilha. Vi-o tropear para trs e girar para esconder o rosto, os ombros sacudidos 
por soluos.
#259
     A princpio, no acreditei nela. Permaneci parada, fitando-a, duvidando.
Todavia, a expresso em seu rosto me convenceu - algo grande e oco me cresceu dentro do peito. Ca sentada na cada, aturdida, quase paralisada, sem mesmo perceber 
que estava chorando at que senti  minhas roupas molhadas.
     E mesmo sentada e chorando, ainda no queria acreditar que Cory se fora de nossas vidas. E Carrie, pobre Carrie, ergueu a cabea, jogou-a para trs, abriu a 
boca e gritou!
     Gritou e gritou, at perder a voz e no conseguir mais emitir um som. Encaminhou-se vagarosamente ao canto onde Cory deixava a guitarra e o banjo, arrumou meticulosamente 
todos os pares de surrados sapatos de tnis do irmo. E foi aquele o local que escolheu para sentar-se, junto dos sapatos, dos
instrumentos musicais e da gaiola de Mickey. A partir daquele momento, nenhuma palavra lhe saiu dos lbios.
     - Iremos ao enterro dele? - perguntou Chris num tom engasgado, ainda de costas para o quarto.
     - J foi sepultado - respondeu mame. - Mandei gravar um nome falso na lpide.
     Ento, muito depressa, fugiu do quarto e de nossas perguntas. A av foi atrs, os lbios apertados numa linha fina e sinistra.

     Diante de nossos olhos horrorizados, Carrie definhava dia a dia. Eu sentia que seria menor Deus ter levado Carrie tambm, sepultando-a ao lado de Cory numa 
longnqua cova com nome falso, sem o consolo de serem ao menos enterrados perto do pai.
     Nenhum de ns conseguia comer muito. Tornamo-nos indolentes e cansados - sempre cansados. Nada nos interessava. Lgrimas - Chris e eu j tnhamos chorado cinco 
oceanos de lgrimas. Assumimos toda a culpa. Devamos ter fugido h muito tempo. Deveramos ter usado a chave de madeira e
Ido procurar socorro para Cory. Deixramos Cory morrer! Ele era responsabilidade nossa, nosso querido menininho calado e to talentoso, e ns o deixramos morrer. 
Agora, tnhamos uma irmzinha encolhida num canto, definhando a cada dia.
     Em voz baixa para que Carrie no conseguisse escutar caso estivesse prestando ateno - embora eu duvidasse (nossa pequena tagarela ficara cega, surda e muda... 
diabo!) - Chris me disse:
     - Precisamos fugir, Cathy, e depressa. Seno, morreremos todos como Cory. H algo errado com todos ns. Ficamos trancados tempo demais. Levamos vidas anormais, 
como se estivssemos numa cmara de vcuo livre de micrbio, sem as infeces com que as crianas normais costumam entrar em contato. No temos resistncia s infeces.
     - No entendo - repliquei.
     Chris sussurrou, enquanto nos encolhamos na mesma poltrona:
     - Quero dizer, como os marcianos naquele livro A Guerra dos Mundos, podemos morrer todos por causa de um simples micrbio de resfriado.
#260
     Horrorizada, fitei-o sem conseguir falar. Ele sabia tanta coisa mais que eu. Olhei para Carrie, encolhida em seu canto. Seu doce rosto infantil, com olhos grandes 
demais e cercados de fundas olheiras, fitava o vcuo. Eu sabia que ela olhava para a eternidade, onde estava Cory. Todo o amor que eu dedicara a Cory, transferi 
agora para Carrie... temendo tanto por ela. Tinha um corpinho esqueltico e o pescoo parecia fraco, incapaz de sustentar a cabea. Seria assim que terminariam todas 
as bonecas de Dresden?
     - Chris, se tivermos que morrer no ser como ratos encurralados. Se os micrbios podem nos matar, ento que sejam eles. Portanto, quando voc for roubar, esta 
noite, pegue tudo de valor que conseguir encontrar e que possamos carregar! Embrulharei uma merenda para levarmos. Tirando as roupas de Cory, teremos mais espao 
nas malas. Sairemos daqui antes do amanhecer.
     - No - disse ele. - S se soubermos que mame vai sair com o marido, s ento poderei pegar todo o dinheiro e todas as jias, de um s golpe. leve apenas aquilo 
de que temos absoluta necessidade. Nada de jogos ou brinquedos. E, Cathy, talvez mame no saia esta noite. Certamente no poder
freqentar festas enquanto estiver de luto.
     Como poderia ela ficar de luto se sempre precisava manter o marido no escuro a nosso respeito? E ningum vinha ao quarto, exceto a av, para contar-nos o que 
se passava l fora. E ela se recusava a falar conosco ou mesmo olhar para ns. Quando ela entrou, minha mente j estava no caminho da fuga e eu a olhei como se ela 
fosse coisa do passado. Agora que o momento da partida estava to prximo, sentia-me amedrontada. O mundo l fora era imenso. Estaramos por nossa conta. O que pensaria 
o mundo de ns?
     No ramos lindos como antes; agora, no passvamos de plidos e doentios camundongos de sto, com longos cabelos louros, usando roupas elegantes mas que no 
nos assentavam bem, como os ps calados em tnis.
     Chris e eu nos educramos lendo muitos livros, e a televiso muito nos ensinara a respeito de violncia, ambio e imaginao, mas quase nada que fosse prtico 
e til  nossa preparao para encarar a realidade.
     Sobrevivncia. Era isso que a televiso deveria ensinar s crianas inocentes: como viver num mundo em que ningum se importa a mnima com os outros, exceto 
os seus - e s vezes, nem mesmo os seus!
     Dinheiro. Se aprendramos alguma coisa naqueles anos de confinamento era que o dinheiro vinha em primeiro lugar e todo o resto depois dele. Como mame bem nos 
dissera tanto tempo atrs: "No  o amor que faz o mundo funcionar;  o dinheiro".
     Retirei da mala as roupinhas de Cory - seu segundo melhor par de tnis, dois pijamas - e durante todo o tempo as lgrimas me escorriam pelo rosto. Numa das 
bolsas laterais da mala encontrei folhas pautadas para msica, que ele mesmo devia ter arrumado ali. Oh, como doa pegar aqueles papis e ver as linhas que Cory 
traara com uma rgua, e as pequenas notas pretas que
ele desenhara com traos tortos. Por baixo da partitura (ele aprendera sozinho a escrever notaes musicais, usando uma enciclopdia que Chris lhe arranjara), Cory 
escrevera a letra de uma cano inacabada:
#261
     "Quero que a noite termine,
     Quero que o dia amanhea,
     Quero que chova ou que neve,
     Ou que o vento sopre,
     Ou que o capim cresa.
     Gostaria que fosse ontem,
     Quando eu podia brincar..."

     Oh, Deus! Alguma vez existira uma cano ta:o triste e melanclica? Ento, aquela era a letra de uma msica que eu o escutara tocar repetidamente. Desejando, 
sempre desejando algo que no podia ter. Algo que todos os outros meninos aceitavam como normal, como coisa corriqueira em suas vidas.
     Tive vontade de gritar de angstia. I

     Adormeci pensando em Cory .E, como sempre acontecia quando estava muito perturbada, comecei a sonhar. Dessa vez, porm, no sonho eu era apenas eu mesma. Vi-me 
numa serpenteante trilha de terra, tendo  esquerda vastas pastagens planas onde cresciam flores silvestres vermelhas e cor-de-rosa, e  direita flores amarelas 
e brancas balanavam suavemente  brisa clida de uma eterna primavera benfazeja. Uma criancinha segurava-me a mo. Baixei os
olhos, esperando ver Carrie - mas era Cory!
     Sorridente e feliz, saltitava a meu lado com um buqu de flores silvestres na mo, as perninhas curtas procurando acompanhar-me o passo. Sorriu para mim e estava 
prestes a falar, quando escutou o gorjeio de muitos pssaros coloridos nas rvores copadas  nossa frente.
     Um homem alto e esbelto, com cabelos dourados e pele bronzeada de sol, avanou de um jardim belssimo, cheio de rvores e flores radiantes, inclusive rosas 
de todas as cores. Parou a dez metros de distncia e abriu os braos para Cory.
     Mesmo no sonho, meu corao pulou de excitao e alegria! Era papai! Papai viera encontrar Cory, a fIm de que este no tivesse que fazer sozinho o resto da 
jornada. Embora sabendo que devia largar a mozinha quente de Cory, decidi segur-la para sempre e mant-lo comigo.
     Papai me sorriu, sem pena ou censura, mas com orgulho e admirao. Ento, larguei a mo de Cory e fiquei observando enquanto ele corria, feliz, para lanar-se 
nos braos de papai. Foi levantado pelos braos fortes que
outrora costumavam envolver-me e fazer-me sentir que o mundo inteiro era maravilhoso. Resolvi seguir tambm a trilha e tornar a sentir aqueles braos em torno de 
mim, permitindo que papai me levasse para onde quisesse.
     
     - Cathy! Acorde! - disse Chris, sentado na minha cama, sacudindo-me. - Est falando dormindo. Rindo e chorando, dizendo al e adeus. Por que sonha tanto?
#262
A narrativa do sonho escapou-me dos lbios aos borbotes, to depressa que as palavras se misturavam. Chris ficou sentado, olhando para mim - da mesma forma que 
Carrie, que tambm acordara e escutava. Havia tanto tempo que eu no via meu pai que suas feies tinham-me desbotado na memria;
contudo, olhando para Chris, senti-me muito confusa. Ele era muito parecido com papai, apenas mais jovem.
        Aquele sonho Se repetiu muitas vezes, agradvel. Proporcionava-me paz. Dava-me conhecimentos que eu no tinha antes. As pessoas nunca morrem realmente. Passam 
apenas para um lugar melhor, onde aguardam a chegada de seus entes queridos. Ento, voltam ao mundo, mais uma vez, como aconteceu no princpio.

Fuga

        Dez de novembro. Aquele deveria ser nosso ltimo dia na priso. J que Deus no nos libertava, ns nos libertaramos.
        Logo aps as dez da noite, Chris cometeria o roubo final. Nossa me fizera-nos uma rpida visita, pouco  vontade em nossa presena - de modo muito evidente.
        - Bart e eu sairemos esta noite. Eu no quero, mas ele insiste. No entende por que razo pareo to tristonha.
        Aposto que ele no entendia, mesmo. Chris passou sobre o ombro as duas fronhas nas quais traria de volta as pesadas jias. Parou no limiar da porta aberta 
para lanar-nos um demorado olhar antes de fech-la e usar a chave de madeira para tranc-la, pois no podia deix-la aberta e revelar nosso segredo  av, caso 
ela viesse espionar. No escutamos os passos de Chris no corredor, porque as paredes eram muito grossas e o tapete muito espesso, abafando todos os rudos.
        Carrie e eu nos deitamos lado a lado; abracei-a, protegendo-a.
        Se aquele sonho no me tivesse dito que Cory estava bem cuidado, eu choraria por no t-lo junto a mim. Mesmo assim, no podia deixar de sofrer por saudade 
de um menininho que me chamava de mame sempre que sabia
que sua verdadeira me no o escutava. Sempre tivera muito medo de que Chris o considerasse um maricas se soubesse quanta saudade e necessidade sentia da me, a 
ponto de precisar substitu-la por mim. Muito embora eu lhe afirmasse que Chris jamais zombaria dele, pois tambm sentia muita falta da me, Cory mantinha a coisa 
em segredo entre ele, eu - e Carrie. Tinha que
fazer-se de msculo e convencer-se de que no fazia diferena o fato de no ter me ou pai, quando, na verdade, fazia uma diferena enorme.
        Abracei Carrie com fora, jurando que se algum dia eu tivesse filhos estes jamais teriam uma necessidade sem que a  pressentisse e satisfizesse. Eu seria 
a melhor me do mundo.
#263
        As horas se arrastaram como anos e Chris no regressava de sua ltima incurso predatria no grandioso apartamento de nossa me. Por que se demorava tanto, 
dessa vez? Acordada e ansiosa, eu sentia lgrimas nos olhos e imaginava as calamidades que poderiam det-lo.
        Bart Winslow... o marido desconfiado... pegaria Chris! Chamaria a polcia! Mandaria Chris para a cadeia! Mame ficaria placidamente de lado, expressando 
choque e leve surpresa ante o fato de que algum se atrevesse a roub-la. Oh, no,  claro que no tinha um filho! Por Deus, todo mundo
sabia que ela no tinha filhos! Alguma vez algum a vira com uma criana? No conhecia aquele rapaz com olhos azuis to parecidos com os seus. Afinal, tinha muitos 
primos espalhados pelo mundo - e um ladro era "sempre um ladro, mesmo que fosse um parente distante, de quinto ou sexto grau!
        E a av! Se ela o apanhasse - o pior castigo possvel!
        O amanhecer no tardou, cinzento, anunciado pelo cantar de um galo.
        O sol pairava, relutante, no horizonte. Em breve seria tarde demais para partirmos. O trem matinal passaria pela parada e necessitvamos de algumas horas 
de vantagem antes que a av abrisse a porta do quarto para constatar que tnhamos fugido. Ela mandaria uma turma de busca? Daria queixa 
polcia? Ou, mais provavelmente, deixar-nos-ia ir, satisfeita por finalmente ver-se livre de ns?
        Desesperanada, subi ao sto a fim de olhar para fora, Dia frio, nevoento. A neve que cara na ltima semana ainda formava manchas brancas esparsas. Um 
dia sombrio, misterioso, que parecia incapaz de nos trazer alegria ou liberdade. Escutei o galo cantar outra vez; soava distante e abafado.
Rezei silenciosamente para que Chris, onde quer que estivesse, tambm escutasse o galo e apressasse os passos.

        Lembro-me - oh, como me lembro bem! - de quando Chris regressou ao nosso quarto naquela manh fria. Deitada ao lado de Carrie, eu cochilava inquieta, de 
modo que foi fcil despertar de imediato quando a chave girou na fechadura. Eu me deitara inteiramente vestida, pronta para partir, aguardando entre sonhos intermitentes 
que Chris chegasse para levar-nos embora.
        Chris hesitou junto  porta, fitando-me com olhar vidrado, Ento, avanou vagarosamente na minha direo, sem demonstrar a pressa que devia. E eu s conseguia 
olhar para as fronhas enfiadas uma na outra - to achatadas! Parecendo to vazias!
        - Onde esto as jias? - perguntei. - Por que demorou tanto? Olhe para as janelas: o sol est nascendo! Nunca chegaremos  parada do trem a tempo de peg-lo!
        Ento, minha voz assumiu um tom duro, raivoso:
        - Ficou cavalheiresco novamente, no ? Por isso voltou sem as preciosas jias de mame!
        A essa altura, Chris j estava junto  cama, limitando-se a ficar imvel, com as fronhas vazias pendentes da mo.
#264
        - Desapareceram - disse Com desnimo. - Todas as jias desapareceram.
        - Desapareceram? - repeti asperamente, certa de que ele mentia, encobria alguma coisa, ainda relutando em roubar as jias que sua me tanto adorava. Ento, 
fitei-o nos olhos. - Desapareceram? Chris, as jias esto sempre l. E o que h com voc, afinal? - Por que parece to esquisito?
        Ele se deixou cair de joelhos ao lado da cama, totalmente derreado, baixando a cabea e apoiando o rosto em meu seio. Ento, comeou a soluar. Meu Deus! 
O que dera errado? Por que ele chorava?  horrvel ouvir-se um homem chorar - e eu o considerava um homem, no mais um
menino.
        Abracei-o, acariciando e alisando seus cabelos, o rosto, os braos, as costas. Depois, beijei-o, num desesperado esforo para remediar algo terrvel que 
lhe ocorrera. Fiz tudo o que vira minha me fazer por ele em ocasies de sofrimento, sabendo intuitivamente que suas paixes no se excitariam para exigir mais do 
que eu estivesse disposta a dar-lhe.
        Na verdade, precisei for-lo a falar, a explicar.
        Chris conteve os soluos, engolindo-os. Limpou as lgrimas e enxugou o rosto com a ponta do lenol. Ento, virou a cabea para fitar as horrveis pinturas 
que descreviam o inferno e todos os seus tormentos. Suas
frases saram quebradas, desconjuntadas, freqentemente entrecortadas pelos soluos.
        Foi assim que ele me contou tudo, ajoelhado junto  minha cama, enquanto eu lhe segurava as mos trmulas. Seu corpo estremecia e os olhos azuis estavam 
sombrios e desolados, prevenindo-me de que ficaria chocada. No obstante estar prevenida, confesso-me despreparada para o que escutei a seguir.
        - Bem - comeou ele, respirando fundo. -  Percebi que havia algo diferente to logo entrei no apartamento dela. Sem acender luzes, corri o foco da lanterna 
pelo ambiente e simplesmente no consegui acreditar! A ironia... a detestvel e profunda amargura de termos agido tarde demais! Foram-se, Cathy, mame e seu marido 
se foram! No apenas a alguma festa na vizinhana, mas foram embora daqui! Levaram consigo todas as pequenas coisas que do a qualquer aposento um toque pessoal: 
os enfeites de cima da cmoda, as coisas da penteadeira, cremes, loes, ps, perfumes, tudo que ali estava antes tinha desaparecido! Nada na penteadeira. Fiquei 
to furioso que comecei a correr como um demente, de um lugar para outro, abrindo
gavetas e esvaziando-as, esperando encontrar algo valioso que pudssemos empenhar... e no achei nada! Oh, eles fizeram um trabalho perfeito, nem mesmo aquele pequeno 
pote de porcelana para remdios, ou um dos grandes pesos de papel de cristal veneziano que custam uma fortuna. Corri ao quarto de vestir e abri todas as gavetas. 
Claro que ela deixou algumas coisas: porcarias, sem nenhum valor para ns ou para qualquer pessoa: batons, cremes de limpeza e coisas desse tipo. Ento, abri aquela 
gaveta especial, no fundo da penteadeira, da qual ela nos falou h muito tempo, nem imaginando que ns poderamos tentar roub-la.
#265
Retirei a gaveta do lugar e a coloquei no cho. Ento, tateei atrs, procurando o boto escondido, que precisa ser apertado numa determinada combinao de nmeros, 
os nmeros do aniversrio dela, do contrrio ela acabaria esquecendo a combinao. Lembra-se de como ela riu ao nos contar isso? O compartimento secreto se abriu 
e deveria conter dzias de anis nas bandejas forradas de veludo, mas no havia um s l dentro - nenhum! E as pulseiras, colares, brincos, tudo desapareceu. Tudo, 
Cathy, at mesmo aquela tiara que voc experimentou. Ora, nem pode imaginar o que senti! Tantas vezes voc me pediu que tirasse ao menos um pequeno anel e eu recusei 
porque acreditava nela!

        - No chore de novo, Chris - implorei quando se engasgou e tornou a esconder o rosto no meu peito. - Voc no podia imaginar que ela partiria to pouco tempo 
depois da morte de Cory.
        - Sim, ela est mesmo sofrendo muito, no ? - comentou com amargura, enquanto eu passava os dedos entre seus cabelos.
        - Na verdade, Cathy, descontrolei-me por completo - prosseguiu finalmente. - Corri de um armrio para outro arrancando todas as roupas de inverno e logo 
constatei que as roupas de vero tinham sumido, bem como dois conjuntos de elegantes malas de viagem. Esvaziei caixas de sapatos e as gavetas dos armrios, procurei 
as latas onde ele guarda as moedas. Mas at isso eles levaram, ou esconderam num lugar melhor. Frentico, revistei tudo, procurando qualquer coisa. At mesmo pensei 
em roubar um dos abajures, mas verifiquei que pesavam uma tonelada. Ela deixou os casacos de pele e ocorreu-me roubar um deles, mas lembrei-me de que voc os experimentara 
e eram grandes demais para seu tamanho, algum l fora ficaria  desconfiado de ver uma adolescente com um casaco de arminho grande demais para ela. As estolas de 
pele tinham sumido, e se eu trouxesse um casaco de pele comprido ele sozinho encheria uma de nossas malas; ento, ficaramos sem espao para levar nossas coisas 
e os quadros que eu poderia vender l fora, e vamos precisar de todas as roupas que conseguirmos levar. Na realidade, tive vontade de arrancar os cabelos, to desesperado 
estava por encontrar algo de valor. Como poderemos arranjar-nos sem dinheiro? Sabe, naquele instante, quando
parei no meio do quarto e pensei na nossa situao, na pssima sade de Carrie, pouco me importei de vir ou no a ser mdico. Tudo o que desejei foi cair fora daqui! 
Ento, quando tudo parecia indicar que no encontraria o que roubar, examinei a gaveta inferior da mesinha de cabeceira. Nunca antes eu abrira aquela gaveta. Dentro 
dela, Cathy, encontrei uma fotografia de papai numa moldura de prata, a certido do casamento dele com ela, e uma caixinha de veludo verde, que continha a aliana 
de casamento de mame e o anel de brilhante que papai lhe dera como presente de noivado. Doeu-me pensar que ela levasse tudo e deixasse para trs, como coisas sem 
valor, a
fotografia de papai e os dois anis que ele lhe dera. Ento, ocorreu-me uma idia muito estranha: talvez ela soubesse quem vinha roubando as coisas de seu quarto 
e tivesse deixado aquilo ali propositalmente.
#266
        - Nada disso! - zombei, eliminando a delicada hiptese. - Ela j se esqueceu de papai. Agora, tem o seu adorado Bart.
        - No importa, o fato  que fiquei grato por encontrar alguma coisa. Portanto, o saco no est to vazio quanto parece. Temos a fotografia de papai e os 
anis dela, mas ser preciso atravessarmos uma crise insuportvel para me obrigar a empenhar qualquer dos dois anis.
        Percebi a advertncia em sua voz, mas no me soou sincera, como deveria. Tive a impresso de que ele apenas simulava ser o velho Christopher, que confiava 
cegamente em todo mundo.
        - Continue. O que aconteceu a seguir?
        Ele se demorara tanto e o que acabava de contar no lhe tomaria a noite inteira.
        - Raciocinei que se no podia roubar nossa me, devia procurar o quarto da av e tentar encontrar alguma coisa l.
        Oh, meu Deus, refleti, ele no... no podia! No obstante, que vingana perfeita!
        - Como voc sabe, ela tem jias: muitos anis nos dedos e aquele maldito broche de brilhantes que usa a vida inteira como parte do uniforme, alm dos brilhantes 
e rubis que a vimos usar na festa de Natal. Naturalmente, calculei que ela tambm teria muito mais coisas que eu poderia trazer. Portanto, percorri furtivamente 
todos aqueles compridos corredores escuros e, na ponta dos ps, aproximei-me da porta do quarto da av, que estava fechada.
        Oh, quanta coragem para fazer aquilo. Eu jamais...
        - Uma fina fresta de luz aparecia por baixo da porta, mostrando que ela ainda estava acordada. Isso me deixou amargurado, pois a velha j devia estar dormindo. 
Em circunstncias menos prementes, a luz seria o bastante para deter-me e evitar que eu agisse de forma to arriscada, ou talvez voc prefira usar o termo "audaciosa", 
agora que tenciona tornar-se algum dia uma mulher de palavras, aps ter sido uma mulher de ao.
        - Chris! No se desvie do assunto! Prossiga! Conte-me que loucura cometeu! Se eu estivesse no seu lugar, daria meia- volta e
retornaria diretamente para c!
        - Ora, mas eu no sou voc, minha Catherine; sou eu... Usei muita cautela e, bem devagar, abri um pouco a porta, embora esperasse que ela estalasse ou rangesse
a qualquer instante, denunciando minha presena. Todavia, algum vem mantendo as dobradias bem lubrificadas e, sem medo de que a velha fosse alertada, colei um 
olho  fresta e espiei para dentro do quarto.
        - Viu a bruxa velha despida? - interpus.
        - No! - replicou Chris, impaciente e irritado. - No a vi despida e me alegro por isso. Ela estava na cama, sob as cobertas, usando uma camisola de mangas 
compridas de algum tecido pesado, com gola, abotoada na frente at o pescoo. Mas, de certo modo, eu a vi despida. Voc conhece aquele cabelo cor-de-ao azulado 
que tanto detestamos. Pois no estava na cabea dela! Repousava enviesadamente numa cabea de manequim sobre a mesa de cabeceira, como se ela quisesse ter certeza 
de t-la ao alcance da mo em caso de emergncia durante a noite.
#267
        - Ela usa peruca? - indaguei com total espanto, embora devesse ter desconfiado, pois algum que sempre penteava os cabelos repuxados de tal maneira para 
trs teria que ficar careca, mais cedo ou mais tarde.
        - Sim, pode apostar que ela usa peruca e que aquele cabelo com que a vimos na festa de Natal tambm  uma peruca. O pouco cabelo que lhe resta na cabea 
 muito ralo, de um branco amarelado, e o couro cabeludo tem
zonas em que no cresce cabelo, mas apenas uma fina penugem de beb sobre manchas avermelhadas. Usava culos sem aro, pousados quase na ponta daquele nariz comprido; 
voc bem sabe que nunca a vimos de culos. Seus lbios finos se franziam numa linha de desaprovao enquanto ela corria lentamente os olhos de linha para linha de 
um enorme livro negro que tinha nas mos, a Bblia, naturalmente. Ali estava ela, sentada na cama, lendo a respeito de prostitutas e outros pecadores que lhe franziam 
a testa numa carranca terrvel. E enquanto eu observava, compreendendo que no poderia roub-la naquele momento, ela deixou a Bblia de lado, marcou a pgina com 
um carto postal e depois colocou o livro em cima da mesinha de cabeceira. Desceu da cama e ajoelhou-se no cho. Baixou a cabea, juntando as mos sob o queixo, 
exatamente como costumamos fazer, rezando em silncio por um tempo interminvel. Afinal, disse em
voz alta: "Perdoa-me, Senhor, por todos os pecados que eu tenha 
cometido. Sempre agi da maneira que julguei estar certa e se cometi algum erro foi por pensar que agia corretamente. Acredita-me, por favor. Que eu goze sempre de
graa perante os teus olhos. Amm". Tornou a subir para a cama e estendeu a mo para apagar a luz. Fiquei no corredor, imaginando o que fazer. Simplesmente no podia 
voltar de mos vazias, pois espero que jamais precisemos empenhar os anis que papai deu  nossa me.
        - Ento, ergueu as mos para acariciar-me a cabea e prosseguiu:
        - Fui  rotunda principal, onde existia aquela mesa perto da balaustrada, e encontrei o quarto de nosso av. No sabia se teria coragem de abrir a porta 
do quarto dele e encarar o homem que est perpetuamente moribundo, ano aps ano. Entretanto, seria minha nica oportunidade e decidi aproveit-la da melhor maneira 
possvel. Desse no que desse, corri silenciosamente pela escada abaixo, como um ladro de verdade, carregando a minha sacola de fronhas. Vi os sales enormes e suntuosos, 
to grandiosos e opulentos, e imaginei, como voc deve ter imaginado, como seria crescermos num ambiente como aquele, servidos por inmeros criados que nos fizessem 
todas as vontades. Oh, Cathy,  uma casa linda e a moblia deve ter sido importada a de palcios da Europa, pois parece frgil demais para ser usada e bonita demais 
para ser confortvel. Os quadros a leo so originais, conheo o bastante para saber, assim como os bustos e esttuas, a maioria sobre pedestais, alm de preciosos 
tapetes persas e orientais. E, naturalmente, eu conhecia o caminho da biblioteca, j que. voc fazia tantas perguntas a mame. Sabe de uma coisa, Cathy? Fiquei muito 
satisfeito por voc ter indagado tanta coisa,
#268
do contrrio eu bem poderia ter-me perdido; muitos corredores partem em todas as direes daquele salo central. Contudo, foi fcil encontrar a biblioteca: um salo 
escuro, realmente imenso, silencioso como um cemitrio. O teto deve ter seis metros de altura. As estantes vo at l em cima e existe uma escada de ferro em caracol 
que leva a uma espcie de passarela no nvel
superior, da qual  possvel alcanar as prateleiras de cima. Nos nveis inferiores, h duas escadas de madeira providas de rodas e presas a uma espcie de trilho. 
Nunca vi tantos livros numa residncia particular. No  de espantar que no dessem falta dos livros que mame levava, embora, ao olhar com mais ateno, eu pudesse
ver espaos vazios nas prateleiras, como falhas numa dentadura, onde faltavam alguns dos livros encadernados em couro gravado a ouro. Na biblioteca existe uma escrivaninha
enorme, macia, que deve pesar mais de uma tonelada, e uma grande poltrona giratria de espaldar
alto. Imaginei nosso av sentado quela mesa, dando ordens a torto e a direito,
e usando os telefones sobre a mesa, seis telefones, Cathy! Seis! Todavia, quando fui verific-los, julgando que talvez pudesse trazer um deles, constatei que estavam 
todos desligados.  esquerda da mesa, uma fileira de janelas estreitas e altas permitia ver um jardim privativo, um panorama espetacular, mesmo  noite. Um arquivo 
feito em mogno escuro, para combinar com a moblia. Dois sofs macios, muito compridos, afastados cerca de um metro da parede, a fim de permitir livre circulao 
por trs deles. Poltronas perto da lareira e, naturalmente, uma poro de mesinhas e cadeiras para a gente tropear no escuro, alm de grande quantidade de outros 
objetos.
        Suspirei, pois Chris me contava muito do que tanto desejava ouvir e, no obstante, eu continuava a esperar por aquela coisa terrvel que me mantinha em suspenso, 
aguardando a punhalada final.
        - Julguei que houvesse dinheiro escondido na escrivaninha. Usando a lanterna, comecei a examinar todas as gavetas. Estavam todas destrancadas. E no era 
de espantar, pois estavam todas vazias, totalmente vazias! Aquilo me causou perplexidade, afinal, para que uma mesa de trabalho se no se utilizavam as gavetas? 
Documentos importantes so guardados em cofres de
aluguel ou em cofres particulares; no so deixados em gavetas trancadas que qualquer ladro hbil  capaz de arrombar. Portanto, as gavetas servem para guardar 
miudezas. E onde estavam os elsticos, clipes de papel, lpis, canetas, blocos de anotaes e todas as outras coisas que deveriam estar naquelas gavetas vazias? 
Para que ter uma escrivaninha? Voc nem imagina as suspeitas que me passaram pela cabea. Foi ento que tomei uma deciso. De onde estava, eu podia olhar atravs 
da comprida biblioteca e ver a porta do quarto de nosso av. Vagarosamente, caminhei naquela direo. Afinal, eu ia v-lo... estaria cara a cara com o odiado av 
que tambm era nosso meio-tio. Imaginei nosso encontro. Ele estaria na cama, doente, mas ainda implacvel, malvado e frio como gelo. Eu abriria a porta com um pontap, 
acenderia a luz e ele me avistaria. Prenderia a respirao! Certamente me reconheceria... saberia quem eu era; um olhar seria o bastante para isso. Ento, eu diria: 
"Aqui estou, av, o neto que voc desejava que nunca nascesse. Tenho duas irms, trancadas num quarto do andar superior da ala norte.
#269
E antes tinha um irmo mais moo, que morreu, e voc ajudou a mat-lo!" Eu tinha tudo isso na cabea, embora duvidasse que fosse capaz de dizer a ele. Voc certamente 
gritaria isso para ele, e Carrie tambm, se soubesse falar como voc. No obstante, eu
talvez chegasse a dizer tudo a ele, s pelo prazer de v-lo sofrer e, talvez, demonstrar tristeza, piedade ou arrependimento... ou, mais provavelmente, feroz indignao 
por tomar conhecimento de nossa existncia! De uma coisa, porm, tenho absoluta certeza: eu no podia suportar mais um minuto como prisioneiro e ver Carrie morrer 
como Cory!
     Prendi a respirao. Que coragem a de Chris: defrontar-se com o detestado av, embora em seu leito de morte, com o caixo j aberto  sua espera. Aguardei ansiosamente 
o que viria a seguir.
        - Girei cautelosamente a maaneta, planejando peg-lo de surpresa, mas logo me envergonhei de minha timidez e resolvi agir abertamente: abri a porta com 
um pontap! L dentro estava to escuro que eu no conseguia enxergar nada. E no queria utilizar a lanterna. Estendi a mo e tateei ao longo da parede, procurando 
um interruptor. No encontrei. Acendi a  lanterna, com o facho dirigido  frente, e vi uma cama de hospital pintada de branco. Fiquei olhando, perplexo, pois via 
algo que no esperava: o colcho de listras
vermelhas e azuis estava enrolado. Quarto vazio, cama vazia. Nenhum av moribundo, arquejando ao exalar os ltimos alentos, ligado a todos os tipos de tubos e aparelhos 
que o mantinham vivo. Cathy, foi como levar um murro na boca do estmago; ningum ali, quando eu me preparara tanto para enfrent-lo! Num canto prximo  cama, uma 
bengala. Perto da bengala, aquela cadeira de rodas em que o vimos na festa de Natal. Brilhava, parecendo ainda nova, ele no teve ter usado a cadeira muitas vezes. 
No havia outros mveis no quarto alm de duas cadeiras e uma cmoda... sem nada em cima. Nenhum pente, ou escova, nada. O quarto estava to vazio e arrumado como 
o apartamento que mame abandonara; s que era um quarto simples, sem adornos, com paredes de lambris. E o quarto de morte do av dava a impresso de estar desocupado 
h muito, muito tempo. O ar era abafado, com cheiro de mofo. A poeira se acumulara no tampo da cmoda. Corri em volta,  procura de algum objeto de valor que pudssemos 
empenhar mais tarde. Nada, mais uma vez, nada! Fiquei to frustrado e furioso que corri de volta  biblioteca e procurei a pintura de uma paisagem que, segundo me 
nos informara, ocultava um cofre de parede.
        - Ora, voc bem sabe quantas vezes vimos na televiso os ladres abrirem cofres de parede; pareceu-me coisa fcil quando o arrombador sabe como agir. Basta 
colar o ouvido  tranca de segredo e girar vagarosamente o disco, prestando ateno aos estalidos reveladores... e cont-los. Foi o que imaginei. Ento, de posse 
dos nmeros, gira-se o tambor corretamente e - voil! - o cofre est aberto.
        - Interrompi:
        - O av por que no estava na cama?
        Chris prosseguiu como se no me escutasse:
#270
        - Foi o que fiz, escutando com ateno, ouvindo os estalidos. Pensei Se eu tiver sorte, o cofre se abrir, e se estiver vazio, tambm?" E sabe o que aconteceu, 
Cathy? Ouvi os estalidos que me revelavam a combinao do segredo, e no consegui cont-los com a rapidez necessria! Mesmo assim, arrisquei-me a girar a roda superior 
do trinco, na esperana de que, por acaso,
acertasse os nmeros adequados na devida seqncia. A porta do cofre no se abriu. Escutei os estalidos e consegui entender. No se aprende a arrombar cofres lendo 
enciclopdias,  um dom natural. Ento, olhei em volta, procurando algum objeto fino e resistente que eu pudesse enfiar na fechadura do segredo, contando com a possibilidade 
de soltar ou apertar alguma mola que abrisse a porta. Cathy, foi a que escutei o barulho de passos!
     - Diabo! - praguejei, frustrada como ele.
     - Isso mesmo! Corri para trs de um dos sofs e deitei-me de bruos. Foi ento que me lembrei de que esquecera a lanterna no quartinho do av.
        - Oh, meu Deus!
        - Isso mesmo! Pensei: "Agora, estou frito". Mas permaneci imvel. Um homem e uma mulher entraram na biblioteca. Ela falou primeiro, com uma voz suave de 
garotinha: "John, juro que no estou imaginando coisas! Ouvi barulhos vindo desta sala". Uma voz pesada e gutural replicou: "Voc est sempre ouvindo alguma coisa". 
Era John, o mordomo careca. Em seguida, o par passou uma rpida revista na biblioteca e, ainda discutindo, entrou no quartinho do av. Prendi a respirao, aguardando 
que encontrassem minha lanterna. Mas, por algum motivo, no encontraram. Desconfio que tenha sido porque John no queria olhar para coisa alguma exceto aquela mulher. 
Quando eu j me preparava para sair dali, eles voltaram e, juro por Deus!, se jogaram no sof atrs do qual eu estava escondido! Apoiei a cabea nos braos cruzados 
e me preparei para tirar um cochilo, imaginando que voc deveria estar muito preocupada comigo, sem saber o motivo de minha demora. Todavia, j que a porta estava 
trancada, no temi que sasse  minha procura. Foi bom eu no ter dormido.
        - Por qu?
        - Deixe-me contar a meu modo. Por favor, Cathy. Quando eles voltaram  biblioteca e se acomodaram no sof, John disse: "Eu no lhe disse que no havia ningum 
aqui nem l dentro? " Parecia confiante, muito satisfeito consigo mesmo, e acrescentou: "Na verdade, Livvy, voc fica to nervosa o tempo todo que estraga nosso 
prazer". E ela. insistiu: "Mas escutei alguma coisa, John". Ao que ele replicou: "Como eu disse antes, voc est sempre escutando coisas que no existem. Bolas! 
Ainda hoje de manh, estava falando novamente de camundongos no sto e reclamando do barulho que fazem". John soltou uma risadinha suave e deve ter feito alguma 
coisa com a pequena, pois ela comeou a rir como uma tola e, se protestou, no empregou muita convico. Ento, o tal John resmungou: "Aquela puta velha est matando 
todos os camundongos do sto. Leva comida para eles numa cesta de piquenique... em quantidade suficiente para liquidar um exrcito inteiro de camundongos".
#271
        Sabem, escutei Chris dizer aquilo e no notei nada de anormal; eu ainda era muito tola, ingnua e confiante.
        Chris pigarreou antes de continuar:
        - Tive uma sensao esquisita no estmago e meu corao comeou a fazer tanto barulho que julguei que o casal no sof acabaria escutando. E Livvy disse: 
"Sim, ela  uma velha durona e malvada. Para dizer a verdade, eu simpatizava mais com o velho - pelo menos, ele sabia sorrir. Mas ela... ela nunca aprendeu. s vezes, 
eu venho fazer a limpeza e encontro a velha no quarto dele... sempre parada ali, olhando para acama vazia, com um leve sorriso tenso e esquisito. Acho que est zombando, 
porque ele morreu e ela continua viva; est livre dele e no tem mais ningum para montar nas suas costas e mand-la fazer ou no fazer as coisas, obrigando-a a 
obedecer correndo. Puxa! Eu s vezes fico imaginando como os dois conseguiam aturar um ao outro. Mas agora ele morreu e ela ficou com o dinheiro dele. "Sim, claro 
que ficou: mas apenas com uma parte", disse John. "Ela tem dinheiro que herdou da famlia. Mas quem herdou todos os milhes deixados pelo velho Malcolm Foxworth 
foi a filha dela". "Bem," foi a resposta de Livvy, "aquela velha bruxa no precisa de mais dinheiro. No culpo o velho por ter
deixado a fortuna inteira para a filha. Esta aturou o diabo por parte dele, servindo-o como uma escrava quando ele tinha tantas enfermeiras  disposio e sendo 
tratada como uma cadela. Mas agora, tambm est livre e casada com aquele jovem to bonito. Ela ainda  jovem, bonita e tem dinheiro para jogar fora. Como ser que 
se sente? H pessoas que tm toda a sorte do mundo. Eu... nunca tive sorte". "E quanto a mim, Livvy querida? Voc me tem, pelo menos at aparecer por aqui outro 
rostinho bonito." E l estava eu, escondido atrs do sof, ouvindo tudo aquilo e sentindo-me atordoado de choque. Tive vontade de vomitar, mas fiquei muito quieto, 
escutando o casal conversar interminavelmente no sof. Eu queria sair correndo e voltar para perto de voc, Cathy, a fim de levarmos Carrie para algum lugar bem 
longe desta casa, antes que fosse tarde demais. Todavia, estava encurralado. Se eu me mexesse, eles me veriam. E o tal John  parente de nossa av... primo em terceiro 
grau, segundo mame... No acho que um parente de terceiro grau faa alguma diferena, mas parece que aquele tal John goza da confiana de nossa av, ou ela no 
lhe daria tanta liberdade no uso dos automveis. Voc j o viu, Cathy: o homem careca, que usa libr.
        Claro que eu sabia a quem Chris se referia, mas no consegui responder, pois tambm sentia um aturdimento e choque que me impediam de falar.
        - Assim - prosseguiu Chris, naquele tom montono que no revelava preocupao, temor ou surpresa - enquanto permanecia escondido atrs do sof, com o rosto 
apoiado nos braos, e fechava os olhos tentando evitar
que meu corao batesse to ruidosamente, John e Livvy, a empregada, passaram a um assunto mais srio para eles. Escutei os movimentos quando ele comeou a despi-la 
enquanto ela tirava as roupas dele.
        - Despiram-se um ao outro? - perguntei. - Ela realmente o ajudou a tirar a roupa? -
#272
        - Foi o que me pareceu - respondeu Chris secamente.
        - E ela no protestou nem gritou?
        - Claro que no. Gostou muito! E, por Deus, como demoraram! E os barulhos que fizeram, Cathy, voc no acreditaria! Ela gemia, gritava, se engasgava, ofegava 
e ele grunhia como um porco; mas creio que ele deve ser perito no assunto, pois no final ela gritava como louca. Ento, acabaram e ficaram deitados, fumando e trocando 
mexericos sobre o que se passa nessa casa, e pode crer que h pouca coisa que no saibam. Depois, fizeram amor outra vez.
        - Duas vezes na mesma noite?
        -  possvel fazer.
        - Chris, por que voc parece to esquisito?
        Ele hesitou, afastando-se um pouco para estudar-me o rosto.
        - No estava ouvindo, Cathy? Fiz o mximo esforo para lhe contar tudo nos mnimos detalhes, exatamente como aconteceu. Voc no escutou?
        Escutar? Claro que eu escutara tudo.
        Ele esperara demais para roubar o monte de jias colecionadas por mame. Devia t-las tirado aos poucos, como eu recomendara, implorara que fizesse.
        Portanto, mame e o marido tinham partido em mais uma viagem de recreio. E isso era alguma novidade? Eles estavam sempre chegando e partindo. Fariam qualquer 
coisa para se afastarem daquela casa e eu no os censurava por isso. No estvamos dispostos a fazer o mesmo?
        Franzi a testa, dirigindo a Chris um longo olhar interrogativo. Obviamente, ele sabia algo que no me contara. Continuava a proteg-la, am-la.
        - Cathy... - comeou ele, com voz embargada.
        - Est bem, Chris. No o censuro. Portanto, nossa doce, querida, devotada e amorosa me e seu jovem e belo marido partiram para mais uma viagem de recreio, 
levando consigo todas as jias. Ns nos arranjaremos.
        Dizendo adeus  segurana no mundo l fora! Mas fugiramos! Trabalharamos, daramos um jeito para ganhar nosso sustento e, alm disso, pagar os mdicos 
que cuidariam de Carrie. No nos importava o que fora feito das jias; no nos importava a indiferena de nossa me, partindo sem nos dizer aonde iria e quando regressaria. 
Naquela altura, j estvamos acostumados  indiferena brutal,  aspereza e  maldade. Por que tantas lgrimas, Chris - por qu?
        - Cathy! - explodiu ele, virando o rosto banhado em lgrimas para me fitar nos olhos. - Por que no est ouvindo e reagindo? Onde esto seus ouvidos? No 
escutou o que contei? Nosso av morreu! H quase um ano!
        Talvez eu no estivesse realmente ouvindo; pelo menos, no com suficiente ateno. Talvez o estado de abalo em que Chris se encontrava no me deixasse escutar 
direito. Agora, dei-me conta do que ele dissera e, afinal, entendi. Se nosso av realmente morrera, a notcia era tima! 
#273
Agora, mame herdaria a fortuna! Seramos ricos! Ela destrancaria a porta, libertando-nos. J no precisvamos fugir.
     Outras perguntas me assomaram  mente, numa torrente de indagaes devastadoras. Mame no nos contara que seu pai tinha morrido. Sabendo como aqueles anos 
foram penosos para ns, por que nos mantivera no escuro, sempre esperando? Por qu? Perplexa, confusa, eu no sabia direito o que sentir: felicidade, alegria ou 
tristeza. Fui invadida por um medo estranho, paralisante, que dissipou a indeciso.
     - Cathy - sussurrou Chris, embora eu no entendesse por que razo ele falava to baixo. Carrie no nos ouviria; ela vivia num mundo  parte do nosso, suspensa 
entre a vida e a morte, inclinando-se cada vez mais no sentido de Cory a cada minuto em que se privava de alimentao, abandonando a vontade de viver sem ter ao 
lado a sua outra metade. - Nossa me nos iludiu
deliberadamente, Cathy. O pai dela morreu e o testamento foi homologado alguns meses depois, mas ela manteve segredo e abandonou-nos aqui para apodrecermos. H nove 
meses ns ramos muito mais saudveis que agora!
Cory ainda estaria vivo se mame nos libertasse no dia em que seu pai morreu,
ou mesmo quando o testamento foi homologado.
     Combalida, deixei-me mergulhar no profundo poo de traio que mame cavara para afogar-nos. Comecei a chorar.
     - Guarde suas lgrimas para depois - disse Chris, que chorara pouco antes. - Ainda no ouviu tudo e existe mais... muito mais e muito pior.
     - Mais?
     Que mais poderia ele contar? Nossa me se revelara uma mentirosa, uma trapaceira, uma ladra que nos roubara a juventude e matara Cory para adquirir uma fortuna 
que no desejava repartir com filhos que j no amava ou queria. Oh, como ela soubera explicar bem o que nos esperava na noite em que nos deu uma pequena litania 
para recitarmos quando nos sentssemos infelizes! Naquela poca, ela sabia - ou mesmo suspeitava - que se tornaria - exatamente a coisa na qual o av a transformaria? 
Desabei nos braos de Chris, apoiando-me em seu peito.
     - No me diga mais nada! J escutei o bastante... no me faa odi-la ainda mais!
     - Odiar... Voc ainda nem comeou a aprender o que  odiar. Contudo, antes que eu lhe conte o resto, meta na cabea que vamos fugir para sempre daqui, acontea 
o que acontecer. Iremos para a Flrida, exatamente como planejamos. Viveremos ao sol e arranjaremos nossa vida da melhor maneira possvel. Nem por um s momento 
nos envergonharemos do que somos, ou do que fizemos, pois o que compartilhamos entre ns  muito pequeno comparado com o que fez nossa me. Mesmo que voc morra 
antes de mim, recordarei para sempre nossas vidas aqui no sto. Ver-nos-ei danando sobre as flores de papel; voc to graciosa e eu to desajeitado. Sentirei o 
cheiro de poeira e de madeira apodrecida, e para mim ser to doce como o perfume das rosas, porque sem voc tudo seria to desolado e to vazio. Voc me proporcionou 
o primeiro sabor do que pode ser o amor. Vamos mudar.
#274
Jogaremos fora o que existe de pior em ns e conservaremos o melhor. Mas, acontea o que acontecer, ns trs estaremos sempre juntos, um por todos, todos por um. 
Cresceremos, Cathy, fsica, mental e emocionalmente. No
apenas isso, mas atingiremos as metas que estabelecemos para nossas vidas. Eu serei o melhor mdico que o mundo j conheceu e voc far Pavlova parecer uma desengonada 
filha de camponeses.
     Cansei de ouvir falar de amor e das possibilidades que o futuro nos reservava, quando ainda continuvamos trancados num quarto e a morte estava deitada a meu 
lado, encolhida na posio fetal, com as pequenas mos postas em prece mesmo durante o sono.
     - Muito bem, Chris, j me deu um tempo para respirar. Estou preparada para o que der e vier. E muito obrigada por dizer tudo isso, pois tambm no deixou de 
ser amado ou admirado.
     Dei-lhe um rpido beijo nos lbios e disse-lhe para prosseguir e desferir
o golpe que me deixaria sem sentidos.
     - Na verdade, Chris, sei que voc deve ter algo terrvel para me contar, portanto, conte logo. Abrace-me enquanto fala e eu poderei suportar tudo que voc tenha 
a dizer.
     Como eu era jovem, to sem imaginao - to confiante e presumida!

Finais, Incios
        
     - Adivinhe o que ela disse aos outros - retomou Chris. - Diga-me que motivo ela alegou para no querer que esse quarto fosse arrumado na ltima sexta-feira 
de cada ms.
     Como poderia eu adivinhar? Precisaria ter uma mente como a dela. Sacudi a cabea. H tanto tempo os criados no subiam ao quarto que eu j esquecera aquelas 
horrveis semanas iniciais.
     - Camundongos, Cathy - disse Chris, com uma expresso dura e fria nos olhos azuis. - Camundongos! Centenas de camundongos no sto, inventou nossa av... camundongos 
espertos, que usavam a escada para virem ao segundo andar. Pequenos camundongos diablicos, que a obrigavam a manter esta porta fechada, deixando no quarto comida 
coberta com arsnico.
     Ouvi aquilo e refleti que era realmente uma desculpa maravilhosa para manter os criados afastados do quarto. O sto estava cheio de camundongos, que desciam 
a escada.
     - Arsnico  branco, Cathy, branco! Quando misturado com acar,  impossvel distinguir-lhe o gosto amargo.
     Meu crebro comeou a girar! Acar polvilhado nas quatro rosquinhas dirias! Uma para cada um de ns. Agora, s vinham trs na cesta de piquenique!
#275
     - Mas, Chris, sua histria no faz sentido. Por que haveria a av de
envenenar-nos aos pouquinhos? Por que no ministrar de uma s vez a quantidade suficiente para matar-nos todos e terminar logo com tudo?
     Seus longos dedos se enfiaram em meus cabelos, at se cruzarem e permitirem que ele me segurasse a cabea entre as palmas das mos. Ento, explicou em voz baixa:
     - Lembre-se de um velho filme que vimos na televiso. Lembra-se da mulher bonita que trabalhava como governanta para cavalheiros idosos, e ricos, naturalmente, 
e depois de conquistar-lhes a confiana e afeio, induzia-os a inclu-la nos testamentos; ento, ministrava-lhes diariamente pequenas doses de arsnico? Quando 
a pessoa digere diariamente uma pequena poro de arsnico, o veneno  lentamente absorvido por todo o organismo, de modo que cada dia a vtima se sente um pouco 
pior, mas no muito. Pequenas dores de cabea, perturbaes digestivas que podem ser facilmente explicadas, de modo que quando a vtima morre, num hospital, digamos, 
j est magra e anmica, com um longo histrico de doenas como gripes,
resfriados, e assim por diante. E os mdicos no desconfiam de envenenamento, no quando a vtima apresenta todos os sintomas de pneumonia, ou simples envelhecimento, 
como foi o caso do filme.
     - Cory! - exclamei, engasgada. - Cory morreu envenenado por arsnico? Mame disse que a pneumonia o matou!
     - Ela no pode dizer-nos o que bem entende? Como podemos saber se diz a verdade? Talvez nem mesmo o tenha levado a um hospital. E se levou,  evidente que os 
mdicos no desconfiaram de que a morte no teve causas normais, pois do contrrio ela estaria na cadeia.
     - Mas, Chris - protestei -, mame no permitiria que a velha nos desse arsnico! Sei que ela deseja o dinheiro e que no gosta de ns como gostava antigamente, 
mas seria incapaz de matar-nos!
     Chris desviou o rosto.
     - Muito bem. Precisamos fazer um teste. Vamos dar ao camundongo de Cory um pedao de rosquinha polvilhada com acar.
     No! No podamos fazer isso - no com Mickey, que nos adorava e confiava em ns. Cory era louco pelo pequeno camundongo cinzento.
     - Chris, vamos caar outro camundongo, um bravo, que no confie em ns.
     - Vamos, Cathy, Mickey  um camundongo velho e, ainda mais, aleijado. Voc sabe que  difcil pegar um camundongo vivo. Quantos conseguiram sobreviver  ratoeira? 
E quando formos embora, Mickey no sobreviver, pois
agora  um animal de estimao e depende de ns para alimentar-se.
     Mas eu pretendia lev-lo conosco.

     - Olhe a coisa sob o seguinte aspecto, Cathy: Cory morreu antes mesmo de comear a viver. Se as rosquinhas no estiverem envenenadas, Mickey no morrer e ns 
o levaremos conosco, se voc insistir. Uma coisa  certa: precisamos saber a verdade. Pelo bem de Carrie, temos que tirar a prova. Olhe para ela. No percebe que 
tambm est morrendo? Definha dia a dia e ns tambm.

#276
     Ele se aproximou de ns andando em trs patas e arrastando a pata aleijada; nosso querido camundongo mordiscou o dedo de Chris antes de tirar um pedao da rosquinha. 
Arrancou um pedacinho e o comeu, confiante, acreditando em ns, seus deuses, seus pais, seus amigos. Doa-me observ-lo.
     Mickey no morreu imediatamente. Tornou-se lento, indiferente, aptico. Mais tarde, teve pequenos ataques de dores que o fizeram choramingar. Dentro de poucas 
horas estava cado de costas, frio e rgido, as patinhas rosadas curvadas em garra, os olhinhos negros embaados e fundos. Portanto, agora sabamos - com certeza. 
No fora Deus quem levara Cory.
     - Podamos colocar Mickey num saco, com duas rosquinhas, e lev-lo  polcia - comeou Chris, hesitante, mantendo o olhar afastado do meu...
     - Eles meteriam a av na cadeia.
     - Sim - disse ele, dando-me as costas.
     - Chris, voc est escondendo alguma coisa. O que ?
     - Mais tarde... depois que fugirmos. No momento, eu j disse tudo o que podia sem vomitar. Partiremos amanh cedo - concluiu quando fiquei calada.
     Tomou-me ambas as mos, apertando-as com fora.
     - O quanto antes possvel, levaremos Carrie a um mdico, e ns tambm iremos.

     Como foi longo aquele dia. J tnhamos tudo pronto e nada nos restava fazer seno assistir  televiso pela ltima vez. Carrie em seu canto, cada um de ns 
em sua cama, assistamos  nossa novela preferida. Foi quando eu disse:
     - Chris, as pessoas das novelas so como ns, quase nunca saem ao ar livre. E quando o fazem, ns s ouvimos falar, mas nunca vemos. Aparecem em salas de visitas 
e quartos, sentam-se nas cozinhas para tomar caf ou se levantam na sala para preparar martinis, mas nunca, nunca saem  rua diante de nossos olhos. E sempre que 
alguma coisa boa acontece, sempre que elas pensam que, afinal, sero felizes, ocorre alguma catstrofe para liquidar-lhes as esperanas.
     No sei como, pressenti uma presena estranha no quarto. Prendi a respirao! Ali estava a av. Algo em sua postura, nos olhos cinzentos frios e cruis, revelava-lhe 
o desdm irnico, zombeteiro, informando que j fazia algum tempo que ela estava ali em p.
     Disse num tom gelado:
     - Como vocs dois se tornaram sofisticados mesmo isolados do mundo. Acreditam que exageraram, em tom de brincadeira, o modo como  a vida, mas no se trata 
de exagero. Sua previso est correta. Nada acontece do jeito que achamos que vai acontecer. No final, sempre somos desapontados.
#277
     Chris e eu a fitamos, arrepiados. Para ns, foi como se a noite invadisse
repentinamente o quarto. Ela terminou o que tinha a dizer, deu meia-volta e saiu, trancando a porta. Ns trs continuamos nas posies: Carrie encolhida no canto, 
Chris numa cama e eu na outra.
     - No se deixe derrotar, Cathy. Ela estava tentando apenas amedrontar-nos. Talvez nada tenha dado certo para ela, mas isso no significa que ns estejamos condenados. 
Partiremos amanh, sem muitas esperanas de encontrarmos a perfeio. Ento, como esperamos apenas uma pequena parte da felicidade, no nos decepcionaremos.
     Se Chris era capaz de dar-se por satisfeito com uma pequena colina de felicidade, melhor para ele; mas depois de tantos anos de lutar, alimentar esperanas, 
sonhar e ansiar, eu queria uma montanha bem alta! Uma colina no seria suficiente. Jurei a mim mesma que daquele dia em diante eu assumiria o controle de minha vida. 
Nem o destino, nem Deus, nem mesmo Chris tornariam algum dia a dizer-me o que fazer ou me dominariam de qualquer forma. Daquele dia em diante, eu pertencia a mim 
mesma, para pegar o que bem entendesse, quando bem entendesse, dando satisfaes somente a mim Eu fora prisioneira, mantida em cativeiro pela ambio e avareza. 
Fora iludida, trada, usada, envenenada... mas tudo aquilo agora
estava acabando.
     Eu mal tinha doze anos de idade quando mame nos guiara atravs dos densos bosques de pinheiros numa noite estrelada, de lua prateada... no limiar da puberdade; 
agora, depois de trs anos e quase cinco meses, eu atingira a maturidade. Era mais velha que as montanhas l fora. A sabedoria do sto penetrara-me at os ossos, 
gravando-se em meu crebro, integrando-se  minha carne.
     Como Chris citara num dia memorvel, a Bblia dizia que havia uma hora certa para tudo. Eu julgava que minha hora de ser feliz estava bem prxima, aguardando 
por mim.
     Onde estava a frgil boneca de porcelana, com cabelos dourados, que eu fora outrora? Desaparecera. Sumira como a porcelana transformada em ao - metamorfoseada 
em algum que sempre conseguiria o que desejasse, no importa quem ou o que se interpusesse em seu caminho. Voltei meu olhar decidido para Carrie, que permanecia 
encolhida no canto, a cabea to baixa que os cabelos compridos lhe ocultavam o rosto. Tinha apenas oito anos e meio, mas estava to debilitada que andava arrastando 
os ps, como uma velha decrpita; no comia nem falava. No brincava com o lindo bebezinho que morava na casa de bonecas. Quando eu lhe perguntava se queria levar 
consigo algumas daquelas bonecas, limitava-se a continuar de cabea baixa, sem responder.
     Nem mesmo Carrie, com seu temperamento teimoso e arrogante, poderia derrotar-me agora. No havia ningum, em lugar algum - muito menos uma criana de oito anos 
- capaz de resistir  fora de minha vontade.
     Fui ao canto, peguei-a no colo e, embora ela resistisse debilmente, seus esforos para livrar-se foram infrutferos. Sentei-me  mesa e enfiei-lhe comida na 
boca, obrigando-a a engolir quando tentava cuspir. 
#278
Levei-lhe um copo de leite aos lbios e, embora ela trincasse os dentes, forcei-a a abri-los e engolir o leite. Ela gritou que eu era malvada. Carreguei-a para o 
banheiro e limpei-a quando ela se recusou at mesmo a fazer isso.
     Na banheira, lavei-lhe o cabelo com xampu. Depois, vesti com vrias camadas de roupas quentes, como eu j estava vestida. E quando seu cabelo secou, escovei-o 
at brilhar e ficar um pouco como antes, embora muito mais ralo e menos belo.
     E durante as longas horas de espera segurei-a no colo, sussurando-lhe ao ouvido os planos que Chris e eu fizramos para o futuro - as vidas felizes que levaramos 
ao sol dourado e lquido da Flrida.
     Chris, sentado na cadeira de balano, totalmente vestido, dedilhava distraidamente a guitarra de Cory.
     - Dana, bailarina, dana.... - cantava.
     Sua voz no era nada m. Talvez pudssemos trabalhar como msicos - formando um trio, se Carrie se recobrasse o suficiente para querer cantar outra vez.
     Eu tinha no pulso um relgio suo de ouro de quatorze quilates que devia ter custado a mame vrias centenas de dlares. Chris tambm tinha seu relgio. No 
estvamos totalmente sem dinheiro. E tnhamos tambm a guitarra, o banjo, a mquina fotogrfica Polaroyd de Chris e suas muitas aquarelas, para vendermos - alm 
dos anis que papai dera  nossa me.
     A manh seguinte nos reservava a fuga -  todavia, por que eu continuava a ter a sensao de que estava esquecendo algo muito importante?
     Repentinamente, dei-me conta de algo! Uma coisa que tanto Chris como eu no levramos em considerao. Se a av era capaz de abrir nossa porta trancada e ficar 
tanto tempo no quarto antes de percebermos sua presena... ser que no fizera o mesmo em outras ocasies? Em caso positivo, ela talvez tivesse conhecimento de nossos 
planos! E poderia traar seus prprios planos para impedir nossa fuga!
     Olhei para Chris, refletindo se deveria ou no trazer o assunto  baila. Dessa vez, porm, ele no poderia hesitar e arranjar mais uma desculpa para adiarmos 
a fuga... portanto, revelei-lhe minhas suspeitas. Ele continuou a dedilhar a guitarra, aparentemente imperturbvel.
     - No instante em que a vi aqui dentro, essa idia me passou pela cabea - respondeu. - Sei que ela deposita muita confiana naquele mordomo, John, e bem poderia 
post-lo de vigia ao p da escada para impedir nossa sada. Pois ele que tente, nada nem ningum nos impedir de sair desta casa amanh cedo!
     Contudo, a idia de encontrarmos a av e o mordomo  nossa espera na escada se recusava a me sair da cabea e deixar-me em paz. Deixando Carrie adormecida na 
cama e Chris sentado na cadeira de balano a dedilhar a guitarra, subi ao sto para despedir-me.
     Postei-me diretamente embaixo da lmpada e olhei em volta. Meus pensamentos voaram de volta ao dia em que ali subimos pela primeira vez... vi-os, os quatro, 
de mos dadas, olhando em torno, abismados pelo gigantesco sto, com sua fantasmagrica moblia e acmulo de trastes empoeirados.
#279
Vi Chris l em cima, na viga, arriscando a vida para pendurar dois balanos destinados ao divertimento de Cory e Carrie. Caminhei at a sala de aulas, olhando as 
velhas carteiras s quais os gmeos se sentaram para aprender a ler e escrever. No olhei para o velho colcho manchado e fedorento para imaginar-nos tomando banho 
de sol deitados nele. Aquele colcho me trazia  mente outras lembranas. Observei as flores brilhando - e a lesma torta, e a ameaadora minhoca roxa, os avisos 
que Chris e eu tnhamos desenhado, e todo o emaranhado de nosso jardim. Vi-me danando sozinha, sempre sozinha, exceto quando Chris ficava nas sombras a observar-me, 
transformando sua dor em minha dor. Pois quando eu danava valsas com Chris, tornava-o uma pessoa diferente.
     Ele me chamou da escada:
     - Est na hora de irmos, Cathy.
     Voltei correndo  sala de aulas. Usando giz branco, escrevi com letras grandes no quadro-negro:

     "Vivamos no sto,
     Christopher, Cory, Carrie e eu;
     Agora somos apenas trs".

     Assinei meu nome e escrevi a data. No fundo do corao, sabia que os fantasmas de ns quatro sobrepujariam os fantasmas de todas as outras crianas isoladas 
numa sala de aulas do sto. Deixei um enigma para algum desvendar no futuro.
     Com Mickey enfiado num saco de papel juntamente com duas rosquinhas cobertas de acar e guardado em seu bolso, Chris utilizou a chave de madeira para abrir 
pela ltima vez a porta de nossa priso. Lutaramos at a morte se a av e o mordomo estivessem de tocaia no andar trreo. Chris carregava as duas malas com nossos 
objetos pessoais e as roupas que podamos levar; levava a tiracolo a guitarra e o banjo que Cory tanto adorava. Mostrou o caminho pelos corredores escuros, chegando 
 escada dos fundos. Carrie estava em meus braos, parcialmente adormecida. Pesava apenas um pouco mais que quando a levramos pelo mesmo caminho, ao chegarmos  
casa, mais de trs anos atrs. As duas malas levadas pelo meu irmo eram as mesmas que mame carregara naquela noite horrvel, havia tanto tempo, quando ramos pequenos, 
to amorosos e confiantes.
     
     Pregados com alfinetes no lado interno de nossas roupas estavam dois saquinhos contendo as notas que Chris roubara no quarto de mame, divididas igualmente, 
para a eventualidade de algo inesperado separar Chris de mim - ento, nenhum dos dois ficaria sem dinheiro. E Carrie certamente estaria com um de ns, devidamente 
cuidada. As moedas pesadas estavam nas duas malas, tambm divididas em partes iguais para distribuir o peso.
     
#280
     Tanto Chris quanto eu estvamos perfeitamente cnscios do que nos
esperava l fora. No tnhamos passado tantas horas assistindo  televiso sem
aprendermos que os sabidos e desalmados ficam de tocaia contra os ingnuos
e inocentes. ramos jovens e vulnerveis, debilitados e meio doentes, mas j no ramos ingnuos ou inocentes.
     Meu corao parou enquanto esperei que Chris destrancasse a porta dos fundos, temendo que algum aparecesse a qualquer momento para deter-nos. Chris saiu pela 
porta, sorrindo para mim.
     Fazia frio l fora. Trechos de neve derretiam-se no solo. Em breve tornaria a nevar. O cu cinzento prenunciava isso. Mesmo assim, no fazia mais frio que no 
sto. A terra estava fofa sob nossos ps. Era uma sensao estranha, aps passarmos tanto tempo andando em tbuas duras e planas de assoalho. Ainda no me sentia 
segura, pois John poderia seguir-nos e levar-nos de volta. Ou tentar levar-nos.
     Ergui a cabea para inspirar o ar puro das montanhas. Era inebriante como champanha. Carreguei Carrie no colo durante algum tempo; depois coloquei-a em p no 
solo. Ela tropeou alguns passos e olhou em volta desorientada e atordoada. Fungou e limpou o narizinho vermelho, to bem delineado. Oh!... Ser que ia pegar logo 
um resfriado?
     - Cathy - chamou Chris, que se adiantara. - Vocs duas precisam andar mais depressa. No temos muito tempo e ainda h um bocado de cho a percorrer. Pegue Carrie 
no colo quando ela se cansar.
     Peguei-a pela mo e puxei-a atrs de mim.
     - Respire bem fundo, Carrie. Antes de voc poder notar, o ar puro, a boa alimentao e o sol logo a deixaro forte e bem disposta outra vez.
     Ela ergueu o rostinho plido para mim -  havia em seus olhos, afinal, um centelha de esperana?
     - Vamos encontrar Cory?
     Era a primeira pergunta que fazia desde o dia trgico em que recebramos a notcia da morte de Cory. Olhei-a sabendo que o que ela mais desejava era a presena 
de Cory. No pude negar. No tive coragem de apagar mais
uma chama de esperana.
     - Cory est num lugar muito, muito longe daqui. No se lembra quando eu disse que papai est num jardim muito lindo? No se lembra quando contei que papai pegou 
Cory no colo e  agora vai tomar conta dele? Esto esperando por ns e, algum dia, l nos encontraremos. Mas s daqui a muito, muito tempo.
     - Mas, Cathy - reclamou ela, franzindo a testa -, Cory no vai gosta daquele Jardim se eu no estiver l. E se ele voltar para nos procurar, no vai saber onde 
estamos.
     Aquela ansiedade me trouxe lgrimas aos olhos. Peguei-a no colo, tentando abra-la, mas ela se desvencilhou, arrastando os ps e atrasando-se, torcendo o corpo 
para olhar a imensa casa que estvamos deixando para trs.
     - Vamos, Carrie, ande mais depressa! Cory nos observa, quer que fujamos! Est ajoelhado, rezando para que consigamos escapar antes que a av mande algum para 
levar-nos de volta e trancar-nos novamente! 
#281
     Acompanhamos os passos de Chris ao longo das trilhas tortuosas. E, como eu j previra, ele nos conduziu sem vacilao  pequena parada de trem que consistia
apenas de uma coberta de zinco suportada por quatro estacas, protegendo um velho e desengonado banco pintado de verde.
     A orla do sol nascente espiou pela crista de uma montanha, dissipando a nvoa da madrugada. Quando nos aproximamos da parada do trem, o cu assumia uma tonalidade 
rsea.
     - Depressa, Cathy! - chamou Chris. - Se perdermos este trem, s teremos outro s quatro da tarde!
     Oh, Deus, no podamos perder aquele trem! Se isso acontecesse, a av certamente teria tempo de sobra para recapturar-nos!

     Avistamos uma camioneta do correio, um homem alto e magro como um cabo de vassoura em p ao lado de trs malas postais. Ele tirou o bon, exibindo uma carapinha 
ruiva e sorrindo amavelmente em nossa direo.
     - Vo para Charlottesville?
     - Sim! Vamos para Charlottesville - respondeu Chris, aliviado por poder finalmente pousar as malas no solo.
     - Menina linda, vocs trazem a - disse o esguio carteiro, observando com um olhar penalizado a pequena Carrie, que se agarrava  minha saia. - Se me perdoam 
o comentrio, ela parece muito magrinha.
     - Est doente - confirmou Chris. - Mas logo ficar boa.
     O carteiro meneou a cabea, aparentemente convencido do diagnstico feito por Chris.
     - Tm passagens?
     - Temos dinheiro respondeu Chris, acrescentando astutamente,  guisa de treinamento para lidar com desconhecidos menos confiveis: - Mas apenas o suficiente 
para pagarmos as passagens.
     - Nesse caso, trate de peg-lo, meu filho, porque a vem o trem das cinco e quarenta e cinco.
     Enquanto viajvamos no trem da manh, com destino a Charlottesville, avistamos a manso dos Foxworth, encarapitada numa encosta. Chris e eu no conseguimos 
despregar os olhos daquela imensa casa; pela primeira vez, vamos nossa priso pelo lado de fora. Olhamos especialmente para as janelas do sto, tapadas por postigos 
negros.        Ento, minha ateno se transferiu para a ala norte, fixando-se no ltimo quarto do segundo andar. Cutuquei Chris com o cotovelo quando as pesadas 
cortinas se afastaram e l surgiu a silhueta sombria e distante de uma
velha corpulenta, procurando por ns... mas logo desapareceu.
      claro que ela podia ver o trem, mas sabamos que no nos enxergava, da mesma forma que nunca conseguamos enxergar os passageiros. No obstante, Chris e eu 
escorregamos ainda mais nos assentos.
     - O que estar fazendo l em cima to cedo? - sussurrei a Chris. - Normalmente, s leva o nosso caf s seis e meia.
     Ele riu, num tom que me pareceu amargo.
#282
     - Ora, apenas mais uma de suas tentativas de pegar-nos fazendo algo pecaminoso e proibido.
     Talvez fosse isso, mas desejei conhecer-lhe os pensamentos, o que ela sentiu ao entrar naquele quarto e constatar que estava vazio, que desaparecera roupa do 
armrio e das gavetas. E no escutar vozes ou passos que acorressem rapidamente - se  que nos chamou.

     Em Charlottesville, compramos passagens de nibus para Sarasota e fomos informados de que dispnhamos de duas horas at a partida do prximo nibus para o Sul. 
Duas horas durante as quais John teria tempo bastante para pegar um dos automveis e alcanar o vagaroso trem!
     - No pense no assunto - recomendou Chris. - Voc no sabe se ele tem conhecimento de nossa existncia. A velha seria uma idiota se lhe contasse, embora ele 
provavelmente seja bastante  bisbilhoteiro para ter descoberto.
     Julgamos que a melhor maneira de evitar que ele nos encontrasse, caso fosse mandato em nossa perseguio, seria mantermo-nos em movimento. De mos dadas, com 
Carrie entre ns dois, percorremos as ruas principais daquela cidade, onde sabamos que os criados de Foxworth Hall vinham visitar os parentes nos dias de folga, 
bem como fazer compras, ir ao cinema ou divertir-se de outros modos. E se fosse uma quinta-feira, ficaramos realmente receosos; mas era domingo.
     Devamos parecer visitantes chegados de outro planeta, com nossas roupas volumosas e mal ajustadas, tnis, cabelos mal aparados e rostos plidos. Mas ningum 
realmente nos deu muita ateno, ao contrrio do que
eu temia. Fomos aceitos apenas como parte da humanidade, no mais esquisitos que tantas outras pessoas. Era gostoso estarmos outra vez entre gente nas ruas, cada 
rosto diferente do outro.
     - Onde ser que todo mundo est indo com tanta pressa? - indagou Chris, exatamente quando eu estava pensando na mesma coisa.

     Paramos numa esquina, indecisos. Cory devia estar enterrado nas proximidades. Oh, eu desejava tanto encontrar seu tmulo e nele depositar algumas flores... 
Algum outro dia voltaramos, com rosas amarelas, e nos ajoelharamos para rezar, quer isto fizesse ou no alguma diferena. Por enquanto, tnhamos que pensar apenas 
em nos afastarmos para muito, muito longe dali, a fim de no aumentarmos os riscos para Carrie... e sair da Virgnia antes de a levarmos ao mdico...
     Foi ento que Chris tirou do bolso o saco de papel contendo o camundongo morto e as duas rosquinhas com acar. Seu olhar solene encontrou o meu. Ele me exibiu 
o saco diante dos olhos, interrogando-me mudamente: Olho por olho?
     Aquele saco de papel representava tanta coisa: todos os nossos anos perdidos, a instruo, os colegas e amigos que  deixramos de ter, os dias que deveramos 
ter tido de risos e no de lgrimas. Naquele saco estavam todas as nossas frustraes, humilhaes, toneladas de solido, alm dos castigos e decepes - e, sobretudo, 
aquele saco representava a perda de Cory.
#283
 - Podemos ir  polcia e contar tudo - disse Christopher, mantendo os olhos desviados de mim. - A prefeitura cuidar de voc e de Carrie; no precisaro fugir. 
Talvez sejam enviadas a um pensionato, ou um orfanato. Quanto a mim, no sei...
     Chris nunca falava comigo desviando o olhar, a menos que ocultasse alguma coisa - aquela coisa especial que precisava esperar at que sassemos de Foxworth 
Hall.
     - Muito bem, Chris, j fugimos. Agora, desembuche. O que anda descondendo de mim?
     Ele baixou a cabea e Carrie se aproximou, agarrando-me a saia, embora
arregalasse os olhos, fascinada, para observar o fluxo do trfego e tanta gente que passava depressa sorrindo para ela.
     -  mame - disse Chris em voz baixa. - Lembra-se de quando ela nos disse que seria capaz de tudo para reconquistar o pai e herdar sua fortuna? No sei o que 
ele a obrigou a jurar, mas escutei os criados conversando. Cathy, alguns dias antes de morrer, nosso av mandou acrescentar um codicilo ao testamento. Este codicilo 
estabelece o seguinte: caso fique provado que mame teve filhos do primeiro marido, ela ser obrigada a abrir mo de tudo o que herdou, e a devolver tudo o que comprou 
com o dinheiro, inclusive roupas, jias, investimentos... tudo, enfim. E isso no  tudo; ele estabeleceu tambm que se ela tiver filhos do segundo casamento o
mesmo acontecer. E mame julgava que ele a perdoara. Pois no perdoou, nem esqueceu: continua a castig-la da sepultura.

     Meus olhos se esbugalharam de choque quando comecei a juntar as peas do quebra-cabeas.
     - Quer dizer que foi mame...? Foi mame, e no a av?
     Ele sacudiu os ombros com uma indiferena que eu sabia ser simulada.
     - Escutei a velha rezar ajoelhada ao lado da cama.  malvada, mas duvido que fosse capaz de colocar veneno na nossa comida. Ela levava as rosquinhas para ns 
e sabia que as comamos, mas sempre nos aconselhou a
no comermos doces.
     - Mas no poderia ter sido mame, Chris. Ela estava em lua-de-mel quando comeamos a receber as rosquinhas.
     Chris exibiu um sorriso amargo, irnico.
     - Sim. Mas o testamento foi homologado h nove meses; nessa poca, mame j tinha regressado. S mame foi beneficiada pelo testamento de nosso av; a av no 
recebeu um centavo, tem seu prprio dinheiro. Ela
apenas nos levava as cestas de comida todos os dias. 
     Eu tinha muitas perguntas a fazer, mas ali estava Carrie, agarrada  minha saia, olhando para mim. Eu no desejava que ela soubesse que Cory no morrera de 
causas naturais. Naquele momento, Chris depositou-me nas mos o saco de papel contendo as provas.
#284
     - Cabe a voc decidir. Sua intuio estava correta desde o incio. Se eu tivesse escutado o que voc dizia, Cory ainda estaria vivo.
     No existe dio comparvel ao gerado pelo amor trado - e meu crebro clamava por vingana. Sim, eu queria ver mame e av na cadeia, atrs das grades, condenadas 
por homicdio premeditado - por quatro crimes, se a inteno fosse levada em conta. No passariam de camundongos engaiolados,
trancafiados como ns, mas tendo a vantagem da companhia de viciadas em drogas, de prostitutas e de outras assassinas como elas. Mame no poderia ir ao salo de 
beleza duas vezes por semana; nada de manicures profissionais - e apenas um banho semanal. Perderia at mesmo a privacidade das partes mais ntimas de seu corpo. 
Oh, como ela sofreria sem poder usar agasalhos de pele nem jias, sem cruzeiros de recreio nos mares do sul quando o inverno chegasse. No teria um marido jovem, 
belo e apaixonado para rolar com ela na suntuosa cama de cisne.
     Olhei para o cu, onde, supostamente, estava Deus - poderia Ele,  sua maneira, equilibrar a balana e tirar de meus ombros a carga de fazer justia?
     Achei cruel e injusto que Chris me lanasse nas costas o encargo da deciso. Por qu? 
     Porque seria capaz de perdo-la por tudo - inclusive da morte de Cory e da tentativa de envenenar todos ns? Julgaria que pais como os dela seriam capazes de 
pression-la a fazer qualquer coisa - inclusive cometer homicdio? Haveria no mundo dinheiro suficiente para me obrigar a matar meus prprios filhos?
     Vieram-me  mente cenas anteriores  morte de meu pai. Todos ns no jardim, risonhos e felizes. Na praia nadando ou velejando; nas montanhas, esquiando. E mame 
na cozinha, esforando-se para preparar refeies que nos agradassem a todos.
     Sim, certamente seus pais conheceriam maneiras de matar o amor que ela sentia por ns. Ou Chris pensava, assim como eu, que se fssemos  polcia apresentar 
queixa nossas fisionomias seriam estampadas na primeira pgina de todos os jornais do pas? As luzes da publicidade compensariam o que perderamos com ela? Nossa 
privacidade -  nossa necessidade de permanecermos juntos? Seramos capazes de perder um ao outro s por vingana?
     Tornei a olhar para o cu.
     Deus. No era ele quem redigia os scripts para os minsculos atores que representavam no palco deste mundo. Ns mesmo redigamos nossos roteiros com cada dia 
que vivamos, com cada palavra que pronuncivamos, com cada pensamento que gravvamos em nossas mentes. E mame tambm redigira o dela - pssimo, por sinal, digno 
de piedade.
     Em certa poca, tivera quatro filhos que considerava perfeitos sob todos os pontos de vista. Agora, no lhe restava nenhum. Outrora, tinha quatro filhos que 
a amavam, considerando-a perfeita sob todos os pontos de vista - agora, nenhum deles a julgava perfeita. E ela nunca mais desejava ter outros filhos. O amor pelas 
coisas que o dinheiro podia comprar mant-la-ia fiel para
sempre ao cruel codicilio acrescentado ao testamento de seu pai.
#285
     Mame ficaria velha; seu marido era anos mais moo que ela. Teria bastante tempo para sentir-se solitria e desejar ter feito tudo de modo diferente. Se seus 
braos nunca mais ansiassem por abraar-me, ansiariam por Chris e, talvez, Carrie... e, com toda a certeza, ela desejaria ter consigo os filhos que viramos a gerar 
no futuro.
     Daquela cidade, fugiramos num nibus para o Sul, a fim de nos tornarmos algum. Quando voltssemos a ver mame - e o destino com certeza tomaria providncias
nesse sentido - ns a olharamos diretamente nos olhos e lhe daramos as costas.
     Larguei o saco de papel na cesta coletora de lixo mais prxima, despedindo-me de Mickey e pedindo-lhe, por favor, que nos desculpasse pelo que lhe fizramos.
     - Vamos, Cathy - chamou Chirs, estendendo-me a mo. - Diga adeus ao passado e al ao futuro. Estamos perdendo tempo, quando j perdemos tempo demais no passado. 
Temos tudo pela frente,  nossa espera.
     As palavras exatas para fazer-me sentir real, viva, livre! Suficientemente livre para esquecer idias de vingana. Ri e girei nos calcanhares para correr at 
onde ele me esperava com a mo estendida e segur-la. Com o brao livre, Chris ergueu Carrie para o colo, abraando-a e beijando-lhe o rostinho magro e abatido.
     - Escutou isso, Carrie? Estamos a caminho de um lugar onde as plantas florescem durante o inverno. Na verdade, l as plantas florescem durante o ano inteiro. 
Isso no d vontade de sorrir?
     Uma sombra de sorriso pairou nos lbios plidos que pareciam ter esquecido de como sorrir. Mas foi o bastante - por enquanto.

Eplogo

      com alvio que termino o relato dos anos que nos serviram de base, sobre os quais aliceraramos o resto de nossas vidas.
     Aps fugirmos de Foxworth Hall, abrimos caminho e conseguimos, de algum modo, prosseguir sempre em noSsa luta para atingirmos nossos objetivos.
     Nossas vidas seriam sempre tempestuosas, mas ensinaram a Chris e a mim que somos sobreviventes. Quanto a Carrie, foi diferente. Teve de ser persuadida a desejar 
uma vida sem Cory, embora estivesse cercada de rosas.
     Mas como conseguimos sobreviver... isso  outra histria.

    FIM
